segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cultura Europeia?

A questão da existência ou não de uma cultura europeia comum é um tema que atravessa a peça de teatro "L'Européenne", que vai ser apresentada no Théâtre de Ville, dirigido por Emmanuel Demarcy-Mota, e de aqui se falará mais tarde. A este propósito, deixo um texto retirado ontem do Télérama, da autoria de Alexis Tain.

E permito-me a imodéstia de juntar um artigo meu, sobre o mesmo tema, que proximamente será publicado numa obra colectiva a editar pela Fondation André Malraux. E que, se alguém tiver paciência, pode ler aqui.

Futebóis

Há dias, na televisão por cabo, a Comunidade portuguesa em França teve o privilégio de poder ver o Académica-Sporting, através da RTP Internacional, e... o Académica-Sporting, pela SIC Internacional. Simultaneamente, claro.

Hoje, tivemos o Benfica-Vitória de Setúbal, precisamente no mesmo modelo de programação.

Grande diversidade, esta que nos está a ser oferecida por duas grandes estações portuguesas de televisão! Obrigado!

Memória de Agostos (IV) - 1975

Em 1975, a vida estava a mudar. Simultaneamente, para o país e para mim.

O Verão desse ano ficou conhecido, na História política portuguesa, como o "Verão quente", por virtude de nele se terem agudizado os conflitos que vinham a opor os sectores mais moderados do Movimento das Forças Armadas com as correntes radicais, em especial com a chamada "esquerda militar", onde a influência do Partido Comunista se fazia sentir como determinante.

Foi em Agosto desse ano que assumiu funções o efémero V Governo Provisório, tributário de um vanguardismo que veio a revelar-se suicida e que era, ele próprio, sintoma do crescente isolamento em que o general Vasco Gonçalves e os que o acompanhavam se iam acantonando.

É também nesse mês que surge o chamado "Documento dos Nove", uma espécie de manifesto de militares moderados, da autoria de Melo Antunes (e muito com o dedo de escrita do actual embaixador Luís Castro Mendes, diga-se), à sombra do qual logo se colocaram todas as forças moderadas e conservadoras, que temiam a deriva radical que pressentiam que o país estava a seguir.

(Já agora, vale a pena dizer aqui, de forma bem clara, que a classe política cujo poder veio a emergir, no seio da vida democrática que a coragem dos "Nove" ajudou a proporcionar ao país, acabou por ser fortemente ingrata para com muitos desses homens. Mas isso são outras histórias...).

Agosto de 1975 foi também o mês da minha entrada no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Tempos antes, num impulso que teve muito mais de lúdico do que de reflectido, eu decidira candidatar-me à carreira diplomática, um passo estimulado pelo diplomata e meu colega de tropa, António Franco, e que eu via também como um desafio interessante para mim mesmo. Estava no serviço militar desde 1973, andava fortemente envolvido nas ondas da Revolução, e achei graça testar a minha capacidade numa área que sempre me interessara, mas por onde nunca sonhara passar - por ser, diga-se em abono da verdade, um terreno profissional cuja imagem pública me não seduzia minimamente e de cuja caricatura tudo me afastava.

As múltiplas provas de acesso, espalhadas ao longo do primeiro semestre de 1975, foram já como que um prenúncio da vida civil a que, em qualquer circunstância, eu regressaria em breve. Desde 1971 que era funcionário da Caixa Geral de Depósitos e, acabado o serviço militar, para aí voltaria, com um salário bem melhor do que aquele que o MNE então oferecia.

Com alguma surpresa minha, face às expectativas que tinha, acabei por ser admitido na carreira diplomática! E agora?! Que fazer? para utilizar o título de um autor que, à época, estava a ter dias de glória nas estantes portuguesas. Acabei por "arriscar"...

E foi assim que, na cálida manhã de 13 de Agosto de 1975, de cabelo bastante comprido e com um bigode façanhudo, coloquei uma relutante gravata e tomei posse como diplomata, num grupo de "adidos de embaixada", o primeiro, aliás, em que às mulheres foi autorizada a admissão na profissão - uma abertura que, registe-se, se havia ficado a dever ao anterior MNE, Mário Soares.

Graças ao 25 de Abril, não tive então de ler o juramento a que o Estado Novo obrigava os funcionários públicos (e que cito, de cor, sem a total certeza de estar a a ser 100% fiel ao texto): "Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem política e social instituída pela Constituição da República portuguesa de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas".

A partir de então, podia pensar o que quisesse. Pelo menos, eu julgava isso.

domingo, 30 de agosto de 2009

Deolinda

Viver fora do país tem este preço: só há pouco tempo, por indicação de amigos, comprei o disco "Canção ao Lado", dos Deolinda.

Tenho de revelar que há muito que um primeiro disco de um grupo português não me impressionava tanto. Trata-se de um conjunto variado de temas, com grande força e consistência, que traduzem umas expressiva maturidade musical, produto, ao que parece, das origens dos membros do grupo. A sonoridade é muito moderna, ao mesmo tempo que bastante popular, sem cair no "popularucho". Aqui e ali, tem mesmi um toque de certa sofisticação, patente nas letras e nalguma sua ironia. A combinação de intrumentos tradicionais com uma voz magnífica da vocalista é algo de muito diferente do que estamos habituados a ouvir. Já escutou fado sem guitarra portuguesa? Pois, com os "Deolinda", tem isso. E que fados!

Não sei se este blogue pode fazer propaganda (ou publicidade, como uma leitora preciosista me aconselha a escrever), mas eu arrisco: comprem o disco dos "Deolinda" e não se arrependerão. E fiquem, desde já, com este som ou visitem o seu excelente site.

Retrato de um amigo

Nestes que são os últimos dias de férias para a maioria das pessoas, lembrei-me de quem tem a sorte de estar quase permanentemente nelas. Desde há muitos anos que tenho um amigo, com uma actividade cuja matriz é em tudo alheia à da minha profissão, cuja capacidade para conseguir escapar à rotina do trabalho se tornou já lendária. Procura, em primeiro lugar, não ter nada para fazer e, se isso se torna em absoluto impossível, tenta fazer apenas o que lhe apetece e, mesmo assim, no tempo que lhe apraz. Como é inteligente, tem já um insuperável "know-how" na matéria, uma soma de truques que confundem os não iniciados, pouco aptos a detectar essa imparável deriva lúdica em que consegue transformar o seu quotidiano.

Mas não julguem que se trata de tarefa fácil: ele tem imenso "trabalho" em lutar por funções que o isentem de trabalhos, em que os horários possam ser detalhes despiciendos, onde sejam viáveis exercícios criativos de ubiquidade administrativa, mas também onde sempre possa, a olhos desprevenidos, fazer passar um sopro de actividade virtual, dando permanentemente a ideia de ter alguma coisa em curso de execução. Ah! e queixa-se das episódicas tarefas que lhe cabem, como é natural. Enfim, trata-se de um génio na gestão do seu tempo, que deveria mesmo escrever um manual sobre o tema, se isso não desse trabalho...

Como (algum) mundo é o que é, como ele sabe "mexer-se" e não é mau rapaz, lá vai (não) fazendo pela vida, nesse seu anti-stakhanovismo endémico, o qual, a meu ver, deve fatigar imenso. Sempre achei que, quando um dia ele vier a ter um epitáfio - e não será "morto de cansaço"... -, deveria ser uma corruptela do lema do infante dom Henrique: "Talent de rien faire".

Absorto

Um dos mais interessantes e empenhados espaços da blogosfera portuguesa, o Absorto, acaba de designar este blogue como um dos seus destinos de consulta "viciante".

Ao seu autor, Eduardo Graça, homem entusiasmado com a vida e com a descoberta incessante do modo como nos compete melhorá-la para usufruto de todos, deixo aqui um forte e grato abraço. É um abraço que vem já de muito longe - das longas noites das RIA's, das conversas de esperança na parada da EPAM, do Abril comum e das madrugadas que se cantaram pelas agitadas salas da dom Carlos, nessa aventura sem par que foi o MES. E de várias cumplicidades posteriores.

Pela razão que é óbvia, dedico-lhe, de Paris, este eterno Moustaki.

Dívida

A propósito do debate em torno do "grande empréstimo", que o Governo francês de apresta para lançar, julgo curioso referir um comentário que hoje surge no "Le Monde": "La dette existe depuis le début de l'Histoire et dans tous les pays! Elle est indispensable pour permettre aux états, entreprises et particuliers d'anticiper des recettes pour investir davantage! Un pays sans dette c'est le Portugal de Salazar, avec l'escudo en Or et que la population fuit en émigrant!"

sábado, 29 de agosto de 2009

Edward Kennedy

Não me seduzem as dinastias, embora tenha o maior respeito pelas famílias. Nunca olhei para Edward Kennedy como o putativo e frustrado sucessor do sonho interrompido dos seus irmãos, essa mitologia aristocrática de "Camelot", construída por sebastianismos de linhagem, que radica numa triste saga de tragédias familiares, explorada à exaustão pelos "media".

Edward Kennedy foi "his own Kennedy", um homem sério, íntegro e digno, que acreditava nos valores de uma América solidária e justa e que, em alguns momentos importantes, teve a coragem de os assumir e afirmar. Como o presidente Obama ontem bem recordou. É por isso, e só por isso, que ele merece o nosso respeito.

659 !

As editoras francesas anunciam, para a "rentrée" deste Outono, a publicação de 659 romances.

Uau!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Geremek



O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, fez ontem entrega ao presidente Nelson Mandela do prémio Geremek, que lhe foi atribuído pela Comunidade das Democracias, organização a que Portugal actualmente preside.

Bronislaw Geremek, que dá o nome ao prémio e que foi o criador da Comunidade das Democracia, era um polaco sábio e amável, que nos deixou há pouco mais de um ano e que, em cada tempo, acreditou naquilo que entendeu que era preciso acreditar – desde os “amanhãs que cantam” ao projecto da Europa unida, passando pela luta pela liberdade do seu povo, dessa magnífica Polónia que soube sofrer, com serena dignidade, as tragédias que a sorte lhe destinou.

Ouvir de Geremek a palavra suave, dita numa tonalidade tranquila de comovente convicção, sublinhada numa cadência silábica que soava a doutrinária, foi um privilégio que fui tendo, ao longo de vários anos. No seu magnífico francês, em que exprimia as duras lições de um tempo de traumáticas transições, sempre lhe descortinei, por detrás da barba professoral, o sorriso leve, um tanto entre o triste e o nostálgico, mas uns olhos brilhantes que não traíam a genuinidade do que afirmava.

Conheci-o pela primeira vez em Varsóvia, no seu gabinete de chefe da diplomacia polaca. Uma curta visita de cortesia que lhe solicitara, em que me falou pela primeira vez na sua proposta da Comunidade das Democracias, transformou-se, a partir de uma pergunta que lhe fiz sobre a evolução política recente em Moscovo, em cerca de hora e meia de conversa, dedicada ao peso histórico que essa vizinhança eterna determinava. Por detrás das palavras, como que se podia descortinar, assumida a ironia, o modo profundo como o medievalista que ele era se comprazia na desconstrução contemporânea da Rússia eterna.

Do modo claro como falou das novas lideranças de Moscovo, da preocupação com a Ucrânia e dos desafios comuns que seriam necessários para a superação de um passado traumático recente, julgo ter aprendido, nessa manhã, o que os livros nunca me haviam ensinado. E talvez tenha então percebido, definitivamente, que o alargamento da União Europeia ao centro e leste do continente, que então se perspectivava, era a resultante natural do processo de reconciliação que a Europa estava a dever a si própria, a vitória final sobre a hipocrisia que Ialta tinha imposto às gerações sacrificadas pelo cinismo da realpolitik - gerações que Geremek bem representava.

Recordo que os diplomatas Carlos Neves Ferreira e Ana Gomes, esta última que viria a ser sua colega no Parlamento Europeu, me acompanharam na escuta atenta dessa sua leitura, serena e convicta, muito diferente das que íamos ouvindo sobre o tema, por parte de outros dirigentes dessa “nova Europa” nascente.

Inquiriu então sobre o modo como Portugal vivia a unificação europeia, quis saber como os portugueses – um povo cuja História o apaixonava – haviam conseguido apagar, no seu imaginário colectivo, a longa mitologia ultramarina, que a ditadura explorara em proveito da sua própria sobrevivência, para embarcarem na nova aventura de um continente que, afinal, nunca tinham verdadeiramente abandonado.


A convite de Jaime Gama, por quem confessava amizade e grande admiração, Geremek passou uma vez por Lisboa, para falar aos diplomatas portugueses sobre o modo como a sua Europa nos olhava, ainda de fora. Do que disse, julgo que todos intuíamos já que a Europa de que ele nos falava não era, afinal, uma outra Europa, era a Europa que sempre existira dentro de quem, como ele, via no projecto colectivo a chave para a estabilidade e para a paz.

Um dia, a seu pedido, fui a Varsóvia falar a jovens polacos sobre o percurso português na União Europeia. Num pequeno jantar que ofereceu, num restaurante de que apenas recordo o ambiente de acolhedora decadência, colocou-me ao lado de Tadeusz Mazowiecki, seu velho companheiro do Solidariedade e então primeiro-ministro. Geremek desafiou-me: “Veja se convence o Tadeusz que Portugal é dos países que acreditam que, sem a Polónia, nunca haverá uma verdadeira Europa”. Não me recordo se tive êxito nessa minha tarefa, mas lembro-me bem da citação de Montesquieu que Geremek repetiu nesse jantar: “A Europa é a nação de bem das nações". Apetece-me repetir a certeza que tenho de que Bronislaw Geremek era um singular europeu de bem entre os europeus.

Duas luas

Anda por aí na internet uma história de duas luas. Os mais cépticos duvidam, os mais crédulos aceitam-na.

Ora bem: leiam Hugo Pratt e o seu "Tango", onde Corto Maltese explica tudo. E divirtam-se.

"Nègres"

Alguns políticos franceses, como aqui já se referiu um dia, publicam regularmente livros, seja de reflexões temáticas, seja de memórias, seja - o que é ainda mais frequente - de ambições. De quando em vez, parte dos actores da vida política no activo sente necessidade de fazer uma espécie de "prova de vida" escrita. Isso leva-os à televisão, aos jornais e aos espaços nas mesas e estantes que as livrarias acordam com as distribuidoras. Os livros com êxito têm críticas nos jornais ou revistas e, muitas vezes, acabam mesmo por ter edições "de poche" - suprema glória. Quando não caem no goto dos leitores, a cobertura fica-se por umas meras recensões. Nestes casos, semanas depois, tais livros desaparecem da vista. Ou melhor, aparecem já pelos "bouquinistes", então a preço convidativo.

Foi agora revelada uma estatística curiosa: cerca de 80% dos livros subscritos pelos políticos franceses são, na realidade, redigidos por colaboradores, aqui chamados de "nègres" ou, numa versão mais simpática, de "plumes". Porque é que isso acontece? Por falta de tempo ou, as mais das vezes, por falta de jeito. Mesmo figuras com reconhecida capacidade própria de escrita, como De Gaulle, Pompidou, Mitterrand ou, mais recentemente, Dominique de Villepin, não dispensaram a ajuda constante de colaboradores para a produção das suas obras.

Esta nota destinou-se a criar o cenário para uma brevíssima história que ontem o "Le Point" trouxe, ocorrida entre dois políticos proeminentes, que mantinham entre si uma relação de ácida cordialidade. Um deles, ter-se-á virado para o outro e disse: "Vi que publicaste um livro. Quem to escreveu?". O interlocutor não respondeu, mas inquiriu: "E quem foi que o leu por ti?".

Aqui em França, tal como em outros lugares, a vida política é um espaço insuperável para a expressão de carinhosas manifestações de simpatia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mobilidade Social

Um novo fenómeno está a preocupar a França: o chamado "déclassement" social.

Tradicionalmente, o bem-estar e a confiança na sociedade baseia-se muito na regra optimista de que cada geração consegue, em regra, face à geração dos respectivos pais, consagrar uma "subida" social. Os pais lutam para que os seus filhos tenham uma vida melhor do que a que eles próprio tiveram e o alimentar dessa perspectiva constitui uma das forças-motrizes do progresso e da satisfação intergeracional.

Ora os últimos números conhecidos em França revelam que, sendo ainda a ascensão social maioritária no país, começam a ser quantitativamente muito importantes os casos em que os filhos de uma geração acabam por ter condições de vida inferiores às dos seus pais, não obstante possam ter acesso a certos símbolos de modernidade que muitos confundem com saltos no bem-estar (internet, iPod, discotecas, telemóveis, roupa de marca, etc), dando uma imagem ilusória de progresso. O insucesso escolar, a aumento da competição académica e profissional, o desemprego e as dificuldades de acesso a uma habitação condigna - com consequências numa saída cada vez mais tardia da casa das famílias - tudo isto aponta para consagrar um "déclassement" social. Daí à gestação de um clima acentuado de "malaise" e de inadaptação, com consequências políticas curiosamente muitos pouco unívocas, é um passo muito curto.

Estarão as forças políticas tradicionais à altura de se confrontarem com esta nova geração de "enragés" sociais?

Portugueses

Curioso o retrato dos portugueses que Joaquim Vital - uma personalidade cultural de quem aqui iremos falar em breve - traça no seu "Adieu à Quelques Personnages" (ed. La Différence, 2004), uma memória de vida e dos outros, livro que há pouco li:

"En général, les Portugais s'evertuent à déprécier leur pays, tout en soulignant son passé épique, et leurs compatriotes, des nains par rapport aux géants de jadis, et ils se prosternent devant "l'étranger", concept fumeux qui englobe l'ensemble des nations développées de la planète, et "les étrangers", chanceux ressortissants de ces contrées imaginaires. Les intellectuels se sont illustrés dans ces exercices d'autoflagellation, et ce n'est pas un hasard si, pour les écrivants du bord du Tage, du Douro ou du Mondego, le fleuve essentiel a été, des siècles durant, la Seine."

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Empresários

Um estudo académico português acaba de revelar serem algo desanimadores os resultados que se extraem, em matéria de realização efectiva de negócios, da presença de empresários nacionais que viajam integrados em visitas oficiais portuguesas ao estrangeiro. Segundo essa análise, os responsáveis empresariais frequentemente não preparam com cuidado as reuniões com os seus contrapartes e o saldo destes exercícios acaba, muitas vezes, por não ser relevante para as nossas exportações ou para a criação de parcerias.

Há cerca de cinco anos, numa intervenção na reunião anual do Fórum dos Embaixadores da então API (Agência Portuguesa para o Investimento), expressei a ideia de que deveria ser feita uma "sindicância funcional" aos resultados efectivos que Portugal tinha obtido com a contínua presença de empresários nas comitivas oficiais portuguesas ao estrangeiro, ao longo das últimas décadas. Qualifiquei mesmo algumas dessas viagens - não todas, como é evidente - como um simples "turismo empresarial". As minhas palavras não saíam do nada: derivavam da observação continuada do comportamento de alguns dos nossos empresários, em imensas ocasiões que eu próprio havia testemunhado.

Quem estava presente nessa reunião deve lembrar-se que esta minha sugestão provocou então algum mal-estar, porque parecia que eu estava a tocar numa qualquer "vaca sagrada", como se o apontar do dedo ao sector empresarial, privado ou público, constituísse em Portugal um acto de lesa-magestade.

Assumo a imodéstia de que, afinal, eu poderia ter alguma razão. Infelizmente.

Colecção Berardo


Há meses, como oportunamente aqui se assinalou, esteve em Paris uma parte da colecção Berardo, que hoje ocupa um importante espaço no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A sua apresentação em França foi um considerável êxito.

Trata-se de um conjunto significativo de obras de alguns dos maiores autores da arte contemporânea, reunido ao longo de anos. Se alguns trabalhos não representam, necessariamente, o expoente da produção de certos artistas, o conjunto não deixa de ser um valioso património, que muito enriquece o nosso país.

Hoje, chegou-me a indicação de um blogue onde se faz uma apresentação, simples mas nem por isso menos interessante, sobre a colecção Berardo e os artistas nela expostos, com várias referências ao Centro Cultural de Belém. As fotografias inseridas podem não ser da melhor qualidade, mas o blogue é útil a quem pretenda saber o que é a colecção e o que pode nela encontrar. Aqui deixo o link do blogue, bem como o site da própria colecção.

Fica também uma imagem de um quadro de Wesselmann, um pintor da pop-art, escola a que a colecção dedica muita atenção.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Guia de Portugal

Chamaram a minha atenção para a comparação que o "Diário de Notícias" faz, na sua edição de hoje, entre o novo guia do "American Express", sobre Portugal, e o vetusto "Guia de Portugal", uma edição que se iniciou em 1924, sob a tutela da Biblioteca Nacional de Lisboa, e que foi concluída, já nos anos 70 do século passado, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Devo, desde já, advertir o leitor que sou um coleccionador obsessivo de guias sobre o nosso país, portugueses ou estrangeiros, para cujas editoras escrevo, quando as informação (em especial em matéria histórica, cultural e de costumes) considero erradas ou como inaceitáveis distorções. Acho mesmo que a importância deste tipo de publicações na criação de uma ideia de um país no imaginário dos leitores é fortíssima - e digo isto pelo modo como eu próprio reajo ao ler guias sobre outros países. Por essa razão, entendo que a "diplomacia pública" de Portugal passa também pelo modo como soubermos influenciar o que , sobre nós, é dito nesses guias.

Mas é a propósito do velho "Guia de Portugal" - sou um feliz proprietário das 1ªs edições de todos os seus volumes - que gostaria de deixar umas breves notas. Trata-se da recriação portuguesa, embora em moldes de escrita bem mais elaborados, dos guias Baedeker, que tanto sucesso fizeram na Europa no final do século XIX e inícios do século XX.

O primeiro volume do "Guia de Portugal" foi lançado em 1924 e dedicou-se ao tema "Generalidades - Lisboa e Arredores". Foi seu organizador e principal autor Raul Proença e conta com preciosos textos de grandes figuras da cultura portuguesa como Aquilino Ribeiro (Etnografia), António Sérgio (História), Reinaldo dos Santos (Arte), para além imensos textos do próprio Raul Proença e colaboração vária de Matos Sequeira, Afonso Lopes Vieira, Jaime Cortesão, José de Figueiredo, Teixeira de Pascoaes, Júlio Dantas, Pina de Morais, Orlando Ribeiro, Raul Lino, etc. É um volume riquíssimo, praticamente sem par. As descrições de Lisboa e percursos nos arredores, de uma região onde hoje sobram apenas os monumentos e escassos excertos de paisagens, são um imenso prazer de leitura. A capa de Raul Lino é, em si mesma, de uma bela simplicidade.

O 2º volume publicado, ainda pela Biblioteca Nacional, sobre "Estremadura, Alentejo, Algarve", foi impresso no final de 1927 - isto é, já sob ditadura militar. Nele estão alguns dos nomes do volume anterior e, também, outras figuras como Brito Camacho, Carlos Selvagem, Hernâni Cidade, Rodrigues Miguéis, Sarmento de Beires, Teixeira de Sampaio, etc. O prefácio é assinado por Raul Proença, agora já na qualidade de "ex-chefe dos serviços técnicos da Biblioteca Nacional". O regime tinha-o, entretanto, demitido das funções que ocupava desde 1911...

O prefácio que Proença escreve para este 2º volume revela que o Guia não quer ser um "bonzo doméstico", para o "fútil destino de ornamentar as estantes e os móveis das saletas". Quere-o "um companheiro de viagem (...), pronto a ser consultado a cada momento", pelo que necessita de ser "um livro portátil, que se pudesse folhear a todo o momento". Do texto transparece já, todavia, uma amargura profunda em Proença, sintoma do seu destino político e pessoal trágico, depois de ter combatido com armas o novo regime, que o levaria ao exílio, aqui em Paris, onde viveu alguns anos em condições de enorme dificuldade, em St. Germain-en-Auxerrois.

Só em 1944 é que sai o 3º volume, sobre "Beira Litoral, Beira Baixa e Beira Alta", ainda sob a chancela da Biblioteca Nacional, assinalando-se, no prefácio, que a responsabilidade da edição recai agora sobre um "núcleo de amigos" de Raul Proença, depois da morte deste, em 1941. O nome de Sant'anna Dionísio aparece agora como o novo coordenador do projecto e seu principal impulsionador, e assim será até ao final da edição completa, nos anos 70. Note-se que, neste volume, vão aparecer ainda textos de Alberto de Oliveira, Egas Moniz, Eugénio de Castro, Ferreira de Castro, João de Barros, Raúl Brandão, Rodrigues Lapa, Tomaz da Fonseca ou Vitorino Nemésio.

Uma nova interrupção faz com que, só em 1964 e 1965, saiam os dois volumes relativos a "Entre Douro e Minho", o 1º sobre o Douro Litoral e o 2º sobre o Minho, com Sant'anna Dionísio como impulsionador, mas agora sob a responsabilidade editorial da Fundação Calouste Gulbenkian. A qualidade dos colaboradores, há que dizê-lo, baixa drasticamente nestes volumes. Finalmente, em 1969 e 1970, são editados os últimos volumes, sobre "Trás-os-Montes e Alto Douro", um sobre "Vila Real, Chaves e Barroso" e outro sobre "Lamego, Bragança e Miranda". Neste caso, há novos colaboradores conhecidos: João Sarmento Pimentel, Jorge Dias, Miguel Torga, Ribeiro de Carvalho, etc.

A Fundação Gulbenkian reeditou, desde então, todos os volumes do "Guia de Portugal". Vale a pena tê-los, porque é uma interessante leitura de um outro Portugal (embora sem a Madeira e os Açores) que aí ficou registada.

Recomendaria ainda às novas gerações que conhecessem um pouco mais a figura honrada e a grande personalidade da nossa cultura que foi Raul Proença, a alma por detrás do "Guia de Portugal". Por exemplo, aqui ou aqui.

"De Rodríguez"

Aposto em como a maioria dos leitores não faz ideia do significado do termo espanhol "estar de Rodríguez". Trata-se de uma expressão que terá passado a ser usada nos anos 60, em Madrid, para designar a situação dos maridos que ficavam sozinhos na capital, durante o mês de férias da família, a qual ia para a praia ou para o campo. Nunca consegui saber quem foi o Rodríguez que deu origem à expressão, mas até seria interessante conhecer as razões pelas quais ficou famoso...

Paris, neste mês de Agosto, é a cidade ideal para "estar de Rodríguez", como é o meu caso. O trânsito é mais escasso, há zonas da cidade quase vazias, consegue-se estacionar em lugares normalmente inimagináveis, o essencial da cidade está a funcionar e nem as "hordas" de turistas prejudicam quem quer usufruir calmamente da vida da capital francesa, nas horas depois do trabalho.

Nos próximos anos - já decidi! - vou seguramente continuar a ficar "de Rodríguez" neste "Paris au mois d'août", aliás motivo de uma bela canção de Aznavour que recordo aqui.

Em tempo: e não há uma alma etimologicamente culta que nos descubra quem foi esse famoso Rodríguez?

Vícios

Obrigado ao "Vermelho Cor de Alface" por nos ter colocado na categoria de "O seu Blog é Viciante". Este, prometemos, continuará a ser um vício saudável...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tintin no País dos Censores

Uma biblioteca de Nova Iorque remeteu o álbum "Tintin no Congo" para uma área que necessita de uma autorização especial para consultas, sujeita a dias de demora. Já há uns tempos, algumas livrarias inglesas haviam decidido colocar tal álbum na área de vendas de adultos. No essencial, o trabalho de Hergé é hoje considerado como tendo conotações racistas. O que é, seguramente, uma verdade.

Toda a gente sabe que Hergé, para além do facto de ser um criador genial, era uma figura hiperconservadora. O seu pensamento era mesmo tributário de ideologias próximas da extrema-direita e a sua memória histórica pagou e paga um preço por isso. Mas não me consta que, em qualquer país livre, o anti-comunismo pré-primário do seu "Tintin no País dos Sovietes", tenha levado alguém a pensar colocá-lo no index, por ofender os sentimentos dos comunistas ou as relações com Moscovo - e aí, com toda a certeza, nunca o álbum esteve à venda...

Este esforço de alguns para nos defenderem de nós próprios, esta desconfiança sobre a nossa capacidade autónoma de julgamento, esta ideia de que não somos capazes de contextualizar ou ajudar a situar historicamente uma obra - tudo isto começa a converter-se numa insuportável tutela de coloração bem pensante, francamente irritante. Os exemplos são cada vez mais, pelo mundo fora, havendo como que uma passiva aceitação, quase sem reacções, deste tipo de atitudes censórias, uma espécie de temor reverencial, de que o banimento de imagens de figuras a fumar é talvez o caso mais paradigmático, como por aqui já referi outras vezes.

Neste contexto, vale a pena deixar uma história que, estou certo, a maioria dos leitores deste blogue desconhece.

Quando o "Tintin na América" começou a ser publicado em Portugal, no saudoso "Cavaleiro Andante", um dos seus primeiros quadros (senão mesmo o primeiro), apresentava a caricatura de um "gangster", de chapéu caído, figura rotunda e ar descarado, com o comentário à margem de que, naqueles tempos, tais personagens se passeavam livremente por Chicago.

Anos mais tarde, ao ler o álbum original, fiquei com a sensação de que havia uma qualquer diferença entre a imagem que eu vira no "Cavaleiro Andante" e a que o álbum completo trazia. E fui verificar: de facto, no álbum original, ao lado do "gangster", aparecia um polícia fardado a fazer-lhe continência. Ora o Estado Novo - "politicamente correcto" à sua maneira e cioso protector das nossas consciências - não quis deixar admitir que um agente de autoridade pudesse saudar um bandido , pelo que fez "desaparecer" o polícia do desenho publicado no "Cavaleiro Andante".

Cada um tem a sua paranóia. Mas, num mundo em liberdade, isto começa a ser demais!

Lisboa

"Lisbonne (Portugal) s’affiche comme la destination présentant le meilleur rapport qualité-prix selon les notes attribuées par les touristes, avec une moyenne de 7,83/10. Berlin (7,75) arrive ensuite devant Tokyo (7,74). Hotel.info constate que des villes comme Paris, Moscou ou Londres ne parviennent pas à s’imposer dans le Top 20 des villes les mieux notées."

Não sou eu quem o diz, é o site Hotel.info, segundo li aqui (cuidado com o som...). Aliás, a capital portuguesa, está cada vez mais na moda, como também pode ver-se aqui.

domingo, 23 de agosto de 2009

Terminus

Há uns anos, tive um embaixador que recomendava para nunca nos instalarmos nos hotéis que existem junto às estações de caminho de ferro. Dizia ele uma imensa verdade: "São sempre demasiado longe para se ir a pé com a mala e demasiado perto para se apanhar um taxi".

Lembrei-me deste conselho ao passar ontem pelo Hôtel Terminus, junto à Gare de Saint-Lazare, em Paris, que foi um dos locais de férias de Eça de Queirós, Cônsul-Geral em Paris no final do século XIX, quando a família estava a banhos. Nesta minha peregrinação ocasional pelos locais da memória queirosiana em Paris, dei-me conta que o Terminus desse tempo, construído para a Exposição Universal de 1889 (que também nos deu a Torre Eiffel), possuia uma "passerelle" que ligava o hotel à estação, aliás tal como acontecia com o Hotel Avenida Palace, em Lisboa, que tinha um corredor directo para a Estação do Rossio. E foi ao apreciar essa belíssima "passerelle", em ferro e vidro, de que lhes deixo uma imagem, que descobri este delicioso naco da propaganda que o hotel fazia, à época, na qual um suposto cliente descrevia assim as suas vantagens:

"À la gare Saint-Lazare, je saute du wagon, j'entre de plain-pied au Grand Hôtel Terminus en donnant mon billet de voyage au portier et je suis déjà au lit, alors que les autres voyageurs, moins avisés, se morfondent sur un trottoir et se querellent avec les cochers et les portefaix... Puis, au départ, on m'apporte mon billet dans ma chambre, mes bagages sont enregistrés sans que j'aie quitté le salon. On vient m'avertir et j'arrive tout droit par la passerelle en pantoufles dans mon compartiment, sans attendre, sans prendre froid, sans m'agacer, par conséquent sans fatigue. J'ai donc épargné mon temps, mon argent et ma peine."

Porque a Gare de Saint-Lazare não levava aos destinos habituais do Eça, nunca saberemos se ele alguma vez utilizou estas mordomias. Ele ou o Jacinto...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Google Street Views

Com um carro similar ao da imagem, a Google filmou, ao que se diz durante o último mês, as ruas de Lisboa e isso permite-nos agora "passear" virtualmente pela cidade. Terá até obtido uma imagem um tanto estranha, numa avenida importante de Lisboa...

Há quem ache isto uma invasão da privacidade, uma espécie de novo "big brother" (do Orwell, não da TV, note-se). Para mim, teve, desde já, uma grande vantagem. Andava cheio de dúvidas sobre se, numa passagem por Lisboa, há algumas semanas, havia deixado ou não aberta uma determinada janela da minha casa. Confirmei ontem: está fechada! Viva o Google Street Views!

O Procurador

Contrariamente ao que alguns estarão já a pensar, apenas vou falar de uma das mais antigas instituições do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o "procurador".

Confrontei-me com ela nos corredores do palácio das Necessidades, durante o período em que fazia as provas para a entrada na carreira diplomática. Um dia, fui aproximado por um contínuo que me perguntou: "O senhor doutor já tem procurador?". Devo ter olhado para ele com cara espantada: "Procurador?! Para quê?". O homem explicou, em breves palavras, que todos os diplomatas, sem excepção, tinham "o seu procurador", alguém que lhes tratava de receber o vencimento (!?) e que era muito útil para várias coisas, em especial quando no estrangeiro. E propunha-se para ser meu procurador, claro.

Ora eu ainda não tinha sequer passado as provas orais, estava a anos de partir para o estrangeiro, porque raio precisava de um procurador? Mas lá fiquei com o cartão do homem. À medida que os exames iam decorrendo, pelas esquinas dos claustros, foram aparecendo outros contínuos ou motoristas a deixarem-me cartões. E eu ia-os guardando, mais por curiosidade do que por convicção.

Entrado no Ministério, colegas mais velhos perguntavam-me: "Já escolheste procurador?". Eu dizia que não, eles estranhavam e, por regra, gabavam logo as vantagens que haveria em escolher o seu. Mas eu continuava relutante e não contratava ninguém. Fazia até uma certa gala nessa atitude singular.

Até que chegou o primeiro fim-do-mês. Perguntei a alguém onde se recebia o vencimento. Nesse tempo não havia ainda o crédito em conta bancária. O salário mensal vinha em envelopes, com as notas e as moedas dentro. "O teu procurador é que trata disso" - foi a resposta. Sim, mas eu, que não tinha procurador, como é que fazia?: "Não tens procurador? Isso é muito complicado, sem procurador não é possível receber o salário. Ele é que leva 'as folhas' ao banco". Sabia lá eu o que eram "as folhas"! Entrei em fúria. Já tinha sido funcionário público noutro departamento do Estado e nunca tinha tido dificuldade em receber o salário. Era agora, no MNE, que isso ia ser impossível? "Vai ao 4º andar, pode ser que te informem de outra maneira de receberes o dinheiro, mas, desde já te digo, não vai ser nada fácil" - disse-me uma voz amiga, embora muito céptica.

Faço aqui um parêntesis para explicar que o "4º andar" é o andar do poder administrativo do MNE, da mesma maneira que o "3º andar" é o andar do poder político, onde está o gabinete do Ministro e, antes, também estava o do Secretário-Geral, até que um "golpe de mão" do ministro Deus Pinheiro praticamente "correu" com o chefe da carreira do gabinete que ocupava há décadas. Mas, na realidade, se se entrar no MNE pelo Largo do Rilvas, o 4º andar é, verdadeiramente ... o 2º andar! Na "casa", as contas fazem-se desde "lá de baixo", de outros andares que só se vêem da Tapada das Necessidades. E estas coisas, no MNE, já não se discutem. Aliás, na conversa normal da carreira, é vulgar ouvir-se: "Falei hoje com o 4º andar sobre as promoções, mas disseram-me que o assunto ainda não tinha saído do 3º andar". Frase que, às vezes, é complementada por outra ainda mais críptica: "Dizem que é a 7ª que está a criar dificuldades". A "7ª" significa a 7ª repartição da Contabilidade Pública, braço armado do Ministério das Finanças dentro do MNE.

E lá fui eu ao 4º andar. Eram dois corredores em cruz ("et pour cause"...), sem nada que identificasse o que fazia quem estava por detrás daquela imensidão de portas fechadas. Andei de seca para meca, a entrar e a sair de salas atulhadas de senhoras, algumas que vim a saber historicamente poderosas, que olhavam com superioridade o jovem "adido de Embaixada" que eu era, particularmente o teimoso que não queria ter procurador. "Ó dona Maria Garcia, está aqui um doutor que quer receber o ordenado sem ter procurador!" - dizia uma delas, como se acabasse de avistar um extra-terrestre, provocando a concentração em mim de dezenas de olhos incrédulos, acompanhados por alguns sorrisos de benévola piedade. "Isso só vendo amanhã, passe então por cá da parte da tarde, pode ser que estejam por aí as 'folhas', mas olhe que vai ter muito trabalho, ó doutor!", advertiu-me logo alguém. No dia seguinte, afinal, também não foi possível. E, no outro, as 'folhas' ainda não apareciam... "To make a long story short", cedi e lá acabei por arranjar um procurador...

Verdade seja que, se o procurador era quase inútil em Lisboa, ele era, num tempo sem internet e com dificuldades de comunicação, precioso durante as nossas longas estadas no estrangeiro: ia aos bancos, pagava contas, mandava e expedia correspondência, fazia diligências de todo o tipo (alfaiates e costureiras incluídos). Contudo, para mim, a sua função mais apreciada era e continua a ser mandar-me livros e jornais pela mala diplomática.

Entre os procuradores, houve sempre "classes" e até gratificações diferentes: os procuradores mais "finos" só tratavam de prestigiados embaixadores e já não aceitavam "mais gente". Outros, eles próprios mais velhos, dedicavam-se preferencialmente a diplomatas antigos. Finalmente, os mais novos procuravam singrar na vida através de clientela das gerações recentes. Os mais afortunados ou poderosos tinham (têm?) mesmo cubículos ou vãos de escada, com chave própria, onde guardavam embrulhos e envelopes. E, se bem me lembro, alguns havia que já subcontratavam mais novos, para tarefas ou deslocações mais pesadas.

Na minha memória de algumas décadas, o grande procurador do MNE foi o Sr. Matos, homem da portaria, figura de grande educação e óptimo trato, sempre delicado, mesmo para os mais novos. Nunca foi meu procurador, mas eram famosas as cartas com que fazia acompanhar as contas mensais, nas quais pré-anunciava os "movimentos diplomáticos": "Saiba Vossa Excelência que consta pelos corredores que o Senhor Embaixador X poderá vir a ser substituído em breve pelo Senhor Ministro Plenipotenciário Y, que corre que será promovido. Quem não estará contente, ao que se diz, é o Senhor Embaixador Z, que agora poderá que ter de aceitar "tal posto"...". E depois, modestamente, terminava: "Mas Vossa Excelência sabe, bem melhor do que eu, que isto podem ser só boatos...". Qual quê! O Matos acertava sempre, pelo cruzamento de ouvidos vários, que faziam da portaria do Ministério um lugar privilegiado de informação.

Confesso que não sei se, nos dias de hoje, os meus colegas mais jovens ainda têm o seu procurador. Eu tenho, é de uma eficácia imbatível e, além do mais, no que me toca, transformou-se já num velho amigo. Como não lê blogues, nem sabe que falo aqui dele...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Amália

O novo Portugal continua a ser, para o Brasil contemporâneo, uma constante descoberta. Um pouco como começa já a acontecer em França. Há dias, o jornal "O Globo", trouxe uma reportagem sobre Lisboa, na qual, entre uma interessante reportagem, dava conta da relutância de um empregado da FNAC lisboeta - um figura com símbolos de modernidade como "cabelo, piercings e tatuagem" - a vender o disco "Amália Hoje", uma revisitação da cantora por novos intérpretes. Ao tentar dissuadir o jornalista, ele terá dito: "Este CD é uma porcaria. Não o compre".

Ingenuamente, o jornalista viu, nesta reacção, o reflexo de uma atitude nacional conservadora, de um país que só aceita a modernidade "desde que não mexam com o que é autenticamente português". Ora, na realidade, a reacção, além de mau profissionalismo, é pura estupidez.

O disco é um esforço interessante de recriagem de uma outra sonoridade em torno de temas de Amália, a que só "amalianos" do antanho podem ser hostis. Embora perceba que possa não se gostar deste tratamento musical, está muito longe de ser "uma porcaria" e, confesso, a mim agrada-me bastante. A voz de Sónia Tavares é uma boa surpresa.

Veja um clip aqui e também o texto de O Globo.

Mulheres

Se acaso está ou vem a Paris, ou conhece alguém que venha, posso dar um conselho? Vá à magnífica exposição de fotografia que a Fundação Gulbenkian tem no seu Centro Cultural, no nº 51 da avenue d'Iéna (tel. 01- 53 23 93 99).

Trata-se de uma exibição intitulada "Au Féminin - Women Photographing Women", concebida e organizada por Jorge Calado, que inclui obras desde o século XIX a tempos recentes. Os retratos do feminino, feitos por mulheres, são, de facto, uma outra maneira de olhar. O catálogo é belíssimo. A foto que ilustra este post é de Leni Riefenstahl, a polémica, mas excelente, fotógrafa alemã.

Curiosidade é a presença nesta mostra da portuguesa Maria Lamas (1893-1983), uma mulher de cultura, que viveu tempos importantes nesta cidade de Paris e cuja memória a Embaixada irá recordar proximamente.

Já agora, um conselho mais: se visitar esta exposição na Gulbenkian de Paris, aproveite para olhar de forma mais atenta para a casa onde está instalado o Centro Cultural, que foi a antiga residência de Calouste Gulbenkian em Paris. É que, daqui a meses, vão mudar para novas instalações.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Bardot

Gabo a paciência de Daniel Ribeiro que, daqui de Paris, conseguiu extrair uma entrevista, por fax e telefone, a Brigitte Bardot, para o "Expresso".

Nas respostas, vê-se que a senhora está ácida, radical no mau sentido e ferida com um mundo que tão bem a tratou.

Por mim, prefiro recordá-la (pelo menos) assim.

Selecções

A "Reader's Digest" anunciou ontem falência nos Estados Unidos. Ao ver a notícia, fui invadido por uma leve nostalgia.

Aproveito para deixar claro que as memórias que, por vezes, trago para este blogue não representam, necessariamente, qualquer saudade de outros tempos. Com escassas excepções, o presente é bem melhor do que tudo o que ficou do lado de lá da esquina da História, por mais graça que esse tempo tenha então tido, por mais complexa que a vida de hoje seja. Pelo menos, eu penso assim, com sinceridade.

A "Reader's Digest" lembra-me as suas "Selecções" (ou melhor, as "Seleções"). Cresci com elas sempre lá por casa, na sua versão brasileira, espreitando "pin-ups" que a publicidade caseira não comportava ainda nos seus cânones, com propaganda a frigoríficos e automóveis que não havia em Portugal. E tinha sempre, pelas suas páginas de textura sedosa, donas-de-casa loiras e de "permanente", tipo Doris Day, com camisas aos folhos e saias compridas rodadas, ao lado de cavalheiros invariavelmente elegantes, tipo Cary Grant, quase sempre de fato e chapéu ou naquilo que os brasileiros designam por "esporte fino", ao lado de crianças sorridentes e felizes nas suas bicicletas e bonecas (nunca houve muitas bolas por lá), sempre à porta de moradias com relva a descer para as alamedas dos bairros. Sorridentes e sempre brancos, claro. Era a América oficial que exportava a imagem do "way of life" de alguns.

Fui leitor assíduo de rubricas como "Meu tipo inesquecível", "Flagrantes da vida real", "Rir é o melhor remédio", "Piadas de caserna" ou o "Enriqueça o seu vocabulário" - onde, pela primeira vez, devo ter pensado nas vantagens do Acordo Ortográfico. Nunca li, e nunca me arrependi, nenhuma das suas irritantes sínteses de romances, mas algumas vezes fui à procura do volume completo. Devo também às "Selecções" a minha hipocondria, pela reiterada inclusão de artigos sobre doenças, cuja sintomatologia tantas vezes partilhei. Já não cheguei à fase das peças sobre dietas... logo quando mais delas necessitava!

Só tarde me apercebi, ou me fizeram aperceber, da existência, em cada número das "Selecções", de três ou quatro artigos onde, com maior ou menor subtileza, se fazia a apologia de ideologias convenientes aos interesses americanos. Mas, na verdade, que importava isso, no tempo cinzento do salazarismo? Claro que as "Selecções" diziam mal dos comunistas, mas com bem mais sofisticação do que o "Diário da Manhã", o "Novidades" ou o "Diário de Notícias". E também lembravam, numero-sim-número não, belos episódios das glórias aliadas na 2ª Guerra Mundial.

Um dia, as "Selecções" aportuguesaram-se e, pouco a pouco, foram desaparecendo do nosso horizonte de leitura, concorrendo com outras publicações mais apelativas. Às vezes, antes de entrar num comboio, ainda comprava as "Selecções", mais por curiosidade do que por interesse. A "Reader's Digest" passou então a ser mais famosa por livros e discos que editava e que uma inventada "Marta Neves" nos propunha, em regular e personalizada epistolografia - alguns, aliás, de grande qualidade.

Há anos que já não lia as "Selecções". Minto: há poucas semanas, numa casa de campo nortenha, encontrei exemplares das edições brasileiras, dos anos 40 e 50 do século passado, alguns já sem capa, e, confesso, diverti-me bem com algumas historietas, bem de um outro tempo. Será isto nostalgia?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sérgio


“Você sabe, Francisco, só me aparecem desafios que não consigo recusar!” – foi a frase que retive da última conversa com Sérgio Vieira de Mello, quando lhe telefonei para Genebra a desejar sucesso para a sua nova missão em Bagdad. Ironizámos então com o facto de Paul Bremer, o primeiro "administrador" americano no Iraque, com quem Sérgio teria que se articular, ter coincidido comigo em posto diplomático na Noruega, nos idos de 70: prontifiquei-me para "meter uma cunha", se ele precisasse…

Só conheci pessoalmente Vieira de Mello em Setembro de 1999, quando o protocolo nos sentou lado-a-lado, num almoço em Nova Iorque. Acabara, há pouco, a sua missão nos Balcãs e entre nós passou, de imediato, uma corrente de empatia luso-brasileira, logo cimentada pelo mútuo culto do humor. Recordo-me de termos falado da possibilidade de ele chefiar a nova missão da ONU em Timor, ainda semanas antes de Kofi Annan lhe propor o lugar. Eu não tinha a pretensão de estar a ser presciente: limitava-me a ecoar o nome prestigiado que circulava já por alguns corredores, afirmando-lhe a certeza antecipada de que o Governo português o acolheria com muito agrado. Na altura, Sérgio retorquiu-me, com o seu sorriso confiante, que não, que “ia precisar de algum tempo para descansar”. Felizmente, isso acabou por não acontecer.

Sérgio Vieira de Mello fez em Timor um trabalho notável, como várias vezes tive ocasião de referir, em nome de Portugal, em intervenções no Conselho de Segurança da ONU. E – confesso – fi-lo com uma sinceridade que nem sempre é regra nos discursos oficiais. Com ele combinei, nas derradeiras fases do processo pré-independência, o tom comum das nossas intervenções em Nova Iorque, por forma a garantir o apoio que o secretário-geral da ONU e o Governo português entendiam necessário que fosse dado aos timorenses pela comunidade internacional, nos difíceis anos que se seguiriam. Recordo também os pedidos que fez, por meu intermédio, para que Portugal “deixasse cair”, a nível adequado, palavras de acalmia e bom-senso junto de responsáveis políticos de Timor, a fim de atenuar alguns litígios menores, mas que ameaçavam a estabilidade do processo interno.

Em Novembro de 2002, convidei Sérgio Vieira de Mello para ir a Viena, falar ao Conselho Permanente da OSCE, já na sua qualidade de Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos. Foi uma sessão memorável, que gerou um debate interessantíssimo, em que o à-vontade diplomático de Sérgio sublinhou o seu profundo conhecimento da situação internacional. Mas que também revelou a firmeza das suas convicções. No almoço em minha casa que se seguiu, e perante uma observação mais tensa avançada pelo meu colega americano, não deixou de lhe recordar que os prisioneiros de Guantanamo “não vivem na Lua” e que, também a eles, se deviam aplicar, em pleno, “todos os Direitos Humanos devidos aos cidadãos da Terra”.

Foi há precisamente seis anos, no dia 19 de Agosto de 2003, que Sérgio Vieira de Melo morreu, de forma violenta, em Bagdad.

(Este texto reproduz grande parte de um outro que inseri no meu livro “Uma Segunda Opinião”)

Arctic Sea

Se há história que parece ainda muito mal contada é a saga do navio "Arctic Sea", que colocou toda a frota russa em polvorosa, a caminho do Atlântico. O que haverá lá dentro? Alguma vez saberemos?

E por que luas a Comissão Europeia (!) lançou a ideia de que o barco terá sido objecto de um assalto em plenas águas territoriais portuguesas? Será do calor?

Namora


A internet tem destas coisas: encontram-se referências curiosas sobre temas inesperados. Hoje mesmo foi uma nota, num site belga, sobre a edição francesa dos "Retalhos da Vida de um Médico", de Fernando Namora, onde se pode ler:

"Un livre que je ne pensais pas trouver, car il n’a pas été réédité depuis 1955. Et quel bonheur de le trouver à la bibliothèque, bien relié, attendant ma visite. Avec son odeur de vieux livre qui ne se décrit pas. Son papier qui a jauni. Ses pages qu’on a trop peu tournées.

Dommage. Oui, dommage que ce livre ait été si peu lu. Car il y a dans ce récit, ou plutôt cette suite de récits, un ton, des images, des scènes, une époque. Un Portugal qui n’est pas encore révolu, dont les villages reculés hébergent encore des guérisseurs de tout genre, où la population gitane n’a jamais cessé de croître, où l’étranger - comme ce médecin venu du nord - n’est pas accepté d’emblée mais après avoir fait ses preuves, dix fois plutôt qu’une. Un Portugal de petites gens, de superstitions, de simplicité. Le Portugal des villages éparpillés dans la montagne, isolés. Un Portugal que l’auteur aime intensément, avec un respect profond pour les travailleurs de la terre.

Le Carnet d’un médecin de campagne est à découvrir, dans cette édition qui a certes vieilli mais qui n’en est pas moins intéressante, en attendant que quelqu’un pense à faire une nouvelle traduction de ce bijou afin de donner à celui-ci le rayonnement auquel il aurait droit, celui d’un « classique » de la littérature portugaise."

A velha obra de Fernando Namora é, de facto, o retrato de um Portugal de outro tempo, quando o escritor era médico em Monsanto, uma aldeia da Beira-Baixa. Não deixa de ser interessante a ideia da sua reedição, mas parece-me de difícil concretização, atendendo àquilo que é o perfil de procura da literatura portuguesa na França de hoje.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mini-Bar

Os contabilistas estavam perplexos. A conta de "mini-bar" que o hotel tinha remetido ao Ministério, relativa ao convidado estrangeiro que lá alojáramos durante três dias, era espantosamente alta. Muito maior do que as despesas efectuadas no próprio bar do hotel. Que se teria passado? Teria o homem decidido encerrar-se no quarto e esvaziar todo o whisky, gin, cognac e outras bebidas, mandando recarregar o mini-bar algumas vezes mais?

Porém, quem lidara com ele, durante esses mesmos dias, não ficara com a menor impressão de se tratar de alguém afectado na sua sobriedade. O nosso hóspede era quadro superior de um país estrangeiro, de um Estado pobre e com grandes dificuldades. No passado, já tinha ocorrido o Ministério ter de suportar algumas despesas exageradas, feitas por alguns convidados de perfil idêntico, um pouco deslumbrados pela circunstância de todo o consumo que fizessem no hotel ser por nossa conta. Mas isso, à partida, continuava a não explicar a elevada despesa do mini-bar.

Foi tomada a decisão de pedir uma factura detalhada dos consumos feitos pelo cliente, durante todo o tempo da sua estada. A resposta veio e, com ela, a desarmante explicação: a rubrica "mini-bar", inserida na conta do hotel, nada tinha afinal a ver com o consumo de bebidas. Tinha a ver com o facto do nosso homem, no embalar final das suas bagagens, antes de sair do hotel, ter decidido levar consigo, seguramente bem embrulhado, o próprio pequeno móvel do mini-bar...

100 metros

Ontem, foi um grande dia para o atletismo mundial. E não só. O jamaicano Usain Bolt completou os 100 metros na fantástica marca de 9,58 segundos: 37,578 quilómetros por hora!

Um recorde histórico na cidade em que Jesse Owens irritou Hitler e no ano em que Obama é presidente dos Estados Unidos. Um excelente momento para o mundo!

Voltas

Terminou ontem mais uma Volta a Portugal. Desta vez, para variar, foi um português o vencedor.

Não tenho um contacto com a realidade portuguesa que me permita aquilatar, com precisão, da relação afectiva que o país tem hoje com o seu ciclismo. Fico com a sensação que já não há grandes ídolos, apenas uma meia dúzia de nomes relativamente mais conhecidos. Não deixa, aliás, de ser curioso que aquele que parece ser o mais popular ciclista português, Cândido Barbosa, nunca tenha obtido uma vitória na Volta a Portugal. É, apesar disso, um campeão da simpatia.

A desaparição dos clubes tradicionais como promotores centrais da modalidade, bem como a entrada das empresas a dar nomes às equipas, terá retirado muita da rivalidade antiga que alimentava o ciclismo português. Valha a verdade, um dos grandes duelos históricos do nosso ciclismo ocorreu entre Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, apoiados então, respectivamente, pelos modestos Sangalhos e Académico do Porto. Mas as camisolas do Benfica, Porto e Sporting (aqui por ordem puramente alfabética, claro...) foram a chave de décadas de entusiasmo nacional pelo ciclismo.

Porém, como espectáculo de rua, o ciclismo continua ainda a ser uma festa para as terras por onde passa. Há uma merecida admiração por esses homens que, no tempo mais quente do ano, passam horas a sofrer. Uma luta que se passa à nossa escala, porque há que ter em atenção que a Volta a Portugal está a anos-luz de importância das suas grandes congéneres europeias - a espanhola, a italiana e a francesa. De qualquer forma, conseguir subir a Senhora da Graça ou a Torre continua a ser uma proeza impressionante e comovente.

A minha terra, Vila Real, deu ao ciclismo português um nome importante: Delmino Pereira. Porém, na minha infância, havia por lá um outro ciclista, Firmino Claudino, o qual, durante alguns anos, alinhou em Voltas a Portugal, sem que, no entanto, tenha deixado marca de vitórias. Recordo-me bem da sua figura, dono de uma loja de bicicletas e, com bastante mais êxito do que no ciclismo, do seu estatuto de um dos melhores bilharistas nas mesas do Café Excelsior.

Uma Volta a Portugal, nos anos 60, teve uma etapa que finalizou nas Pedras Salgadas, terra de onde Firmino Claudino era originário. Mantenho viva na minha memória a sua imagem, nesse final da tarde, impante de orgulho, a passear-se de braço dado com Alves Barbosa, numa assumida e ostensiva revelação de proximidade com aquela que era, à época, a grande estrela do ciclismo português. Essa terá sido, seguramente, a sua maior vitória ciclística... Anos mais tarde, a caravana da Volta atravessou as Pedras Salgadas. Firmino Claudino ia no pelotão e, à passagem na sua terra natal, decidiu desistir por lá. Foi a etapa final da sua última Volta. Ter a própria terra por meta não deixa de ser bonito.

sábado, 15 de agosto de 2009

Douro

Há semanas, dei por mim a pensar no Douro. E, em especial, no que hoje representa o Douro para o nosso imaginário regional e nacional.

Nasci, fui educado e vivi durante algum tempo bem perto do Douro, a menos de três dezenas de quilómetros, por estrada. Para quem viajava bastante de comboio, como era o meu caso, a paisagem duriense fazia parte integrante e habitual do nosso cenário de trajecto, quer no tortuoso e bizarro percurso entre Vila Real e a Régua, quer entre esta vila (que o era, à época) e o Porto - que era então a mais próxima imagem de metrópole para os nortenhos.

Nas minhas memórias de infância e adolescência está aquela mancha de água que viajava quase sempre ao lado da linha férrea, às vezes aproximando-se dela de forma quase perigosa. Nelas estão também as regulares enchentes, uma espécie de destino a que as ruas mais baixas da Régua não escapavam. Mas, no nosso imaginário, o Douro não era mais do que isso.

Mas a que propósito vem isto? Vem a propósito do facto de eu, como muito boa gente do Norte do país, só ter acordado muito tarde para a fantástica beleza da região do Douro, para a paisagem magnífica e diversa que ela hoje oferece a qualquer viajante - de carro, de barco ou de comboio. Porque fazia parte do nosso cenário de rotina, não a tínhamos valorizado e, de certo modo, foi preciso que outros a olhassem de fora para que nós também a "víssemos".

O Douro, para além dos vinhos, mas agora muito por causa deles, é um património sem preço que importa a Portugal promover, sem o deixar descaracterizar.

Em Paris, numa data a anunciar, mas ainda dentro deste segundo semestre, em estreita cooperação com as autoridades durienses, vamos levar a cabo, nas intalações da Embaixada de Portugal, uma acção de promoção daquela região. Aí falaremos do vinho, claro, mas também das paisagens, da hotelaria, da gastronomia, da cultura e de um conjunto de outras vertentes que tornam aquela região, nos dias que correm, numa das grandes "surpresas" da oferta turística portuguesa.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cem Amigos

A língua portuguesa é muito traiçoeira - dizia um rapaz que já teve mais piada, em especial quando a usava com subtileza. Cem amigos significa que estamos com amigos, por mais que a frase soe estranha.

Como o quadro ao lado atesta, na data de hoje, temos já 100 leitores inscritos no blogue, pessoas a quem agradecemos a sua simpatia, paciência e atenção, que esperamos continuar a não desiludir.

Les Paul (1915-2009)

Tive o privilégio de ainda poder ver, ao vivo, Les Paul, o guitarrista americano que agora desaparece, aos 94 anos. Foi numa noite, nos anos 90, nessa histórica "catedral" do jazz que é o Ronnie Scott's, em Londres. Era uma figura genial e foi um dos instrumentistas que deu à guitarra eléctrica uma grande dignidade.

Aqui fica a uma sua memória. Se puderem, ouçam os seus discos.

República

Hoje, dia em que alguns blogues portugueses vão voltar a andar muito entretidos com o tema, apetece-me publicar esta bela alegoria sobre a Implantação da República.

A Embaixada de Portugal em Paris tem em preparação, para o ano de 2010, algumas iniciativas destinadas a comemorar o Centenário da nossa República - a segunda, depois da francesa, a ser instaurada num país europeu.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Telefonista

Aquela telefonista era muito rigorosa e precisa: tudo o que não fosse relacionado com o serviço da Embaixada era imediatamente reencaminhado.

A chamada que recebeu nessa manhã teve a resposta devida. O interlocutor perguntou quem, na Embaixada, o poderia informar sobre as datas de nascimento e morte do rei dom João I.

A funcionária não hesitou: "Nascimentos e falecimentos não é connosco. Isso são coisas consulares. Vou dar-lhe o telefone do Consulado-Geral". E deu...

Crescimento

Embora pontuadas por compreensíveis notas de prudência, as reacções em França às notícias de recuperação nos índices de crescimento foram, em geral, muito positivas e optimistas. Toda a imprensa saudou a "proeza" e não apareceram, até agora, "aves agoirentas" a desqualificar o ocorrido. Implicitamente, o resultado é visto como o saldo de um esforço nacional, colectivo, envolvendo sectores oficiais, empresariais e laborais.

Dado que o percentual de crescimento foi precisamente o mesmo em França e em Portugal, confesso que estou muito curioso em saber como serão as reacções no nosso país.

Ibéria?


Pondo de parte a teoria conspirativa, alimentada por alguns, de que se trata de subtis balões de ensaio, confesso que frequentemente me interrogo sobre as motivações que poderão estar na origem do cíclico surgimento, entre nós, das teses iberistas. Benevolamente, atribuo-as à síndroma sazonal da "silly season", adubadas pelo esforçado internacionalismo de outros tantos, que se entretêm a brincar com a identidade nacional, em exercícios lúdicos de alguma irresponsabilidade.

O iberismo acabou por fundar-se, historicamente, no sentimento de finis patriae que nos adveio do declínio posterior à perda do Brasil, marcado pela dificuldade em gerirmos o nosso papel intraeuropeu, no ácido confronto cruzado de ambições coloniais, que nem o carácter de algumas alianças vetustas conseguiu disfarçar. Desde então, esse tropismo, derrotista e derrotado, tende a renascer sempre que surgem conjunturas que alguns identificam com a crise, não necessariamente do país, mas da ideia atormentada que dele alimentam. Tudo isto vale o que vale, mas devo confessar que começa a tornar-se irritante a sua reiterada emergência, com alguns inocentes úteis a dar-lhe foros de dignidade, por vezes mesmo com tentativas de teorização pseudo-intelectual.

Faço parte de uma geração educada "contra a Espanha", na magnificação do papel das batalhas que nos garantiram a independência, das figuras hagiografadas de recorte heróico quase caricatural, tudo se saldando na gestação de uma desconfiança atávica face aos "ventos" que sopravam de Madrid. Os livros de um Matoso anterior e de alguns outros "genéricos" da historiografia portuguesa defendiam essa espécie de doutrina patriótica incontornável, a que a própria diplomacia portuguesa não escapou. Esse culto quase paranóico da História, hiperbolizado ao ridículo pelo Estado Novo, gerou uma espécie de "inimigo nacional" obrigatório. Ainda hoje, alguns iluminados tendem por aí a esquecer uma meridiana realidade: quase nove séculos decantaram uma identidade portuguesa bem clara que, em todas as dimensões, se distingue hoje das "Espanhas" - de todas elas. E essa distinção já nada tem a ver com antagonismo.

A comum entrada de Portugal e Espanha nas instituições europeias fez com que se atenuasse, de um modo natural e num movimento de elementar racionalidade, essa doentia obsessão anti-espanhola, tornando natural o relacionamento dos dois Estados que coexistem na península. O modo como os temas de contencioso bilateral passaram a ser tratados, de que são exemplo os casos das pescas ou da gestão dos rios comuns, provou o carácter altamente benéfico da mútua convivência dentro do quadro formal europeu. Além disso, devo confessar que, para mim, foi uma verdadeira lição ver as novas gerações portuguesas começarem a entusiasmar-se com a "movida" madrilena ou desejosas de aproveitar a riqueza de vida das Ramblas de Barcelona.

A Espanha contemporânea, na sua diversidade e complexidade, é hoje uma realidade pujante, onde um sentimento colectivo de salutar orgulho fixou uma matriz que conseguiu federar autonomias e nacionalismos muito diferentes. É um país magnífico, com uma cultura interessantíssima, um povo optimista e que, em algumas décadas, deu ao mundo a lição de como foi possível desenvolver uma sólida democracia, uma sociedade de bem-estar e de franca modernidade, que conseguiu firmar-se sobre as memórias trágicas da Guerra Civil, as pulsões nacionalistas e as ameaças da barbárie terrorista.

A serena relação com a Espanha constituiu hoje um dos pilares importantes da nossa política externa. Com Madrid, encontramos, dia-após-dia, áreas para uma acrescida cooperação internacional em imensos domínios, definindo cada vez mais linhas comuns de trabalho em instâncias multilaterais. Como disse, há dias, o rei Juan Carlos, Portugal e Espanha são “duas nações antigas, vizinhas, amigas, sócias e aliadas”.

Existe hoje em Portugal uma grande simpatia pelo seu vizinho espanhol. Para que isso continue a ser assim, necessário é que continuem a existir dois países, Portugal e Espanha, como soberanias orgulhosamente diversas. Alguns não pensam assim? Deixemo-los a falar sozinhos. Portugal está aí para durar, gostem ou não.

Uma versão reduzida deste texto é hoje publicada, como artigo de opinião, no Correio da Manhã.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Memória de Agostos (III) - 1974

Estávamos nos últimos dias de Agosto de 1974 e os agentes da polícia política PIDE/DGS (os “pides”), presos desde o 25 de Abril na cadeia penitenciária de Lisboa, haviam iniciado um novo motim. Era um movimento em tudo idêntico ao que tinham desencadeado no início do mês e que provocara a constituição de uma “comissão de inquérito”, composta por um representante de cada um dos três ramos das Forças Armadas, da qual eu era relator, enquanto oficial miliciano do Exército.

Tinha assumido essas funções na qualidade de assessor do general Galvão de Melo para as questões do desmantelamento da PIDE/DGS e da Legião Portuguesa. Galvão de Melo, da Força Aérea, era um dos sete membros da Junta de Salvação Nacional, que então dirigia o país, e, seguramente, a figura mais à direita dentro daquele órgão. Por uma singular ironia, competia-lhe a tutela da Comissão de Extinção da polícia política do anterior regime, tarefa que o não entusiasmava por aí além. E, por outra singular ironia e fruto de diversas circunstâncias, coube-me em rifa ser seu assessor.

Os pides consideravam então estar a ser vítimas de uma imensa “injustiça”, seriam totalmente infundadas as inúmeras acusações de torturas e atentados aos Direitos Humanos que sobre eles impendiam, a esmagadora maioria jurava nunca ter feito outra coisa que não fosse estar nas fronteiras a pôr carimbos nos passaportes. Uns anjos, em suma. Poder-se-á dizer que a sua posterior não indiciação quase colectiva pela Justiça provou que tinham razão?

Descontentes com o prolongamento da sua detenção e respectivas condições, mobilizados por um pretexto conjuntural, os pides tomam alguns guardas da Penitenciária como reféns, abrem o “gradão”, a porta de ferro que lhes permite invadir a parte central da prisão, e anunciam que estão “à disposição” do general Galvão de Melo, que acabara de fazer uma polémica e ultraconservadora proclamação televisiva, que lhes terá ressuscitado a esperança de uma libertação rápida.

No auge desta nova crise, o chefe da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, comandante Conceição e Silva, foi de helicóptero ao Algarve, com o seu adjunto Alfredo Caldeira, para tentar obter orientações de Galvão de Melo. Na conversa, o general, enfadado por ver interrompido o concurso hípico da Penina, terá deixado os seus interlocutores de mãos a abanar. Estávamos assim, num domingo à tarde, reunidos no gabinete do director da Penitenciária, a discutir o que fazer a seguir.

Esgotadas algumas hipóteses de solução, o José Manuel Costa Neves, chefe de gabinete de Galvão de Melo, decide tomar o assunto em mãos: “Eu vou lá dentro falar com os pides. Quem é que quer vir comigo?”. A idade tem destas coisas e a precipitação é uma delas. Por isso, disse de imediato: “Eu vou contigo”. Arrependi-me no segundo seguinte, mas já era tarde: cinco minutos depois estava a seguir a figura alta e corajosa do então major (hoje general) Costa Neves e a entrar no meio de uma chusma de pides, que sabíamos que tinham armas retiradas aos guardas e desconhecíamos se tinham a intenção de também ficar connosco como reféns.

Enquanto o mar de pides se abria como as águas do mar Vermelho, para ambos podermos chegar ao centro da prisão, comigo numa taquicardia de tardio bom senso, recebo um leve toque num ombro e volto-me, sobressaltado. Dou de caras com o “Navalhas”, um colega de escola primária em Vila Real, que eu não via há muito e desconhecia ter escolhido tão distinta opção profissional.

“'Tás porreiro? Então por aqui?”, saiu-me, num registo social, como se o estivesse a encontrar no Rossio, à porta da Suíça. Apertei-lhe a mão, quase caloroso, para me dares ares de confiança bem à vista do grupo, que tinha já cem olhos sobre mim, com o “Navalhas” a retorquir-me: “É verdade! Quem também cá está é o “Bilrau”, mas não aderiu”. O “Bilrau” era também um antigo colega de liceu que, do mesmo modo, eu desconhecia ter enveredado pela prestigiante carreira de pide. E o meu convívio social-pidesco estendeu-se então, com a maior naturalidade, ao ausente “Bilrau”: “Ó 'Navalhas', dá um abraço meu ao 'Bilrau'… e tive imenso prazer em ver-te, pá!”.

Esta rápida sequência de vénias de cordialidade passou-se, aparentemente, sem que o Costa Neves nada notasse, entretido que estava já a lidar com os cabecilhas do motim e a transmitir ao selecto auditório as presumidas orientações de Galvão de Melo. Dez minutos depois, para meu imenso alívio, estávamos cá fora, sãos e salvos. Os pides acabaram por não se render na sequência da nossa esforçada diligência e só foram “convencidos”, horas mais tarde, pela chegada de um pelotão de “fuzos”, os Fuzileiros Navais que o Conceição e Silva mandou vir do Alfeite.

Desde esse inesquecível mês de Agosto de 1974, nunca mais vi o “Navalhas” ou o “Bilrau”. Coitados, com o acordo de Schengen, até ficaram sem fronteiras para praticarem a sua nobre profissão. Eles que só punham carimbos em passaportes...

Política Agrícola Comum

O antigo órgão oficial do Partido Comunista Francês, o L'Humanité, ataca a decisão das autoridades de Paris de obrigar os agricultores franceses a devolverem aos cofres comunitários ajudas indevidamente recebidas entre 1992 e 2002. Juridicamente, não há a menor sombra de dúvida de que estas ajudas falsearam a posição francesa no mercado comum europeu - como o próprio Governo francês não tem dificuldade em reconhecer e o Le Monde esclarece com serenidade.

O que não deixa de ser interessante é ver os comunistas franceses sublinharem o argumentário das associações de agricultores, que vêm agora lembrar outras ajudas que a Europa concedeu, aquando da entrada de Portugal e da Espanha nas então Comunidades Europeias. O "internacionalismo" já não é o que era...

Alguns agricultores franceses parece esquecerem três realidades.

A primeira é que as ajudas recebidas pelos novos aderentes foram a contrapartida natural da abertura desses países aos produtos e agentes económicos europeus - e também franceses -, muitos dos quais repatriaram tais ajudas em lucros e obtenção de quotas de mercado, nos produtos agrícolas, industriais e nos sectores de serviços.

A segunda é a de que um país como Portugal, pela estrutura da sua matriz agrícola e pelo modo como ela foi projectada na negociação da adesão, tem vindo a ser um "contribuinte líquido" da Política Agrícola Comum (PAC), isto é, paga percentualmente mais para o orçamento comunitário do que recebe através das respectivas ajudas no sector.

Finalmente, esses agricultores parece não se lembrarem que a França foi sempre, bem de longe, o maior beneficiário europeu da PAC, política desenhada ao sabor dos seus interesses, muito antes de Portugal ser sequer candidato à integração. E que essas vantagens vão manter-se até 2013, naquilo que foi o curioso acordo em Conselho Europeu que, em 2002, "congelou" mais de 40% do orçamento comunitário até essa data, bem antes de ter sido fixado o orçamento plurianual (2007/2013) da UE.

A posição do Governo francês nesta questão concreta tem sido de um impecável respeito pelas regras comunitárias. E é importante que, de futuro, tudo possa continuar a ser assim, para o que um país como Portugal necessita, mais do que nunca, de uma Comissão Europeia forte, independente e sem medo dos Estados membros. Quem não perceber isto não percebe a Europa.