domingo, 31 de maio de 2009

Porto, claro!

Pronto! O Porto lá conseguiu igualar ontem o Sporting em vitórias na Taça de Portugal. Depois de ganhar o seu quarto campeonato consecutivo. Com um treinador português.

Apenas constatando o óbvio, tenho dito, para zanga de alguns leitores deste blogue, que o clube das Antas continua a não ter rival em Portugal, goste-se ou não da sua gestão. E repito isso hoje. Parabéns ao FCP.

sábado, 30 de maio de 2009

Fugas

O ministério francês dos Negócios Estrangeiros apresentou uma queixa judicial para tentar apurar a origem de fugas, para o semanário satírico "Canard Enchaîné", de algumas comunicações oficiais oriundas dos postos diplomáticos franceses espalhados pelo mundo. É que, nos últimos tempos, um seu funcionário pouco escrupuloso estará a pôr em causa a segurança do Estado, à luz de um peculiar conceito de transparência da coisa pública.

Esta é uma questão que, num tempo ou noutro, tem afectado quase todas as carreiras diplomáticas, embora normalmente com maior incidência em momentos de forte tensão política, interna ou internacional. Recordo-me do escândalo provocado pela reprodução de uma célebre comunicação do meu querido amigo "Chencho" Arias, antigo embaixador espanhol na ONU, que surgiu na imprensa de todo o mundo, ao tempo da invasão americana do Iraque, em 2003.

Trata-se de um problema que é sempre de extrema delicadeza, porque a falta de confiança no secretismo de uma determinada rede diplomática conduz ao natural empobrecimento da informação por ela produzida, pelo facto de provocar uma compreensível retracção por parte de quem transmite por essa via. Os diplomatas não são espiões, trabalham com a chamada "informação aberta", colhida através de meios totalmente legais, mas a sua produção escrita inclui valorações opinativas que, porque destinadas em exclusivo aos seus governos, não agradariam necessariamente a outras entidades que a elas pudessem ter acesso.

Portugal não escapou, no passado, a este tipo de questões mas, verdade seja, de há muito que me não lembro de ver reproduzida correspondência diplomática portuguesa na imprensa - ou nos blogues, o que seria o mesmo. O que talvez nos deva levar a concluir que o sentido de Estado dos nossos funcionários - diplomatas ou outros que têm acesso a esse tipo de comunicações - tem vindo a prevalecer sobre qualquer tendência para a indiscrição.

Pauleta

Pedro Pauleta é um futebolista a quem - há que dizer isto bem alto - Portugal não deu nunca o reconhecimento que lhe seria devido. Talvez por nunca ter jogado na divisão principal do futebol português, talvez por nunca ter integrado qualquer dos seus três maiores clubes, Pauleta acabou por não ter, em Portugal, a grande homenagem que a sua excepcional carreira justificaria. E, no entanto, estamos "apenas" perante o melhor marcador de sempre das nossas selecções nacionais, autor de golos que marcaram positivamente o destino de muitos dos 88 jogos em que vestiu a camisola de Portugal.

Jogador correctíssimo e com forte personalidade, figura simples e de grande simpatia pessoal, deixou nos estádios e nos adeptos franceses uma imagem extremamente positiva, para além de ter dado, durante anos, fortes alegrias aos portugueses e luso-descendentes. Por aqui ganhou campeonatos de França pelo Girondins de Bordeaux e pelo Paris Saint-Germain (PSG), sendo o maior marcador de sempre da história deste clube. Antes, havia sido campeão de Espanha pelo Deportivo de Coruña.

Como embaixador de Portugal, entendi não dever deixar passar o momento em que o PSG comemora o "jubilé" de Pedro Pauleta sem lhe prestar uma singela homenagem na nossa Embaixada, durante um almoço que hoje teve lugar. Nele reuni amigos de Pauleta e dirigentes do PSG, o clube que mais o tem acarinhado, do qual é agora "embaixador" pelo mundo e que, também por essa razão, se terá convertido naquele que hoje concita o maior apoio entre os portugueses e luso-descendentes em França.

Amanhã, lá estaremos todos a dar a Pedro Pauleta, no ambiente quente do seu Parc des Princes, um abraço de amizade e reconhecimento. O governo da Região Autónoma dos Açores aceitou a sugestão para se associar a este evento e, desta forma, as ilhas de Pauleta lá irão também, com a sua música e as suas tradições, estar representadas nesta justa homenagem pública.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ténis

Tem 16 anos, é portuguesa, chama-se Micaela (Michelle, para a imprensa internacional) Larcher de Brito e foi a grande e sonora sensação de Roland-Garros, aqui em Paris.

Perdeu o apuramento para os oitavos de final, mas fez história no ténis mundial.

Até para o ano, Micaela!

O Tempo na Cultura

Manuel d'Olivares é um pintor português residente em Barcelona. Apresentou na 3.ª feira, na Cité Universitaire de Paris, "Meteorologia para Piano - duplicidade e cumplicidade", uma exposição de óleos onde as temáticas do clima e da música estão presentes, numa aliança - imagine-se! - suscitada pelo famoso anticiclone dos Açores. O espectáculo incluiu um concerto de Miran Devetak, um excelente pianista ítalo-esloveno, que se ligou, de forma magnífica, ao espírito da apresentação.

Foi uma iniciativa do Instituto Camões de Paris, aproveitando a hospitalidade da Casa de Portugal na Cité, com uma muito boa presença de público. Este é mais um caminho para abrirmos as expressões da nossa cultura a novos olhos e ouvidos em França. Porque os meios disponíveis para este tipo de iniciativas são muito limitados, temos de trabalhar numa lógica de "sopa da pedra"...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

28 de Maio

Há minutos, um amigo perguntava-me se, nas notas que este blogue costuma fazer em relação a algumas datas portuguesas, não havia espaço para o 28 de Maio. Não que ele pretendesse comemorá-lo - deixou claro -, mas porque isso seria talvez interessante, como memória para alguns leitores mais jovens, para quem as diferenças entre tempos passados acabam por diluir-se no seio de alguma indiferença. Tem toda a razão.

O movimento de 28 de Maio de 1926 foi um golpe de Estado militar, com apoio de sectores conservadores civis, que pôs termo à experiência democrática iniciada cerca de 16 anos antes, com a instauração da I República, em 1910. Muito por obra da persistente oposição dos seus inimigos, a que se somou a incapacidade da burguesia urbana de consensualizar um modelo político fora dos vícios do antigo rotativismo monárquico, cumulado por um agitação operária que ia com os tempos, a jovem República acabou por instalar um regime de grande instabilidade política, que alienou, sucessivamente, vários sectores sociais, diminuindo drasticamente a sua base de apoio.

Na execução do 28 de Maio cooperaram forças de vária natureza, desde monárquicos revanchistas a republicanos desiludidos, de sectores integristas católicos a meios empresariais cansados das tensões sindicais. O movimento, que acabou por se revelar filofascista, teve inspiração em modelos congéneres que emergiram noutros países europeus e, no caso português, acabou por servir de escape a um profundo mal-estar no seio da instituição militar, que a participação na Primeira Grande Guerra tinha potenciado.

Em poucos dias, o 28 de Maio trucidou sucessivamente dois dos seus líderes, acabando a nova Ditadura Militar por deixar na chefia do Estado o general Óscar Fragoso Carmona, que abriu o caminho que viria a ser prosseguido pelo jovem economista coimbrão, militante católico conservador, que deu pelo nome de António de Oliveira Salazar.

Um dia, Salazar, num dos seus mais célebres discursos, disse: "Sei o que quero e para onde vou". E, porque ele sabia, escusou-se a perguntar aos portugueses, durante quase 40 anos, se queriam ir por aí.

Delors

Há duas Europas: a de antes de Jacques Delors e a que resultou do seu empenhamento e entusiasmo, parte da qual não lhe sobreviveu.

Hoje, ao final da tarde, no Centro Gulbenkian em Paris, um Delors na sua melhor forma, já sem as limitações das responsabilidades directas e com a frontalidade de quem sabe bem que o que diz conta e pesa, falou-nos do projecto europeu e dos riscos que sobre ele impendem. Mas falou-nos também do optimismo, da esperança e da sua crença no futuro daquele que considera ser o mais bem-sucedido desenho institucional de sempre, em matéria de cooperação entre nações: a União Europeia.

Delors referiu-se, com grande simpatia, a Portugal e aos portugueses, ao "mais bem-conseguido alargamento de sempre" feito pela Europa. É bom ouvir os amigos, e Delors sempre fez questão em ser um bom amigo de Portugal. E, quando foi necessário, juntou os seus actos às suas palavras.

Julgo que muitos saíram hoje da Gulbenkian de Paris com esta ideia: que falta fazem à Europa contemporânea homens como Jacques Delors!

Coreia do Norte

O ensaio nuclear norte-coreano, na sua trágica irresponsabilidade, tem a colateral virtualidade de ajudar a acordar a China e a Rússia para a emergência, na sua vizinhança, de um poder dotado da arma mais poderosa, com um forte potencial desestabilizador. E esse poder é tanto mais imponderável quanto resulta de um Estado onde as atitudes não procedem de um processo decisório com base democrática.

À Coreia do Norte parece poder hoje aplicar-se o que alguns dizem das lideranças palestinianas: "They never miss an opportunity to miss an opportunity". Ao seu governo foram dadas várias hipóteses e soluções, com estímulos financeiros e de outra ordem, por diversos sectores da comunidade internacional. Moscovo e Pequim tomaram em atenção o que consideraram serem os legítimos interesses norte-coreanos no âmbito das "six parties talks", perante o compreensível alarme do Japão e a errática agenda dos EUA - que muitos, de forma simplista, identificam com a da Coreia do Sul. Resta-lhes avaliar o saldo dessa táctica.

Importará agora saber se esta nova intranquilidade criada em Moscovo e em Pequim tem possibilidade de vir a consagrar-se em termos de uma efectiva coerção sobre Pyongyang, através da mobilização eficaz de todos os meios diplomáticos disponíveis. Se isso viesse a acontecer, com resultados práticos, talvez abrisse portas para a sequente ponderação de medidas de contenção, com idêntico objectivo, noutros cenários de instabilidade e risco nuclear. E, quem sabe, talvez também pudesse servir de base à exploração da viabilidade das propostas feita pelo presidente Obama, no seu discurso em Praga, no tocante a uma ambiciosa agenda global de desarmamento nuclear. Mas isso seria jogar com a sorte e, infelizmente, a História prova que raramente tudo corre bem.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Eleitos


Já está! Tal como ficou sugerido aquando da reunião que organizei com eleitos de origem portuguesa em Bordéus, há pouco mais de uma semana, foi criada pela Embaixada de Portugal em França a plataforma informática que permitirá aos eleitos de origem portuguesa em França corresponderem-se e interagirem entre si, apresentando os seus textos, ideias, iniciativas, propostas e tudo o resto que muito bem entenderem.

Com o endereço electrónico de www.france-portugal.blogspot.com, este espaço, para além de poder ser lido pela generalidade das pessoas que tenham acesso à internet, é de livre utilização por todos os cidadãos de origem portuguesa que tenham sido eleitos em órgãos locais, regionais ou nacionais em França. O objectivo é proporcionar um local de debate sobre assuntos de interesse comum, de apresentação de iniciativas e formulação de propostas.

Os eleitos de origem portuguesa que desejem ter acesso à plataforma informática necessitam apenas de dirigir um e-mail para o endereço fraporelus@gmail.com, após o que receberão de volta uma senha que lhes permitirá participar no espaço de discussão, nela podendo utilizar a língua portuguesa ou francesa indiferentemente.

E, contrariamente à asserção bíblica, segundo a qual "muitos são os eleitos, poucos são os escolhidos", todos os eleitos podem fazer parte deste novo mundo de diálogo...

Piano

Dezenas de amigos de Portugal estiveram ontem, ao final da tarde, na nossa Embaixada em Paris para ouvir a música trazida por Adriano Jordão, num intervalo das suas funções de Conselheiro Cultural em Brasília.

Depois do jazz ouvido há semanas e antes da guitarra clássica portuguesa, que aí virá em Junho, foi agora a vez do piano. A música é também uma forma de se fazer diplomacia.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Vinho do Porto

Há semanas, estive na apresentação em Paris de um vinho do Porto rosé! É verdade, o "marketing" imaginativo do Porto já vai por esses caminhos, embora presuma que isso possa incomodar alguns puristas.

Confesso que não me preocupa nada que se possam descobrir novas fórmulas que nos permitam vender o nosso vinho, desde que se tenha sempre a qualidade como permanente referencial.

Em França, o vinho do Porto continua como um forte emblema de Portugal, com a curiosidade de ser servido Porto "doce" antes das refeições, ao contrário da maioria dos países, onde o Porto "seco" abre os repastos.

Deixo-lhes um som sobre o vinho do Porto, da autoria de Carlos Paião, pelos Donna Maria, para além de uma foto do Douro, região que, no segundo semestre, a Embaixada de Portugal em Paris vai promover com algumas iniciativas.

À Espera de Godinho

"Três portugueses e um belga de origem portuguesa, nascidos nos anos 40 do século XX e cujos caminhos se cruzam em Bruxelas, reúnem-se em quatro jantares à espera de um quinto conviva que se faz rogado" - é assim que um livro de conversas de memórias se apresenta, com o "beckettiano" título de "À espera de Godinho", editado pela Bizâncio.

O livro foi-me enviado por um dos autores conversantes, o Amadeu Lopes Sabino - aliás, para quem não saiba e na minha opinião, uma das melhores escritas em língua portuguesa surgida nas últimas décadas. Nele se espelham-se os vários percursos pessoais, diferentes mas idênticos aos de muitos que andaram por esses tempos de Bruxelas, de Paris ou Londres, feitos de exílio ou de recusa da guerra colonial, com a Europa a servir-lhes hoje de sereno traço comum de vida.

Como ilustração, deixo a lembrança de um curto e curioso poema de Pessoa, chamado ao livro:

"António de Oliveira SalazarTrês nomes em sequência regular...António é AntónioOliveira é uma árvoreSalazar é só apelido.O que não faz sentido
É o sentido que tudo isso tem".

Simone

Simone Veil é uma das personalidades cujo percurso talvez melhor traduza o destino da Europa contemporânea. Sobrevivente à barbárie nazi que a levou para um campo de concentração, foi a ministra da Saúde que abriu as portas da França à modernidade da lei do aborto, tendo-se tornado na primeira mulher eleita para presidir ao Parlamento Europeu. É uma figura serena, quase discreta, com um olhar vivo e atento, onde o leve sorriso não apaga por completo alguma melancolia que a História lhe pode ter tornado inevitável.

Ontem, aqui em Paris, juntou-se ao prémio Nobel da Economia Amartya Sen e a outras figuras cimeiras da vida académica mundial graças ao convite da Fundação António Champalimaud, dirigida por Leonor Beleza, uma bela instituição que nos traz um Portugal mais solidário e voltado para o mundo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Frase

"Se entendemos que Chipre é na Europa, embora se trate de uma ilha ao largo da Síria, é difícil não considerar que a Turquia se não situa na Europa".

Carl Bildt, ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, no "Figaro", hoje.

Peso

Há umas semanas, na qualidade de embaixador de Portugal em França, fui simpaticamente convidado a integrar uma prestigiada confraria gastronómica francesa, a "Académie des Psychologues du Goût", instituição de reuniões aperiódicas, cuja fundação data de 1923, e que integra essa sumidade nacional das coisas da mesa que é José Bento dos Santos - sendo nós dois, aliás, os únicos estrangeiros "em exercício".

No final de semana passado, e como reconhecimento pelo facto de terem sido os judeus portugueses, perseguidos pela Inquisição, a trazerem para França a tradição do chocolate, Portugal foi o país convidado de honra das "Jornadas do Chocolate" de Bayonne, e o embaixador de Portugal foi então entronizado como novo membro da Academia do Chocolate, função cujo conteúdo operacional terá ainda que ser aquilatado.

Também por estas razões, começo a entender melhor que este posto de Paris constitui uma responsabilidade com consequências de peso...

domingo, 24 de maio de 2009

Arte Equestre

Há dias - neste caso, noites - em que sentimos que uma certa imagem de Portugal se projecta, com um impacto de especial prestígio, sobre a sociedade francesa. Foi o que aconteceu na última 6ª feira.

A Escola Portuguesa de Arte Equestre esteve em Saumur, no vale do Loire, a fazer uma apresentação conjunta com o "Cadre Noir", da École Nationale d'Équitation de França, perante cerca de dois mil espectadores, numa cerimónia a que tive a honra de co-presidir. Foi um espectáculo memorável, no termo do qual, Filipe Figueiredo, seu director, recebeu a Légion d'Honneur, a mais prestigiada condecoração da República francesa, como reconhecimento pelo seu excepcional trabalho de cooperação com a escola francesa.

A nossa escola conserva uma tradição secular de notável arte equestre, sublinhada por trajes clássicos que são uma referência de tempos idos, cultivados com empenho pelos seus integrantes, cuja qualidade e técnica só têm paralelo, à escala mundial, nas suas homólogas francesa, austríaca e espanhola. Por isso, esta é uma imagem da nossa História que nos compete preservar e promover.

Espero que a escola equestre portuguesa possa continuar a voltar muitas vezes a França e bem gostaria que a nossa comunidade tivesse ocasião de apreciá-la e de constatar como a França a acarinha. Para os portugueses e luso-descendentes que aqui vivem, é muito importante ver a França a reconhecer o que temos de melhor.

Belenenses

Alguns clubes de futebol, por razões nem sempre evidentes para muitos, tendem a concitar uma simpatia bastante maior do que aquilo que os seus resultados poderiam justificar. O Belenenses, o eterno "quarto grande" das lides futebolísticas portuguesas, é, em Portugal, um desses grupos. É que a história do futebol português não esquece Matateu (na imagem), Vicente, José Pereira, Capela, Feliciano e outros distintos portadores da histórica camisola azul do Restelo.

Num ano em que o Porto confirmou a sua imensa superioridade a nível nacional, a descida de divisão do Belenenses acaba por constituir um momento de alguma tristeza para quantos, como é o meu caso, não tendo o Belenenses como seu clube de estimação, não deixam de o estimar. Mas o passado já provou que o Belenenses sabe dar a volta ao azar e aí estará, daqui a uns tempos, de novo no campeonato de topo.

Arena

Foi hoje, em Cannes, aqui em França, que o realizador português João Salaviza ganhou, com o seu filme "Arena", o prémio para a melhor curta-metragem.

Um nome português no mais prestigiado festival cinematográfico da Europa. Uma excelente notícia.

"Et pourtant"

O meu jovem colega Charles Aznavour fez, no passado sábado, 85 anos. Escrevo "jovem colega" porque Aznavour acaba de ser designado pelo governo da Arménia como seu embaixador junto das instituições multilaterais em Genebra, na Suíça. Sabia-se da sua ascendência arménia, mas não se supunha que ela o viesse a conduzir ao ingresso na carreira diplomática com uma idade superior, em duas décadas, àquela em que os diplomatas portugueses deixam de poder exercer funções no estrangeiro. "Et pourtant"...

Aznavour está para a canção francesa como Sinatra o está para a americana - que me desculpem outros tantos, como Montand, Bécaud, Ferré ou Brassens. Julgo que tal é sentido dessa forma em Portugal, por onde espalhou, em décadas passadas, o seu romantismo e a sua voz inconfundível.

Por isso, como homenagem, aqui fica, naturalmente, o seu intemporal "Et pourtant".

sábado, 23 de maio de 2009

Ataúro, Timor, 1975

Morreu Lemos Pires, o último governador da província ultramarina de Timor.

Sei que esta opinião tem muito de controverso, mas é minha firme convicção que a imagem de Lemos Pires na história da descolonização portuguesa sofre de uma profunda distorção, fruto da necessidade de se encontrarem bodes expiatórios para um tempo de irresponsabilidade colectiva.

Como militar, recordo-me bem da "importância" que era dada ao dossiê Timor nas reuniões da Assembleia do MFA e, já funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, acompanhei de muito perto as peripécias que envolveram a atitude de Lisboa face à frágil administração portuguesa em Timor, apanhada entre dois fogos, com alguns a fazerem jogos que não ficarão nas páginas mais gloriosas da nossa História. Essa era uma época em que era muito fácil, e politicamente rentável, falar com ironia da saída para Ataúro e da "cobardia" das tropas portuguesas.

Um dia, na Noruega, há precisamente 30 anos, tive a oportunidade de falar longamente com Lemos Pires sobre esses acontecimentos, na base do que eu sabia e no que então dele pude colher. Confirmei, nesse dia, a impressão que já tinha e que conservei até hoje, até à sua morte: Lemos Pires era um homem de bem e, na tragédia de Timor, comportou-se de uma forma que não deslustra a sua imagem de militar português.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Coincidências (3)

No mesmo dia em que Dick Cheney justifica os interrogatórios violentos aos detidos de Guantánamo, com base em razões de segurança americana, um juíz constata que Leonor Cipriano, a mãe da desaparecida Joana, terá sido sujeita a torturas.

Bénard da Costa (1935 -2009)

A partir da carta escrita pelo Bispo do Porto a Salazar, no final dos anos 50, a vida política política portuguesa passou a contar, de forma cada vez mais interveniente, com a presença de personalidades católicas no seio do campo democrático que se opunha ao salazarismo. Ficou então claro que o Estado Novo não tinha o monopólio do apoio dos católicos portugueses, que parecia incontestado desde o início da ditadura.

João Bénard da Costa, que acaba de falecer, foi uma das figuras que esteve no centro desse novo tipo de actividade cívica dos católicos, o qual acabou por ter significativa expressão política - desde diversos manifestos à organização da Revolta da Sé (1959), de uma participação activa nas listas da Oposição democrática, uma década depois, às movimentações em torno do caso do padre Felicidade Alves ou dos incidentes da Capela do Rato (1971). Pelo meio, chegaria mesmo a ser criado um efémero movimento radical, com forte presença de alguns desses católicos, o MAR (Movimento de Acção Revolucionária).

Mas seria no terreno intelectual, em torno da propagação em Portugal das ideias do Concílio Vaticano II e das reflexões de Emmanuel Mounier e de Teilhard de Chardin, que os então chamados "católicos progressistas", no seio dos quais Bénard da Costa viria a ter um papel decisivo, iriam representar um tempo novo na vida portuguesa. A Moraes Editora e a revista "O Tempo e o Modo" constituíram o eixo prático dessa movimentação, como o próprio Bénard da Costa bem relata, num pequeno mas importante livro chamado "Nós, os Vencidos do Catolicismo".

Este perfil cívico não deve fazer esquecer que Bénard da Costa foi, também, uma figura maior da memória do cinema em Portugal, como crítico de escrita inigualável e, mais tarde, como director da Cinemateca Nacional. Foi uma personalidade de grande valor, das mais importantes da sua geração, que muita falta fará à cultura portuguesa. Ver mais aqui.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Alexandria

Há dias, num jantar em Paris, fiquei ao lado de um cavalheiro, que se apresentou, mas cujo nome e ocupação, no momento, acabei por não fixar. Na conversa que se seguiu, verifiquei que era um homem muito culto e interessante, com uma visão alargada da vida e das coisas, que conhecia bem a literatura portuguesa, tendo-me também falado com entusiamo de Jorge Sampaio e da sua Aliança de Civilizações, à qual estava também ligado. A certa altura, dei-me conta de uma coisa incómoda: tinha-se já passado uma boa meia hora de charla, ele sabia quem eu era mas, a mim, continuava a escapar-me quem ele era e o que, no essencial, fazia na vida. A conversa divagava por temas diversos e, de certo modo, já começava a ser delicado eu inquirir essa coisa tão básica, a que eu deveria ter tomado atenção, desde o início. Com alguma técnica que a profissão ensina, acabei por chegar lá, sem perguntar directamente: era o director da nova biblioteca de Alexandria, no Egipto. Chama-se Ismail Serageldin e foi vice-presidente do Banco Mundial.

A bibliteca de Alexandria é uma daquelas referências quase mitológicas na História do mundo e, por isso, quis saber como ele sentia o peso dessa responsabilidade. Pareceu-me muito calmo ao abordar, com realismo, a dimensão da magnífica tarefa que lhe compete, para estar à altura da ideia que a sua biblioteca tem no imaginário mundial. E acrescentou: "Confesso que tenho um problema: não me posso queixar do meu antecessor. Deixou o cargo há quase dois mil anos..."

Nações Unidas

Em menos de uma semana, segundo o Flag Counter (que pode ser consultado na coluna ao lado), este blogue foi visitado por leitores de 35 países. Uau!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Comuns

A crise que actualmente abala o Parlamento britânico trouxe-nos imagens da Câmara dos Comuns, apinhada como um ovo. E com muita gente de pé. O que algumas pessoas desconhecem é que, na "mãe de todos os Parlamentos", para usar uma expressão bebida da imagem criada por Saddam Hussein, não há lugares sentados para todos os seus membros. Assim, quando se regista uma grande afluência, em dia de debates importantes, muitos têm de ficar de pé.

Tive o ensejo de assistir presencialmente a várias sessões nos Comuns, ao tempo em que trabalhava na Embaixada em Londres. Recordo, em especial, o famoso discurso de despedida de Margareth Thatcher, um dia depois do seu afastamento do poder, em fins de Novembro de 1990. Apesar do abalo sofrido, a senhora Thatcher fez uma notável prestação, num ambiente que acabou por gerar uma quase simpatia colectiva, que a levou a proferir uma exclamação que ficou para a História: "I'm enjoying this!".

Apesar da informalidade que parece marcar os debates, o cerimonial e o corpo de regras da Câmara é imenso e, quase sempre, estritamente respeitado. Até pelos próprios visitantes, sujeitos a determinações muito rígidas, como a impossibilidade de levarem consigo jornais para a tribuna e a total proibição de se tirar notas escritas.

Em 1993, durante a sua visita de Estado ao Reino Unido, o então presidente Mário Soares fez uma visita informal à Câmara dos Comuns, numa hora em que esta não estava em sessão, passeando-se com a comitiva por toda a sala. A certo passo, notei que o acompanhante oficial que o Palácio de Buckingham tinha designado para estar com o presidente português, um aristrocrata, membro da Câmara dos Lordes, demonstrava um inusitado e quase turístico interesse pelos pormenores do mobiliário e pelo conjunto de símbolos que ocupam a mesa central, em frente aos quais governo e oposição se degladiam. A certa altura, aproximou-se de mim e disse-me: "Sabe, estou um pouco emocionado!". No instante, não percebi bem a razão dessa emoção. "É que, como membro da Câmara dos Lordes, estou impedido de visitar a Câmara dos Comuns e, em toda a minha vida, esta é a primeira vez que consigo entrar aqui." Peculiaridades do sistema político britânico.

Ser português

Isto de se ser português tem muito que se lhe diga.

Hoje, acordei com a notícia, repescada do Independent pelos sites franceses, de que as "galères portugaises" (em inglês, "Portuguese men-of-war", vá-se lá saber porquê), que são das medusas mais venenosas do mundo, estão a invadir as praias do Mediterrâneo. (Aqui entre nós: nunca tinha ouvido falar delas...). Uma "má notícia", portanto.

Durante um almoço, também hoje, recheado de temas europeus, as virtualidades da Estratégia de Lisboa e a urgência da aprovação do Tratado de Lisboa ligaram, na conversa, o nome da capital portuguesa a passos importantes na vida comunitária. Logo, uma "boa notícia".

Em todas estas referência ao nome de Portugal pelo mundo - e, até nos dias que correm, há algumas outras por aí, umas mais prestigiantes que outras - em que categoria de ressonância subliminar devemos encaixar o cão-de-água do presidente Obama?

terça-feira, 19 de maio de 2009

Médio Oriente

O actual momento do diálogo entre Washington e Tel-Aviv, simbolizado pelo encontro entre o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu, pode vir a ser, porventura, o acontecimento mais importante no quadro da acção externa desenvolvida pelos EUA, desde a entrada em funções da sua nova administração, embora outros possam ter tido uma expressão mediática mais forte.

Todos estamos muito longe de conhecer o que se terá passado nessa conversa e nas que paralelamente a prepararam, mas, a crer nos sinais que nos chegam, há alguns indícios de poderemos estar a assistir a um significativo tempo de viragem por parte do Governo americano, face de um dossiê que, desde há décadas, tem condicionado sobremaneira a sua política internacional.

Uma relação tão intensa como a que tem ligado, embora com importantes "nuances", sucessivas administrações americanas aos diversos governos israelitas não se justifica apenas, como alguns simplisticamente têm sustentado, pelo peso do lóbi judaico dentro dos EUA. Israel era, igualmente, uma peça importante no complexo jogo de interesses americanos na região - interesses esses a que, aliás, estão ligados outros parceiros ocidentais, a começar pela União Europeia.

O que poderá ter mudado - "poderá", porque não é, em absoluto, certo que isso tenha ocorrido - é a avaliação americana sobre o papel que Israel pode desempenhar, no seu quadro actual de interesses na região. Washington nunca "deixará cair" Israel, nem seria aceitável que tal acontecesse: o Estado israelita é um dado da História e qualquer solução de futuro terá sempre que passar pela sua preservação e pelo direito da sua população a viver em paz, dentro de fronteiras estáveis e seguras.

Mas é óbvio que o quadro global de insegurança que se vive em toda a região, que vai de Israel ao Paquistão, sob um espectro de fortes tensões globais de natureza cultural e interétnica, poderá ter levado Washington a, por uma vez, decidir não permanecer tão permeável, como era seu hábito, à leitura das "soluções" de segurança que Tel-Aviv ciclicamente testava nas suas relações de proximidade. Até por uma razão bem simples: porque todas elas falharam.

O que os EUA poderão ter aprendido é que, não apenas se revelaram erradas as estratégias de defesa/agressão aplicadas por Israel, em particular no quadro da sua relação com os palestinianos, como esse mesmo curso de tensões, sucessivo e crescente, se transformou num factor indutor de outras dinâmicas de instabilidade, muitas das quais têm já hoje uma quase completa autonomia face ao próprio quadro israelo-palestiniano. E se constituíram, elas próprias, em preocupações com projecção à escala global.

Além disso, Israel poderá estar a ser, aos olhos da nova administração americana, o pior inimigo de si mesmo. Com efeito, algumas declarações e tomadas de posição oriundas de Tel-Aviv relevam já do que parece ser a adopção de uma estratégia de "quanto pior, melhor", reveladora de algum desnorte e de uma política de "navegação à vista" que não prenuncia nada de sustentável.

As coisas, porém, não se esgotam por aí. Nesta complexa equação insere-se, necessariamente, a questão nuclear na região e, muito em particular, o problema iraniano. E todos sabemos que, quando se trabalha no quadro de expressões políticas assentes em radicalismos, a racionalidade quase sempre não é a filosofia prevalecente.

Tudo o que atrás se escreveu parte do princípio de que há condições para que alguma coisa mude na política americana face a Israel. Já muitas vezes se pensou isso, no passado, e tal não aconteceu. O que nos faz pensar que, desta vez, algo poderá ser diferente é a percepção de que Washington estará a entender - depois do Afeganistão, do Iraque, do Paquistão - que há um quadro novo, no qual se projectam os interesses que entende dever defender, em cujo âmbito o factor Israel tem já um peso inferior na equação final.

A ver vamos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mudança


O importante pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, que tinha, desde 1993, o seu atelier em Barjac, no sul da França, ter-se-á incompatibilizado com a vizinhança e decidiu mudar-se para Portugal, com todas as suas obras, provocando uma reacção de alguns meios franceses, que vêem com desagrado este "déménagement" artístico.

A "Floresta Cultural" de Kiefer será instalada no vale Perdido, na Herdade da Comporta.

Para exemplo de alguns portugueses, continua a haver quem nos considere um local simpático para viver.

domingo, 17 de maio de 2009

Mourinho(s)

Há muito quem discuta o seu estilo pessoal, quem deteste a sua assumida arrogância, quem se irrite com a sua constante propensão para a provocação mediática. Mas se, no mundo futebol, são apenas os resultados que contam, José Mourinho é um vencedor. Agora foi na Itália, levando o Inter ao título.

Que tal aproveitar o ensejo para felicitar também o outro Mourinho, seu pai, antigo guarda-redes e treinador do Vitória de Setúbal, que mandava o filho observar as equipas adversárias, actividade em que este terá aperfeiçoado as suas qualidades de planificador táctico? Mas será alguém ainda se recorda ainda desse outro Mourinho? E será que isso tem alguma importância?

Memória

Foi ontem, no Consulado-Geral em Bordeaux. Eram umas dezenas de eleitos em autarquias francesas, cujo ponto comum era uma relação, próxima ou longínqua, com Portugal. A grande maioria não se conhecia entre si mas todos responderam a um convite pessoal que eu havia endereçado, numa carta a cada um, para, em conjunto, reflectirmos sobre o modo como entendiam que a memória de Portugal, que os une, que conservam e que querem promover, pode passar a ser tratada no futuro. E o papel que entendem que a Embaixada pode ter em tudo isso, sem intuitos de controlo ou enquadramento, sem prejuízo da autonomia devida à sua condição de eleitos do quadro das instituições francesas.

Durante mais de duas horas, quase sempre em francês - única língua que era acessivel a todos, dado que alguns falam pouco português - discutimos temas tão diversos como a participação eleitoral, as geminações, o apoio às associações, as televisões portuguesas no exterior, o ensino de português, as questões culturais, a imagem de Portugal e dos portugueses, as novas migrações portuguesas para França, etc. E, o que pareceu significativo, falaram quase todos os presentes, dando conta da diversidade das suas preocupações.

Para mim, foi um dos momentos mais ricos, em termos de aprendizagem, desde que cheguei a França. Da reunião saiu a base para a possível criação, até ao final de Maio, de uma plataforma informática em que, os que assim o pretendam, podem vir a colocar as suas questões, os seus anseios e mostrar as suas realizações em áreas que possam ser do interesse comum. E a poderem interagir entre si. Veremos se esta ideia tem pernas para andar.

Este exercício, agora iniciado na reunião da Aquitaine, procurarei reproduzi-lo em outras áreas de França. Com tempo, mas com determinação.

sábado, 16 de maio de 2009

Ainda o "Le Monde"

Ontem, revelei a minha ligação afectiva ao jornal "Le Monde". Mas tenho uma história que prova bem que essa afectividade não é um exclusivo meu.

Estávamos em 1976. Surgira em S. Tomé e Príncipe uma greve dos professores cooperantes portugueses... por cuja pré-selecção eu próprio tinha sido responsável, pouco tempo antes. Aparentemente, os nossos docentes sentiam estar a haver alguma discrepância entre as condições que lhes haviam sido prometidas, antes de partirem de Portugal, e a realidade local com que então se defrontavam. A coisa parecia séria, as aulas estavam suspensas e a "batata quente" foi passada para as minhas mãos, porque eu fora o elo de ligação com as autoridades santomenses. E aí fui eu despachado de Lisboa, viajando através de Paris e de Libreville, no Gabão, para o cumprimento da minha primeira missão externa. Cinco meses depois de entrar para o MNE, imaginem!

Chegado a S. Tomé, o embaixador português, Amândio Pinto, homem simpatiquíssimo, sem dar mostras de qualquer agastamento por terem mandado um "miúdo" para resolver um problema diplomático, perguntou-me logo se eu queria encontrar... o primeiro-ministro, Miguel Trovoada, que era também responsável pela pasta da Cooperação. "O primeiro-ministro!?", inquiriu o recém-admitido adido de embaixada que eu era. "Claro, não há qualquer problema", disse o embaixador. E, com a maior naturalidade, pegou no telefone e ligou ao primeiro-ministro. Para meu espanto, de neófito, meia hora depois, lá estávamos no respectivo gabinete.

Ao cumprimentar o chefe do Governo de S. Tomé, que veio depois a ser presidente da República, dei-me conta de que, sobre a sua secretária, tinha um exemplar do jornal português "O Século". E, pelo título de uma notícia, percebi que aquele jornal teria, pelo menos, duas semanas. Aí, não resisti: "Vejo que está a ler um Século antigo. O senhor primeiro-ministro quer o Monde de ontem?". Trovoada fez um olhar surpreendido: "Mas como é que você tem o Le Monde ontem?". Expliquei-lhe que saíra de Paris na tarde da antevéspera, já com o Monde desse dia (aliás, com a data do dia seguinte) debaixo do braço. Miguel Trovoada, homem que muito frequentara a França, sorriu, encantado com a possibilidade de ter notícias frescas da Europa, e, logo ali, disse que mandaria um carro à nossa Embaixada, para recolher a novidade informativa. O nosso embaixador prontificou-se a ser ele a mandar entregar-lhe o jornal, de imediato.

Para a pequena história, assinale-se que o governo santomense fez algumas concessões que permitiram acomodar as reivindicações dos nossos professores e me deram ensejo de com eles negociar o fim da greve. E que o jovem adido de embaixada que eu era regressou, impante, a Lisboa, com a missão bem cumprida.

Será que o "Le Monde" teve alguma coisa a ver com isso?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Filinto Elísio

Conhecemo-nos há dois anos no Brasil, chama-se Filinto Elísio, é um poeta de Cabo Verde que Pedro Támen qualifica como "uma voz original e genuína" e acaba de publicar "Li Cores & Ad Vinhos", numa magnífica edição da portuguesa Letras Várias.

Cerca de 100 pessoas estiveram a ouvi-lo, ontem à noite, na Embaixada de Portugal em Paris, apresentado pelo professor Luis Silva. As Embaixadas de Cabo Verde e de Portugal juntaram-se para esta iniciativa, numa parceria de lusofonia que espero possa frutificar.

O pássaro da foto? É de Cabo Verde.

Angola

O embaixador do Congo em Paris, Henri Lopes, contou-me, há dias, uma história curiosa, passada em 1974.

Na capital do Congo, Brazaville, estava situada aquela que era a principal representação externa do MPLA no exterior. Nesse tempo, o movimento defrontava-se com uma cisão chamada Revolta Activa, então chefiada por Mário Pinto de Andrade. A Organização de Unidade Africana (OUA) procurava encontrar uma solução para aquela fractura política e Henri Lopes, que era então primeiro-ministro do Congo, havia sido encarregado de tentar uma reconciliação. Em algumas conversas, Neto dera sinais de poder aceder a essa ideia, pelo que foi marcada uma reunião no gabinete do primeiro-ministro congolês.

Assim, numa manhã, Neto e Lopes falavam do tema, com o presidente do MPLA a dar indicações claras de que, nos termos de algumas condições, um compromisso era possível. Num determinado momento, porém, chega a notícia de que uma revolta tinha tido lugar em Portugal. Era dia 25 de Abril.

Ao espanto de Agostinho Neto sucedeu-se, de imediato, a sua decisão de pôr fim a qualquer mediação ou entendimento. O MPLA e a Revolta Activa acabaram por agravar as suas tensões, que chegou a momentos de alguma violência, mesmo em Brazaville. Os membros da Revolta Activa não viriam a ter qualquer papel no início da independência angolana.

É curioso como, aqui por Paris, se encontram histórias esparsas que se ligam à nossa aventura africana.

Ana Moura

Foi um sucesso - dizem-me - o espectáculo que a fadista portuguesa Ana Moura levou ontem a cabo no La Cigale, aqui em Paris.

O facto da ubiquidade não ser, pelo menos até ver, um atributo dos diplomatas impediu-me de estar presente, como desejaria. Fica o registo.

Turquia

O Presidente da República portuguesa, Cavaco Silva, deixou bem claro, na sua visita à Turquia, o compromisso de Portugal com as regras por que se regem as candidaturas de adesão à União Europeia: "Os critérios do alargamento são os critérios de Copenhaga. A identidade cultural dos povos, a religião que maioritariamente professam, não faz parte desses critérios". Esta declaração é da maior importância e reforça a posição de um país, como Portugal, que tem deixado bem evidenciada a sua atitude de respeito pela crediblidade do processo negocial que está em curso e que, na nossa perspectiva, deve prosseguir, sempre segundo critérios bem objectivos.

Portugal compreende e respeita as dificuldades que, por razões de ordem interna, e nalguns casos essencialmente conjuntural, alguns países registam, quanto à aceitação da candidatura turca. Os tratados europeus dizem, sem ambiguidades, que, para que uma nova adesão se possa concluir, será necessário o voto positivo de cada Estado, de cada parlamento e, em alguns casos, a submissão dessa mesma proposta a um voto popular interno. Essa será sempre uma decisão final que competirá a cada país e que teremos de respeitar, competindo a esse mesmo país arcar com o custo político da posição que vier a tomar - positiva ou negativa. Porém, iniciado que seja o processo, nenhum Estado pode obstaculizar formalmente ao prosseguimento do processo negocial, embora lhe assista o direito de, no âmbito deste, ir sustentando as objecções que entender, eventualmente dificultando a conclusão dos diversos capítulos de negociação. Essa é uma matéria que releva da responsabilidade de cada um.

As declarações do presidente Cavaco Silva, em nome de Portugal, foram a reafirmação da extrema coerência que o nosso país tem mantido perante esta questão. Na perspectiva portuguesa, a Turquia, que foi um aliado vital do Ocidente durante a Guerra Fria, não pode ser hoje tratada como uma entidade pertencente a um mundo diferente. Tanto mais que Ancara foi, já há muitos anos, convidada formalmente pelos Estados comunitários a apresentar o seu processo de candidatura e dispõe já de um acordo com a actual União Europeia que configura uma real expectativa de integração.

Além disso, os importantes sectores que, naquele país, lutam denodadamente, e por vezes com grande sacrifício e fortes incompreensões internas, pela fixação de um padrão civilizacional e comportamental que aproxime o país do modelo ocidental não merecem ser retribuídos com uma complacente indiferença europeia, muito menos com uma qualquer aberta hostilidade. Todos temos a obrigação de ter consciência de que a questão turca tem uma dimensão estratégica, de longo prazo, que deve estar para além das meras polémicas ou sensibilidades conjunturais.

Edgar Rodrigues (1921-2009)

Em Novembro de 2008, enquanto embaixador português no Brasil, prestei uma homenagem, no nosso Consulado-Geral no Rio de Janeiro, a Edgar Rodrigues, o mais antigo exiliado político português naquele aíd. Foi a enterrar no Rio de Janeiro em 15 de maio de 2009.

Conhecia Edgar Rodrigues apenas por alguns dos seus muitos livros, essencialmente dedicados ao movimento anarco-sindicalista. No Brasil, tive algum trabalho até conseguir contactá-lo, porque não fazia parte dos circuitos tradicionais da comunidade portuguesa. Escrevi-lhe e respondeu-me com uma carta comovente, de grande reconhecimento pelo meu gesto de aproximação.

Edgar Rodrigues era uma figura muito interessante, que viveu quase sempre alheada dos principais grupos políticos que mantiveram oposição ao Estado Novo no Brasil. A sua obra escrita, com várias dezenas de livros, publicados em diversos países, é de grande importância para o estudo dos movimentos sociais em Portugal. Foi objecto de diversas exposições e os seus trabalhos foram reconhecidos por vários investigadores.

Tentei que, ainda em vida, fosse atribuída a Edgar Rodrigues a Ordem da Liberdade. Não consegui.

Sobre Edgar Rodrigues recomendo as seguintes leituras: http://arepublicano.blogspot.pt/2009/05/in-memoriam-de-edgar-rodrigues-1921.html e https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Edgar_Rodrigues

Le Monde

O jornal Le Monde chega hoje ao seu nº 20.000. Para quem gosta das coisas da política internacional, o Monde é uma companhia indispensável de vida. Bem antes da escolha profissional me ter conduzido pelos caminhos da diplomacia, comprar o "Monde" era, para mim, o gesto rotineiro, logo que cruzava a fronteira francesa. Era o meu primeiro "banho de Europa", após ter saído de um Portugal abafado e de imprensa triste. O "Monde" era, para muitos da minha geração, a cara do mundo exterior.

Recordo, nos tempos pré-Abril, como trocávamos informações sobre o que, segundo constava, "vem hoje no Monde" e que a polícia não deixara passar para os quiosques. E, no auge da agitação de 74, lembro-me de conversas com Marcel Niedergang, apresentado pelo José Rebelo (correspondente do Monde em Lisboa), no bar do Hotel Mundial, tentando decifrar-lhe as bizarrias da complexa política doméstica.

Habituei-me ao Monde ainda sem fotografias, com uma publicidade muito escassa, com textos densos e, por vezes, de leitura difícil, mas sempre bastante rigorosos. Nele aprendi coisas sobre temáticas pouco comuns, através dele fui alertado para opiniões diversas e divergentes, em especial sobre a vida política interna francesa. Lembro-me bem dos célebres editoriais de Beuve-Méry, dito Sirius, e tenho saudades das pequenas e deliciosas "caixas" na primeira página de Robert Escarpit. Assisti a diversas reformas gráficas e acompanhei as suas crises e polémicas internas. E no Monde tive a honra de ser publicado, quando a ocasião se proporcionou.

Não me conheço interessado sobre questões internacionais sem ter o Monde à minha frente. Durante décadas, visitei centenas de bancas de jornais, em aeroportos ou hotéis, por esse mundo fora, sempre em busca do último Monde. Sou fiel ao Herald Tribune, gosto muito do Financial Times, faz-me falta o Economist. Mas - e sei que esta opinião é hoje minoritária -, se tivesse que escolher um único jornal para ler, ele seria o Monde, embora reconheça que é talvez uma atitude que tem algo de sentimental. Por isso, todas as tardes, espero-o como se espera um amigo que sabemos que nos visita em cada dia. Embora, neste caso, sempre anunciado com a data do dia seguinte...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Bayrou

François Bayrou é, actualmente, a mais destacada figura política do centro político francês - um lugar ideológico que, até agora, não tem por aqui uma história de grande sucesso na ascensão a lugares cimeiros nas principais instituições do Estado, se descontarmos o caso pontual de Alain Poher, cuja derrota eleitoral, contra George Pompidou, significou o seu ocaso político.

Antigo ministro, actual deputado, candidato nas últimas eleições presidenciais, François Bayrou tem vindo a tentar afirmar um projecto próprio, o qual, como agora se verifica, passa por uma oposição muito forte ao presidente Sarkozy. É nesse quadro de combate político que se insere um feroz libelo que lançou contra o chefe de Estado, na forma do seu livro "Abus de Pouvoir", que acabo de ler. Embora noutro tempo e noutro contexto, este livro não deixa de nos recordar o "Le Coup d'État Permanent", de François Mitterrand, talvez o mais violento livro de que me recordo, publicado por um político no activo, contra o General de Gaulle.

Recordo um episódio em que entra François Bayrou. Estávamos em 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia. Era o tempo do isolamento da Áustria pelos outros "catorze", por virtude do acesso de um partido de extrema-direita ao poder, em Viena. Coube-me apresentar essa decisão ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, no início de uma sessão que acabou por ser bastante turbulenta. Num determinado momento, fui objecto de uma violenta intervenção de Jean-Marie le Pen, a que me recordo de ter respondido com rispidez. Bayrou saiu em minha defesa e, de certo modo, acabou por ajudar a equilibrar o debate.

Mas este post serve, essencialmente, para sublinhar que existe em França, de há muito, uma tradição, por parte dos actores políticos, de mobilizarem o debate através da publicação de livros, o que permite contrastar teses e fazer assentar a polémica num confronto de ideias, que não exclui, bem entendido, o corrente uso de picardias pessoais. Ministros, deputados, senadores e outras figuras conhecidas recorrem, com frequência, à expressão publicada das suas posições, o que não deixa de ser fascinante para um observador atento à realidade política francesa.

Não sei se o nosso mercado livreiro teria elasticidade para tal, mas creio que seria muito salutar se a vida política portuguesa fosse pontuada, com mais regularidade, com obras de ideias produzidas por políticos nacionais no activo.

Holocausto

Hoje de manhã, numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian, aqui em Paris, Eduardo Lourenço dizia que, se pensarmos bem, a escravatura pode ser considerado o primeiro holocausto. Nunca me tinha ocorrido, mas, como quase sempre, ele tem razão. Porém, nem todos são da minha opinião.

À noite, com amigos seus, tive o privilégio de ter Eduardo Lourenço a jantar em casa, falando-nos do mundo e da Europa que o fascina e intriga. Quem, no nosso país, reflecte em profundidade sobre a Europa e o papel de Portugal nela, senão Eduardo Lourenço?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Desconseguir

Li ontem que um responsável de um jornal português teria afirmado que a publicação de um suplemento ia ser "descontinuada". À parte a tristeza pelo fim do caderno, nada de mais grave se passa, em matéria de correcção do português: a palavra existe. Não é bonita, lembra o anglo-saxónico "discontinued", mas está aceite pelos dicionários.

Porém, se assim é, não percebo porque não se adoptam outras fórmulas semelhantes, de que a mais elaborada será, com certeza, a que se ouve muito em Angola: "Conseguiste chegar a tempo ao banco? Desconsegui".

Lula

Lula da Silva, presidente do Brasil, vai receber o prémio Houphouet-Boigny, da UNESCO, destinado a personalidades que contribuiram para a paz mundial, decisão para a qual, julgo saber, muito contribuiu Mário Soares.

O presidente Lula merece bem este prémio, como construtor maior de um Brasil mais justo, menos desigual, atento aos grandes desafios globais. Depois de Fernando Henrique Cardoso, que colocou o Brasil na agenda da modernidade, Lula da Silva conseguiu conduzir o seu país a um lugar de prestígio, à escala mundial, nunca no passado igualado.

A título muito pessoal, parabéns Presidente!

Cultura

Foi há pouco anunciado que Guimarães será, em 2012, a Capital Europeia da Cultura.

Julgo que muitos portugueses não se terão ainda dado conta da fantástica mutação que Guimarães tem vindo a sofrer, ao longo dos últimos anos, através de uma inteligente recuperação do património e de melhoria da sua paisagem urbana.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Visita de Estado

Os três dias tinham passado na agitação e correria que é tipica das visitas presidenciais a um país estrangeiro. Na manhã seguinte, far-se-ia o regresso a Portugal. O ministro e a sua mulher, acabado que foi o último jantar oficial, voltaram cansados ao quarto do hotel, ansiando por uma boa noite de sono.

Havia, porém, um ritual a cumprir: neste género de deslocações, as regras logísticas obrigam a que os membros das comitivas deixem as malas, do lado de fora dos quartos, aí pelas cinco da manhã, por forma a serem recolhidas pelos bagageiros, que as colocam no avião, bem antes da partida. É desta forma que os presidentes e as suas comitivas podem sair directamente dos hotéis para os aviões, já sem precupações com as bagagens.

Para isso, porém, há que fazer as malas bem cedo, deixando para trás apenas as coisas básicas de higiene e o vestuário para essa manhã. Foi essa regra que a mulher do ministro cumpriu, já com o marido a dormir. Concluída a função, colocou as malas à porta e foi-se deitar.

No dia seguinte, aí pela sete horas, o ministro toma o seu duche e - surpresa das surpresas! - dá-se conta de que a sua mulher, por lapso, tinha colocado nas malas o seu par de sapatos. A essa horas, as malas já deviam estar no avião!

Que fazer? Era um "país de Leste", as lojas da cidade estavam fechadas, o "concierge" do hotel revelou-se sem soluções. E, há que convir, era política e socialmente imprudente o ministro surgir em peúgas na fila de cumprimentos. Ou não surgir, o que seria protocolarmente muito grave e abriria lugar a infindáveis especulações.

É nessas horas que os embaixadores justificam a sua existência. Ou não. O meu colega em posto foi alertado para a crise ministerial quando já estava, no seu carro, prestes a chegar ao hotel. "Que número usa, senhor ministro?". A resposta "41" terrificou-o, olhando desolado para os seus pés "38" e para a impossibilidade de encontrar, na sua própria casa, uma alternativa. O carro continuava a rolar em direcção ao hotel, onde o presidente o esperava. Mas o embaixador tinha bem claro que o seu ministro também o esperava, embora ainda no quarto, e, claro, aguardando uma solução. Na falta dela, como seria de presumir, lá se iria a desejada promoção e o tal posto, uma sinecura simpática que prometera à sua mulher e que perseguia há muitos anos, como fim de carreira.

Que importava a qualidade dos dossiês técnicos, que a Embaixada tão bem tinha caprichado em trabalhar e apresentar, face ao drama do ministro? Que representavam anos de bons serviços, perante a presumível fúria ministerial, que o gáudio da comitiva iria potenciar?

Apesar da hora matutina, pouco propensa a rasgos, o nosso embaixador, olhando casualmente de viés entre os bancos da frente do seu Mercedes de serviço, a pedir uma substituição que o chefe da gabinete do ministro lhe assegurara na véspera, intui uma solução: nos pés do seu motorista. "Ó Arnaldo, que número é que você calça?". Surpreendido pelo intimismo do seu sempre reservado chefe, o Arnaldo responde: "40, senhor embaixador". E aí, pese embora o diferencial que a tragédia tornava irrelevante, o Arnaldo selou, em glória, o seu destino matinal: lá se ficou no carro, em peúgas, até ao regresso à Embaixada, depois da partida da comitiva presidencial.

Dizem-me que o ministro arvorou, nas despedidas, um ar grave e compungido, que alguns jornalistas - rapazes bem sagazes - levaram à conta da tensão entre o governo e o presidente, que os últimos meses tinham agravado. Ora a verdade, porém, era bem mais terra-a-terra.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Souvenirs, souvenirs

Tinha-o perdido de vista há muito tempo, pensava-o reformado, a tratar de netos. Afinal, chegado a França, dou-me conta que Johnny Halliday ainda mexe, vai no quinto casamento, inicia, em breve, "mais uma última tournée", já com lotações quase esgotadas, actuou no seu 25º filme (desta vez no Japão, queixando-se de quase não ter falas na fita, vá-se lá saber porquê...) e tem uma renovada biografia escrita pelo embaixador francês em Malta.

Apesar de alguns anos mais velho, Halliday é "um rapaz do meu tempo", um tempo em que tinha como namorada Sylvie Vartan e arrasava musicalmente a França e a concorrência, o que, em Portugal, acompanhavamos, com algum "voyeurisme" adolescente, através da leitura do "Salut les Copains". Nunca fui um incondicional: seguramente por defeito próprio, a sua canção de que sempre mais gostei era a versão francesa do "The House of the Raising Sun", aqui traduzida pelo "Le Pénitencier".

Halliday foi o émulo francês possível de Elvis Presley, mas, contrariamente ao cantor americano, a sua carreira teve escasso impacto fora do mundo francófono, onde, contudo, é um ídolo incontestado. Alimentou sempre um estilo de "bad boy", que vai bem com o seu tom de voz e a figura de roqueiro "blouson cuir", olhar castigador e moto à ilharga. Um dia, creio que em 1971, fiquei à porta de um concerto seu, em Bayonne ou Biarritz, à falta de bilhetes. Hoje, confesso, não tenho nostalgia suficiente para me bater por uma entrada num espectáculo para o ouvir.

Mérito

Há portugueses em lugares internacionais de que muito me orgulho de ser compatriota.

É o caso de Marta Santos Pais, que acaba de ser nomeada pelo Secretário-Geral da ONU como sua Representante Pessoal para a Violência contra as Crianças. Trata-se de uma reputada jurista portuguesa que, sem grandes alardes mediáticos mas com uma elevada competência, tem feito um magnífico percurso internacional, que muito honra o nome de Portugal.

Parabéns, Marta.

Diplojazz


Sei que alguns fantasmas históricos serão inclementes, mas decidi que um concerto de jazz era a melhor forma de hoje inaugurar uma série de espectáculos musicais nos salões da Embaixada em Paris.

À bateria do português Pedro Viana juntou-se, ao piano, a romena Ramona Horvath e o contrabaixo do franco-brasileiro Guillaume Duvignau para uma hora de jazz europeu e de outras partes do mundo, assistido por cerca de uma centena de convidados.

Ah! E os dourados não foram abalados, descansem...

Islândia

A Islândia anunciou que poderá, em breve, pedir a sua adesão à União Europeia. A grave crise por que passa aquele país terá demonstrado agora aos islandeses as virtualidades do processo integrador do continente e, em especial, a redução das vantagens da sua singularidade. De facto, e não obstante a gravidade da situação que ainda se vive por toda a Europa, a pertença à União, em especial ao euro, tem-se revelado, não apenas um importante factor de controlo da instabilidade, mas igualmente um modo dos países mais frágeis terem a sua voz melhor representada nas instâncias decisórias à escala global.

Será que a Noruega e a Suíça, no último caso reduzidas que foram as vantagens bancárias comparativas de que dispunha, acabarão por seguir por caminho idêntico?

Voto


Este blogue, por razões que eu julgava óbvias mas que, pelos vistos, não o são assim tanto para alguns dos seus leitores, tem por opção própria não tratar de questões de política interna portuguesa contemporânea.

Porém, porque estamos num ano em que haverá várias eleições em Portugal, que alguns dos nossos leitores de França têm natural interesse em seguir, recomendo o blogue Margens de Erro, um excelente e muito equilibrado repositório analítico das várias sondagens que vão sendo produzidas no nosso país.

domingo, 10 de maio de 2009

"Isto anda tudo ligado"

Um saudoso jornalista e poeta, Eduardo Guerra Carneiro, escreveu um dia um livro com o título deste post. É bem verdade que tudo anda ligado. Os portugueses que vivem em França foram e, por vezes, continuam a ser testemunhas de violências urbanas bem similares às que agora estão a ocorrer no bairro da Boa Vista, em Setúbal. E sabem que esses eventos são o somatório trágico das tensões culturais, da exclusão social, das rupturas do tecido familiar, dos problemas económicos e da quebra da autoridade de um Estado com o qual os jovens envolvidos não sentem qualquer solidariedade. Mas eles também sabem que, sem segurança e sem o pleno apoio a quem a exerce democraticamente, as sociedades não se sustentam e a vida quotidiana se torna num inferno.

Portugal é um país que, nas últimas décadas, passou por um processo acelerado de integração dos seus imigrantes, que são hoje mais de 5% da sua população. A grande maioria desses imigrantes, oriundos de países muito diversos, tem como simples projecto a melhoria das suas condições de vida, pelo que não deve ser confundida com uma minoria que tende a envolver-se em acções criminosas, a qual deve ser reprimida, como quaisquer outros delinquentes, portugueses ou não.

Mas o nosso país, que tem um histórico de presença externa no mundo das migrações que o obriga a alimentar uma forte cultura de integração, tem a obrigação de estar bem vigilante face à emergência de pulsões populistas, de natureza xenófoba ou racista, que, como se tem visto em todo o mundo, sempre partindo de muito legítimas preocupações securitárias, rapidamente podem descambar em demagógicas campanhas de intolerância. E uma coisa tenho por certo: temos de ser radicalmente intolerantes perante a intolerância.

Da Costa

Está ainda muito longe da fama de Joaquim Agostinho, mas a vitória que o português Rui Costa - por aqui chamado Da Costa - obteve na importante prova "4 Dias de Dunkerque" abre um tempo novo na imagem do ciclismo português em terras de França.

E, por uma qualquer razão que me escapa, confesso que me agrada ver este nome num podium francês...

sábado, 9 de maio de 2009

Amigo de Alex

Alexander Ellis é o jovem e brilhante embaixador do Reino Unido em Portugal. Conheci-o há cerca de 15 anos, quando era visita frequente do Palácio da Cova da Moura, onde "arrastava a asa" àquela que é hoje a sua mulher e, à época, era uma diplomata colocada na Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus. Depois disso, cruzámo-nos algumas vezes pelo mundo, a última das quais no Brasil, quando por aí passou nas suas errâncias comunitárias.

Porque falo do meu amigo Alex? Porque a "Sábado" me recordou que tem um blogue em português, aliás criado bem antes do meu, com comentários muito interessantes em que, nomeadamente, reflecte um olhar britânico sobre algumas coisas portuguesas. E um dos posts mais recentes fala dos embaixadores do seu país que têm um blogue. Leia aqui.

No "Le Canard Enchaîné"

Tendo sido anunciado que a Fiat vai salvar a Chrysler, será que a Solex vai acabar por ajudar a Harley-Davidson?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O Hino da Liberdade

Neste dia em que se comemora a vitória dos Aliados sobre a barbárie nazi, nada melhor do que rever este emocionante extracto do filme "Casablanca". Nele se nota que "La Marseillaise" era então o outro nome da Liberdade.

Gendarmes

Uma deslocação oficial, por algumas horas, à Côte de Azur, fez-me hoje deparar com alguns gendarmes à borda das praias mediterrânicas.

Apesar da seriedade da cerimónia - uma muito digna e bem organizada comemoração da vitória aliada na 2ª Guerra Mundial -, confesso que, no local, não consegui deixar de lembrar-me de Louis de Funès e dos seus garbosos ajudantes...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A senhora dona

Foi no Maputo, há já uns anos.

A lista dos condecorados era longa e o respectivo leitor, de nacionalidade portuguesa, era, manifestamente, uma pessoa pouco sensível às letras moçambicanas. Assim, sem hesitação, anunciou a certa altura da solenidade: "E agora, vai receber a ordem X a Senhora Dona Mia Couto".

Um frémito de embaraço e riso sacudiu a audiência. Mia Couto, o excelente escritor de Moçambique, afivelou um sorriso por detrás dos óculos e da barba, encaminhando-se para o palco onde o presidente português o aguardava, claramente um pouco incomodado com a inesperada feminização do agraciado.

Um colega meu, de graça rápida, logo deixou cair, baixo: "Ainda bem que hoje não é condecorada a Senhora Dona Sara ... mago!".

i agora

O grande profissionalismo de Martim Avillez Figueiredo e a coragem do grupo económico Lena juntaram-se para lançar hoje, no meio de um tempo de crise, um novo jornal, o "i". Prometem um estilo directo e novo. Só se lhes pode desejar todo o sucesso. Leia a sua edição online aqui.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tratado de Lisboa

A aprovação pelo Senado da República Checa do Tratado de Lisboa, que ontem teve lugar, representa um passo importante no caminho para a estabilização institucional da Europa. Para a entrada em vigor do Tratado, restam agora - o que não é de somenos, diga-se - a assinatura do presidente checo e um desfecho positivo do referendo irlandês. Mas é obvio que esta foi uma etapa muito importante no caminho para a sua plena aprovação.

O Tratado de Lisboa, como todos os documentos de natureza multilateral, foi o resultado possível de um compromisso laborioso entre interesses de diversa natureza, por vezes mesmo algo divergentes. Talvez nenhum dos países signatários se reveja, em absoluto, no texto que foi assinado. Mas essa é, talvez, a prova de que o Tratado representa hoje o denominador comum possível, numa Europa mais heterogénea do que nunca.

Já bem depois do Tratado ter sido assinado, o mundo entrou numa séria convulsão, com uma crise económica de uma dimensão quase sem precedentes, que obriga a respostas rápidas e, essencialmente, a formas coordenadas de actuação, em especial nos fóruns internacionais onde se repercutem os efeitos dessa mesma crise. E tal como um país não deve demonstrar uma fragilidade das suas instituições quando é sacudido por instabilidades internas, também a União Europeia só pode estar à altura das responsabilidades que o seu potencial económico impõe quando conseguir apresentar um processo interinstitucional consensual, nomeadamente em tudo quanto se reflicta na definição das posições gerais que marcam os seus quadros interno e de relações externas. Essa é, aliás, a melhor forma de evitar a tentação de recurso a soluções de raiz nacional, porventura populares mas perigosas para os compromissos colectivos já assumidos, que podem colocar em causa o próprio tecido de relações contratuais construído ao longo de mais de meio século.

Acresce que a situação actual, para além da instabilidade económica que atravessa o mundo, apresenta outros graves riscos de natureza estratégica e de segurança, face aos quais a Europa tem obrigação de definir uma posição sólida e coerente. Isto é tanto mais importante quando o surgimento de uma nova administração americana, aparentemente aberta à reconsideração de certas políticas e à redefinição de importantes equilíbrios à escala global, parece oferecer-nos uma janela de oportunidade para a fixação de uma nova parceria transatlântica, susceptível de sustentar um tempo de paz e estabilidade.

O Tratado de Lisboa, para além das legítimas interrogações que algumas das soluções que prevê possam suscitar, parece ser hoje o lugar geométrico possível da esperança numa Europa mais sólida. E, para um país como Portugal, o futuro passa, cada vez mais, por essa mesma Europa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Vasco Granja (1925-2009)

Uma dia, numa conversa casual em Lisboa, apresentados por um amigo comum, Vasco Granja revelou-me ter sido ele a pessoa que respondia às cartas de quem, como eu, era fiel e activo leitor da revista portuguesa de banda desenhada "Tintin", nos anos 60 do século passado.

Homem do cine-clubismo e apaixonado pela banda desenhada, Vasco Granja era uma figura serena, que trouxe à televisão portuguesa um "outro" cinema de animação, diferente do que então conhecíamos e, naturalmente, muito distante daquele que hoje se produz. Era um apaixonado por uma escola serena da animação cinematográfica, mais pedagógica e nada violenta, trazendo-nos nomes estranhos de autores desconhecidos do Centro e do Leste da Europa e, em especial, de um génio que descobrimos pela sua mão, o canadiano Norman McLaren.

Faleceu aos 84 anos. Como homenagem, deixo a imagem de um dos seus heróis de estimação, a figura criada por Hugo Pratt, Corto Maltese.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Les Portugais"

A memória dos tempos mais duros da emigração portuguesa para França pode ser ainda penosa para uns, mas é honrosa para todos. E faz e fará sempre parte do nosso património histórico colectivo.

Nesse outro tempo de 1971, Joe Dassin era uma voz que trazia o modo como a França via os portugueses. Ouçam o "Les Portugais" aqui.

"Arquipélago da Palestina"

Vale a pena atentar naquilo em que hoje se transformou a terra dos palestinianos, a que o Le Monde Diplomatique chama, com graça amarga, o "Arquipélago da Palestina Oriental". Clique no mapa para ver melhor.

domingo, 3 de maio de 2009

Rigoroso inquérito

Há uma conhecida e vetusta instituição que, em Portugal, assume o título ritual de “rigoroso inquérito”.


Depois de um acidente ou incidente grave, de uma vigarice com impacto ou de uma qualquer disfunção pública relevante, desde que com expressão mediática, aparece quase sempre a rassurante declaração de que as "entidades competentes" (privadas ou públicas) decidiram “instaurar”, sobre o assunto, um “rigoroso inquérito”. Mas não se pense que se trata de um inquérito de rotina: é sempre um estudo que tem de ser qualificado de “rigoroso”, com o objectivo de sossegar as consciências, no sentido de que nada ficará por investigar e de que ninguém ficará impune. Se se ler bem a comunicação social, verificarão que, quase todas as semanas, surge o anúncio de um “rigoroso inquérito” que foi instaurado, deduz-se que com gente a arregaçar de imediato as mangas na investigação, com limites temporais para apresentar os resultados, com a ameaça de uma espada de Dâmocles sobre os responsáveis a punir.


Passam dias, semanas, meses e que acontece? Na esmagadora maioria das vezes nada se sabe, muitos destes inquéritos devem ser arquivados, outros terão ido avante, mas a emoção já passou, a comunicação social já está noutra, ninguém pergunta por eles.


É pena que não haja alguém que tenha tempo para fazer o registo e o acompanhamento regular, aí de três em três meses, com alarde público, por exemplo num blogue ou num site, com os resultados práticos e as conclusões de tais inquirições, assinaladas as respectivas responsabilidades nominativas. Que se saudassem os resultados, quando os houver, até como exemplo positivo a apontar. E que denunciassem, bem alto, os casos em que nada se passa, em que a montanha nem um rato pariu. Teria imensa graça e, estou certo, certos “responsáveis” passariam a ter mais cuidado para que ninguém sorrisse quando anunciassem o próximo “rigoroso inquérito”.