terça-feira, 20 de julho de 2010

Quê?

Como aqui já referi, o modo mais vulgar de comunicações entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e os postos diplomáticos e consulares são os chamados “telegramas”. O nome advém do facto de, no passado, ser utilizada a via telegráfica para a expedição dessas mensagens. Nos dias de hoje, não obstante a via ser diferente, a designação manteve-se.

Todas as carreiras diplomáticas estão cheias de histórias em torno de famosos telegramas, que ficaram na respetiva memória coletiva, cujo estilo de escrita foi variando ao longo dos tempos, mas que sempre marcam muito o próprio retrato de quem os subscreve.  

Os telegramas que saem de Lisboa para os postos são sempre assinados “Nestrangeiros”, como acrónimo de “Negócios Estrangeiros”. Os diplomatas em posto, quando responsáveis pelas missões (em titularidade ou por substituição), usam uma forma abreviada do seu próprio nome, assente no apelido. Quando há diplomatas com o mesmo apelido (imaginemos, Silva), têm de se diferenciar adicionando um nome próprio (Carlos Silva ou José Silva) ou um outro apelido (Cruz Silva). O que nunca deve acontecer é alguém subscrever correspondência exclusivamente com nomes próprios (Carlos Manuel, por exemplo).  

Um dia, uma jovem e azougada diplomata chegou ao seu primeiro posto e, num arroubo de independência e modernidade, modelou assim o telegrama em que deu conta da sua chegada: “Assumi gerência. Isabel”. O Ministério, que não costuma achar muita graça a estas familiaridades, respondeu-lhe, de imediato: “Isabel quê? Nestrangeiros”.

13 comentários:

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
De telegramas percebo eu... E de que maneira...!!!
Bem sou manga de alpaca do tempo do telexe e da cifradora/decifradora Siemens e do trabalho heróico que por vezes se tinha que fazer...
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A nova geração de diplomatas até nem fazem ideia o trabalhão que dava dactilografar-se um telegrama ostensivo do telexe, depois (se confidencial) cifrá-lo na Siemens.
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Uma falha de um “buraco” na fita do telexe estava um telegrama estragado e tinha que se repetir novamente a fita. Absolutamente truncada.
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Não havia os telefones móveis e pouca verba para se telefonar para a CIFRA, para os não menos heróicos e zelosos colegas, para nos repetir ou repetirmos as fitas e usávamos o telexe para nos comunicarmos e quando demoravam o atendimento a campainha da máquina não parava de tocar.
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Um martírio! E por vezes o horário de trabalho alongado.
Os telegramas, pequenos e concisos onde o chefe de missão diziam muito em poucas palavras. Não havia acentos e repetiam-se as letra (aa) ou (ee).
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A primeira presidência portuguesa ainda as comunicações foram operadas pelo velho sistema e os COREUS igualmente e quando mais alongados chegavam por mala diplomática.
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Chegaram depois as novas tecnologias do faxe e o cripto e então criaram-se grandes prosadores com COREUS com uma centenas de páginas de que se o chefe-de-missão fosse a ler toda matéria não fazia mais nada.
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Servi um embaixador quando eu lhe colocava o expediente pela manhã em cima da mesa, esses COREUS vinham de volta para a máquina trituradora de papeis. De quando em quando lá seguia o telegrama para a CIFRA: “Não me mandem isso que já é matéria conhecida....”
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O telegrama mais cruel que coloquei na máquina decifradora (secreto) a que o chefe de missão estava presente e me deu a chave do número do telegrama para ser decifrado, foi o comunicar-lhe o fim de sua missão no posto e para anunciar ao MNE local o nome do novo embaixador.
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Forças ocultas tinham traído o diplomata, quando foi um dos bons que eu servi, sem ver razão ou motivo para tal.
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Saudades que ficam e agradável e recordá-las.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Guilherme Sanches disse...

Um joelho agrafado, ou um joelho "ao peito" não afeta as restantes capacidades, e melhor ainda, não afeta o bom humor.
É bom ler este post escrito neste momento.
Uma rápida e serena recuperação são os meus votos.
Um abraço

Anónimo disse...

azougada diplomata chegou ao seu primeiro posto e, num arroubo de independência e modernidade...

Tambem...
IsabelSexas

Anónimo disse...

Em tempos, acontecia também que certos diplomatas, mais seniores, privilegiavam demasiado alguns dos seus apelidos, os quais eram, por vezes, “um pouco” extravagantes. Um caso já antigo foi o de um desses diplomatas em que um dos seus apelidos era “Menino” e por nada deste mundo queria “desfazer-se” dele. Porém, a manutenção do tal apelido parecia não ser lá muito do agrado da hierarquia do MNE, visto soar algo estranho alguém assinar “Menino qualquer coisa”. Poderia dar chacota, ou não se levar a sério o autor. Instado, segundo se crê, a deixar cair o apelido “Menino”, o diplomata ter-se-á terminantemente recusado a deixar cair o seu “Menino”. A solução encontrada, ou “negociada”, parece ter sido assinar com o nome próprio…e os dois últimos apelidos, ficando deste modo mais “diluído” o tal apelido, ainda que preservado, como era o seu desejo. A verdade é que, com tanta insistência à volta daquele seu outro apelido, o diplomata em questão acabou por vir a ser, sobretudo, conhecido por “Menino…
“Adido de Embaixada”

João de Deus disse...

Caro Embaixador, no que respeita a telegramas faltou mencionar o caso em que os apelidos por si só se revelam "inoportunos" para assinatura.
No meu caso pessoal, nunca ousei assinar um telegrama com um simples "Deus", e "De Deus" ou "Marco de Deus" afigurou-se-me sempre um tanto exagerado face às minhas reais convicções religiosas.Não me restou grande escolha...

PS - Acabei de perceber pelas mensagens que sofreu um acidente, espero que sem consequências de maior. Endereço-lhe um abraço amigo de rápida convalescência.

Anónimo disse...

Nesta coisa de telegramas, há quem não assine com o último nome, porque acha um apelido anterior mais "fino". Temos uns conhecidos casos na carreira...

José Martins disse...

Volto,
Sempre me intrigou que muitos nomes de embaixadores tinha duas letras por ex: Mello, Castello e um dia perguntei a um meu embaixador porque razão existiam... respondeu-me: "Isso é uma cagança".

Anónimo disse...

Às vezes, ter duas letras, não será “cagança”. Dou um exemplo. Um tipo que conheci aqui há uns anos largos, para os lados de Carrazeda de Ansiães, tinha o apelido Caramelo…mas, atenção, com dois “L”, assim, escrevia-se “Caramello”, no que ele tinha muita honra, fazia-o, digamos, distinguir-se do vulgar “caramelo”: “oh seu caramelo!” ou, “és um grande caramelo!”
Pois, naquele caso, o Sr. Caramello, que era um tipo catita, tinha grande vaidade naquele se outro L. Compreensivelmente, convenhamos.
P.Rufino

Francisco disse...

Dizia-me um parente diplomata que havia uma subtil hierarquia na forma de assinar esses tais telegramas. O diplomata mais antigo tinha o privilégio de poder usar só um apelido (vg. Vasconcelos) enquanto que outro Vasconcelos mais novo devia agregar outro nome (vg. Mário Vasconcelos). Ora houve uma vez um jovem e ambicioso diplomata que enfrentou um senior alegando que podia assinar com um único apelido pois o seu Vasconcellos não se confundia com o do primeiro: tinha 2 L, como comprovava com certidão do registo civil.

Helena Sacadura Cabral disse...

O post e os comentários deliciosos trouxeram-me à memória uma história passada comigo.
Já no pós revolução dos cravos fui renovar o BI. De nome materno sou Aÿres Trindade, que tem origem franco hispânica e é usado pela família há séculos. Pois bem, a menina do guichet, uma revolucionária pulposa, disse-me que o nosso abcedário não tinha a letra Y e por isso eu teria de ser Aires. Resmunguei, expliquei a origem do nome, disse-lhe que ela não podia alterar um registo, etc, etc. A nada o peito de rola reagiu...
É assim que, desde o 25 de Abril, por vontade revolucionária imposta, deixei de pertencer à minha família. O que serve para os meus irmãos me gozarem à séria!

Rogério Puga Leal disse...

Em maré de telegramas, não resisto a partilhar mais uma estória. O Zé era (e é, acrescente-se) amigo e doente do meu sogro. Era também, e nesta matéria não sei se o tempo presente ainda se aplica, um boémio inveterado. Com alguma frequência, saía para comprar cigarros e tinha alguma dificuldade em regressar ao aconchego do lar em período consentâneo com o móbil da deslocação. Numa destas ocasiões, o período estimado de ausência ultrapassava aquilo que, ele próprio, entendia como razoável. Receando o confronto telefónico, entendeu sossegar a mulher através do bom do telegrama. Este, lapidar, rezava assim: “Perdi barco Montijo...hoje, amanhã e depois.”

Grande abraço
RPL

patricio branco disse...

A propósito, como assinaria Paul Claudel os seus telegramas? E Alexis Léger? E António Patricio?
O apelido é então como um carimbo para o diplomata, carimbo de que ele se orgulha, em geral.

Anónimo disse...

Quê!!!?
DE
harm avoidance a novelty seeking

Mail?...
No me lo creo
Isabel Seixas