domingo, 25 de abril de 2010

Ainda Marselha e os "retornados"

A sina dos "pieds noirs", esses franceses forçados a regressar à metrópole europeia, vindos da África magrebina independente nos anos 60 do século passado, foi algo que sempre me interessou, por ser um fenómeno político e social revelador dos limites da capacidade de integração em França. Durante várias conversas que na passada semana tive em Marselha, a "porta da França" que se tornou o destino dessa comunidade desenraizada, procurei perceber se o fenómeno subsistia e em que moldes. Verifiquei, com alguma surpresa, que permanecem ainda fortes traços essenciais desses núcleos, agora coexistindo, embora sempre bem separados, com as significativas comunidades magrebinas que dão a certas ruas e praças de Marselha ares de bairros transplantados de Argel.

Dei comigo a pensar que, no caso da descolonização portuguesa, esse mesmo fenómeno teve um destino bem diverso. Os "retornados" da África colonial portuguesa que se acolheram na Europa, quase sempre em condições económicas pessoais muitos precárias, expostos a um ambiente político que estava longe de lhes ser simpático, num tempo económico português de crise e falta de investimento, com escassíssimos apoios oficiais (lembram-se do IARN e dos hóteis ocupados, a compensarem a crise turística?), souberam "virar-se" e integrar-se de forma magnífica na sociedade portuguesa. As redes familiares e, essencialmente, a sua "garra" e vontade de reconstruir a sua vida fizeram milagres. Hoje, já ninguém se lembra nem fala dos "retornados", praticamente não se refere que alguém veio ou não de África nos idos dos anos 70.

E, no entanto, o caso português era potencialmente muito mais grave: se compararmos as centenas de milhares de "retornados" que chegaram a Portugal, face a uma população com a nossa dimensão, com a muito inferior percentagem de "pied-noirs" no seio de uma sociedade forte e desenvolvida como a francesa, acho que encontramos fortes razões para que nos devamos congratular. 

Neste tempo em que parece endémico o comprazimento em acentuar das desgraças pátrias, talvez o processo de absorção dos "retornados" nos ajude a ter algum orgulho no país que temos.   

7 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Farei link, Senhor Embaixador, no próximo Leituras Cruzadas! Obrigado!
Viva o 25 de Abril! :)

Alcipe disse...

Falam deles, sim, a geração mais jovem, mas de um modo objectivo e lúcido : "Memórias Coloniais" de Isabela Figueiredo, p.ex.

Anónimo disse...

Não sei se as situações portuguesa e francesa são comparáveis - porque nos "retornados" franceses a coisa é muito mais complexa: há os "Harkis" (argelinos que defendiam a Argélia francesa, muitos deles militares "franceses" durante a guerra) e os "Pieds noirs" (franceses que viviam na Argélia). Os "Harkis" foram parar aos guetos que explodem em Franbça com regularidade. Os "Pieds Noirs" foram reintegrados com maior facilidade...

causa vossa disse...

Como o anónimo anterior, também me parece que há algumas diferenças. Pelo menos foi a ideia que fiquei da odisseia escrita de Jean Latérguy, um dos autores da minha adolescência de menino de messe, desprovido do vamos dormir da TV como você, mas bem provido da literatura dos centuriões e dos Irving Wallace - autor que premonitariamente antecipou em "o Homem", o primeiro presidente Americano menos copo de leite!

Gil disse...

A geração mais nova, Alcipe, e alguns membros das mais velhas.
Começam a aparecer relatos, ficções e cinema sobre esse assunto e, por vezes, de grande qualidade e equilíbrio.
"Memórias Coloniais" é um livro catárquico.
Chamo a atenção dos interessados para um espantoso documentário de Diana Andringa, por coincidência (ou não) com um título similar "Dundo, memória colonial" que, não tendo por tema central os retornados, refere-oscom uma serenidade que seria difícil há alguns anos.

Guilherme Sanches disse...

Só duas curiosidades - quando falei na livraria/restaurante Les Arcenaulx, lembrei-me que estive lá a convite de um cliente "pied noir" de má memória, ou pelo menos de curta memória, já que se esqueceu de pagar as faturas. Não mencionei o "pied noir" por não saber até que ponto essa designação poderia ser pejorativa. Afinal não é.
Segunda curiosidade - alguém (sexagenário ou mais)se lembra do sinal sonoro com que em França se comunicava a aclamação da independência da Argélia? Com a buzina dos carros, três toques breves seguidos, um curto silência e mais dois toques - que era a sonoridade de "Al-gé-rie...li-bre"!
Um abraço

Luís Bonifácio disse...

Caro Embaixador

As duas situações não são comparáveis.
No caso Português os "Retornados" eram a primeira geração, pois a maioria dos "colonos" tinham emigrado para África a partir do anos 50, por isso quando "retornaram" e esmagadora maioria voltou para um país que conhecia e onde tinha família. Os "colonos" de 3ª e 4ª geração não "retornaram" em 1975, foram voltando aos poucos e poucos devido ao caos em que as ex-colónias mergulharam após a independência.

O caso Francês é muito diferente. A colonização da Argélia iniciou-se no reinado do Rei Luís Filipe e após a derrota de 1870, centenas de milhares de refugiados da Alsácia-Lorena, cujas vestes tradicionais se caracterizam por botas pretas unisexo - daí o apodo Pés-Negros, foram enviados para a Argélia. Em 1960 os pied-noirs eram franceses que se encontravam na Argélia há 4/5 gerações, não possuiam qualquer ligação à França metropolitana, muito menos à Alsácia-Lorena, daí a enorme dificuldade na sua integração.