segunda-feira, 24 de maio de 2010

Artur Agostinho

Há algumas poucas pessoas que atravessam gerações. Artur Agostinho, que acabo de ver na televisão, há minutos, a receber um "Globo de Ouro", é uma dessas figuras. 

Artur Agostinho parece estar conosco desde sempre. Lembro-me dele no "Leão da Estrela" (sempre Leão!) com António Silva, dos clássicos relatos de futebol na Emissora Nacional com Nuno Brás ("Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local onde nos estiverem a escutar" ou "E passo às Antas! Alô Nuno!"), da voz que, do pavilhão de hóquei de Montreux, nos fazia "ver" os golos de Jesus Correia e Correia dos Santos, do relato épico da chegada do "Santa Maria" ao Recife (lembro-me, muito bem, dessa noite de 1961), de como interrogava com graça no "Quem sabe. sabe!", ao lado de Gina Esteves, de representar, também nos primórdios da RTP, o divertido barbeiro sr. Gaspar, com Camilo de Oliveira. Pelo caminho foi um ativo jornalista desportivo e profissional da publicidade, além de outras atividades em que se envolveu. 

A Revolução tratou-o muito mal, caricaturou-o como imagem do regime caído no 25 de Abril, inventou-lhe cumplicidades e obrigou-o a emigrar. Deixou então escrita, em páginas que revelavam uma pessoa ferida, essa sua natural acrimónia com um certo Portugal. Mas soube "dar a volta". Reapareceu na vida portuguesa, andou pelo teatro, fez figuras patriarcais em telenovelas, para além de outras incursões públicas que devo ter perdido, por estar ausente do país. O sorriso de Artur Agostinho, que conhecemos desde os tempos das anedotas da rádio e da televisão, é hoje um valor estimável do nosso património de memória afetiva.

Não somos suficientemente ricos em personalidades públicas para que nos possamos dar ao luxo de não acarinhar figuras como Artur Agostinho.

Em tempo: na cerimónia, foi prestada também uma homenagem especial a Raul Solnado. Com o tempo, nós, os amigos do Raul, sentimos uma crescente tristeza, saudosa da sua alegria.

11 comentários:

causa vossa disse...

Sem dúvida um dos representantes do bom e intemporal Portugal!

Guilherme Sanches disse...

Conheci-o pessoalmente em 1969. No tempo em que era preciso serviço militar "comprido" para o que quer que fosse(quem disse que a dificuldade de arranjar emprego é só de hoje?), era eu ainda meio teenager quando resolvi concorrer à então Emissora Nacional, picado pelo bichinho da rádio, que em Coimbra me valera uns bons chumbos.
Chegado a Lisboa, alguém me terá dito, ou imaginei eu que talvez falando com Artur Agostinho fosse uma boa via de acesso.
E foi.
Fiquei surpreendido pela sua pequena estatura, recebendo-me com extrema amabilidade. Deve ter achado simpática piada a um puto completamente anónimo ter a lata de ir falar com ele à empresa de publicidade que então tinha.
Creio que terá falado com a Maria Leonor, que a seguir me entrevistou.
Chumbei.
A minha promissora carreira radiofónica terminou ali mesmo, mas fiquei sempre com a grata lembrança de alquém que, apesar do resultado, me fez sentir gente.
Obrigado, se na altura lhe não agradeci.

Anónimo disse...

"O sorriso de Artur Agostinho..."

"Nós,
Os amigos
Do Raul,
Temos uma crescente Tristeza
Saudosa da sua alegria"
(FSC:2010)
A vantagem de Ser Só admirador à distância é poder sentir ternura sem luto.
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

O seu texto Senhor Embaixador revela uma vez mais aquilo que tanto aprecio em si. O sentido da justiça e dos afectos. Para além de todas as ideologias!
É um gosto ler a singeleza deste texto!

Helena Oneto disse...

Lembro-me muito bem de ver o Artur Agostinho na televisão e de alguns dos programas citados que ele animou. O globo que lhe deram é bem merecido. Ao ler o artigo do Público, fiquei sensibilisada com a homenagem a Raul Solnado que conheci, ha mais de 50 anos, na casa da Lapa. O Raul era primo direito da minha tia Ermelinda, mulher do meu tio Fernando). Recordo-me de serões animadíssimos com ele, com o Jaime Mourão Ferreira e tantos outros que já nos deixaram.

Também fiquei contente de saber que Rui Morrison (que conheci nos meus “teen” e por quem tive um béguin) recebeu o globo de ouro do melhor actor de cinema.

Que de beaux souvenirs, grâce à vous, Senhor Embaixador!!

Helena Sacadura Cabral disse...

Helena O. que boas recordações me trouxe com o seu comentário.
Conheci todos e bem me ri com eles!

Helena Oneto disse...

Helena,

Alguns desses serões acabavam para mim, ainda a horas decentes, na "Outra face da lua" e para eles, numa boîte do bairro azul perto da casa do Raul...

CARLOS disse...

Meu caro

Lembro-me quando fomos ao funeral do comendador Guilherme, aqui, em Brasilia, você comentou, em voz baixisma,o inusitado de estarmos a homenagear um salazarista confesso, para arrematar que ele simbolizava a comunidade e a dedicação a ela, para lá das convições políticas.

Carlos Cristo

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Com este seu post, que boas recordações me trás dos meus tempos de "menino e moço", nos meus bons velhos tempos da antiga Emissora Nacional de Radiodifusão, que daria para estar aqui, quase eternamente, a recordar...

"Se bem me lembro", naquele tempo, nos finais da década de 60 (1967), Artur Agostinho e Pedro Moutinho faziam o "Diário Sonoro", das 13 horas, enquanto a saudosa Maria Leonor alinhava nos gravadores AMPEX as entrevistas e reportagens por si feitas para serem transmitidas.

Num dia chuvoso, estava eu, nos Estúdios da Rua do Quelas, 2, de serviço à "consolette" a dar assistência técnica ao programa, e Artur Agostinho conduzia o Noticiário, com o Pedro Moutinho, como palestrante, na frente dele.

De repente, enquanto o Pedro Moutinho lia uma notícia um pouco extensa, com o microfone aberto, o Artur Agostinho, sorrateiramente, teve a ideia pregrina de abrir um chapéu de chuva e colocá-lo na mão do Pedro Moutinho, sentado à sua frente, no outo lado da mesa de locução.

À cautela, aproveitou a brevíssima pausa para fechar o microfone, para não sair para o ar uma explosiva gargalhada do Pedro Moutinho, como era seu hábito.

Na régie, a acompanhar a leitura do Diário Sonoro, estava o regente, Odílio Rebelo, que, ao aperceber-se da pausa, de imediato, veio a correr ao Estúdio ver o que, entretanto, se estava a passar, enquanto que a Maria Leonor, de tanto rir, quase que ia sufocando...

Que saudades, Meu Deus!

Mas era assim a camaradagem na antiga Emissora Nacional!

No Serviço Ultramarino, na Rua de São Marçal, o ambiente ainda era bem mais divertido e, por vezes, bem mais pesado, mas que, por razões óbvias, não vou revelar aqui.

Artur Agostinho, sempre foi um grande Senhor da nossa Rádio com quem muito aprendi, assim como com Pedro Moutinho que até me tratava por irmão e, ainda, hoje, guardo com muita saudade, na minha moradia, em Sesimbra, a prenda que me ofereceram quando me casei, com 21 anos. Tudo uma ideia da saudosa Maria Leonor que, também, colaborou e fez a compra da bela peça de cristal. Um belo candeeiro, que está, em cima da minha secretária com a fotografia dos quatro!

Mais uma vez, Bem Haja, Artur Agostinho!

Mesmo, já no outro mundo, na eternidade, portanto, fora do nosso convívio, Bem Hajam, Pedro Moutinho e Maria Leonor!

As saudades daqueles tempos são de arrasar, mas a vida é assim mesmo, tem que continuar e continua!

Porque a emoção é muito forte, tenho que me quedar por aqui.

Bem Haja, Senhor Embaixador, por mais esta bela postagem!

Em boa verdade, concorde-se ou não, recordar ainda é viver!

Paulo M. A. Martins

super jane disse...

Peço por favor ao "anónimo" que postou o seu comentário sobre a Emissora no Quelhas que me revele um pouco mais sobre o meu pai : Odílio Rebelo, visto que é a primeira vez que encontro informação sobre o meu pai ( que perdi tinha sete anos!...). Lembro-me de passear com ele nos corredores da Emissora no Quelhas e de entrar sorrateiramente nos estúdios, do estúdio do piano, etc. Por favor se vir este comentário ajude-me pois tenho muita curiosidade em saber mais sobre o meu querido pai que eu adorava!...

super jane disse...

Peço por favor ao "anónimo" que postou o seu comentário sobre a Emissora no Quelhas que me revele um pouco mais sobre o meu pai : Odílio Rebelo, visto que é a primeira vez que encontro informação sobre o meu pai ( que perdi tinha sete anos!...). Lembro-me de passear com ele nos corredores da Emissora no Quelhas e de entrar sorrateiramente nos estúdios, do estúdio do piano, etc. Por favor se vir este comentário ajude-me pois tenho muita curiosidade em saber mais sobre o meu querido pai que eu adorava!...