sábado, 22 de maio de 2010

No Congo

O nosso embaixador dormitava, no avião que o conduzia à cidade onde o presidente daquela república africana o receberia, para a apresentação de credenciais.

Estava-se nos anos 80 do século passado. Pela prática local, os novos embaixadores estrangeiros eram transportados, em avião do Estado, numa viagem de largas centenas de quilómetros, acompanhados do ministro dos Negócios Estrangeiros e de outros titulares elevados na diplomacia local. Isso acontecia porque o chefe de Estado desse país fazia questão de utilizar a sua cidade natal para organizar os atos de entrada formal em funções dos representantes diplomáticos. 

A certa altura, durante a viagem, o embaixador português acordou com uma sonora gargalhada, atrás de si. Era o ministro dos Negócios Estrangeiros, perdido de riso com algo que estava a ler. O nosso diplomata ainda resistiu, por algum tempo, à curiosidade, até porque ainda não tinha confiança com o governante que lhe permitisse, com facilidade, perguntar a razão dessa galhofa. Mas, minutos volvidos, porque a risada continuava, e "como quem não quer a coisa", olhou para trás e identificou o livro que tanto divertia o Ministro: "Tintin au Congo".

Nos tempos de hoje, em que esta obra de banda desenhada de Hergé, já muito antiga (1930/1931), parece votada a entrar no "índex" de algumas instituições culturais, seguindo as sisudas regras do "politicamente correto" que por aí imperam, não deixa de ser irónico que um ministro africano, negro, tenha saudavelmente mostrado como é possível achar divertida uma visão preconceituosa do mundo africano. É que o governante africano - repito, negro - tinha a consciência objetiva de que esse álbum devia, como deve, ser lido no contexto histórico em que foi elaborado.

Às vezes, tenho a sensação de que os zelosos censores contemporâneos parece quererem ser "mais papistas que o Papa". 

9 comentários:

Alcipe disse...

O meu apoio inteiro à defesa de "Tintin au Congo"!

O Kipling é do mais imperialista e racista que se pode encontrar e continua a ser um dos escritores mais populares e lidos na Índia de hoje (só ultrapassado aqui pela Enid Blyton, que também parece que não é politicamente correcta...).

Anónimo disse...

"Acordou com uma sonora gargalhada"

Hum que bom, bem melhor que o despertador...Ou um ritmo biológico insensível e cego que não distingue os Domingos dos restantes dias de trabalho...

Anónimo disse...

Esqueci-me de assinar o comentário anterior
"Acordou com uma sonora gargalhada"
(FSC,Duas ou três coisas:2010)
Irrelevante, a não ser a Sua citação integral...
Isabel Seixas

ECD disse...

Tintin ao Congo é um espanto pelo que tem de retrato de uma época e da relação tecida por muitos europeus com as possessões coloniais Existem duas versões: a 1ª versão, nos anos 1930, em que Tintin dá uma aula de Geografia (Voilá la Belgique, notre mére patrie!) e a 2ª versão em que a aula é de Matemática. Em português, a 1ª edição, saída na então revista Tintin da Bertrand, chamava-se Tintin em Angola.
Sexta-feira, "desenfiei-me" durante uma hora de um colóquio em Louvan-La-Neuve e fui ao Museu Hergé comprar uma edição fac-simile da 1ª versão do Tintin au Congo (... e aproveitando a onda também a Tintin au Pays des Soviets!).
Independetemente do juizo politico que faço sobre Hergé, deu-me gozo contribiur para o politicamente incorrecto!

Gustavo Sampaio disse...

Na revista portuguesa "O Papagaio", de Simões Müller, década de 30, esta história de Hergé foi publicada em vários capítulos e, no processo de "tradução", rebaptizada como "Tintim em Angola", título mais consentâneo com a dialéctica do Estado Novo.

Há tempos, a Comissão pela Igualdade Racial da Grã-Bretanha (súmula de Burgess e Orwell) tentou banir este álbum das livrarias, julgo que sem sucesso.

Anónimo disse...

Oh Gustavo, onde é que você faz as suas mises ?

Gustavo Sampaio disse...

Na peluqueria do David Lynch, algures em Sunset Boulevard...

Anónimo disse...

Nao sabia que o David Lynch agora era cabeleireiro !?...
Isto da 7a Arte esta mau !

Victor Varejão disse...

Meus caros. Onde uns vêm escolhos, outros com outros olhos vêm flores de mil cores. É verdade que o livro tem de ser lido "à época". Mas também não custava nada por um ponto prévio explicandi isso mesmo. Se nos podemos dar bem, porquê dar mal?