terça-feira, 11 de maio de 2010

Protocolo (2)


Posso garantir que o chefe do Protocolo desta história não era o mesmo da outra que há dias contei.

A cerimónia de apresentação de cumprimentos de Ano Novo do corpo diplomático ao presidente da República é, em Portugal, um momento único, em que se reúnem todos os embaixadores estrangeiros residentes em Lisboa e aqueles que, embora estejam acreditados no nosso país, residem no estrangeiro - principalmente em Paris (mas nunca em Madrid, onde, por qualquer razão que me escapa, não há nenhum embaixador que esteja acreditado em Lisboa...). A cerimónia, que conta com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros, inclui uma longa sessão individual de cumprimentos, seguida dos discursos da praxe, do decano do corpo diplomático e do chefe de Estado português.

No nosso país, como acontece em várias partes do mundo, o decano dos embaixadores não é, necessariamente, o embaixador mais antigo: por tradição, é sempre o Núncio Apostólico, o representante diplomático da Santa Sé.

Estava-se numa dessas cerímónias, no Palácio da Ajuda, num qualquer mês de Janeiro. Na sala onde apresentação de cumprimentos ia ter lugar, o nosso presidente e o ministro estavam já a postos, há alguns minutos. Os diplomatas estrangeiros encontravam-se do outro lado do palácio, numa sala bem longe, separada por um longo corredor. Algum inesperado atraso, talvez devido à tarefa de ordenação por antiguidade dos diplomatas estrangeiros, fazia com que o primeiro dos diplomatas que devia saudar o nosso Presidente - o tal representante da Santa Sé - ainda não tivesse surgido, à frente dos restantes colegas.

O chefe do Estado português dava já mostras de alguma impaciência. O ministro fez sinal ao chefe do Protocolo para apressar as coisas. Pressuroso, o nosso homem aproximou-se da porta que dava para o corredor, ao fundo do qual se movimentavam os seus colaboradores. Fez-lhes imensos sinais com os braços, mas, do outro lado, ninguém parecia notar. Para grandes males, soluções à altura. De repente, no ambiente austero que precedia a solenidade, ouvem-se três sonoras palmas do chefe do Protocolo, seguidas de um berro de comando, bem alto e audível ao fundo do corredor: "Saia o Núncio!"

O presidente e o ministro desataram a rir. Entre a Ajuda e o Campo Pequeno a distância encurtou, nesse momento.

10 comentários:

Anónimo disse...

Olhe Sr... Embaixador...
Tem mesmo a certeza que era um Homem?
De facto que capacidade de resolução,
digo-lhe eu que dava um bom profissional de saúde na reanimação...

Presumo que que a expressão faça parte do protocolo...Não?!!!
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

:)! So o nosso Embaixador me faria rir hoje com (mais) esta delicia protocolar!

Guilherme Sanches disse...

Merece um bom AhAhAh!
O núncio, lembra-me o anúncio que ontem a repórter da RTP fazia, pouco antes da chegada do Papa aos Jerónimos:
- "vão ser disparadas 21 salvas de prata" de uma fragata fundeada ao largo...
(tenho a certeza que ouvi bem)
Jornalistas dos que tudo e a todos criticam...

Santiago Macias disse...

Nas aldeias do sul de Espanha era hábito nos bares, até há poucos anos, bater as palmas enquanto se soltava um sonoro "camarero!". No sul de Portugal nem por isso, por causa dos forcados... Mas esse surpreendente e eficaz recurso era coisa que nunca imaginaria na solenidade do Protocolo de Estado.
Ainda que este tenha momento menos solenes. Recordo uma pouco comum acrobacia durante uma visita a Portugal dos Reis de Espanha.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador só o Senhor me arrancaria hoje uma gargalhada com este post!
Os meus filhos agradecem-lhe!

Julia Macias-Valet disse...

Caro Guilherme Sanches, mais um bocadinho e anunciava um torneio de Tiro ao Prato...da Vista Alegre : )))

Serao gafes ? ou uma falta de cultura geral notoria a dos nossos reporteres.... (ver o 2°comentario que deixei ao post Madeira de 20 de fevereiro de 2010 do nosso embaixador).

ié-ié disse...

Escreve que "por qualquer razão que lhe escapa, não há qualquer embaixador residente (em Madrid) que esteja acreditado em Lisboa...".

Ora, sempre aprendi na Faculdade de Direito de Lisboa (ou por Marcelo Caetano ou por André Gonçalves Pereira) que é política de Lisboa - desde antanho - aceitar na capital portuguesa embaixadores que sejam residentes em Madrid.

E por isso há embaixadores residentes em Paris, em Roma, mas nunca em Madrid...

De Espanha nem bom vento, nem bom casamento...

Luís Pinheiro de Almeida

ié-ié disse...

"não aceitar", claro, como se subentende.

LPA

Gil disse...

Caro LPA,
Tenho a certeza que o "por qualquer razão que me escapa" é uma subtil ironia de SE para se referir um anti-castelhanismo serôdio e "franconogueiral".

Fenêtre du Portugal disse...

Bom dia

"Sem palavras" ! Eh eh :-)

Continue assim, por favor ! :-)


Mario Pontifice