sexta-feira, 7 de maio de 2010

Reino Unido

Habituamo-nos a olhar para o sistema político britânico como a "mãe das democracias". À hora da madrugada a que escrevo, as televisões dão-nos nota que, em muitos locais de voto, milhares de pessoas foram impedidas de votar, que isso originou inéditos protestos, num sistema que costuma ser "à prova de bala" em matéria de legitimidade. E isso ocorreu precisamente num momento em que a possibilidade de uma maioria simplesmente relativa se apresenta como plausível. Acontecesse isto em Portugal e caíam-nos todos em cima, com acusações de primarismo e de desorganização latina ou mediterrânica.

Sempre tive a sensação de que os britânicos mantêm uma certa snobeira no caráter quase artesanal do seu sistema de voto, que obriga a longas contagens pela noite dentro e às paroquiais leituras dos números dos sufrágios, que antecedem os discursos de vitória dos deputados, acolitados pelo cônjuge e prosélitos, com aquelas rodelas de folhos coloridos ao peito. Mas também tenho a certeza que as confusões de ontem, se não vão colocar minimamente em dúvida o resultado final dos sufrágios, irá obrigar a uma reflexão futura sobre o sistema. Mas duvido muito que mudem...

Quanto ao resto, a noite eleitoral televisiva foi o que costuma ser: divertida, plural, agitada. Devo dizer, contudo, que senti saudades dos gestos largos de Peter Snow, que nos mostrava as ondas vermelhas ou azuis, com os seus "swings", nas paredes virtuais da BBC, bem como das gravatas berrantes de Jeremy Paxton, que agora deram lugar a modelos com um cinzentismo digno da "city". Quanto ao resto, para quem acompanha o sufrágio britânico pela televisão já há algumas décadas, foi um sereno "déjà vu", de David Dimbleby a John Simpson. Podia ser diferente? Podia. Mas não era a mesma coisa...

Diferente do habitual, claro, só o resultado.

3 comentários:

Gil disse...

As coisas vão mudar e já começaram a mudar na campanha eleitoral.
Os inéditos debates entre os três líderes, apontam claramente para uma espécie de "presidencialização".
Temo que, a pouco e pouco, o Parlamento perca aquela deliciosa aparência de "jogo da corda", com as duas equipas frente a frente, separadas por um espaço muito pequeno, com os bifes a levantarem-se para botar palavra à vez, os insultos altamente elaborados e sabendo que os adversários do Primeiro Ministro estão nas filas à sua frente e os inimigos nas filas atrás de si.

Anónimo disse...

Delicioso comentário, ou antes, Post!
Esta manhã, quando viajava no comboio para Lisboa, “apanhei” uns desses jornais grátis, que têm essa louvável qualidade de fazer com que as pessoas que não lêem jornais, possam, pelo menos, “passar uma vista de olhos” pelo que vai no País e no Mundo, muito, mesmo muito, a correr e naqueles que me calharam em mão, nenhum se referiu, nem uma linha (!), ás eleições no R.U. Já no carro, até à Estação, o noticiário não se lhes referiu, um segundo sequer! Pensei cá para mim: “então não aconteceu nada ali para os lados da “velha Albion?”
Só depois pude ler com alguma calma os resultados eleitorais. Enfim, nada de novo. Ou são uns, ou outros. A novidade consistirá, talvez, em saber por quanto tempo este, ou aquele Partido se prolongará na governação. Um fenómeno de algum modo semelhante em quase todas as Democracias Ocidentais. Dizia-me um sobrinho meu, do alto dos seus 21 anos, outro dia: “qual é a graça de ir votar, oh tio? Se são sempre aqueles dois que ganham?” Realmente…Temo bem que ou isto muda (mas muda como?) ou então esta “rapaziada” nova vai ficando em casa e não vota mais. Os meus filhos, que já passaram os 18 e portanto podem votar, dizem-me que não estão para aí virados. “Mas o que é que vos motiva?” Respondem-me: “as questões da vida, profissão, etc”. O resto, política, não querem saber! Já viram? É assim! Quem sabe se não têm alguma razão. No meu tempo, que vivi no antes e depois do 25 de Abril, a política tinha uma particular relevância. Mas hoje? Continuará a ter? Interrogo-me! Ando a sofrer de uma “preguicite aguda” em relação à política. Prefiro o País. Viajar por cá, andar por aí e por ali, etc.
P.Rufino

Santiago Macias disse...

A mãe das democracias nunca me pareceu, em termos eleitorais, grande coisa, com aquele enorme desiquilíbrio entre voto popular e lugares conquistados. Os liberais-democratas têm, a esse nível, razões de queixa.