sábado, 1 de maio de 2010

"1º de Maio vermelho"

Hoje, vistas as coisas à distância, tudo nos parece ridículo, mas, há 36 anos, a ameaça feita pelo MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) de fazer um "1º de maio vermelho", com alguma possível violência à mistura, assustou o Movimento das Forças Armadas (MFA). Alvo crescente da repressão policial, o MRPP fora já responsável, nos meses antes de Abril, por algumas ações de rua, dedicadas à luta contra a guerra colonial, com confrontos relativamente fortes.

O anúncio dessa movimentação no Dia do Trabalhador havia sido feito ainda antes do 25 de Abril, mas todos estávamos conscientes que os "eme-erres" haviam interpretado o golpe militar como um mero rearranjo de "forças da burguesia", sem qualquer impacto nos "interesses profundos das classes trabalhadoras". E o facto de insistirem em organizar uma forte movimentação no dia 1 de Maio, não obstante ter entretanto ocorrido o movimento democrático do 25 de Abril, não sossegava alguns militares.

Não cabe aqui, por ora, fazer o historial do MRPP, um grupo criado em 1970 e com uma génese diferente da dos restantes movimentos que, em Portugal, se reclamavam do maoísmo. Muito ativo no meio académico, com particular expressão em Lisboa, dispunha de uma simpatia clara em sectores da imprensa, bem como em algumas estruturas sindicais de serviços. Conhecido por um grafismo colorido, que se espalhava por folhetos, jornais clandestinos e por muitas paredes, o MRPP era, visivelmente, a principal força política que não saudara a Revolução.

A circunstância de ter o Partido Comunista Português como um alvo prioritário da sua ação, antes e após o 25 de abril, levaria algumas forças bem mais conservadoras a ver o MRPP com alguma simpatia tática, que ficou bem patente nos primeiros anos da Revolução de Abril. A posterior evolução política de alguns antigos membros do MRPP viria a provar que essa aliança tinha também algo de potencialmente estratégico. Para simplificar, e citando a análise da minha amiga Diana Andringa, ela própria ex-MRPP, há a perceção de que a grande maioria de quantos eram seus militantes antes do 25 de Abril acabou "à esquerda" na vida política portuguesa; os que aderiram após o 25 de Abril, muito marcados que foram pelo combate ao PCP, tenderam maioritariamente a fazer uma opção mais conservadora. Esta conclusão pode não ser uma verdade absoluta, mas é capaz de ser a base para uma boa leitura.

Mas voltemos ao 1º de Maio de 1974. O ambiente de confiança que o 25 de abril criara no país poderia ser afetado, na perspetiva de alguns dos militares por ele responsáveis, se acaso o MRPP viesse a promover algumas ações violentas. A confiança pública na Revolução e a própria estabilidade que o país pretendia projetar externamente poderiam ficar em causa se viessem a ocorrer incidentes graves. Que fazer, então? Talvez  seja difícil de acreditar nos dias de hoje - depois do que efetivamente se passou em Portugal, no dia 1º de maio de 1974 - mas uma ideia inicial, que chegou a ser pensada em meios militares, foi tentar encontrar uma maneira de evitar que os portugueses saíssem de casa nesse dia... 

Com o objetivo de tentar discutir a utilização da RTP com esse objetivo, o MFA convocou uma reunião para a Escola Prática de Administração Militar (EPAM), no dia 27 de Abril. Nela reuniu um impressionante grupo de intelectuais, num "brainstorming" chefiado pelo capitão Teófilo Bento, com António Reis e eu próprio a acolitá-lo. Pela sala espalhavam-se figuras como Luis de Sttau Monteiro, Mário Castrim, Luis Francisco Rebelo, Álvaro Guerra, Manuel Jorge Veloso, Manuel Ferreira, Adelino Gomes, Orlando da Costa e creio que duas ou três dezenas mais de figuras cimeiras da nossa vida cultural e jornalística. O debate foi longo, as propostas choveram sobre o modo como a televisão podia vir a ser utilizada para "trabalhar" os primeiros tempos da Revolução. Porém, a ideia de a tornar um instrumento para evitar a saída às ruas no 1º de maio foi, ao que me lembro, rapidamente abandonada. Era, de facto, uma mera questão de bom senso...

Para a história, convém apenas notar: o MRPP lá comemorou, a partir do Rossio, o seu "1º de maio vermelho". Com muitos slogans e sem violência. E o 1º de maio de 1974 acabou, para todo o Portugal, por ser uma coisa bem diferente, como todos recordam.

15 comentários:

Anónimo disse...

Só conheci verdadeiramente o MRPP em 1976 através do Teotónio
um colega de liceu do 5º ano que me chamava UDpide(grande parvo conseguia deixar-me solenemente irritada, tinha a mania que era melhor, que ser da UDP).
Efectivamente Ele consolidou a imagem mais clara que o Sr. deixa neste post a de trabalhador emigrante nos estados unidos...
Claro que sinto uma ternura enorme reminiscente sempre lhe perdoei, coitado ele como muitos tinha dificuldade em lidar com a diferença das escolhas... Pensam que só as Deles são boas!!!
Nota-se...
Enfim
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Que post tão oportuno, que nos traz à memória amigos comuns e outros "menos comuns".
E que relembra, aviva, o poder que uma televisão pode ter. Mas isso, nesta altura, seria politicamente incorrecto discutir...
Prefiro relembrar um dos amigos que mais falta faz à tv que temos: o Mário Castrim.
Felizmente dos que citou muitos continuam vivos. Alguns, porém, com presente duvidoso...
Ah! E faltou mencionar, na esquerda(será?), algumas moçoilas do MRPP!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: A minha memória tem limites...

Julia Macias-Valet disse...

A proposito de MRPP...o que é feito de (libertaçao imediata do camarada) Arnaldo Matos ? Nao se esqueceu dele pois nao ? ; ))

Eu sempre que ouço falar que alguém esta a fazer greve de fome, lembro-me de Arnaldo Matos (ha coisas que marcam as crianças) !

Julia Macias-Valet disse...

Outro 1° de Maio,

http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/

sem reboliços !

Anónimo disse...

Oh! Júlia
Deu-me o mote...

Outro 1°,1º de Maio...

Que se impunha aliás...
E é o 1ºA essência e génese.

A trabalhadora
Silenciosa
oportuna
Mestre

Mãe
libertadora
Dos tédios
Castradores
Constantes
Assédios

Vive...
Na jarra
De flores
Na panela
De todos
Até favores
Persegue o pó
Masculino sem dó

Faculta
Os sentidos
Todos
que os engodos
Mantêm
Deliberadamente
Escondidos

Doméstica
Sem poder
Sem ganhar

Sapata
Alicerce
Pé direito
Cujo único proveito

É sem receber!!! Amar...

Mãe,
Necessidade humana básica
Mais que O respirar como te Amo...

Tu
Quase...
Sozinha
Deste
E continuas a dar
O Abril
E o Maio
Em toda a Nossa Vida
Em Ti Nunca Esquecida
O maior
Obrigada

Tua filha

Isabel Seixas

Sr. Embaixador
Viva o 1º de Maio
Viva o Dia da Mãe
Aqui de todos... Todos
Os trabalhadores
Claro embaixadores...


Obrigada D. Rosa(Adorei a mudança a dos casacos de inverno pelos de verão, e o odor novo de limpo que a senhora me deixa em compensação)

Obrigada ao Zé António e à Ana, ao Luis Fraga E Isabel Salavisa que me mostraram e desvendaram Abril preservando a Nossa identidade...
Em 1975 em campanhas de alfabetização Alfacinhas Pró Transmontanos
Como Vos Respeito

Anónimo disse...

1 de maio no brasil é uma piada
Lula o garoto propaganda da Dilma

Brasil um pais de todos
Seria de todos
Se não houvesse
Um grande desrespeito
De nossos governantes
Para com o povo
Que sofre cada vez mais
Com a corrupção instalada
No colo da democracia
São tantas denuncias
Recheadas de declarações
Que não chegam a lugar nenhum
A comissão foi nomeada
E no palanque desta casa
Vimos uma justiça cega, surda e muda
Atuando apenas como quadvante
Em um teatro aonde a ética é contestável
E os atores principais são absolvidos
Com o voto secreto.

Peterson Correa Pimentel
www.terceiromundo.spaceblog.com.br
http://lacomunidad.elpais.com/del-tercer-mundo

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador se, um dia, nos voltarmos a encontrar, que boas gargalhadas iremos dar.
Eu, de bengala, o Embaixador já reformado, o país já sanado, a rapaziada já meio olvidada...e nós com memória de elefante.
Discordaremos nuns pontos, mas riremoa a bom rir em muitos outros. Porque amigos comuns me dizem que ambos temos um enorme sentido de humor.
Deus permita!

Anónimo disse...

Correndo o risco de ser uma voz dissonante no coro dos que, esquecidos dos calafrios, provocados pelo MRPP, que sentiram nos anos de brasa (antes e depois do 25 de Abril)e que tem algum reflexo no post e, sobretudo, na maioria dos comentários, gostaria de sublinhar duas ou três coisas de entre as muitas dezenas que se poderiam dizer:
1-Antes do 25 de Abril, só o MRPP quebrou o monopólio do PCP no que se refere a comemorar o 1º de Maio. O slogan "O Primeiro de Maio é Vermelho" não nasceu em 74, já fora utilizado pelo menos 4 vezes antes; não se viam nas ruas outras organizações de esquerda, muito activas, combativas e militantes mas só depois de Abril de 74.
2-Foram as tentativas grotescas para arrumar o MRPP como "os meninos rabinos" falharam e só a primeira repressão em massa depois do 25 de Abril, a prisão simultânes, sem aviso prévio e sem formalismos legais, de centanas de militantes do MRPP e a escolha como inimigo principal pelo PCP e pela futura UDP - que não existia na altura, é bom lembrá-lo - atirou o MRPP para a margens do frentismo de esquerda.
3-É bom que certas memórias se mantenham, sobretudo as que fogem ao conformismo do politicamente correcto e do pensamento único e formatado.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo: as suas memórias também são bem vindas a este blogue

Gil disse...

Tomo nota do "por ora" na frase "Não cabe aqui, POR ORA, fazer o historial do MRPP".
Espero lê-lo, quando for a altura.
A propósito: algumas das coisas que o Anónimo a que responde diz, são judiciosas.
E, já agora, se há exemplos conhecidos de ex-militantas do MRPP que fizeram "uma opção mais conservadora", que lance a primeira pedra o Partido de esquerda em que isso não sucedeu.
E alguns têm ex-militantes com essa opções que aderiram e militaram antes do 25 de Abril.
Essas derivas não podem servir para a colocação dos partidos que foram abandonados na parte direita do chamado espectro partidário. Ou, então, não partidos de esquerda em Portugal.

Anónimo disse...

Caro Gil: talvez possamos aprofundar um pouco sobre o MRPP no dia 18 de Setembro, data em que o Movimento fará 40 anos. Falando então de uma célebre reunião no Palácio Fronteira onde algumas águas se dividiram, da EDE (já se pode ou ainda é ofensa?), do primeiro "Bandeira Vermelho" (tenho um exemplar!), da "tomada" de "O Tempo e o Modo", etc. Mas - se não se importar - também se falará abertamente de algumas estranhas alianças e de ligações politicamente bem pouco "honorables". E, já agora, gostava de lembrar que não é com os defeitos dos outros que se absolvem os próprios.

Francisco Seixas da Costa

Gil disse...

Senhor Embaixador,
Sem querer entrar em diálogo (e já estando a fazê-lo) gostaria de acentuar que não pretendo absolver quem quer que seja seja do que for. Apenas acho curioso que, sistematicamente, sejam referidas as "errâncias" de ex-MRPP que derivam para a direita e isso nunca se faça a propósito de outros partidos.
Já agora, o mesmo se aplica a alianças estranhas e a estranhos desencontros de que estão recheadas histórias partidárias e organizacionais.
Deixe-me terminar citando um aforismo chinês divulgado por um conhecido político oriental: "Apoiar tudo que o inimigo combate e combater tudo o que o inimigo apoia. Recuar se o inimigo avança, flagelar se o inimigo estaciona, atacar se o inimigo está cansado, perseguir se o inimigo se retira."

Anónimo disse...

Caro Gil: Vou procurar o link para você fazer o download dessas citações para o seu iPod... É que, como bem se lembra, isso ainda não existia quando fomos (fomos?) a Cantão, já lá vão (precisamente)duas décadas e quase um mês...

Francisco Seixas da Costa

para mim disse...

Disse-me o Otelo um dia: "Um golpe de estado tem de ser numa noite de terça para quarta ou de quarta para quinta. Porquê? Para haver tropa! O 16 de Março falhou porque foi de sexta para sábado". Ora, como o golpe Spinolista tinha de ser antes desse tal 1º de Maio Sangrento, qualquer adido militar em Lisboa sabia então que o último dia disponível para o golpe ter sucesso seria noite de quareta para quinta-feira, 25 de Abril. O 1º de Maio seria já numa quarta-feira... Daí o facto do anúncio do embaixador norte-americano ir estar fora de Lisboa ter saído a 7 de Abril. Já sabiam...