sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Afeganistão


Às vezes, tenho sensação de estar a viver uma segunda vida, como profissional de relações internacionais, de tão diferentes e surpreendentes que algumas coisas se apresentam.

O artigo há dias publicado no "International Herald Tribune" por dois altos responsáveis russos, intitulado "Conselhos russos no Afeganistão", tinha-me escapado, e só o "Le Monde" de hoje mo fez recuperar. Os autores são o embaixador russo junto da NATO e o antigo comandante militar russo no Afeganistão.

Todo o texto é interessantíssimo. Essencialmente, procura convencer os aliados da NATO a não desinvestirem na guerra do Afeganistão, porque isso iria ter consequências desastrosas para toda a região, nomeadamente para os Estados da Ásia Central, que faziam parte da antiga URSS e que, vale a pena lembrar, são hoje, cada um à sua maneira, vistos por Moscovo como uma "almofada" potencial de segurança contra o islamismo radical. Em especial, foi-me patente o flagrante contraste do texto com a clara orientação subjacente à posição do comandante de uma unidade russa destacada no Tajiquistão, na fronteira com o Afeganistão, numa visita que aí fiz com três colegas da OSCE, em inícios de 2004.

Mas é o estilo do que se diz no artigo que prova o que o mundo terá mudado. Quem, há uns tempos, veria dois altos responsáveis russos exprimirem-se da seguinte forma?:

- "Se a Aliança não cumprir a sua tarefa, o comprometimento mútuo dos seus 28 Estados-membros ficaria afetado e a Aliança perderia o seu fundamento moral e razão de ser".

-  "Uma saída (do Afeganistão) sem uma vitória poderia causar um colapso político das estruturas de segurança ocidental".

- "Fomos os primeiros a defender a civilização ocidental contra os ataques dos fanáticos muçulmanos. E ninguém nos agradeceu por isso".

- "O mínimo que requeremos da NATO é consolidar um regime político estável no país e evitar a talibanização de toda a região".

- "Estamos muito insatisfeitos com o ambiente de capitulação no Quartel-General da NATO, quer ele se exprima por um "pacifismo humanista" ou por pragmatismo".

E mais não transcrevo, porque os leitores deste blogue só ganharão em ler a peça toda aqui.

Já tenho observado muitas reviravoltas no panorama internacional, mas ver Moscovo a falar  no registo de um general do Pentágono e a apelar, da forma que o faz, para o reforço de compromissos da NATO out of area constitui uma experiência verdadeiramente única. Até porque tem toda a razão...

4 comentários:

Carlos Alberto Falcão disse...

Sensação ou Realidade ?

Depois da queda do "Muro de Berlim" e o fim da "Guerra Fria", o "sens" do mundo mudou. Doravante, nós vivemos num mundo multipolar e complexo, que nous conduziu ao desastre liberal das ideologias democráticas.

Anónimo disse...

Um excelente artigo de opinião, para se reflectir (profundamente). Quer na questão da permanência da Nato no Afeganistão e suas razões, quer no porquê deste interesse russo na manutenção da Nato naquele país. Um dos melhores Post de FSC neste seu Blogue. Oportuno e muitíssimo interessante.
Um abraço da...Biscaia!

Anónimo disse...

Pois Sr. Embaixador...

Bem gostaria também de emitir opinião.
Mas tenho a consciência de que já ajuda muito quem não estorva...

Vou deixar para quem Sabe.

Mas como temos que comer...

Aí vai o paté de atum que faz um figurão em qualquer sitio, mesmo que não venha muito a propósito.

2 latas de atum
(Eu uso daquele que vem em água, até lhes posso dizer onde o compro no mini preço, bem sei que a patente não é Portuguesa, mas pagam para cá estar ou não?)

Maionese qb
Tipo uma chávena almoçadeira(Eu faço-a, já deixei a receita algures noutro post, mas a hellmans é bem boa, só que eu embora seja fiel desconfio da determinação das validades nos frascos, ai não já assisti a muitas gastroenterites e intoxicações alimentares)

10 delicias do mar
(daquelas que permitem desfiar-se tipo esparguete, conferem ao paté um aspecto mais bonito, claro do meu ponto de vista, mas também porque não denunciam tanta farinha na composição e são mais saborosas, compro da pesca nova )

20 azeitonas verdes e pretas partidas(das cortilhadas, porque sim, são melhores.

20 alcaparras, partidas em pedacitos.

Pronto mistura-se tudo numa taça de "cerâmica/loiça" de preferência bonitinha.

Serve-se com tostas crujientes...
Gosto de umas que há no E. Leclerc vêm em caixas com cerca de 5 pacotes envolvidos em película aderente. só sei que são francesas, são 100 tostas e custam cá em chaves se não me engano 2€ e 35 cêntimos...

Bem degustem o paté que se faz mais rápido de que se lê esta receita, ou se promove e despoleta a guerra.

Enfim quem me dera a sério que o meu espírito de contradição pudesse fazer alguma coisa em prol do término de qualquer guerra...

Que a pele de Enfermeira que visto e ostento com orgulho me permitisse reduzir a décalage existente entre o esforço sobrehumano que fazemos os profissionais de saúde para salvar uma vida e a leviandade economicista facilitista com que Sou conivente com as mortes em barda em teatros de guerra, com as imagens essas sim violadoras de abutres à espera que crianças pereçam...
Degustem só o que é comestivel
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Para quem anda a salvar vidas em locais críticos, até que anda a comer muito bem. Os que você salva também comem assim??

Veja lá...não ande a comer golfinho por atum e restos de peixe desfeito em delícias do mar (que deveríam ser de marisco). ;)

A.Proença