sexta-feira, 25 de junho de 2010

Souto Moura

Os franceses ficam sempre encantados quando ouvem uma certa geração portuguesa expressar-se bem na sua língua. Embora lamentando muito, costumo acabar-lhes cedo com as ilusões, informando-os que, com algumas exceções, somos, em Portugal, uma "raça em extinção".

Ontem, ao ouvir Eduardo Souto Moura ler um belo texto num excelente francês - no qual assumiu a inspiração da sua obra na de Mies van der Rohe -, foi muito curioso ver o público presente na sessão anual da Académie de l'Architecture, aqui em Paris, prolongar essa ilusão de que Portugal permanece como sólido pilar do proselitismo linguístico da língua francesa. Não é verdade, infelizmente.

Souto Moura esteve em França para receber um prémio pela sua obra, dado pelos seus pares franceses, consagrando assim um reconhecimento internacional da arquitetura portuguesa que a todos nos honra.

12 comentários:

Anónimo disse...

"Raça em extinção"

Espero bem que esteja pelo menos na forja a raça de conceção que vai tornar o Português língua universal...

Posso esperar sentada...
Obrigada
Mas quem sabe na próxima encarnação.
Parabéns ao Sr. Homenageado.
Isabel Seixas

Margarida disse...

...je n'ai pas compris... (vraiment!)

ECD disse...

Em extinção e parece que ninguém, em França, se importa muito. Nas últimas quatro semanas estive em dois colóquios internacionais em Paris, em ambos a língua de trabalho foi o inglês apesar do publico e da larguíssima maioria dos conferencistas ser de língua francesa. Curiosamente, além de num dos colóquios um colega americano - iminente scholar de Princeton - ter feito questão de falar em francês, a língua francesa quase que só foi ouvida com sotaque africano! Os scholars franceses atiraram a toalha ao chão... os aspirantes a scholars "estão numa de internacionalização", isto é, estar "internacionalizado" é falar inglês sempre, em todos as as situações e em todos os lugares.
Em Portugal também há cada vez mais disto!

Declaração! falar línguas, incluindo o inglês é uma coisa excelente. Sempre pensei assim

Anónimo disse...

Na minha juventude, dividimos (eu e irmãos) a aprendizagem do francês e do inglês, independentemente daquilo que se estudava na escola. Da parte de nossa mãe (por influência dos nossos avós maternos, Beirões), aprendemos o francês cedo, com uma professora que lá ia a casa. Mas, da parte de meu pai (neste caso por influência dos avós paternos, do Douro), era o inglês que deveria ser reforçado e ele mandava-nos, entre Junho/Julho, para Oxford, ou Cambridge (alternando), para aqueles cursos de Verão, que por lá havia (e continua a haver). E foi divertido. Até por lá arranjei um “namorico” próprio da idade. Mas, de facto, o francês foi, durante um determinado período, a língua estrangeira dominante. Hoje… até já há franceses a falar, quase sem ponta de sotaque, a língua de Shakespeare.
P.Rufino

LP disse...

A "culpa" é só e só dos "donos" da própria língua. Tal como nós, portugueses, somos os "culpados" da alteração de escrita (acordo ortográfico) que, segundo alguns entendidos, foi feita sem respeitar a evolução da língua onde ela teve origem.

Por isso, de nada serve chorar sobre o leite derramado e termos pena de quem não se esforça para fazer valer a sua cultura.

O Sr. Souto Moura foi uma pessoa educada e cortês, foi "Romano em Roma". Os franceses devem andar muito distraídos quanto à disseminação do francês pelo mundo.

Já agora, parabéns ao Sr. arquitecto, ops, arquiteto Souto Moura.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro/a ECD
Com o seu comentário não pude furtar-me à lembrança do que foi o depoiemento de Zeinal Bava na comissão parlamentar sobre o caso TVI que corre no Youtube...
De facto os nossos gestores só sabem falar português internacional, ou seja, uma mistela da língua pátria com uns americanismos que insistem em usar, pese embora tenham tradução literal.
Do mal, o menos, como é o caso de Las Piedras Rolantes que nuestros hermanos usam para os Roling Stones...

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Souto de Moura bem merece mais este reconhecimento internacional porque incutiu aos seus edifícios uma beleza aos espaços arquitectónicos com soluções simples, inovadoras e isentas de desnecessárias decorações.

Quanto à questão da língua francesa é bem verdade, porque a língua inglesa está a ter um papel hegemónico no ensino em Portugal e o espanhol desde o fim do século passado que tem ganho terreno nas escolas portuguesas. Na verdade, é pena que o francês tenha perdido terreno como língua falada pelos portugueses, porque o francês a par do italiano são duas línguas com um claro potencial cultural e artístico por razões filológicas e sonoras.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Fernando Frazão disse...

Eu tenho 60 anos.
Nos meus tempos de Liceu tive 5 anos de Francês e 3 de Inglês.
Cresci com Francoise Hardy, Les Chats Sauvage, johny Halliday.
Mais tarde, já no Técnico, o que se ouvia era Brell, Brassens, Aznavour, Reggiani etc.
Lia-se Beauvoir, Vian, Sartre e Camus (num quiz show da nossa RTP já lhe ouvi chamar "queimus", á inglesa)
Via-se Truffaut, Rhomer e companhia para já não falar nos actores.
Onde estão os herdeiros?
Na minha vida profissional (informática) tive sempre que falar e escrever mais inglês do que Francês mas o "bichinho" ficou cá.
Nos último 20 anos fui representante português num comité técnico de informática que normalmente reunia em Bruxelas, onde, apesar de naõ haver um único Inglês o que sefalava era...inglês.
Sempre que de lá saía tentava recolocar o "chop2 de Francês e com algum esforço e tempo o francês soltava-se.
E tão bonito que é.
A deriva cultural mudou inexoravelmente para New York e por culpa dos franceses.
Lembram-se do Festival da Eurovisão, quando os representantes de cada país cantavam na lígua original? Agora a maior parte canta em inglês.
O máximo foi há uns anos quando representante sueco foi um preto a cantar em inglês uma música rap.
Globalização?
Habituem-se. Se calhar infelizmente.

Fenêtre du Portugal disse...

É real e bem real, o facto da língua francesa ter descido para a "segunda liga" em Portugal.

A necessidade relevante do emprego de termos técnicos em língua inglesa, (área linguística pobre tanto na língua portuguesa como francesa), não é estrangeira ao fenómeno... mas não é a única razão.

Epilogando sobre o tema durante horas, chegaria-se à conclusão que o lasso que unia a cultura francesa e portuguesa està a enfraquecer ? Talvez.

h ventura disse...

"aujourd`hui, on est fière d`étre portuguais". Também sou da geração que quando é necessásrio, fala e escreve em francês resultado do ciclo preparatório, liceu e instituto francês, em Ovar e em Espinho. Mas o que me faz referir aqui esta mini micro-história é a coincidência, ou talvez não, da atribuição do prémio Pritzker a Eduardo Souto Moura. Enquanto estudante e depois como arquitecto, tive também o previlégio de assistir a algumas conversas com Souto Moura, que já nesses tempos rasgava horizontes na arquitectura, para além de Siza... Estamos todos de parabéns, e a arquitectura portuguesa com especial relevância. Uma boa notícia nos dias que correm, é coisa rara.

Margarida disse...

...agora ia tendo um susto, mas OK, quase um ano depois, sim, fala-se de novo e por causa deste prémio importantíssimo!
parabéns senhor arquitecto!
:)))

Correia da Silva disse...

Só um pequeno (grande)reparo.
O Eduardo, meu contemporâneo em Belas Artes, tem o nome amputado nesta crónica. Souto de Moura.