terça-feira, 22 de junho de 2010

Aristides Sousa Mendes

Gostava de ter tido ontem comigo, na Embaixada, aqueles que, em Portugal, insistem em não prestar tributo ao gesto do antigo cônsul em Bordéus, Aristides Sousa Mendes, que, nessa qualidade, emitiu alguns milhares de vistos, desobedecendo às ordens recebidas

Gostava de ver essas pessoas confrontadas com a emoção que observei nos olhos de uma cidadã judia, hoje americana, que nesses dias trágicos de Junho de 1940, esteve nas filas do nosso Consulado em Bordéus, entre muitos milhares de refugiados, e que ontem me contou pessoalmente como aí pôde obter um visto gratuito para entrar em Portugal, e daí partir para a liberdade.

Gostava de os ver fazer entender a essa senhora, olhos nos olhos, que Aristides Sousa Mendes não deveria ter emitido o visto que lhe salvou a vida e deveria, com exemplar zelo burocrático, ter seguido as determinações na Circular nº 14. de 11 de Novembro de 1939, segundo as quais "os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (...) aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm".

Gostava.

15 comentários:

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Um tema interessante que trouxe à luz. Por vezes me esmiucei no caso dos passaportes emitidos pelo cônsul de Bordéus Aristides Mendes.
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Por um lado Aristides Mendes é colocado num pedestal e por outro, vem à tona, a verdade nua e crua que o cônsul praticou algo de ilegal emitindo passaportes, assinando-os e apostando o selo branco do consulado.
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Cheguei à conclusão que Aristides Mendes a título póstumo foi fabricado herói nacional de Portugal e de Israel.
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A desobediência de Mendes teria sido por acto humanitário ou de corrupção e aproveitando-se das circunstância da II Segunda Guerra Mundial?
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Os heróis e os mártires também se inventam e por algumas vezes para facturação política.
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Vem me à mente uma história interessante de passaportes que em parte investiguei (tenho cópias do processo por ordem e Despacho do MNE) de quando ao serviço da Embaixada de Portugal em Banguecoque (hoje reformado), que poucos conhecem, mas digna de se trazer ao conhecimento.
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Quando a Índia invadiu as possessões portuguesas, das Necessidades foi expedido um Despacho para o Consulado-Geral de Portugal em Banguecoque (ainda não era missão diplomática) para que todos os refugiados, provenientes da Índia Portuguesa, lhes fosse emitido um passaporte português e os desviassem por optar pela nacionalidade indiana.
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Ora o funcionário, português (de origem, goesa) que regia o consulado (sem o estatuto de vice-cônsul mas de chanceler) desde logo pediu uma remessa de passaportes às Necessidades, pouco depois pede mais outra e chega a terceira.
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Lisboa manda-lhe todas as remessas e não faz qualquer objecção. Passado uns tempos chega a Banguecoque um comunicação das Necessidades, alarmante, se em Banguecoque haveria uma fábrica de passaportes portugueses, porque estavam a chegar a Lisboa chineses com o documento de viagem.
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O Encarregado de Negócios de então (ainda vivo mas não designo o nome) começou por sua conta própria a investigar o caso e descobriu que os mais de quatro centenas de passaportes chegados ao consulado não foram para refugiados da Índia (apenas foi emitido um), mas sim para serem vendidos a 60 contos (uma pequena fortuna para a época) cada exemplar a chineses.
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A rede está criada onde está envolvida uma agência de viagem, cuja a proprietária conseguia os clientes chineses.
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Aparecia no consulado com raparigas bonitas que chamavam ao chanceler “papá” dado que já era um homem entradote na idade.
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O diplomata Encarregado de Negócio, um jovem a iniciar a carreira e expedito, descobre a vigarice, investiga-a em pormenor e tem conhecimento que o chanceler (velho residente em Banguecoque) possuía, casa, namoradas jovens, carro topo de gama e cavalos de corrida que competiam no hipódromo da capital tailandesa.
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O Encarregado de Negócios, que eu servi por 7 anos, sem boas recordaçãos pelo seu mau feitio, troca correspondência com Lisboa, Governador de Macau em secreto aventa a hipótese de se prender o cônsul, o que nunca chegaria acontecer porque quando se viu apertado e descoberta a vigarice, desapareceu de Banguecoque, para Goa e nunca mais lhe colocaram a vista em cima.
Saudações de Banguecoque
José Martins
P.S. O caso referido, aconteceu, no início da década de sessenta do século passado.

Helena Oneto disse...

A sua indignação honra-nos a todos, Senhor Embaixador!

A cobardia é o pior e o mais odioso defeito do homem. De cobardes não reza a História.

Os Justos, sim, ficam para sempre gravados na memória da Humanidade.

(A história dos "sapatos" comoveu-me imenso, mas o gesto desta Senhora que se desloca, perto de setenta anos depois, à Embaixada testemunhar ao representante de Portugal a sua gratidão, encheu-me os olhos de lagrimas)

Patrick disse...

Muita gente foi condenada no Tribunal de Nuremberg clamando inocência. Afinal, apenas haviam cumprido ordens e seguido rigorosamente leis, decretos, circulares e afins...

Helena Oneto disse...

Como é possivel dizer-se que o Cônsul Aristides Sousa Mendes praticou "algo ilegal" imitindo passaportes a refugiados, em tempo de guerra, desobedecendo, talvez, por acto humanitario ou de corrupção?
E ainda: "Cheguei à conclusão que Aristides Mendes a título póstumo foi fabricado herói nacional de Portugal e de Israel."!

Salazar destituiu e cortou os viveres a Aristides de Sousa Mendes por ele ter salvo milhares de vidas, condenando-o ele e a familia a viver na miséria até morrer sem nunca ter tido o menor gesto de humanidade para com o heroico Cônsul de Bordeus. Diga-se de passagem que a Igreja catolica e o seu representante Cardeal Cerejeira tambem nada fizeram.

O SENHOR Embaixador Francisco Seixas da Costa tem muita razão!
Não ha pior cego que o que não quer ver! O "bom e fiel" funcionario senhor José Martins com as suas "verdades" envergonha-me e envergonha o pais onde nasceu!

Helena Oneto

Anónimo disse...

"Os Fins justificaram os meios"

Reduzir a taxa de mortalidade por homicídio Inqualificável...

Correr o risco pelos Outros...

Escrever consciente da promoção de vidas... Pelas Suas indivisíveis Liberdades...

Meu Deus qual é a dúvida?!!!

Viva Aristides Sousa Mendes...

Não Sei...

Não sei se existe perdão...
Para a Ausência
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Aristides de Sousa Mendes obedeceu a um louvável imperativo de consciência. Mas mesmo que tivesse "traído a Pátria", aplicar-se-lhe-ia o que Stauffenberg (um dos fautores da tentativa de assassinato de Hitler, em Julho de 1944) escreveu à mulher: "não temos (os conspiradores) dúvidas de que ficaremos na História como traidores, mas às vezes mais vale trair o País do que trair a consciência".....
António Mscarenhas

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Nunca embarquei nas naus da fantasia.
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Fui um “mero” ex-manga de alpaca.
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Há muito a escrever sobre a história do cônsul Aristides Mendes, mas segundo (algures) li parte dos documentos desapareceram (or fizeram desaparacer por conveniência) dos arquivos do Palácio das Necessidades.
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Que ninguém se envergonhe de mim nem envergonhei o país onde nasci, que durante o meu longo caminhar, anónimanente, o gloriifiquei por onde passei.
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Sou daqueles que não me encosto ao lado dos outros (a maioria) que poderei seguir na molhada e precipitar-me, juntamente, no precipício.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Gil disse...

O manto de calúnias com que se tentou cobrir, conspurcando-a, a memórias dos actos de Aristides de Sousa Mendes, ainda é tricotado por alguns, como comprovam certas afirmações que por aí se lêem e ouvem.
Começou logo na altura; e, como se constata, a "obra" continua.
Como o pós-guerra destruiu para sempre a "obediência" enquanto justificação para a infâmia, juntaram-lhe a insinuação de corrupção.
Que os actos de ASM eram "ilegais" nunca esteve em discussão e não vem, agora, à tona.
Também foram "ilegais" todos os actos de resistência praticados por esse mundo fora, nessa época, desde a pequena sabotagem às acções armadas de grande envergadura.
Em França, quem foi sancionado depois da Libertação, não foram os "ilegais", foram os legalíssimos e obedientes colaboracionistas.
Há ocasiões em que a obediência é apenas uma alcunha que se dá à cobardia moral.

Anónimo disse...

Obrigada Senhor Embaixador .Quando li o seu texto recordei a minha Mãe,Mulher nascida na aldeia só com a 3ª classe e uma defensora do Sr .Dr .Aristides porque viveu e foi testemunha dos tempos aureos do Dr mas também dos tempos em que ele morreu na completa miseria.Contou-me que o encontrou muitas vezes a ele e á Familia a caminho cda cozinha economica em Alcantara .Um Homen Bom que fez bem a tanta gente .Os seu texto comoveu-me muito e senti uma grande Saudade da minha Mãe que se estivesse entre nós tinha tanto para dizer ."Aquele Homen foi um santo , nunca se revoltou sempre se resignou até aos ultimos dias da sua vida tinha sempre uma palavra de carinho para quem o visitava ".Palavras de minha Mãe

Anónimo disse...

A questão Aristides Sousa Mendes não se pôe da forma que é colocada. O acto em si, ilegal, é muito louvável precisamente por ser ilegal E no contexto político só podia ser ilegal. A desobediência tem consequências, por isso é que o acto é muito meritório: isto é se A. Sousa Mendes pensasse que não teria conseqências o acto deixava de ser heróico. Que se saiba Aristides foi passado à reserva, sem perca do parco vencimento: tinha é onze filhos! Não há fortuna que aguente. Daí ser pobre.O resto é, evidentemente,propaganda inserida, muito irritantemente, na tese de que só a esquerda é boazinha, mesmo sendo Aristides de direita.
João Vieira

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Joao Vieira: mas por que diabo a esquerda ou a direita sao chamadas ao caso Sousa Mendes?

Anónimo disse...

Não assinei o meu comentario peço desculpa sou a Carlota Joaquina .

Não eram doze filhos mas sim catorze .
Para se descobrir a sua existência muito ajudou um jornalista do "Le Monde que tomou contacto com a figura de Sousa Mendes ao fazer cobertura do julgamento doe Maurice Papon, um responsável do regime de Vichy que assinou as ordens de deportação de centenas de judeus ,enviando-os para os campos de extermínio .Ao contrário de Papon ,Sousa Mendes não cumpriu ordens : agiu de acordo om a sua consciência .Este texto foi lido no jornal publico .
Carlota joaquina

Anónimo disse...

Um Post que gostei de ler, mas que “mexe” com “os princípios de hierarquia” desta Casa, que nos é comum, o MNE. A “talhe de foice”, remeteria para o que diz o seu colega, já na disponibilidade há uns bons anos, João Hall Themido, no seu último livro “Biografia Disfarçada”, onde é posta em causa a atitude de Aristides de Sousa Mendes. De algum modo, aqueles “explicações” de Themido encaixam-se no “pensamento” de João Vieira. Há um blogue, “Meditação na Pastelaria”, que “desanca” no “nosso” João Hall, precisamente por causa do seu “tal livro”. Vão lá dar uma espreitada.
“Adido de Embaixada”

Bernardo Ivo Cruz disse...

Quando fui SubSEAMNE, tinha na parede do meu gabinete um retrato que diziam ser de Aristides de Sousa Mendes. Embora não tenha a certeza que fosse ASM, sempre que perguntado explicava que o tinha ali para me lembrar que há valores e há conforto e que, muitas vezes, uns e outros não andam de mão dada.
Ainda hoje me espanto com a indignação de algumas pessoas "da casa", novos e menos novos, por um membro do Governo ter ASM no gabinete.

Eunice Maia disse...

Senhor Embaixador,

Tomei a liberdade de transcrever este texto no blogue do Colégio Luso-Francês (o Lusografias). Espero que me perdoe o atrevimento... mas o motivo é nobre: (re)lembrar aos nossos alunos a importância da figura de Aristides de Sousa Mendes, através de um testemunho emocional e emocionado...
Obrigada por estas palavras que "atroam" (como diria Pe António Vieira) e comovem...
Eunice Maia