sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Jô Soares

Leio na imprensa que Jô Soares inicia hoje, em Lisboa, espetáculos em torno de Fernando Pessoa.

Jô Soares é uma figura interessante, culturalmente com substância,  com uma escrita limpa e ritmada, autor e ator de grandes momentos de comédia televisiva, com a criação de personagens que ficaram na memória coletiva. Hoje, infelizmente, perde-se um pouco pela obrigatoriedade que a si próprio se impôs de apresentar um talk show seis dias em cada semana. Com raras exceções, acaba, nessa atividade, por fazer programas demasiado "leves", muito abaixo daquilo que é a sua real qualidade profissional. Por isso, um pouco como acontece com Herman José, conheço muita gente que hoje já tem grandes saudades do "velho Jô Soares".

Há três anos, no Brasil, convidou-me para ser entrevistado no seu programa, um dos mais vistos de toda a TV brasileira. É um trabalho de produção e realização impressionante. Há duas gravações por semana. Em cada um desses dias são feitos, de seguida, três programas, que depois são apresentados em três dias consecutivos.

A conversa que tivemos foi bastante simpática, com referências ao amigo comum que era Raul Solnado. Falámos da vida diplomática, do 25 de Abril, de dom João VI e, inevitavelmente, das diferenças entre o português do Brasil e de Portugal. Com notas dele ao nosso "sotaque", claro. E também lá se falou da sua paixão pela obra de Fernando Pessoa.

Para mim, o momento mais delicado do programa foi quando Jô Soares puxou a conversa para uma velha anedota sobre Salazar e Américo Tomás, passada no hospital onde o primeiro estava internado após a sua queda, historieta em que intervém o médico americano que tratou o ditador. Jô Soares procurou a minha ajuda para completar a anedota, a qual, aliás, é algo cruel. Não lhe dei "saída". Acho que ser embaixador de Portugal  não é compatível com a colaboração no apoucamento, num país estrangeiro, de figuras de Estado portuguesas, por mais detestáveis que elas possam ser, como era o caso. Assim, acabei por ficar aquilo que se pode dizer, desta vez muita com propriedade, "sem graça".

17 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

Falta de tacto - 2 : Jô Soares - 0

PS Quem segue este blogue sabe porque é que "Falta de Tacto" marca 2...

PS 2 Uma pequena pista para os mais distraidos : "Nao é apanagio (so) dos jornalistas".

Helena Sacadura Cabral disse...

Conheci Jô Soares através do Herman José. Concordo consigo. Fazer, há anos, seis dias por semana um show televisivo é muito difícil e retira sempre qualidade.
E também concordo que é bem mais importante o país, do que as pessoas que o governam. Não fosse achar isso e talvez fosse, hoje, uma emigrante infeliz, o que é bem pior do que ser um residente menos feliz.
Ai! Embaixador a nossa língua é linda, mas este post parece-me publicado no Brasil, tal a correção que manifesta pelo acordo ortográfico: ator,coletiva,exceções,atividade. Nunca como aqui a palavra fidelidade foi tão bem aplicada. Na que lhe dedico e na que o Senhor Embaixador dedica ao malfadado Acordo!

Francisco Seixas da Costa disse...

O Acordo é lei em Portugal. Não sei se gosto dele ou não. Isso é indiferente. Resistir-lhe é ficarmos "hontem"...

Julia Macias-Valet disse...

Mas nao tem a sensaçao que as palavras foram amputadas, Senhor Embaixador ?

Margarida disse...

Ooops...
Ia escrever a mesma nota que Milady endereçou sobre a nossa língua...; de facto, parece que V.Exa.escreve na 'Folha de S.Paulo', i.e., para tropical entender...
Depois V.Exa. põe ordem na turma. De uma forma, como dizer... algo castrense.
Bem sei que faz um frio imenso por aí, "mais quand-même, quoi!"...
(Ai! - é desta que sou liminarmente 'eliminada'...)
Excelência..., cumpre-lhe ser veículo do universo que somos, "y compris" as leis, é certo.
Mas permita que nos... 'doa'.
A mim causa-me uma irreprimível vontade de total rejeição.
E nem todas as leis são boas, justas ou leais.
No caso, para mim, é uma franca deslealdade ao que aprendi e esta imposição enervante suscita-me ímpetos rebeldes.
...é "indiferente" se gosta ou não?!
Não acredito.
Essa armadura formal às vezes subjuga a alma, não é?
...nós entendemos.
Creia.

Anónimo disse...

Meu Caro

Não resisto. Eu sei que não é isso o que pensa, mas pôr no mesmo plano o Jô Soares, um grande nome da cultura brasileira - teatro, televisão, literatura, artes plásticas- com o Hermano José não fica bem.
O Herman José ainda há bem pouco tempo se vangloriava de já não ler um livro há vários anos e aconselhava a fazer o mesmo a quem o ouvia. Não, não era piada. Mais tarde num programa da Constança veio penitenciar-se, etc. etc.
O Jô soares é um homem de rara cultura em qualquer parte do mundo!
Quanto ao resto não me pronuncio.
Amanhã lá estou no Villaret.."Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa..." Sim, para ouvir o Álvaro de Campos. Do resto não sou fã...
ABRAÇO
(isto só me aceita como anónimo)
JMCP

Francisco Seixas da Costa disse...

Minhas Senhoras: Ninguém impõe nada a ninguém, muito menos eu, que alimento este despretensioso espaço de diálogo.
Peço desculpa se fui mal interpretado.
Eu havia avisado, no início do mês, que iria tentar seguir o novo Acordo Ortográfico, tal como faço na minha profissão.
Mas cada pessoa é livre de escrever aqui como quiser. Até eu...
Uma coisa é verdade: Portugal - isto é, quem fala pelo país, legitimamente eleito - assinou (governo), aprovou (AR), ratificou (PR) e entregou os instrumentos de ratificação (MNE) de um tratado internacional, que passou a vincular o país a algumas mudanças ortográficas. Não é cómodo, bem sei!, adaptarmo-nos a elas - e eu sou o primeiro a sentir isso. Mas, no passado, já na nossa geração, deixámos de escrever "sòmente" ou "práctico" e a nossa língua não desapareceu ou enfraqueceu.
Uma aproximação ortográfica entre Portugal e o Brasil é, na minha opinião pessoal, um passo muito positivo, embora todos possamos ter a nossa visão sobre as medidas concretas acordadas.
Mas, por amor de Deus!, escrevam à vontade, como quiserem, sem ou com acentos, com ou sem vírgulas, com maiúsculas ou minúsculas. Mas, já agora! eu também gostaria de ter o direito de escrever como me apetece, mesmo que, aos olhos de alguns, essa "nova" escrita pareça a Folha de S. Paulo. Aliás, um belo jornal, onde se escreve um excelente português.

ps - o acordo é assim tão importante? Nenhuma das palavras que atrás usei teve de ser adaptada.

Margarida disse...

Touché!
:)))
Ah, senhor embaixador, que vous êtes irréel!
É que cada vez gosto mais de si!

Gil disse...

Li dois excelentes livros de Jô Soares ("O Xangô de Baker Street" e "O Homem que Matou Getúlio Vargas"); ambos demonstram, sobretudo o segundo, uma vasta erudição e um admirável culto dos "trivia", de que o Sr. Embaixador é exímio cultor.
Ele parece estar de acordo com a Srª Drª Helena Sacadura Cabral quanto à "separação" da língua em duas versôes.
Quanto ao Acordo, não será este o local e o meio onde travar uma boa discussão.
Mas, não tendo por ele nenhum entusiasmo em particular, parece-me também que não virá dali grande mal ao Mundo nem à Língua Portuguesa.
De resto dele se poderia dizer "e pure si muove"; quer se goste quer não, ele existe, está em vigor e, mais tarde ou mais cedo, será aceite pela maioria dos seus utilizadores.
Pessoa,que era Pessoa e preferia o "ph" em farmácia,bateu-se contra "ortographia sem ipsilon" mas perdeu a guerra, mesmo sendo sua Pátria a Língua Portuguesa.
Afinal, a palavra é mais do que as letras com que se escreve.

Julia Macias-Valet disse...

OTIMO !
Nao !? prefiro OPTIMO, sem o "p" acho que fica "sem graça".

MPB disse...

É injusto menorizar Herman José em abono do Jo Soares. O primeiro é infinitamente mais interessante, eclético, músico, poliglota e politicamente incorrecto. A sorte do segundo, é viver em terra de cegos.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador

Os Seus argumentos são irrefutáveis...

Que Pena...

A durabilidade de um luto normal segundo alguns autores é três meses(como se se pudesse determinar...Pf)

Eu também já ando a fazer trabalho de casa(Não pense que é para Lhe dar graxa)Já partilhei com os estudantes as novas alterações, só ainda não consegui interiorizá-las todas porque o meu Id mete o bedelho com o Meu Ego e Super Ego e obriga-me a reminiscências ...É a idade.

De qualquer forma e efectivamente

O Sr.Embaixador Seixas da Costa e A Dra. Helena Sacadura Cabral são Os Meus Presidentes da República...

Ai domesticar...

Escrevo deliberadamente com Maiúsculas para realçar as palavras e fazer notar que ainda há respeito pela identidade das Pessoas, lamento que isso não esteja contemplado no acordo... Paciência está na minha congruência.

Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Não queria meter a foice em seara alheia - ai! daqui a pouco conectam-me ao P.C - mas também acho injusto que se esqueça o que o humor nacional deve a Herman José.
Entrevistei-o por mais de uma vez e considero-o um bom profissional.
Lamento, porque o estimo, o caminho que ele deu a essa sua mais valia, abusando de certos clichés de que gosto menos. Porém, ainda muito acima de alguns modernos humoristas cujos limtes ultrapassam, em muito, o mínimo da boa educação.
Porque para se fazer humor não é preciso ser ordinário. Não se deve, aliás, sê-lo, quando se visa fazer "bom" humor.
E também não deve esquecer-se que sem Herman dificilmente teria havido esse ícon nacional a quem todos se subjugam - eu não - chamado Gato Fedorento.
Devo a Herman mais horas de riso e de alívio da tensão nacional do que a qualquer dos outros, que ainda teriam de trabalhar muito para chegarem aos António Silva, Vasco Santana, Humberto Madeira, Costinha ou até Raul Solnado.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
É verdade que as leis existem. E, "diz-se" são para cumprir.
Mas há boas e más leis. Por exemplo, as que permitem que certos senhores em funções de gestão pública ganhem mais que o PM e o PR, são do meu ponto de vista más.
O acordo esteve longe de merecer o total apoio dos que trabalham com as palavras. E até trabalham bem.
Quanto ao "hontem", também lhe digo que de nome sou Aÿres, de origem espanhola. Pois bem, uma revolucionária do Arquivo, pós 25 de Abril, disse-me que o "Y" não existia na língua portuguesa. A partir daí passei a ser Aires. Só não sei de que família...

Alcipe disse...

Só para meter o bedelho : sou cem por cento pelo Acordo Ortográfico! Não concordo com essa ideia da superioridade intelectual do Jô Soares sobre o Herman José! O Tal Canal é muito superior a essa xaropada do Xingô de Baker Street!

Francisco disse...

Eu diria que o Acordo Ortográfico é completamente inútil (face aos objectivos que se pretendiam), mas estou disposto a cumpri-lo rigorosamente até porque é a forma de mais depressa demonstrar a sua inutilidade. Não deixo, porém, de me recordar da estória dos cântaros de barro e de ferro...

Anónimo disse...

Continuarei a escrever como na..."Antiguidade Recente", pese embora a existência desse Acordo (nisto estou solidário com Vasco Graça Moura). Nada obriga ao seu cumprimento.
Albano
PS: dizia alguém, há minutos, num Telejornal, que não alterava a forma de pronunciar as palavras. Discordo da ignorante, dando como exemplo: "facto" e "fato" (paletó em brasileiros, se não erro). De facto, facto pronuncia-se facto. O C está lá. Da mesma forma, fato diz-se e escreve-se fato.