quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cunhal e o Protocolo

Álvaro Cunhal (retratado acima pelo genial olhar fotográfico do meu amigo Alfredo Cunha) foi uma das mais controvertidas personalidades da vida contemporânea portuguesa. Secretário-geral do Partido Comunista Português durante várias décadas, projetou uma forte imagem pessoal que quase se confundia com aquela força política. A História do nosso país, no século XX, não se fará sem ele, embora muitos achem que acabará por se fazer contra ele.

A biografia de Álvaro Cunhal é objeto de uma obra, ainda inacabada, de José Pacheco Pereira - ela própria, também, um estudo com contornos polémicos, no qual Cunhal e o seu partido se recusaram a colaborar, sendo embora, na minha opinião, um documento indispensável (ia a escrever "incontornável", mas temi algumas vozes indignadas contra o vocábulo) para se entender a história política portuguesa do século XX.

Acaba agora de ser publicada uma memória sobre Álvaro Cunhal, escrita por Carlos Brito, uma das figuras marcantes do comunismo português, resistente contra a ditadura e, no período democrático, personalidade proeminente que chegou a ser candidato à presidência da República. Trata-se de um trabalho interessante, feito à luz da proximidade do autor com o líder comunista, que nos revela algumas facetas desconhecidas da sua personalidade, embora mantenha muito da tradicional reserva de quem quer, no essencial, permanecer leal àquela área política.

Vários testemunhos comprovaram, ao longo dos anos, que Cunhal, sendo embora uma figura de rutura em muitos domínios da vida política, era muito cuidadoso com as facetas exteriores da imagem do Estado, que respeitava com grande escrúpulo. Daí que as simples questões protocolares, porque as entendia com um simbolismo significativo, o preocupassem sempre.

Carlos Brito, a certo passo do seu livro, revela que, um dia, um deputado comunista, indicado para acompanhar uma visita oficial ao estrangeiro, anunciou que não ia utilizar gravata, não obstante as regras protocolares recomendarem um traje formal em certas ocasiões da deslocação. A persistente resistência do deputado fez subir o assunto a níveis mais elevados de decisão.

O deputado foi, assim, chamado a uma conversa na sede do partido. A certo passo da reunião, Cunhal entrou inopinadamente na sala e, como forma de reforçar os argumentos de quantos pretendiam demover o deputado da sua irreverente teimosia, foi pedida a opinião do secretário-geral sobre o assunto.

Depois de ouvir as "partes" e refletir sobre as regras que eram exigidas, Álvaro Cunhal fez notar que, tratando-se de um país africano, era comum, como alternativa às roupas protocolares europeias, o uso de trajes tradicionais em cerimónia oficiais. E acrescentou: "Ora nós temos trajes tradicionais muito bonitos, por exemplo, os minhotos". E logo adiantou: "O nosso camarada podia ir vestido de minhoto e evitava-se a gravata. Até podemos telefonar já aos camaradas de Viana a encomendar um fato".

O pânico terá irrompido na cara do relutante deputado, que concedeu de imediato: "Não é preciso, não é preciso, eu vou comprar a gravata".

9 comentários:

Anónimo disse...

Não sou crítico fotográfico, mas a fotografia em questão, segundo o contexto (da época ou do "texto"), tanto pode servir para fomentar o culto da personalidade, como para o combater.
A apresentação do livro do Carlos Brito pelo Manuel Alegre foi excelente.
Logo que tenha tempo, vou voltar a escrever sobre o assunto.
CP

Santiago Macias disse...

Há sempre remédio para essas atitudes de "rebeldia". Há uns anos recebi, durante uma missão no estrangeiro, um convite da embaixada de Portugal. O meu companheiro de trabalho naquela ocasião, figura bastante conhecida (e que o senhor embaixador conhece pessoalmente), é bastante avesso a tudo o que soe a "fato" ou "gravata". Veio pedir-me conselho, embora eu seja bastante mais novo. Respondi-lhe: "A solução é fácil. Ou vais de fato ou de vestido curto. Mas acho que um vestido curto te deve ficar pessimamente..". Funcionou. Foi de fato e com uma camisola de gola alta, à Capitão Iglo.

Fenêtre du Portugal disse...

Boa noite

Também acho evidente, e até lógico, que "a História do nosso país no século XX, não se faça sem ele", e concordo do mesmo modo com o "embora muitos achem que acabará por se fazer contra ele".

Nem sempre as visões dos humanos conseguem atingir o nível de abertura necessário para ultrapassar os dogmas.


A anedota da gravata mostra porem que o dito não sofria de uma total carência de psicologia :-)


Mario Pontifice

Anónimo disse...

Pois eu sempre gostei do "Dr.cunhal"

Sem me preocupar na razoabilidade desse gostar... Nâo é cegamente, nem sinónimo identitário de identificar de modo algum...
É admiração pelo culto da genuinidade quase compativel com o percurso de vida e coerência com os Seus valores é a proximidade entre o que se diz e o que se faz...E coerência e congruência...

Nunca me tinha apercebido da sensualidade... Mérito do olhar?!
Ou da genialidade do fotógrafo...

Pois fará sempre parte da história do "Meu País" ...Nem contra nem a favor Simplesmente a insustentabilidade do Ser e do É.

Claro que vou comprar o livro até ainda antes do Buda cego.
Isabel Seixas

José Barros disse...

Há questões de princípio e questões de princípio. Mas nem sempre o hábito faz o Monge!

Anónimo disse...

Álvaro Cunhal, gostando-se ou não dele – eu gostava e tinha respeito por ele, sem todavia ter de simpatizar com as ideias políticas que defendia, são coisas distintas – possuía uma qualidade, que hoje em dia vai sendo rara, se não mesmo raríssima, num político: quando falava em público, o que fazia poucas vezes, ou dava uma entrevista, o que também era pouco frequente (Cunhal sabia “dosear” muito bem o impacto da sua presença e das suas palavras) e mesmo sabendo-o com um discurso algo repetitivo, as pessoas escutavam-no, mesmo que depois discordassem, ou o criticassem. Suscitava interesse em querer ouvi-lo. Havia algo de magnético nele, aquela personagem dura e fria exercia um certo fascínio que nos impelia a ouvi-lo. E num debate era acutilante, por vezes cáustico, mas sempre mantendo uma postura educada para com os seus opositores. Nunca se excedia. Sabia controlar-se, mesmo numa discussão acérrima com um opositor, ou perante uma pergunta mais hostil, que por vezes, nessas ocasiões, lhe colocavam. Recorrendo, alguma das vezes, a um sorriso malicioso para desarmar o jornalista, ou oponente, acompanhado de uma ou outra palavra, curta, a desmentir a crítica. Tinha elegância.
Hoje, já não políticos assim, que nos levem a ouvi-los com interesse, com paixão, mesmo se essa paixão seja por razões opostas aquilo em que acreditamos. Às vezes acabamos por lhes ter de dar atenção por outras razões, pelo impacto de decisões nas nossas vidas, actuais, ou futuras. O que é – substancialmente - diferente. A mesma diferença, quiçá, entre um político e um Político. Cunhal pertencia a esta última categoria. Naturalmente, na minha mais do que modesta opinião. E soube sair de cena, percebendo que tinha envelhecido, como poucos, ou raros serão capazes hoje. Com discrição e classe. E quando desapareceu, aqui há uns anos, ainda me recordo da multidão que ali esteve a despedir-se dele. Impressionante. E não quero crer que fossem apenas simpatizantes do seu partido. O homem foi uma figura. Que ainda hoje é respeitada, mesmo por aqueles que o detestavam politicamente. Respeitam-lhe, entre outras coisas, a sua coerência, uma outra qualidade que, aos poucos, “vai caindo em desuso”, actualmente. É obra, num Político como ele foi, defendendo o que defendeu. Que acreditava realmente naquilo que defendia. O que, também hoje, vai rareando. Defendem-se valores, ideias, ou propostas, muita das vezes porque são “vendáveis” politicamente, ficando-nos por vezes a impressão que nem mesmo os seus proponentes acreditam nelas. Havia, em Cunhal, um certo estoicismo, digamos. Que já não há. Uma certa erosão de valores tem vindo, gradualmente, a substituir a prática de alguns anos atrás, na política “moderna”. Mas, se calhar estou enganado, ou acordei algo céptico em relação ao mundo!
Por isto tudo, estou curioso em ler este livro sobre ele, de Carlos Brito.
P.Rufino

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Com efeito, Álvaro Cunhal foi um dos grandes protagonistas da História portuguesa em várias conjunturas políticas. Foi um notável humanista, de filiação ideológica conhecida, com uma obra estética e literária ímpar. Apesar do seu modelo dogmático, pró-soviético, foi um Homem de convicções firmes que lutou pelos seus ideais.

Contudo, como nos diz, nesta nota hilariante enunciada do testemunho memorialista de Carlos Brito, A. Cunhal defendia uma estrutura partidária centralista e formalista que se associava à sua forte personalidade.

Continuam a fazer falta os registos memorialistas dos Homens de esquerda para a História política do século XX, pois das obras mais recentes do género lembro-me das seguintes: de Almeida Santos, de Rosado Fernandes, de Freitas do Amaral, de Adriano Moreira, etc).

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

sara disse...

Sr Embaixador pelo menos Obama acabou de vez os protocolos com venias e beijas mãos aquando da visita a Isabel lI. Ora dá cá um abraço, beijinhos e a mão no ombro.
Educação e respeito ou se tem ou não. Os protocolos fazem-se e desfazem-se como tudo na vida.

Helena Oneto disse...

Alvaro Cunhal foi, incontestávelmente, o mais carismático lider político da oposição ao Salazarismo. E, como dizia a minha Tia Luisa (que não era comunista) um homem muito interessante!