sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Identidade nacional

O debate sobre a identidade nacional, que o governo francês estimulou nos últimos tempos, tem aqui sido objecto de tomadas de posição muito contrastantes.

Para alguns sectores, tal discussão comporta o risco de derivas no sentido do isolamento de comunidades de origem estrangeira cujas expressões culturais públicas se afastam daquilo que a França tradicional tem por "norma". Nessa perspectiva, as comunidades muçulmanas aparecem como as primeiras visadas e a tentação do apelo a políticas mais restritivas à imigração acabará por ser a resultante final do exercício.

O governo assume uma outra perspectiva. Na sua ideia, é importante tentar identificar aquilo que entretanto mudou na sociedade francesa, permeada por imigrações de várias origens, hoje marcada por expressões sócio-culturais muito diversas oriundas de núcleos de cidadãos nascidos já em França. Essa identificação é feita em paralelo com o sublinhar dos elementos que se entendam relevantes para a fixação de uma matriz identitária, histórico-cultural, colada à especificidade de "ser francês".

Como pano de fundo para esta discussão está a tomada de consciência, para muitos franceses, de que o país onde nasceram era muito diferente daquele em que hoje vivem e que essa mudança foi também produto da presença de estrangeiros e, agora, de novas gerações, já  nascidas francesas, deles originários. O modo como a sociedade francesa olha para este facto varia imenso.

Porque este debate assenta muito na questão da introdução da "diferença", sem o qual não teria razão de ser, acaba naturalmente por ser potencialmente mais agressivo para comunidades com origens sócio-culturais que se afastam do padrão europeu tradicional. Quero com isto dizer que ele não afecta diretamente, por exemplo, a comunidade de origem portuguesa.

Estamos longe do fim desta polémica, mas talvez ela acabe por ter de consagrar uma ideia simples que alguém, há dias, apresentou num debate televisivo: gostem ou não alguns cidadãos franceses desta realidade, as regras da cidadania democrática vão acabar por obrigá-los a aceitar essa coisa comezinha de que é francês quem tenha um bilhete de identidade francês.

10 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Julgo que o debate se aplica também a Portugal. Uma boa camada da população olha com desconfiança a imigração de países cujas raíses e hábitos culturais se afastam do país receptor.
Prácticas como a excisão das mulheres que certas populações continuam a querer aqui praticar - e praticam - são inaceitáveis. Outras há, contudo, que acabarão por ser por nós assimiladas, e outras ainda só o tempo decidirá se irão ou não fazer parte da "identidade nacional".
Eu sei que custa a muitos aceitar isto. Mas nós fomos, durante anos, um país de emigrantes, o que nos obriga a alguma complacência com aquilo que não ataque direitos humanos essenciais. E não esquecer que a nossa pirâmede etária e a Segurança Social, neste momento, devem bastante àqueles que para aqui vieram trabalhar.
O problema é que tudo se agudiza com a crise económica...

José Pedro Pessoa e Costa disse...

Se não estou em erro, foi Jean-François Copé, chefe dos deputados UMP, que disse essa frase. "Si vous me demandez qui est français, la discussion tournera court. Pour moi, sont français tous ceux qui portent la carte d'identité française". Mas o debate é mais complicado e a sua oportunidade duvidosa: e é difícil não ver nele um aproveitamento particularmente descarado de uma questão difícil por motivos claramente eleitoralistas. Por outro lado, mas previsivelmente, tem-se tornado num debate centrado sobre os franceses muçulmanos e sobre as condições da sua adesão aos soi-disant valores franceses (que, sem que isso seja claramente dito, são arbitrariamente reduzidos aos valores judaico-cristãos), acolhendo infelizmente alguns maus instintos claramente chauvinistas. Constitui, sobretudo, em minha opinião, um desperdício de tempo e de esforço. Há mais, muito mais, a fazer para devolver a todos os franceses e, principalmente, aos franceses filhos de emigrantes, os chamados franceses da segunda geração, normalmente desempregados e pobres, o orgulho da nacionalidade e o sentimento da Pátria, diferente do sentimento nacionalista.

Helena Oneto disse...

Oportuno e muito interessante este post sobre a identidade nacional.
Subescrevo inteiramente os comentários da Senhora Dra Helena Sacadura Cabral e do Senhor José Pedro Pessoa da Costa. No entanto, gostaria muito de partilhar o optimismo do Senhor Embaixador quando diz no ultimo paragrafo "...mas talvez esta realidade(das regras da cidadania democrática)acabe por ter de consagrar uma ideia simples"... "de que é francês quem tenha um bilhete de identidade francês".
Assim seja, aqui e em Portugal!

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Foi de pertinente actualidade este texto sobre a identidade nacional, no caso francês, perfeitamente extrapolável para o caso português, que se debate, como muito bem nos diz, entre um quadro de referência histórico-cultural e uma noção de cidadania que se quer cada vez mais global. Há, na verdade, alguma contradição entre a enorme mutabilidade social desta Era Global e uma matriz identitária fechada. Como bem afirma a Senhora Drª Helena Sacadura Cabral Portugal tradicional país de emigrantes passou a ser, também, país com uma significativa comunidade de imigrantes que nos vão ajudando a produzir. No entanto, convém não esquecer a larga experiência histórica dos portugueses de aculturação mútua e de miscigenação que, a este nível, têm algo a transmitir aos povos mais chauvinistas. Pois, não nos podemos esquecer da lição de Jaime Cortesão que nos falou de um humanismo universalista dos portugueses, como um dos elementos distintivos da alma portuguesa, que me parece estar bem enraizado no espaço lusófono. Concordo, pois, com a lucidez de José Pedro Pessoa e Costa e com o sentimento generoso de Helena Oneto.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Alcipe disse...

Com a queda demográfica europeia e a desigualdade económica mundial a emigração para a Europa vai ser incontornável.

Num quadro de diminuição (relativa, quand même) do poder económico e (aqui mais acentuadamente) político da Europa, as fobias identitárias vão-se acentuar, fomentadas pelo terrorismo radical que se reclama do islamismo...

A França, desde o caso Dreyfus até à guerra da Argélia, tem um passado pouco conforme com os princípios universalistas de matriz republicana, de que justamente se orgulha.

A questão da identidade é o caso do pior debate surgido na pior oportunidade.

Gil disse...

Num país mediterranico, a uma senhora com traços físicos a condizer, mas que mostrava grande preocupação com o futuro da identidade nacional respectiva perante a "invasão" de imigrantes, perguntando, angustiada, "o que podemos nós fazer?", ouvi um imperturbável Embaixador britânico respnder delicadamente: "Façam o que sempre fizeram: casem-se com eles".

Alcipe disse...

Indo ao encontro do post do Gil : uma senhora americana diz-nos, a mim e a minha Mulher :

"Portugueses? Ah, a sua Mulher sim, tem tipo de portuguesa; mas você não, você parece mesmo um europeu..."

A minha costela ariana rejubilou ... até um guia turístico indiano me dizer ontem "você é sul americano, não é?"!!!

(O Huntington demonstrou que os latinoamericanos não pertencem à civilização ocidental - só os americanos do Norte e bem WASP; chicanos não!)

Seremos europeus mesmo? Os latinos pertencerão à civilização ocidental? Ou somos só PIGS?

Helena Sacadura Cabral disse...

Alcipe, agradeço-lhe imenso este seu último post porque ele abriu caminho a uma aula sobre esta matéria.
E ainda dizem que não há coincidências...

Anónimo disse...

Identifico-me com tudo o que foi dito.
Efectivamente a Identidade Nacional efectiva vai depender da posse do cartão de identidade legal...

A Identidade Nacional sentida e reconhecida acresce Um tempo a ser compreendida e adquirida...

A substituição de crenças e valores vai gerar mais e melhor qualidade de vida ,mais valias ???...I hope So...
Isabel Seixas

Julia Macias-Valet disse...

Um dia de 1995, visitava um apartamento em Paris para alugar. A dada altura a senhora da imobiliaria disse-me "a senhora tem um pequeno sotaque". E perguntou-me : "Vous êtes de quelle origine ?". Quando lhe respondi que era portuguesa. A senhora exclamou "Ah, mais vous êtes tellement claire".
Tive vontade de lhe responder que os meus pais eram suecos e que estavam de férias no Algarve quando nasci. Mas retrai-me.

Este debate da identidade nacional é controverso, indelicado e denota medo.

Sera porque tenho um segundo bilhete de identidade me identifico com um povo ?
Eu identifico-me com as gentes do sul da peninsula ibérica e isto apesar de ser clara.
O meu bilhete de identidade francês tem para mim apenas um lado practico, nao sentimental. Se tivesse emigrado para a China teria pedido o Chinês.