sexta-feira, 2 de julho de 2010

Os diplomatas

Não diria que somos uma profissão de mal-amados, mas vivemos frequentemente presos a uma caricatura difícil de descolar da nossa pele. Nós, os diplomatas, estamos muito habituados a que nos tracem um rosto de vacuidade, a que colem a nossa existência a um dia-a-dia fútil, a que alguns se interroguem em público sobre a real valia dos gastos do erário que sustentam a nossa ação. No que me toca, e com o tempo, passei a preocupar-me muito pouco com isso e a cuidar muito mais em estar de bem comigo mesmo, em termos da contribuição que dou ao serviço público que escolhi como destino de vida.

Não deixa, contudo, de ser gratificante quando observamos que alguém reflete, de forma positiva, sobre esta profissão que escolhemos e que nos escolheu para ocupar alguns lugares em que representamos Portugal, quando vemos o nosso trabalho e as dificuldades em que por vezes ele se processa destacados por uma jornalista que tem andado por esse mundo a olhar o que fazemos.

Foi esse o caso, ontem, de Maria João Avillez, na sua coluna "Dia sim, dia não", na revista ´"Sábado". Obrigado, Maria João.

26 comentários:

cunha ribeiro disse...

Como eu gostaria de ser um simples assessor de diplomata, porque ser professor hoje é uma profissão sem presente nem futuro, Sr Embaixador.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Mas afinal quem serei eu para me esmiuçar num tema tão delicado que é a diplomacia?
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A experiência de ter servido 6 embaixadores e conhecido 7 levou-me aprender algo sobre a nobre e difícil profissão que é a de representar Portugal no estrangeiro.
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Será que todos os diplomatas, portugueses, para representar o seu país estarão vocacionados para exercer o alto cargo, ou se alguns estão num lugar errado?
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Acho que não... A experiência de 24 anos assim mo diz.
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Quanto aos gastos públicos há diplomatas que têm contenção nos despêndios e outros não olham para isso e a constante pedinchice para o as Necessidades.
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Evidentemente que a Maria João Avilez vai dando uma no cravo e outra na ferradura e se tem governado, há muitos anos, quer em comitivas oficiais ou dizer bem de tudo e esquece-se de referenciar o lado ruim.
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É uma jornalista muito inteligente, sabe de onde vem e para onde vai e melhor ainda, sabe, que com vinagre não se apanham moscas.
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Não posso juntar todos os diplomatas numa “molhada” porque Portugal tem excelentes diplomatas/embaixadores, diligentes e o sentido deles é representar com dignidade o cargo que o Presidente da República os encarregou entregando-lhes a Carta que os credencia no estrangeiro.
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Há embaixadores (os diplomatas não se podem dar a esse luxo) que gostam da cama; tanto se lhes dá como se lhes deu que a coisa siga pelo lado bom como do lado mau etc.etc.
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Penso que já neste blogue citei o caso do embaixador, italiano, Marquês Leopoldo Ferri Lazara, pelas 6 horas da manhã (ainda lusco-fusco) a carregar às costas produtos italianos para serem vendidos num bazar de caridade.
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Foi a melhor cena que poderia ter presenciado durante os 24 anos que servi a diplomacia portuguesa.
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Para finalizar, lá por o Embaixador Lazara servir de “carrejão”, ainda lusco-fusco a Torre de Piza não caiu!
Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

"Le public, qui ne saisit pas ce qu'il y a de complexe dans le rôle du diplomate, en est souvent comme dérouté, et il est porté à le juger sans indulgence. La Bruyère traduisait ce sentiment quand il traitait les ambassadeurs de caméléons."

(Jules Cambon, "Le Diplomate", 1926)

a) Alcipe

Anónimo disse...

Pois Eu...

Acho a Sua profissão Quase tão fascinante (Nesse contexto de prestador de cuidados a um público) como a minha Eu Já sou Enfermeira...

Acredite que ambos somos privilegiados...

Agora o Senhor Merece...

Denuncia em cada processamento de palavras uma consciência profissional e um brio que despe o supérfluo deixando o essencial.

O valioso tempo dos maduros
(Mário Andrade)

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
Mário de Andrade

Tem que reconhecer que é...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Também carreguei produtos portugueses para o bazar diplomático de Deli e não sou marquês...

Anónimo disse...

Tendo andado sempre em barcos de pesca, daí identificar-me como Zé dos Anzóis,esta nota intitulada "os diplomatas" faz-me lembrar uma frase: "fishing compliments".

Quanto às viagens e prebendas de Maria João Avillez a que se refere José Martins, já cá não está quem falou. ´"Très amicallement", Excelence.Zé dos Anzóis

Anónimo disse...

Já eu, sou marquês e não carreguei produtos portugueses e italianos para nenhum bazar diplomático.

Gil disse...

Bom, carregar seja o que for pode qualificar um bom carregador mas não o bom diplomata.
Não quero dizer que um diplomata não deva, se for preciso, carregar coisas (além de carregar a sua própria cruz); mas isso não indica se ele é bom ou mau profissional.
A imagem difundida em caricaturas gráficas ou literárias e reflectida em inúmeras (e muitas delas engraçadíssimas) "boutades", do diplomata que fala sem dizer nada, bebe e come ao longo de todo o dia, vive um quotidiano “glamouroso” à custa do erário público, é mentirosa e populista mas, de facto, generalizada a todos os níveis.
O Embaixador Seixas da Costa é, sem dúvida, um diplomata eleição e um dos melhores da sua geração (e não só dela). Este blog é o espelho disso mesmo.
Mas leiam-se os comentários ao seus posts e note-se a frequência com que neles se afirma a sua excepcionalidade, em contrponto, explícito ou insinuado, com os restantes diplomatas portugeses, entre os quais, como em todas os sectores de actividade, há bons e maus profissionais mas que constituem sem dúvida, enquanto grupo, uma carreira de servidores públicos de grande craveira, dedicada em extremo, prestando o seu contributo, em muitíssimos casos, em condições de grande risco para a saúde, para a comodidade e até para a sua própria vida.
Tudo o resto é a "espuma dos dias", patetices de invejosos, populismos provincianos e azedumes de má digestão.

Anónimo disse...

gosto muito deste marquês anónimo!
João Vieira

Alcipe disse...

Oh vivo deslumbramento,
oh maravilha mais rara:
carregado como um jumento
Sexa marquês de Ferrara!

Que se pode comparar
com este ínclito feito?
D. Martinho de Aguilar
puxando as barbas ao peito?

O Aguilar do Dom Jaime,
o bom Gil já entendeu!
Quem arrancou o açaime
foi a quem o cão mordeu...

Helena Oneto disse...

Eu bem digo que embaixadores e diplomacia fazem bons "posts"!:)
Excelentes comentários diplomáticos de Gil e Tim Tim.

Anónimo disse...

volto , talvez abusivamente, a opinar: em todas as carreiras e em todas as profissões há bons, maus e assim assim. Dos diplomatas se se dissesse coisa contrária seria uma aberração. E todas as carreiras tem dificuldades,maçadas e perigos. Nem todas tem é momentos de glória e oportunidade de "fazer" pela causa pública como têm os diplomatas, os políticos e os futebolistas.
João Vieira

Anónimo disse...

Outros nomes que poderiam ser adicionados à lista de MJA seriam Vasco Bramão Ramos, Manuel Lobo Antunes, Ana Martinho, Ana Barata, António Franco, João Mira Gomes, Fernando Neves, Rui Quartin, João Ramos Pinto, Gaspar da Silva, João Salgueiro, Margarida Figueiredo, Álvaro Mendonça e Moura, Josefina Fronza, entre (muitos) outros.
“Adido de Embaixada”

Alcipe disse...

O melhor teria sido publicar o anuário todo...

Anónimo disse...

E Santana Carlos? E Costa Pereira? E Tadeu Soares?

Anónimo disse...

Quem me explica? havia alguma lista?

Helena Sacadura Cabral disse...

Bravo Isabel. Que feliz me sinto com esse texto que publica.É que eu disse, em público, há bem poucos dias algo parecido.
Acrecento: o abraço inesperado de uma dona de casa no super mercado, comove-me bem mais que qualquer elogio duma elite presunçosa e bem pensante que anda por aí, em particular nas colunas de opinião ou nos programas televisvos de originalíssima veia política paga, claro, a peso de ouro.
Meu Deus o que me cansam os intelectuais!

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

O trabalho dos diplomatas, ao contrário do que se julga, exige muita cultura, muita sensibilidade para compreender "os outros" e fazer as necessárias "pontes" para que os laços bilaterais e multilaterais se possam fazer com ganhos recíprocos entre países. A aparência de uma vida social fútil é uma mera ilusão. A História ensina-nos os relevantes trabalhos que a diplomacia tem feito por nós. Eça de Queiroz é um exemplo da lufada de ar fresco que a diplomacia trouxe ao nosso país. O esforço que o Senhor Embaixador FSC e o Embaixador da Unesco Manuel Maria Carrilho estão a fazer pela Cultura Portuguesa e em prol da classificação do fado como Património Mundial da Humanidade são altamente meritórios. A sua preocupação com o bem-estar e a coesão da comunidade portuguesa em França é também um sinal inequívoco deste aspecto.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

A qualidade dos diplomatas melhorou muito com o Dr Miguel Cadilhe a arengar em reuniões magnas sobre os benefícios e o modus faciende da diplomacia económica.Ou estarei confundido.

Fenêtre du Portugal disse...

Para @anônimo :

- O texto que menciona não é de Mário de Andrade mas de Ricardo Gondim :-)


- Quanto ao tema do presente artigo : é logica pura e humana de gostar de "ser amado" ou apreciado... sabendo porem fazer a diferença entre amar (ou apreciar com sinceridade), e passar a escova no sentido do pelo.

Considero que numa vida intimamente ligada às horas que passam, não há tempo a perder com escovas, mas sim e unicamente com sentimentos reais e sinceros; que estes sejam positivos ou negativos, visto que ambos são formadores.

É a sinceridade e ela só, que desenha o caminho que seguimos; que dá a verdadeira e a autentica cor à existência... e que marcará para sempre a nossa curta viagem por estas bandas terrestres.

domingo disse...

"Passer pour un idiot aux yeaux des imbéciles est una volupté de fin gourmet".

Frangipani disse...

Gostei muito do sentido de humor de Alcipe nos seus dois comentários, da "ingénua" pergunta de um anónimo,da excelente intervenção de Gil e da magnífica citação de Domingo !
Já agora, uma das razões do êxito deste blog de FSC é que ele tem a coragem de reconhecer valor a quem - Amigo / Conhecido / Colega / Causa / Jornal / Iniciativa - que considere digno de mérito, vá a favor ou contra a corrente ...E isto,num país em que o principal desporto é dizer mal, é, como se diz no campo, "de Homem".Sorte a nossa que ele seja Embaixador. Sorte a nossa que não seja o único.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, se me permite...Não colidir com a reserva dos Seus indivisíveis direitos de Admissão

"Passar a escova no sentido do pelo"
Expressão deslumbrante... Até circulando pelas frestas...
Denunciando eventualmente o quem desdenha quer comprar!!!???.


Como Eu o Mário de Andrade também já não se importa.

A Sua janela só abre para dentro ou contempla as restantes possibilidades, nomeadamente a basculante.

Muito obrigada pela deferência, mas o que diferencia mesmo as nossas idoneidades...Ah! talvez a sinceridade apanágio Só seu? Comprovada por... escritura de supremacia, atestada?

Pelos meus princípios católicos as palavras Amar /Apreciar sinónimos neste contexto, são extensivas quase a uso indiscriminado
"Amai-vos uns aos outros, presumo a Si também Fenêtre" ...

Isabel Seixas
ou @anónimo

Tem dificuldades em manifestar o seu apreço sem inibições Admitindo também o mérito de Outros?

Anónimo disse...

"Diplomatas"

Funções negociar, informar e representar.

Há uma transversalidade de funções/interpretações extrapolável... a quase todas as profissões...

Bem amados
Mal amados

Imunidade diplomática,
Salvo-conduto

Geradora de cobiça e inveja das benesses e dos privilégios adquiridos ...

Agora

O trabalho e também a actualização constante que implica , a revisão bibliográfica sistemática a sustentabilidade da assertividade e cumprimento do conteudo funcional...

Isso é remunerado e passível
Da análise real e crua
Do quem não quer ser lobo não lhe veste a pele... (Não está em causa o querer ou não)

A comprovação da equidade é delimitada pela liberdade de expressão dos observadores externos.

"Espreito por uma porta Entreaberta
Sigo as pegadas de luz
Peço ao gato xiu para não...
Me Denunciar"

Catarina Furtado

Por Respeito ao comentador Cunha Ribeiro e à digna classe que representa da qual faço parte mais otimista, acredito no futuro, aos desempregados ou aos que não conseguiram nunca exercer a profissão pela qual se apaixonaram, que eventualmente nem lhes foi concedida a oportunidade de a seguir... Até por não haver necessidades de mercado... A mais dura prova...

Profissionalmente na minha missão "Diplomata" tenho consciência de fazer parte dos privilegiados... Com Trabalho e Emprego."Barriga Cheia"
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Como ainda deve estar recordado, aqui, no Brasil, para tentar ilustrar certos factos, recorre-se muito à imagem de São Jorge e ao seu cavalo.

Depois de ter conhecido e colaborado com vários embaixadores ao longo da minha carreira de jornalista, diria apenas, referindo-me objectivamente a si, como eu gostaria de ser e ou de ter sido o cavalo de São Jorge!

Mas nem todos, nos quais eu me incluo, reconheço com humildade, têm essas qualidades e competência, assim como nem sempre se faz a opção certa, está na hora certa e no local certo!

Estou certo e convicto, de que o seu nome sempre figurará, entre os eleitos, na História da Diplomacia Portuguesa.

Saudações fraternas e afectuosas.

Paulo M. A. Martins

patricio branco disse...

sobre os diplomatas:

"Alguem que tem um diploma mas que esqueceu completamente a matéria em que é diplomado"

"profissionais que falam de quase tudo, mas que quase nunca falam do que sabem"

"pessoas que nunca dizem sim ou não"

"eles começam por adorar os coctails, mas acabam por os odiar"

"alguem que tem como funções resolver sarilhos causados por outros diplomatas"

"a person who can tell someone else to go to hell in a way that the other person will thank him for it!"

"alguem que passa o tempo a correr entre o gabinete onde trabalha e o hotel onde é o próximo beberete"

"Alguem que tem um diploma mas que esqueceu completamente a matéria em que é diplomado"

O dicionário Porto Editora define:
- pessoa que representa os interesses de um país junto de outro, promovendo e zelando pelas relações internacionais; pessoa que faz parte do corpo diplomático de uma nação
- e pessoa hábil e com um tacto especial para resolver situações complicadas
(logo, um diplomata pode não ser um diplomata)
acrescenta que a palavra é invariavel e dá para os 2 géneros.

“A diplomat who says “yes” means “maybe", a diplomat who says “maybe" means “no”, and a diplomat who says “no” is no diplomat.”
Talleyrand

etc, etc

e um cônsul-geral? "Alguem que sabe de coisas muito em geral mas de nada em especial"