quinta-feira, 29 de abril de 2010

Aristides Sousa Mendes

O exemplo de Aristides Sousa Mendes, o diplomata português que salvou milhares de refugiados ao tempo em que era Cônsul em Bordéus (a imagem é das intalações consulares portugueses), foi ontem evocado numa muito concorrida sessão que organizámos na Embaixada em Paris, com uma exposição documental e bibliográfica e a apresentação de três novos livros sobre o diplomata. 

Um neto de Aristides Sousa Mendes, Geraldo Mendes, o escritor Eric Lebreton e Manuel Dias - figura que, desde há anos, desenvolve um relevante trabalho de memória em torno do antigo Cônsul português em Bordéus - intervieram perante um público atento e interessado.

Pela minha parte, aproveitei para falar um pouco sobre o meu "colega" Aristides Sousa Mendes, do modo como as Necessidades o viam no passado, bem como da forma como hoje é visto naquela casa. E também referi a imensa solidão que deverá ter sentido um homem no seio de um regime que abertamente até então apoiava (coisa de que muito poucos falam) e contra cujas ordens sentiu, a certa altura, o dever de se rebelar por um muito estimável sobressalto ético. 

Falei igualmente de um tema que outros procuram esquecer, crendo-se absolvidos por atitudes de tempos mais recentes: da oposição ao Estado Novo, que nunca teve uma palavra de apoio para com o diplomata ostracizado pela proteção dada aos refugiados que fugiam da barbárie nazi. Para concluir que Artistides Sousa Mendes não é uma personalidade ideológica, "propriedade" da esquerda ou da direita, mas apenas um homem simples que, revoltado e emocionado pela tragédia, colocou a dignidade à frente do dever formal de obediência a uma ordem injusta.

Aproveitei a ocasião para saudar duas personalidades, por quem tenho admiração e amizade, e que, tal como Manuel Dias, têm vindo a desenvolver, no estrangeiro, um louvável, generoso e dedicado trabalho de realce da figura de Aristides Sousa Mendes: João Crisóstomo, nos Estados Unidos, e Paulo Martins, no Brasil. É muito graças a pessoas como eles que a memória de Sousa Mendes se mantém viva e exemplar para as novas gerações. Em especial para os nossos diplomatas.

16 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

Por incrivel que possa parecer enquanto vivi em Portugal nunca ouvi falar neste homem (ignorância minha certamente).
Foi um amigo francês que me falou pela primeira vez (ha 10 anos atras sensivelmente) de Aristides de Sousa Mendes e que me emprestou o livro "Aristides de Sousa Mendes - Le Juste de Bordeaux" de José-Alain Fralon, o qual retraça a vida do Consul.
"La plus grande action de sauvetage menée par une seule personne pendant l'Holocauste", segundo o historiador Yehuda Bauer.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

saúdo esta sua louvável iniciativa em prol da memória histórica desta figura de honrado diplomada da História da Humanidade, porque, na verdade como nos diz, para lá da consciência ideológica deve estar a consciência ética. Tanto mais importante, como exemplo cívico de enorme alcance, face a mundo com valores éticos que andam pela "rua da amargura".

A defesa dos Direitos Humanos deve sobrepôr-se sempre às clivagens ideológicas. Cada vez me parece mais que o Embaixador Francisco Seixas da Costa tem uma forte veia memorialista na abordagem que consegue ter destes temas apartando-se das suas filiações identitárias. Saúdo-o por todo este grato trabalho que tem feito em prol da Cultura Histórica Portuguesa. Pela relevância deste seu post coloquei-o no blogue do Movimento Internacional Lusófono com indicação da sua autoria e desta proveniência.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

Hermano Saraiva é, sob certos aspectos, um homem de direita, mas não em todos. Há nele características que o afastam do salazarista típico. Por outro lado, é um homem de cultura, embora os fascismos como movimento "revolucionário" também tivessem começado por ser portadores de uma ideia de cultura anti-burguesa. Isto tudo para quê? Para dizer que Saraiva considera fantasiosas as proezas atribuídas a Sousa Mendes e imputa-lhe, antes daqueles feitos, vários actos pouco abonatórios das funções que desempenhava. É assim, não é assim? Uma coisa, porém, é intrigante: como poderia um homem só à revelia do poder constituído ter salvado tanta gente da barbárie nazi? Os outros casos que se conhecem - Budapeste (compra, aos nazis, de salvo condutos); Schindler; e diplomata sueco - são completamente diferentes do de Bordeus e, mesmo assim, não diziam respeito a tanta gente.
Uma coisa é certa: tudo o que meta judaismo internacional relacionado com a segunda guerra mundial está sujeito à tirania do pensamento único. Ai de quem ousar pôr em causa os seus números!
Nem sempre foi assim, mas depois de Yom Kippur passou a ser...
Isto de forma alguma significa que Sousa Mendes não tenha desempenhado um importante papel. Significa que é preciso estudar melhor o assunto e não ter medo dos factos, digam os judeus o que disserem.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Muito obrigada pelo seu texto .A minha Mãe que nasceu em Cabanas de Viriato em 1912 ,foi criada (como se dizia na epoca ) do Dr .Cesar Sousa Mendes irmão gemeo do Sr Dr Aristides ,contou-me tudo ao pormenor como foi a vida deste Grande Homem de Grande Nobreza de Sentimentos .E que foi tão esquecido no seu País .

Bem -Haja

Carlota Joaquina

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Fiquei tão triste ao ler a opinião do anonimo/a ,se a minha Mãe estivesse entre nós iria ficar também porque viveu com essa Familia nos tempos aureos e nos de grande decadencia .
Mas Jesus também não agradou a todos e o senhor ou senhora está no seu direito de opinar o que quiser ,não deve é falar do que não sabe .

Os meus respeitos cumprimentos


Carlota joaquina

Margarida disse...

http://jansenista.blogspot.com/search?q=Aristides+Sousa+Mendes

Helena Oneto disse...

Não fique triste, Carlota, não vale a pena. O que vale é o testemunho e o que a sua Mãe lhe transmitiu. Não esqueça que sempre fomos um pais pobre em memoria para feitos relevantes. Se não fosse Camões, ainda hoje não conheciamos a India...

Julia,
Eu também so soube da existência de Aristides de Sousa Mendes quando cheguei aqui. E foi um francês que me falou dele. Incrivel! (que vergonha a minha...)

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

fiz uma hiperligação do seu blogue destacando este texto no sítio das minhas crónicas. É uma honra citá-lo pela pertinência da sua iniciativa e evocação em prol desta ilustre figura histórica.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

Hey
Sr. embaixador

1º de Maio ???!!!...

Aguardo impaciente a poesia dos seus insights A respeito...

Claro que não é para publicar, aqui eu sei que o sr. mais tarde ou mais cedo ...Vem Ou seja Que O Encontro.
Isabel

Anónimo disse...

Dra Helena Oneto

Muito obrigada, pelas suas palavras .

Carlota Joaquina

Julia Macias-Valet disse...

Helena O,
Acho que temos que apresentar amigos franceses a muitos portugueses...
"Santos da casa nao fazem milagres !" Mas neste caso fez. E isto apesar de Oliveira Salazar. É por estas e por outras que o ditador em versao Pop(ular) Art, NEVER !!!

Rubi disse...

Visitei há uns meses o Imperial War Museum, em Londres, e reparei que na secção sobre o holocausto não havia qualquer referência a Aristides Sousa Mendes, apesar de haver referências a outras personalidades (caso de Schindler) que tiveram uma intervenção semelhante. Dei-me ao trabalho de escrever um e-mail aos responsáveis por essa secção, dando a conhecer sucintamente o papel humanitário do cônsul português e obtive um e-mail muito simpático e em que a investigadora me dizia que possivelmente iriam incluir informação sobre o diplomata português no futuro. Apesar de não pertencer à família, como portuguesa senti que tinha feito o que devia e, no futuro, se ver lá a informação ficarei ainda mais satisfeita por ter dando um 'empurrão'.

Paulo M. A. Martins disse...

Felicito-o vivamente pela iniciativa, lamentando profundamente, por motivos óbvios, não estar presnte.

A Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Melhor dizendo, o seu a seu dono...

Com muita amizade e admiração, aqui lhe deixo, Senhor Embaixador, um fraterno abraço desde Fortaleza (CE), Brasil.

Paulo M. A. Martins

Helena Oneto disse...

Querida (permite-me?) Carlotta Joaquina,
A sua sensibilidade toca-me muito.
Bien à vous!

PS : Não sou Dra. Helena, só, chega.

Amigos de Sousa Mendes disse...

Ver o blog
Amigos de Sousa Mendes
http://amigosdesousamendes.blogspot.com/search/label/Passal

magg disse...

Carlota Joaquina, adorei o facto de a sua mãe ter sido criada na casa desta família e ainda aprecio mais o facto de lhe ter contado tudo pelo que a família passou. Eu soube da existência deste grande senhor quando tinha 12 anos, foi o meu pai que me contou muito por alto a sua história. Por mais que eu pesquise e leia, parece que nunca estou satisfeita com o que fico a saber. Lembrei-me até da minha bis-avó (que nasceu em 1915), nunca me tinha falado deste senhor, mas quando a fui visitar com um livro acerca dos Romanov, ela, já senil, conseguiu identificar a pessoa que estava na capa apesar da sua fraca visão. Tenho tanta pena e sinto uma tristeza imensa que a minha bis-avó já tenha partido e que não lhe tenha conseguido fazer perguntas sobre situações que ela própria viveu, pois decerto teria mais promenores esclarecedores acerca da vida de Aristídes de Sousa Mendes que o meu pai não deu...
Bem haja.