sábado, 24 de abril de 2010

Abril (3) - Fazer a festa

Em Portugal, o 25 de abril é oficialmente celebrado com uma sessão de discursos políticos e partidários na Assembleia da República. Todos os anos, para além da aturada observação jornalística de quem leva ou não um cravo ao peito, a atenção pública volta-se para o tom e exegese dessas intervenções, que invariavelmente utilizam a comemoração abrilista para tratar a realidade da conjuntura política do presente. Assim, aquilo que poderia ser um espaço de proclamação de elegias à liberdade conquistada nessa data acaba por se transformar numa arena de severo combate político, com as diversas leituras de "abril" a servirem de arma de arremesso, mais ou menos subliminares. Julgo que ninguém, com sinceridade, acreditará que essa maratona declaratória contribui minimamente para louvar as virtualidades da Revolução e para cativar novas gerações para o culto desse momento fundacional da nossa democracia.

Noutro registo, menos plural e um pouco mais "biaisé", um grupo de muito respeitáveis militares que fizeram a Revolução de abril, acompanhados por figuras da nossa história política (quase sempre já) passada, acolitados por incontornáveis representantes de forças políticas e sindicais de lateralização óbvia, desce a avenida da Liberdade, aí já com total abundância de cravos e com a exibição de slogans que fazem parte do património típico da memória revolucionária. Ninguém negará, contudo, que o tom peculiar dessa manifestação acaba por excluir muitos outros, para quem a memória da Revolução se exprime em moldes mais serenos e menos polítizados.

Na simples mas inalienável qualidade de cidadão, quero deixar aqui expresso, com a total consciência do peso do que escrevo, que considero que ambos os eventos acabam por funcionar, objetivamente, contra o 25 de Abril.

Comemorar o 25 de Abril, celebrar essa magnífica Revolução que, por uma vez, quase que fez o milagre impossível de unir o país, deveria consubstanciar-se apenas na organização de festas populares por todo o país, com música, com bailes, com juventude, com alegria e, sempre, sem discursos e sem slogans. Como, aqui em França se faz com o "14 juillet". Ah! e com muitos cravos, para quem os quisesse e os apreciasse. A liberdade também se faz da possibilidade dessa opção.

Mas que não reste a menor dúvida: nesta data, estive, estou e sempre estarei de cravo vermelho ao peito.

8 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

Tenho por habito comprar cravos vermelhos no dia 25 de Abril para decorar a minha sala. Mas por vezes tenho que ir a mais do que uma florista para os encontrar.
Em França o cravo é uma flor que tem uma conotaçao de azar e esta associada à morte.

Alcipe disse...

No nosso hotel em Goa deixaram-nos ontem à noite um cravo vemelho no quarto.

Anónimo disse...

"Comemorar o 25 de Abril, celebrar essa magnífica Revolução que, por uma vez, quase que fez o milagre impossível de unir o país, deveria consubstanciar-se apenas na organização de festas populares por todo o país, com música, com bailes, com juventude, com alegria e, sempre, sem discursos e sem slogans" - O libération dizia há dias que Portugal é um país de gente triste; Será por isso ou porque os nossos políticos são incrivelmente obtusos e ultrapassados? O 25 de Abril foi uma festa da rua, de facto.

Anónimo disse...

Simplesmente...
Eu que fui, sou e espero continuar a ser bafejada pela legitimidade/dignidade direito e dever universal humano ao 25 de Abril.
Subscrevo tudo Tudo Tudo.
Isabel Seixas

João Antelmo disse...

É preciso preservar a memória.
A memória do 25 de Abril mas também - sobretudo - daquilo que o antecedeu, dos crimes, da mesquinhez, do bafio, da pestilência da guerra e das resistências - a orgânica e cultural e a do quotidiano, a da "oposição" e a do cidadão comum, da resistência activa mas também da resistência passiva do cidadão comum.

Helena Oneto disse...

Excelentissimo Alcipe,
Em troca de tão gentil presente, espero que o tenha posto na lapela!

Hoje, na Assembleia da Republica, os senhores estam (quase) todos de fato azul (+ ou - escuro). Muitos cravos à esquerda, poucos ao centro e nenhuns à direita.
Muitas gravatas verdes na banca PS.

Gostei de ver os "capitães"!

Alcipe disse...

E foi devidamente festejado o 25 de Abril por todos os embaixadores da União Europeia na Índia, em viagem oficial a Goa (para mais explicações, ver meu blog timtimnotibet.blogspot.com)!

Carlos Cristo disse...

Francisco, você usa o cravo vermelho todos os dias na alma, tem o direito de usá-lo ao peito, mesmo que seja só no 25 de abril!