quinta-feira, 1 de julho de 2010

Claques

Ontem à noite, o entusiasmo quase excessivo de alguns espectadores num teatro parisiense trouxe-me à memória os tempos (que julgo terão terminado) dos "bilhetes de claque". Foi por meados dos anos 60, em Lisboa, que fui confrontado, pela primeira vez, com a possibilidade de adquirir bilhetes para algumas peças de teatro a preços muito reduzidos, apenas com a obrigação de bater palmas em determinados momentos do espetáculo. A bolsa de um estudante era o que era e, por essa razão, havia que recorrer a tais expedientes.

Recordo-me bem de um personagem rotundo, de cabelo oleado, que parava no hall da estação do Rossio e junto de quem, ao final da tarde, se ia inquirir se havia "bilhetes de claque" disponíveis. A conversa era sempre um curioso equilíbro de oferta-e-procura, dependendo do êxito relativo das peças: "Para a primeira sessão do Maria Vitória, isto hoje está mau. Posso arranjar um bilhete, mas sai caro. Mais em conta, tenho para a segunda sessão. Já para o Capitólio e para o Variedades, a coisa é mais fácil...". Estou "a ver" a cena: o tal cavalheiro trazia os escassos e requestados bilhetes enrolados de forma ondulada entre os dedos da mão esquerda, "folheando" discretamente os lugares disponíveis com a mão direita. Os preços eram altamente discricionários e, julgo eu, definidos à medida da nossa presumida disponibilidade financeira.

No teatro, encostado a uma das paredes laterais da plateia, ficava o "claqueiro", personagem que arrancava com "surtos" de palmas que os possuidores de "bilhetes de claque" (4 ou 5 por sessão), estrategicamente espalhados pela sala, muitas vezes em ótimos lugares, eram obrigados a seguir. No intervalo, se acaso o "claqueiro" não estivesse contente com o "entusiasmo" demonstrado pelos possuidores desses bilhetes, vinha "tirar satisfações", implicitamente ameaçando com uma saída da sala.

Uma noite, no Villaret (olá Raul!), com a casa desoladamente quase deserta, recordo-me da cena patética que fiz, com outros anónimos possuidores de "bilhetes de claque", "puxando" por uma peça que era um flagrante fracasso de audiências. Quando o nosso simultâneo "entusiasmo" ressoava pela sala, os restantes espetadores olhavam para nós, entre o espantado e o divertido - porque alguns deviam suspeitar da origem das nossas entradas. Julgo que terá sido nessa noite que decidi não comprar mais "bilhetes de claque". Hoje em dia, só faço essas figuras em peças de amigos... 

4 comentários:

Anónimo disse...

Pois...
Hoje correria o risco de ser rotulado
Com algum diagnóstico eventualmente mais imprevisto que as palmas mandadas ou quase forçadas.

Com a sua Profissão não é aconselhável...mas que efetivamente quebrava a monotonia...

Atualmente nos programas televisivos é adotada a mesma estratégia... Que espontaneidade.
Não chega a ser tão mau como aquelas gargalhadas engarrafadas num playback irritante nas pseudocomédias... Por analogia penso sempre que um dia vão lembrar-se do choro com ou sem soluço ou um carpir intenso nos dramas...

Só para dizer que realizador prevenido...Proativo... Não espera pelo sucesso...Dos aplausos incluindo-os no pacote da encenação.
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Hoje temos (bilhetes) claques de outro tipo!Mas a intenção é a mesma. Aplaudir o que é fracote!

Anónimo disse...

Quiçá na apresentação de livros de amigos ou de amigos dos amigos.Ainda por cima "temos" que adquir o produto e fazer bicha para o autógrafo.Tenho saudades dos bilhetes de claque. Sem aplausos, mesmo comprados," cadê" a Palmira Bastos. Zé dos Anzóis

Fenêtre du Portugal disse...

Imagino a cena no Villaret... :-)

Tratou-se de um espectáculo no espectáculo.

Afinal o sentido deveria ser invertido : os "claquistas" mereciam palmas.

Creio que não seria capaz de fazer tal papel, e alias nem aceitaria o facto de bater "palmas forçadas". Mas também é verdade que nunca tive a oportunidade de comprar bilhetes de claques, e até desconhecia a existência dos tais.

Este artigo fez-me rir.
Eh eh :-)