quarta-feira, 14 de julho de 2010

A aristocracia e a Revolução


Há uns meses, alguns portugueses residentes em Paris comentavam o facto de, não obstante a Revolução Francesa, de 1789, cuja data de 14 de julho é emblemática, ter sido muito violenta para com a aristocracia - ao lado dela, a Revolução do 5 de outubro de 1910 foi uma brincadeira -, há hoje em França muitas pessoas que usam abertamente os seus títulos nobiliárquicos - nos cartões de visita, nos convites e, em geral, na vida social. Isso acontece, aliás, muito mais do que em Portugal, onde parece haver uma maior contenção e parcimónia no seu uso.

Um feroz republicano, presente à conversa, comentou: "Pois eu conheço alguns aristocratas lusitanos que continuam bem ciosos desses seus pergaminhos, não obstante haver uma lei de 1910, ainda em vigor, que impede o uso público dessas designações". E logo acrescentou, agora para espanto de todos: "E esses meus amigos, claro!, recusam-se a andar em auto-estradas". Ninguém percebeu nada! "Não andam em auto-estradas porquê?". O nosso jacobino amigo, lá esclareceu: "Ora essa, porque eles leem 'retire o título' e não querem correr riscos"...

Hoje, ao atravessar mais de metade de Portugal em auto-estradas, várias vezes me recordei que estávamos no dia 14 de julho. 

5 comentários:

Anónimo disse...

Por analogia
Esse tipo de preocupação gera mau estar a quem assume como ponto de honra a ostentação do seu grau académico colado à pele da sua identidade... Cultura, obviamente...
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador certos títulos sempre me fascinaram. Sobretudo os da dívida pública...
Aí, nobres e plebeus são iguais. Ambos têm que a pagar!

Nuno Resende disse...

O "problema" dos títulos é o "problema" das elites: nunca deixarão de existir. Felizmente, ou não. Numa república são como galinhas sem cabeça, parafraseando uma velha aristocrata. Mas o que me preocupa não são os títulos de uma nobreza que nunca teve muito para dar. O que me preocupa é a nobreza republicana, ávida e pouco dotada. Prefiro mil vezes um Conde de Vizela, a um Comendador Berardo.

Anónimo disse...

Essa fez-me lembrar uma anedota, já muito velha, contada por um dos meus avôs, que se bem recordo, “rezava” assim, mais ou menos: Salazar tinha sido convidado a ir de visita oficial a Londres (só mesmo de anedota!) e como não falava inglês, no hotel onde ficara hospedado colocaram-lhe uma “escarradeira”, no quarto, que possuía uma tampa, que se levantava (para o tal efeito) colocando o pé num pequeno pedal. Assim sendo, o aviso, por gentileza britânica para com o velho ditador, estava escrito em português – “pise no pedal”. Todavia, o velho tirano leu de outra forma – “paise no pídal”, daí acabando por não vir a utilizar a dita “escarradeira” (não se sabe entretanto onde terá cuspido, mas pouco importa).
P.Rufino

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Carísssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

É certo que os títulos de nobreza não fazem sentido nestes regimes Republicanos ( português e francês), mas não há necessidade de se ser um jacobino radical uma vez que as noções de tolerância e de liberdade devem ser os verdadeiros guias de uma renovada ética Republicana.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt