sábado, 31 de julho de 2010

Álvaro Salema (2)

O post que, há dias, publiquei, sobre Álvaro Salema, provocou surpresas: "Quem era? Nunca tinha ouvido falar". Creio que alguns, lá no íntimo, terão julgado que eu estava apenas a magnificar um conhecimento pessoal, por discriminação de simpatia.

Talvez estivesse, mas não estava sozinho. Leiam (um pequeno extrato d)o que escreveu Jorge Amado, na sua "Navegação de cabotagem", quando soube da morte de Álvaro Salema:

"A morte de Álvaro Salema chega-me pelo telefone (...). Ai, meu Deus! exclamo quando Nuno (Lima de Carvalho) me diz: desculpa chamar-te para má notícia, Salema morreu. (...) A partir de agora Portugal será menos ensolarado, menos alegre, menos fraterno. Perco o amigo português de toda a minha vida, o amigo perfeito, o de todos os instantes, aquele que tudo sabia e tudo podia entender.(...) Eu projetara ir a Portugal nesse outubro (...). Já não irei, cadê coragem de olhar para o rosto de Elisa, de pronunciar o nome de Álvaro? (...) O homem mais modesto, o mais corajoso, o mais leal, o mais digno, Álvaro Salema. Em silêncio se retirou de cena, pouco antes do final da tragicomédia, personificava a decência, já não tinha lugar no palco."

6 comentários:

Margarida disse...

isto é escrever...
tão singelo e tão... absoluto.
a verdade cintilante.

Anónimo disse...

Daí...
Que o Senhor...
É um privilegiado...

E Nós...

Por inerência;usucapião, Sorte, Rabinhos virados pra Lua... Também.

A eminência da Morte...
Se Eu Fosse a Sra. Viúva sentiria amortecida a perda pelo Valeu a Pena da presença física dos amigos... E mais dos Importantes.

Agora... Nós, agora os comuns e nesse contexto o meu profeta Jorge Amado é Deus para mim ...Vive em cada manifestação de naturalidade inata Nele, na Forma como configura as palavras que até estabelecem interação Simbólica e são per Si comunicação Pura... Nenhum Prémio Nobel consegue expressar a verdade jorrada pela vida como Ele... Nenhum consegue escrever a resposta humana à vida no ambiente e erigir o todo O racional o Hormonal o imprevisto o possível o esperado socialmente, a democracia libertina do Amor na naturalidade indizível e impossível de refrear sem cabrestos sem açaimes estatutários...

Enfim Fiquei rendida desde logo com os Subterrâneos da Liberdade...

Claro Que...
Quem escreve como Jorge Amado sem adulterar o poder do Id com a beatice castradora do Superego embora claro importante para o percurso social sem os constrangimentos da irreverência indomável e primária das hormonas...

É...
Fica para mim.

Amo Jorge Amado Como Pessoa...
Isabel Seixas

O meu marido nem dá conta... quer lá saber...
Agora o senhor podia publicar um excerto de qualquer escrito do Álvaro Salema que O tenha sensibilizado?!!!Ande Lá.

Helena Oneto disse...

Linda ode a um Amigo!

Lindos também os comentários das suas amigas Margarida e Isabel!

Lindo, é quem sabe ser amigo do seu amigo!

patricio branco disse...

Álvaro Salema foi um excelentre crítico literário, da geração de José Régio ou J. Gaspar Simões, creio. Fazia critica literária regular/semanal num diário, não sei se o Lisboa, se o Popular, ou outro desses saudosos (pela qualidade) jornais.
Algum estudioso que reunisse em livro uma antologia de ensaios de AS e uma editora que publicasse (INCM, p.ex.)seria bom.

hpc disse...

Conheci AS desde os 10 anos, quase diariamente, por ser grande amiga da sua filha Tive pois o previlégio de o conhecer na intimidade, no seu escritório, silencioso, a escrever, e também à mesa, a conversar.
Da faceta pública apenas conheci as críticas literárias no Diário de Lisboa que fui aprendendo a ler, aos poucos. Mas o mais importante de tudo era a pilha de livros que semanalmente lhe chegava a casa e que que nós explorávamos, sedentas. Com a sua ajuda, separávamos os mais indicados que eram de seguida devorados.
Para além disso, levava-me a casa, à noite quando lá jantava, a pé, conversando com as duas e com o setter pela trela. Só esta sua disponibilidade tornava possível que lá jantasse e eu ficava-lhe sempre muito agradecida.
Sei que estas memórias não ilustram a sua grandeza intelectual mas cada um presta as homenagens que pode e hoje, mais de cinquenta anos depois, percebo bem que o intectual e o pai eram só um: discreto, afectuoso, sempre atento.
Tenho pena de não ter sabido aproveitar melhor o intelectual. Mas estava ali tão perto ...

Anónimo disse...

"Personificava a decência, já não tinha lugar no palco."

Ás vezes, passo pelas palavras sem me dar conta da profundidade das emoções que traduzem...

Depois volto a pousar o olhar...

E

Percebo

O renascimento

Dos meus Deuses
Claro
Os omnipresentes
Os que delineiam as minhas linhas de conduta, e me dizem com a ternura das ironias...

Oh!...(Com La belle indiferance do fletir de ombros).

Isabel não sejas Burra

Morrer não é Morrer
E eu acredito
Isabel Seixas