terça-feira, 18 de maio de 2010

Irão

O Brasil e a Turquia, dois países que ocupam lugares de membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, acabam de mediar um acordo com vista a reconduzir o Irão a um diálogo com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Ao longo dos últimos meses, o governo de Teerão tinha-se mostrado muito refratário em aceitar os termos de um entendimento que daria à comunidade internacional garantias de que o respetivo projeto nuclear tem fins pacíficos e não se destina a abrir caminho à sua utilização com finalidades militares.

O Irão tem agora uma oportunidade soberana para demonstrar a sua boa vontade e o seu interesse em atuar em conformidade com as regras impostas pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear, de que foi subscritor. Se o não fizer, e se acaso vier a optar por processos que possam ser vistos como dilatórios no cumprimento dessas regras, o Irão confirmará todas as suspeitas que muitos países ainda mantêm quanto à sua vontade efetiva de cumprir as regras da AIEA. 

Porém, mais importante do que isso, Teerão poderá vir a perder a boa vontade de alguns países - como é, manifestamente, o caso do Brasil e da Turquia - que, ao lhe proporcionarem este entendimento, lhe permitiram ganhar tempo e obter uma nova oportunidade. Esses países, para quem o empenhamento neste processo tem algum preço político, não estarão dispostos, com toda a certeza, a pactuar com novas justificações iranianas, destinadas a não darem cumprimento àquilo a que agora se comprometeram. Seria a própria credibilidade de tais países que ficaria inapelavelmente em jogo.

Os três Estados ocidentais (EUA, Reino Unido e França) que, com a Rússia, já se  haviam mostrado abertos à fixação de um regime sancionatório contra o regime iraniano, no âmbito da ONU, por virtude do incumprimento de anteriores compromissos por parte de Teerão na matéria, olham agora este entendimento com alguma suspeição, porque, de certo modo, ele pode colocar em causa o seu anterior calendário de fixação das sanções. Porém, vistas as coisas de outro modo, esses mesmos países podem vir a recolher de uma nova recusa iraniana um argumento, desta vez decisivo, para levarem a cabo a imposição de tais medidas. É que, na hipótese de isso acontecer, vê-se mal como muitos dos Estados que, até agora, se têm mostrado compreensivos ou complacentes para com Teerão poderiam, com um mínimo de legitimidade, vir a opor-se à imposição de sanções. Em especial, esse é o caso da China, que tendo um potencial direito de veto do Conselho de Segurança, tem vindo a condicionar. desde há meses, o desenho de tal regime sancionatório.

9 comentários:

Alcipe disse...

Sensata análise! Dar o benefício da dúvida à iniciativa turco - brasileira, o ónus da prova ao Irão, a pedra de toque à AIEA e as consequências a tirar ao Conselho de Segurança... O resto é precipitação ou facciosismo!

Anónimo disse...

wishful thinking...

Gil disse...

Não foi só "com alguma suspeição" que a Administração americana reagiu ao acordo, foi com aberta hostilidade. Washington vem, como fez durante a escalada que levou à sangrenta aventura iraquiana (embora um desfecho da mesma natureza esteja fora de qualquer hipótese)a usar a retórica dos "actos, não palavras" com que o Irão deveria provar as suas intenções não-belicistas.
Claro que os EUA a Rússia não poderão deixae de aceitar o acordo, pelas razões que o Embaixador claramente expõe no post.
Mas nas reacções imediatas de Washington transparece uma grande irritação contra o Brasil e a Turquia que "ousaram" substituir-se aos do costume.
O que o acontecimento pode ter de verdadeiramente histórico é a definitiva entrada do Brasil na política global como uma força incontornável.
E isso só pode ser bom para o Mundo.

Anónimo disse...

Excelente comentário político, este Post. Sensata análise, como diz Alcipe. E gosto de ver o Brasil a jogar no tabuleiro internacional. Aos poucos, esse grande país vai-se posicionando como um actor importante (e se calhar um dia, incontornável, quem sabe!) na cena política mundial. Fico satisfeito por isso. Quanto ao Irão, oxalá seja capaz de agarrar esta oportunidade.
P.Rufino

Alcipe disse...

@Gil: Paris ainda me pareceu mais irritado que Washington...

Anónimo disse...

Já vens tarde xico...

http://sic.sapo.pt/online/noticias/mundo/Conselho+de+Seguranca+da+ONU+reune-se+de+urgencia+para+estudar+novas+sancoes+contra+o+Irao.htm

Alcipe disse...

Afinal a iniciativa turco-brasileira foi morta no berço. Se os EUA conseguiram a Rússia e a China para o lado do apoio às sanções, então parece que os nossos amigos turcos e brasileiros ficaram isolados...

Alcipe disse...

Em Brasília, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se queixou de que as potências nucleares no Conselho de Segurança não deram sequer "um mínimo de tempo" para examinar o entendimento anunciado com o Irã no dia anterior.


"Se no dia seguinte à assinatura de um acordo sanções já são apresentadas, isso quer dizer que a espera era por protocolo", disse Amorim. "Pedimos um mínimo de tempo para a análise."

(do ESTADO DE SÃO PAULO)

Anónimo disse...

eu avisei: wishful thinking...