terça-feira, 31 de março de 2009

Será verdade?

Às vezes, há notícias que são verdadeiramente inesperadas, pela positiva.

Quem havia de dizer que a APD (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) de 22 membros da OCDE iria ter, em 2008, um crescimento de 10,2 %?

E que tal notarmos que, no caso português, esse esforço de apoio aos países em desenvolvimento aumentou 21,1 %?

Ou será isto uma mentira do 1º de Abril ?

Obama

A deslocação do presidente Obama à Europa está a suscitar a maior expectativa que alguma vez se criou face a uma nova administração americana. Seja pelo contraste com a anterior chefia dos EUA, seja pela imagem de esperança que o novo líder americano arrasta consigo, sendo que uma coisa não é independente da outra, Obama tem hoje o mundo a olhar para ele - para o que dirá e para o que fará. E o ambiente de crise global que se atravessa torna ainda maior essa responsabilidade.

Nesta sua visita à Europa, Barack Obama sabe que não terá uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão.

Eiffel

Faz hoje 120 anos que foi inaugurada a Torre Eiffel, construída em 26 meses, para a Exposição Mundial de Paris de 1889.

Vale a pena lembrar que o responsável técnico, o engenheiro francês Gustave Eiffel, trabalhou em Portugal onde foi responsável por uma quantidade muito significativa de obras na modernização da nossa rede ferroviária (ver o site oficial), com especial destaque para a ponte Maria Pia, no Porto, e a ponte de Viana do Castelo.

Um mito que importa desfazer é a tradicional ligação do nome de Eiffel ao elevador de Santa Justa, em Lisboa, que não é da sua autoria.

Dancemos no Mundo

Não me perguntem porquê, mas apeteceu-me dar hoje a ouvir aos leitores deste blogue o "Dancemos do Mundo", uma canção de 2000, de Sérgio Godinho.

Se não gostarem, o que duvido, passem à frente.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Portugal na cidade universitária

Regressei hoje à cidade universitária de Paris, para visitar a casa de Portugal - Residência André de Gouveia - agora remodelada: 169 quartos, ocupados por portugueses e estrangeiros, com as condições mínimas fundamentais para a finalidade a que se destina.

Paris é, ao que sei, a única cidade do mundo onde, num largo espaço, se distribuem dezenas de grandes casas para habitação de estudantes, a maioria das quais com o seu nome ligado aos países que as doaram.

Por aqui passaram muitas centenas de portugueses, desde há décadas. Recordo-me de lá ter visitado, aí por 1973, entre outros, bons amigos como José Carlos Serras Gago, a viver na casa do Líbano, e Joaquim Pais de Brito, na casa da Noruega. Acho mesmo que era tempo de procurar reunir esses portugueses para quem a cidade universitária de Paris foi escala da vida.

A cidade foi palco de cenas complicadas no Maio de 1968, com a residência portuguesa a ser alvo de acções de ocupação contra o regime de Lisboa. E chegou a haver por lá tragédias, como a luta entre facções cambodjanas, ao tempo de Pol Pot.

Criada nos tempos pacifistas dos anos 20, para favorecer o intercâmbio entre estudantes de todo o mundo, a ideia generosa da cidade universitária de Paris não conseguiu, contudo, convencer a União Soviética e os seus aliados, razão pela qual essa parte do mundo continua a não estar por lá representada.

Tem uma arquitectura ecléctica, com alguns belos edifícios, da autoria de reputados arquitectos, outros nem por isso. E há o nosso, originalmente do traço de Sommer-Ribeiro, mas que foi objecto de uma intervenção arquitectónica recente, de um gosto, para mim, um tanto discutível, mas que lhe aumentou a dimensão e funcionalidade.

Sob a orientação de Manuel Rei Vilar, a Residência André de Gouveia, criada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1967 e agora entregue à gestão da cidade universitária, necessita ainda de alguns apoios para ser completada - em especial o seu magnífico espaço de exposições/concertos e a área de teatro.

Esse foi um dos temas que hoje também suscitei junto dos empresários da Câmara do Comércio Portugal-França, que reuniram na Embaixada a sua Assembleia Geral, sob a presidência de Carlos Vinhas Pereira. Apelei à sua ajuda, através do mecenato, para se completarem as obras da residência, que também pode ser aproveitada por estruturas associativas da comunidade luso-francesa.

Se queremos vir a ter uma força colectiva em França, se pretendemos que a segunda e a terceira gerações de portugueses e luso-descendentes afirmem nesta sociedade a sua diferença, temos de saber trabalhar e agir em torno daquilo que reforça a nossa identidade. Como é este caso.

Herald Tribune

A partir de hoje, o "International Herald Tribune" passa a ser apenas, de forma ainda mais clara do que já o era desde há uns tempos, uma simples edição mundial do "The New York Times".

O jornal foi, no seu início, um órgão de informação destinado à comunidade americana residente ou expatriada na Europa. Chamava-se então "New York Herald Tribune" e os cinéfilos recordam-se bem de ver Jean Seberg a anunciá-lo em Paris, Champs-Elysées abaixo, ao encontro de Jean-Paul Belmondo.

A grande vantagem do IHT era o facto de, durante muitos anos, nos trazer o melhor, não apenas do New York Times, mas igualmente dos excelentes The Washington Post e do Los Angeles Times. Era um retrato de uma certa América, com magníficos textos de opinião, que nos ajudavam a ultrapassar a visão mais eurocentrada do Le Monde ou do Financial Times. Um dia, o jornal perdeu para a publicidade a sua última página, onde até então apareciam as deliciosas crónicas do Art Buchwald e em cujo rodapé emergiam pequenos anúncios, desde o eufemismo das primeiras "escort girls" às casas de campo por essa Europa fora. Por décadas, desde 1924, o Herald Tribune incluiu nesse espaço a publicidade a esse expoente americano da bebida que ainda é o Harry's Bar, aqui em Paris, onde o respectivo endereço - 5, rue Daunou - era apresentado em transcrição fonética, por forma a permitir ao consumidor yankee dizê-lo com facilidade ao taxistas parisienses: "Just tell the taxi driver: sank roo doe noo".

Com esta sua mudança, consagra-se o fim de uma época do IHT. Por mim, confesso, tenho alguma pena. Mas não deixarei de lê-lo todos os dias, como faço há muitos anos.

domingo, 29 de março de 2009

Solidariedade

Um belo exemplo de solidariedade foi a sessão a que ontem assisti em Monfermeil, nos arredores de Paris, que reuniu centenas de portugueses e luso-descendentes, em torno da Association Portugaise de Bienfaisance, a qual, ininterruptamente desde há 21 anos, leva a cabo jantares de recolha de fundos para fins caritativos. Desta vez, foi o hospital da cidade quem foi beneficiado por um significativo donativo.

Nada pode traduzir melhor o sucesso da integração dos portugueses em França do que este belo gesto, mobilizado pelo entusiasmo de Manuel de Oliveira, um empresário que consegue induzir os seus compatriotas a se mostrarem solidários com a sociedade que os acolhe.

Nulos

A primeira vez que assisti a um jogo internacional de Portugal foi no Estádio Nacional, no Jamor, em 1955. Eu era muito miúdo, mas ficou-me sempre na memória que perdemos por 6-2, com a Suécia. Nessa altura, as prestações portuguesas, em termos de jogos internacionais de futebol, eram de nível baixo e as derrotas quase que se comemoravam, quando eram por números reduzidos.

Curiosamente, a minha última experiência de uma partida ao vivo da selecção portuguesa foi em Brasília, contra o Brasil, em 2008, quando perdemos por ... 6-2! Foi uma humilhação para Portugal e para os portugueses no Brasil. Já nem falo no resultado, falo da displicência da atitude em campo.

Ontem, felizmente, não estive no Porto, para ver o nulo com a Suécia, que nos coloca à beira da eliminação para o Mundial da África do Sul, onde a presença nacional daria uma alegria muito grande a uma Comunidade portuguesa que aí tem passado tempos bem difíceis.

Mas isso importa alguma coisa a alguns dos jogadores portugueses? Será que percebem o que significa representar Portugal e a importância dos resultados que obtêm, em especial para os nossos compatriotas que vivem no estrangeiro? Ou o mais que conta são as modelos que trazem à ilharga, as roupas de marca e os carros espampanantes? Para alguns, as bandeiras dos respectivos clubes parecem ter substituído, em afectividade, a bandeira nacional portuguesa.

sábado, 28 de março de 2009

Notícias da Beira

A edição informática do Le Figaro dá conta da tomada de posição do bispo de Viseu, Ilídio Leandro (na foto), defendendo o direito (e o dever) dos portadores de sida de utilizarem preservativo no caso de terem relações sexuais.

O bispo viseense acha, no entanto, que o Papa, ao ter-se pronunciado, há dias, da forma como o fez, "não podia dizer outra coisa enquanto chefe da Igreja".

Este é um debate a que ninguém pode fugir.

Salazar em Austerlitz

Ao passar, há pouco, em frente à Gare de Austerlitz, ponto de chegada a Paris de muitos e muitos milhares de portugueses a quem a Pátria foi madrasta, veio-me à ideia um dos mistérios nunca resolvidos da política portuguesa do século XX: a famosa e nunca confirmada viagem de Oliveira Salazar à Bélgica, nos anos 20, para assistir a um congresso católico.

Salazar era parco em deslocações. Conhecidas são as suas duas viagens a Espanha, a Badajoz e a Sevilha, onde se foi encontrar com Franco. Fora disso, o homem que liderou o governo português, durante cerca de quatro décadas, nem aos Açores ou à Madeira alguma vez foi, muito menos ao Ultramar que tanto cantava nos seus discursos. Por isso, esta viagem à Bélgica, a ter tido lugar, representaria a mais ousada digressão de Salazar.

Deu-me hoje para imaginar a figura seráfica de Salazar em Paris, provavelmente de botas, a sair do "Sud Express" e a tentar ligação para a Gare du Nord, depois de muitas horas perdidas a olhar por aquelas janelas em cuja base figurava o prudente aviso: "Ne pas se pencher".

sexta-feira, 27 de março de 2009

A nova Europa

A situação económica de extrema gravidade que afecta hoje alguns dos países da União Europeia, que fizeram parte das últimas vagas do alargamento, prova, a meu ver, três coisas.

Em primeiro lugar, revela que o euro é hoje uma excelente protecção para os países que a ele acederam, contribuindo para reforçar as respectivas economias e dar-lhes meios para melhor resistirem aos embates de uma crise global como a que atravessamos. Os países da UE hoje atingidos são, precisamente, os que não fazem parte do euro – embora, também legitimamente, se possa dizer que são os que não conseguiram fazer parte do euro devido à sua fragilidade económica.

Em segundo lugar, o que se está a passar parece ter deixado evidente que o facto de alguns desses Estados terem seguido receitas de cariz hiperliberal, com políticas sócio-laborais de grande precariedade e modelos de captação de investimento directo estrangeiro altamente apelativos, acabou por não lhes garantir uma situação mais sólida e por funcionar como factor de estabilização. Alguns dirão, com ácida ironia, que o "dumping social”, a prazo, não compensa.

Finalmente, e por muito que possamos registar que as respostas imediatas à crise foram, até agora, de carácter muito mais nacional do que europeu, creio que uma ponderação mais serena sobre futuro do mercado interno terá, forçosamente, que conduzir os Estados da UE, a prazo mais ou menos curto, a uma maior aproximação (não uso a palavra harmonização para não chocar a sensibilidade soberanista de alguns) das suas políticas ficais e sociais, bem como uma melhor clarificação do conceito de "ajudas de Estado". A preservação do mercado interno é incompatível com a repetição da deriva para fórmulas de "salvação nacional" como estamos a observar, com "ajudas de Estado" mais ou menos encapotadas, acompanhadas de pressões políticas para conseguir a complacência da Comissão Europeia para a heterodoxia de algumas dessas mesmas práticas.

Um nota final, de natural tristeza: não é nada agradável para o prestígio da UE, enquanto entidade política, observar que alguns dos seus Estados se vêm obrigados a recorrer ao FMI para se recomporem economicamente, pelo facto de a própria União não ter sido capaz de encontrar uma resposta solidária para as dificuldades desses parceiros.

Ainda recordo bem a angústia com que, no final dos anos 70 e 80, assistíamos à chegada a Lisboa das equipas da Senhora Teresa Ter-Minassian...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Portugal em Paris

Há poucas horas, no Centro da Fundação Gulbenkian em Paris, António Lobo Antunes contava, durante um magnífico improviso, no contexto de uma palestra sobre o romance histórico, que Mário Soares terá um dia dito que "aos amigos nunca se mente, às mulheres e à polícia (polícia política, claro) mente-se sempre".

Soares esteve hoje em Paris, a caminho de Lille, onde foi entrevistar para a RTP a lider do PSF, Martine Aubry, antes de aqui regressar amanhã, para idêntico exercício com o jornalista e escritor Jean Daniel. Não pude vê-lo porque, com o pintor José David e uma trintena de amigos, estava a essa hora a manifestar o nosso respeito ao pintor José Alvess, na despedida final no cemitério do Père Lachaise.

À saída da Gulbenkian, encontrei Júlio Pomar, que também tinha ido ouvir Lobo Antunes. Deixo aqui o seu famoso e polémico retrato de Soares.

Portugal acaba por ser um país bem pequeno, no bom sentido.

A brigada


Saindo há pouco de um dos inumeráveis cocktails comemorativos de dias nacionais que inundam a vida diplomática de Paris, interroguei-me sobre a razão pela qual esses eventos aparecem tão ligados à imagem de "glamour" da nossa profissão.

Será talvez a minha falta de paciência, mas devo confessar que, desde há muitos anos, sinto uma terrível preguiça para frequentar essas ocasiões, até pela regular sensação de que deveria estar a fazer trabalho mais útil. Salvo em casos excepcionais, a minha presença nos cocktails acaba por ser muito curta e dura apenas o tempo suficiente para honrar a data do país anfitrião e corresponder à simpatia do colega que convida.

Nessas ocasiões, ao cumprimentar as pessoas, com as mãos saídas de copos gelados, relembro muitas vezes a razão pela qual os diplomatas são conhecidos como "a brigada da mão fria"...

quarta-feira, 25 de março de 2009

O hacker

Leio na imprensa que o site da Embaixada de Portugal em Nova Deli, na Índia, foi atacado por um perigoso "hacker".

Interrogo-me sobre os autores do acto e, em especial, sobre a razão da escolha daquela nossa missão diplomática para alvo desta acção. De certo modo, convenhamos, tratou-se de uma selecção que não deixa de ser elogiosa. Não é invadido quem quer, só quem tem importância!

Aqui deixo a minha corporativa solidariedade ao meu colega em posto na Índia, com amizade mas também com a autoridade de quem já teve, num passado em que coisas impensáveis eram bem pensadas, de ter de suportar, por idêntica intrusão, essa inevitável cruz.

Maria Gabriela Llansol

Chama-se "Le Jeu de la Liberté de l'âme"/"L'Espace édénique" e é a tradução francesa, feita por Cristina Isabel de Melo, de um trabalho de ficção e de uma entrevista com Maria Gabriela Llansol, uma escritora portuguesa, que faleceu com 77 anos em 2008, e que, ao longo de anos e de uma forma procuradamente discreta, construiu uma considerável obra, com um caminho muito próprio na literatura portuguesa, aliás amplamente reconhecido. O texto agora publicado em francês é de difícil caracterização literária, mas a entrevista da escritora incluída também no livro faz-nos entender melhor a complexidade da sua leitura muito pessoal do mundo.
Parabéns, uma vez mais, à Fundação Calouste Gulbenkian por ter estado atenta à oportunidade de divulgação da obra de LLansol em França.

terça-feira, 24 de março de 2009

Clochard português

A tradição parisiense mitificou os "clochards", a quem a modernidade chama hoje "sem-abrigo".

Este post destina-se apenas a notar que há, pelo menos, um "clochard" português nas ruas de Paris. Fala pouco, não quer a nossa ajuda, tem uma história, que se adivinha sentimental ,que o não deixa regressar à Beira natal. Que fazer? Provavelmente nada.

24 de Março

Esta fotografia data de 1962 e representa a grande movimentação académica que então abalou a Universidade de Lisboa, em torno das comemorações do "Dia do Estudante", o dia 24 de Março.

Entre as figuras sentadas está Jorge Sampaio. Este foi, para muitos, o momento de ruptura com um certo país oficial e, para alguns dentre esses, o início de um caminho que os levou ao exílio, de que a França era habitualmente o primeiro porto de abrigo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Cerejas

Alain Juppé foi primeiro-ministro, várias vezes ministro e é hoje "maire" de Bordeaux, depois de ter feito uma penosa travessia do deserto político. Já depois disso, esteve no primeiro governo do presidente Nicolas Sarkozy, do qual se demitiu, ao ter perdido o seu lugar de deputado.

O título deste seu livro, o sexto que publica, é retirado de uma frase de seu pai, que achava que as coisas da natureza devem ser saboreadas no tempo climático certo, e que Juppé usa agora no sentido óbvio. O livro é, no essencial, uma memória um pouco amarga dos tempos difíceis por que passou, desde o governo às crises pessoais com a justiça. Mas é também uma digressão sentimental, da recordação dos pais à sua afeição pela mulher e, de certo modo, um manifesto subliminar de quem está disponível para regressar à cena política, visando tão alto quanto possível. E é nessa afirmação de ambição, que pretende serena mas que se detecta vibrante, que encontramos, com alguma surpresa, um Juppé aparentemente convertido às teses do desenvolvimento sustentável, terreno que (se) pressente de futuro para quem aspira a voos políticos de fôlego.

Em França, os políticos no activo escrevem bastantes livros, como que a necessitarem de fazer "prova de vida" no mercado das oportunidades públicas. É uma pena que, em Portugal, isso não suceda. As escassas incursões das nossas figuras pela edição foram sempre, embora com diferente qualidade, testemunhos que desenharam interessantes retratos, às vezes dos outros, sempre de si próprios e, no conjunto, de todos nós como país. Cada um a seu modo, uns mais justificativos e destinados a "dourar" a própria imagem, outros mais sinceros e transparentes, alguns, bem raros, com boas ideias, todos representaram uma contribuição para melhor nos percebermos. E para os percebermos a eles.

A noite é nossa

Graças à Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, aqui fica esta pérola do tempo, que nos dá conta da "ousadia" da velha Emissora Nacional, aventurando-se pela noite portuguesa. Podemos mesmo imaginar o que seriam os "ritmos modernos" anunciados... Não se sabe a data, mas deve ser coisa para o final da primeira década dos anos 60.

Com assumida nostalgia, lembro-me, anos mais tarde, já na segunda década desses mesmos "swinging sixties", de eu próprio ter assegurado a locução em algumas noites de um programa chamado "A Noite é Nossa", que passava das 3 às 6 da manhã, no Rádio Clube Português, no Porto, depois de ter dirigido, quinzenalmente, o "Momento de Teatro", inserido no "Clube da Juventude", no mesmo RCP, sob a orientação do saudoso Alfredo Alvela. E de também ter "jogado para o éter" (como alguns rebuscadamente então diziam) as canções dos anos 60, num programa dos Emissores do Norte Reunidos a que, com um amigo que há muito perdi de vista, dei o título (que achei magnífico e que, na realidade, era uma piroseira pretenciosa) de "No Espaço e no Tempo". Num tempo que foi bom.

Posts diacrónicos

Aviso os meus eventuais leitores de que abandonei a velha tradição "blogosférica" de que "um post, quando está postado, fica como está".

Um post, muitas vezes, é apenas o resultado de um impulso, redigido num minuto, à pressa. Quando, horas depois, o relemos, damo-nos conta de que contém erros, que há concordâncias que seria importante corrigir, que surgiu uma ideia ou um exemplo novo que teria graça inserir, que outra foto seria mais adequada, que o título do post ganharia em ser mudado. "À la limite", os próprios posts podem desaparecer, se acaso isso se justificar.

Por isso, amigos leitores, habituem-se a ver este blogue, algumas vezes, afectado por um endémico diacronismo, com textos susceptíveis de evoluírem ao longo do tempo, com posts que já leram a poderem, entretanto, ter mudado de forma. Este blogue é aquilo que lá está - em cada momento...

Água


A Conferência Mundial da Água, que teve lugar em Istambul, acabou ontem - no Dia Internacional da Água - no que já é considerado um fracasso, à luz das respectivas conclusões.

As questões da água constituem uma das mais complexas temáticas do mundo contemporâneo, sendo ignorado por muitos que elas estão já na raiz de alguns dos actuais conflitos. Para além das óbvias dimensões ambientais, as questões da água prendem-se com os problemas da estratégia global em matéria de recursos vitais e, no imediato, estão no centro dos grandes debates em matéria das políticas de desenvolvimento.

Uma das grandes dificuldades em abordar este tema à escala global prende-se com a muito diferenciada dependência dos Estados em matéria de recursos hidrícos, o que conduz a atitudes de egoísmo nacional, que não facilitam soluções de consenso. Por outro lado, e não obstante os chocantes números sobre os efeitos na vida das populações da escassez de água, ainda se está longe de reconhecer o "direito à água" como um direito fundamental no plano multilateral, pelas consequências orçamentais que muitos não querem disso retirar.

Duas notas pessoais.

Não esquecerei nunca a imagem de uma criança, na berma de uma estrada quase deserta, no Uzebequistão, estendendo a quem passava uma garrafa de plástico vazia. Vim a saber ser uma prática regular na região "mendigar" água potável...

A segunda nota prende-se com Espanha. Os nossos principais rios nascem em território espanhol, onde várias regiões autónomas se debatem com sérios problemas em matéria de água e têm tentações de a utilizarem de forma mais intensiva, a montante da sua chegada a Portugal. Recordo a dificuldade com que, na virada do século, nos vimos confrontados numa dura negociação com Madrid sobre o regime dos caudais desses rios. Mas foram-me marcantes, em especial, as tensões que então pudemos observar entre o Governo central espanhol e as autonomias, para fixarem uma posição comum de acordo connosco. A Península Ibérica sofre um acelerado processo de desertificação e, por essa razão, o futuro das águas comuns vai continuar a ser uma tarefa a que a diplomacia portuguesa terá de permanecer atenta.

domingo, 22 de março de 2009

Clara d'Ovar

Nos anos 60, o nome de Clara d'Ovar era uma das referências portuguesas em Paris. Pelos filmes que fez, pelo fado que por aqui cantou e, se bem julgo lembrar-me, pelo espaço de gastronomia portuguesa que por aqui manteve, ela continua a ser uma das nossas memórias em França.

Surpreendentemente, encontro poucos dados informativos sobre Clara d'Ovar. Será que alguém pode contribuir para uma sua biografia?

Em tempo: em poucas horas, os comentadores deste blogue ajudaram à construção da biografia de Clra d'Ovar, com a indicação de links e informações sobre a sua vida. Um destes dias, com tempo, faremos a sua síntese

Grande penalidade

Há uns anos, surgiu o interessante livro de Peter Handke "A angústia do guarda-redes antes do penalty".

Ontem, no Algarve, provou-se - e de que maneira - que ainda está por escrever "A angústia do árbitro antes de marcar um penalty".

E hoje, por uma razão qualquer, apetece-me escrever que houve uma "grande penalidade" e não um penalty...

sábado, 21 de março de 2009

Lavadeiras de Portugal

"Les Lavandières du Portugal", de que pode ver e ouvir aqui um extracto, foi, em 1955, o grande êxito da vida musical da cantora Jacqueline François, que acaba de morrer aqui em Paris.

É um Portugal de improváveis lavadeiras de Setúbal, que o autor da letra põe a beber "manzanilla" ou "xerez", o que dá bem nota de confusão ibérica, que, sobre o nosso país, ainda pairava na mentalidade francesa de então.

Dois anos mais tarde, o exotismo passa ao cinema, com uma comédia com o mesmo título da canção, desta vez ligada à procura de uma lavadeira portuguesa para fazer publicidade de uma máquina de lavar. Com o nome de Paquita Rico no elenco, segue-se idêntica linha de rigor étnico-geográfico. E, pelo cartaz junto, pode logo perceber-se que se trata, de facto, de uma lavadeira portuguesa-tipo, nos idos de 1957...

Alcoforado

Ontem, escrevi aqui, com óbvia ironia, que as famosas Cartas Portuguesas, escritas pela freira Mariana Alcoforado ao seu amor francês, o conde de Chamilly, seriam um "efeito colateral" positivo das invasões francesas.

Erro crasso, que agora plenamente assumo, graças a uma nota do nosso correspondente Vasco Campilho: Maria Alcoforado viveu entre 1640 e 1723, isto é, muito antes das invasões francesas, que ocorreram no início do século XIX. Chamilly estava em Portugal, não como invasor, mas como aliado a ajudar o país na guerra da Restauração da independência. A foto é da janela do Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, que se diz que Mariana utilizava para olhar o mundo exterior.

Só não concordo com Vasco Campilho quando ele diz que "soror Mariana não se teria entregue com o mesmo ardor ao representante de uma potência ocupante". Sabe-se lá que invasões o amor pode desencadear...

Bacalhau

Ao ler hoje algo sobre Honfleur, tentando descobrir um pouco mais sobre a bela cidade costeira do norte de França onde um grande amigo meu brasileiro tem uma casa de férias, para saudável inveja de muitos, entre os quais figura este escriba, descobri que Alphonse Allais, o humorista e escritor, do tempo da Belle Époque, nasceu por lá.

Mas por que diabo, ao recordar Honfleur e Allais, me sai este texto? Porque li ontem um artigo no Libération sobre o bacalhau - com o título sugestivo de "Morue de faim" - onde, como é de regra, se liga esse peixe à antiga imagem de comida pobre, bem como à alimentação portuguesa, e se cita um dito, como sendo da autoria de Allais, que não resisto a transcrever: "Por que será que, sendo o mar alimentado pelos rios, que são de água doce, todo o mar é salgado? Não sabem? É porque os bacalhaus transmitem o seu sal ao mar..."

sexta-feira, 20 de março de 2009

Invasões francesas


Pelo segundo ano consecutivo, a cidade de Boticas, em Trás-os-Montes, vai honrar uma tradição de dois séculos e, com fins comerciais, enterrar em saibro garrafas do vinho da região.

O chamado “vinho dos mortos” teve origem nas invasões francesas em 1808. Para evitar as pilhagens, a população escondeu vinho debaixo de terra. Quando os invasores se retiraram, descobriu-se que o vinho estava melhor. A tradição manteve-se em várias famílias, mas, até recentemente, apenas para consumo caseiro.

Daqui se prova que as invasões francesas acabaram, afinal, por ter alguns “efeitos colaterais” positivos...

Em tempo: eliminou-se neste post a referência às Cartas de soror Mariana. Veja porquê aqui.

E, sobre o assunto, leia também A Nova Floresta.

Portugueses

Daqui a 50 anos, existirão em Portugal 271 pessoas com mais de 65 anos para cada 100 com menos de 15.

Se Portugal não tiver imigração, passaremos, nessa altura, a ter 8 milhões de habitantes, em lugar dos cerca de 10 milhões actuais.

Mais do que algumas outras opções de natureza política, que, para alguns, condicionam dramaticamente o nosso futuro como nação, o país necessita de fazer uma reflexão estratégica profunda sobre as suas perspectivas demográficas. É que não há Portugal sem portugueses.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Varanda da Europa

A revista francesa de turismo e viagens "Destination" acaba de dedicar o seu nº 2 a Portugal (o primeiro foi dedicado a Nova Iorque).

Para além de um tom geral muito positivo e de grande simpatia que ressalta dos textos, confesso que não fico muito feliz ao notar que continua a projectar-se, em muitas das páginas da publicação, a imagem de um país ainda próximo do tom das montras da nossa velha "Casa de Portugal" na rue Scribe, ao tempo de José Augusto e do Verde Gaio: velhinhas à saída da missa ou penduradas nas varandas dos bairros pobres, bem como os inevitáveis reformados ao sol, com as usuais proeminências abdominais. E, nos comentários, sempre, sempre, a ladainha da nostalgia, do fado, da tristeza, do olhar melancólico. Vá lá: ao menos, desta vez, livrámo-nos das redes dos pescadores, com camisas aos quadrados... Esse Portugal também existe, faz parte daquilo que também somos. Mas haverá necessidade de estar sempre a reiterá-lo, como se esses sinais fossem um nicho de "riqueza" etnológica a explorar? Quase só falta o slogan: "vá a Portugal e visite o passado"...

Lembrei-me disto hoje, dia da inauguração do nosso pavilhão no salão de promoção turística "Monde à Paris". Lá estamos, com bastante dignidade e com um nível de comunicação eficaz, servidos por documentação dotada de textos e fotos com muita qualidade, embora sem os espaventos que os tempos desaconselham. A nossa oferta actual é magnífica e a França cada vez mais a aprecia, estando em crescendo a sua contribuição para os nossos ganhos europeus em matéria turística. E vamos preparar outras iniciativas, sob a responsabilidade das várias regiões turísticas, apontadas para faixas específicas de um mercado que requer cada vez maior sofisticação.

Mas não vale a pena ter ilusões: ainda há muito a fazer para mudar a imagem externa de Portugal, muito em particular aqui em França.

Frase

Num pequeno-almoço de trabalho, Henri de Castries, presidente mundial da seguradora Axa, recordou-me hoje uma frase célebre mas bem verdadeira: "Os americanos acabam sempre por fazer a opção certa, depois de terem experimentado todas as erradas".

José de Guimarães

O deliberado abuso da cor pode, aos olhos menos atentos de alguns, atenuar a visão de tragédia que é procurada neste capítulo da obra de José de Guimarães, dedicada às favelas do Brasil, presente desde ontem no Grand Palais, em Paris.

Guimarães é o caso muito interessante de um homem que, tendo chegado, aos 30 e poucos anos, à improvável categoria de Coronel do Exército português, na especialidade de Transmissões, trouxe, entretanto, para a escultura e para a pintura, uma elevada sensibilidade e uma originalidade pouco comum, hoje espalhada por muitas obras em espaços públicos, por todo o mundo.

É um homem sereno, rigoroso, com um sorriso na vida que não ilude o rigor com que olha o mundo e as coisas. Quem conhece o seu gosto pela arte primitiva africana - e excelente colecção que possui - pode talvez entender melhor esta sua apurada sensibilidade.

Guantánamo e a Europa

Continua sobre a mesa a iniciativa portuguesa no sentido de ser montada uma operação, à escala europeia, para acolhimento de alguns dos actuais detidos em Guantánamo. Trata-se de um problema de grande delicadeza, que conjuga aspectos jurídicos e humanos, mas que, no essencial, configura um sério desafio político.

A prisão de Guantánamo e as graves violações dos Direitos Humanos e do Direito Internacional que nela se considera que foram cometidas, no âmbito da luta contra o terrorismo levada a cabo pela anterior administração americana, estiveram bem presentes no discurso da União Europeia, ao longo dos últimos anos.

Com efeito, a União reiterou frequentemente junto de Washington a necessidade de a prisão de Guantánamo ser encerrada, tal como todos os restantes centros de detenção onde se encontram “combatentes inimigos”, que o Governo americano considerou excluídos da protecção do Direito Internacional sobre tratamento de prisioneiros de guerra. Também as Nações Unidas, em especial através dos relatores especiais do Conselho de Direitos Humanos, se pronunciaram negativamente sobre Guantánamo. A administração Obama acaba, aliás, de anunciar a revisão deste estatuto atribuído aos chamados "combatentes inimigos".

A Europa, que tão receptiva se tem mostrado face a estas e outras mudanças que a nova administração americana indicia querer introduzir no seu comportamente à escala global, tem obrigação de se revelar à altura das suas responsabilidades, num quadro de cooperação com o seu parceiro estratégico do outro lado do Atlântico.

Uma abordagem comum europeia em torno da delicada matéria de acolhimento dos prisioneiros de Guantánamo, que estão impedidos, por claras razões de segurança pessoal, de regressarem aos seus países de origem, impõe-se, assim, como um gesto de boa vontade mas, ao mesmo tempo, como afirmação dos valores da sua tradicional cultura de liberdade e acolhimento.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Um conto em música

Diz-me quem esteve, na tarde de ontem, no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris que foi muito interessante assistir à coreografia do conto do escritor português Jacinto Lucas Pires (na foto), "L'Histoire de l'Homme de la Boule de Verre coupée en deux".

A banda sonora evocava a musicalidade de uma dezena de línguas, sobretudo as que, em França, estão ligadas à imigração.

As dezenas de crianças que ontem deram vida e dinâmica à casa de Gulbenkian em Paris são a prova mais clara de que é sempre possível reinventar aquele espaço, que o entusiasmo de João Pedro Garcia dia a dia renova e transforma.

Ideias feitas

Nada é pior para prolongar no tempo a imagem distorcida de um país do que as ideias feitas sobre ele, as caricaturas que, deliberada ou casualmente, se criam.

Pierre Léglise-Costa é uma das personalidades que mais têm lutado em França pela imagem de Portugal. Historiador de arte, linguista, professor, crítico e tradutor, procurou com o seu "Le Portugal", publicado na colecção "Idées reçues", nas edições Le Cavalier Bleu, desmontar alguns dos clichés mais enraizados sobre Portugal em França.

Até para um português, torna-se muito interessante ler este trabalho, feito com carinho mas também com muita verdade e rigor. Quem nos dera encontrar muitos livros assim!

Grande Braga!

Depois de uma excelente noite no Parc des Princes, o Sporting de Braga soçobrou em casa perante o Paris St. Germain. Foi injusto e foi pena!

Valha-nos, como consolação, que continua na competição o clube mais apoiado pelos portugueses em França.

Palestina

Pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Portugal entende que a União Europeia poderá ter de reavaliar as suas relações com Israel, se este país não terminar com a expansão dos colonatos judaicos nos territórios atribuídos à Autoridade Palestiniana e se não demonstrar "um claro compromisso para com o processo de paz".

Para Luis Amado, "isto tem de ser dito claramente aos nossos amigos israelitas", segundo uma carta que recentemente enviou a todos os seus homólogos europeus, na qual refere que “a política do futuro Governo israelita quanto ao processo de paz ainda não é clara. Precisamente por este motivo, creio que necessitamos passar agora uma forte mensagem quanto ao que são as nossas expectativas".

Para o chefe da diplomacia portuguesa, durante 2008 não se assistiu a um grande progresso quanto a assuntos tão críticos como os colonatos judaicos em território palestiniano, referindo que “esta situação não pode durar mais, pois arriscamo-nos a perder o campo árabe moderado".

Portugal é um país que, ao longo dos anos, tem mantido uma atitude de consistente apoio ao processo tendente à paz no Próximo Oriente, que permita consolidar o legítimo direito de Israel a se manter com fronteiras seguras e respeitadas, lado a lado com um Estado palestiniano com pleno reconhecimento por parte da comunidade internacional e, em especial, dos seus vizinhos da região, a começar por Israel.

Para o nosso país, a União Europeia deve demonstrar um forte empenhamento na regularização desta difícil zona de tensão, contribuindo com apoio económico para ultrapassar os problemas de desenvolvimento que hoje afectam a população palestiniana. Portugal está igualmente esperançado na determinação da nova administração americana, com vista a dar um sensível impulso à resolução de uma das situações que mais têm afectado e potenciado as clivagens à escala global.

terça-feira, 17 de março de 2009

Eduardo

Encerra hoje o Salon du Livre, uma magnífica mostra da edição francesa, que teve este ano o México como país convidado.

Em 2000, Portugal foi o país em foco, num belo stand encimado pela frase de Virgílio Ferreira “Da minha língua vê-se o mar”, a cuja inauguração assisti.

Mas esta é também uma oportunidade para lembrar a figura do então Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris, Eduardo Prado Coelho, figura de relevo na preparação da nossa excelente participação naquele evento.

Conheci o Eduardo num momento curioso: no final dos anos 60, um grupo de estudantes, representantes do movimento associativo universitário, entre os quais estava aquele que viria a ser o seu sucessor em Paris, Nuno Júdice, irrompeu por uma sua aula na Faculdade de Letras de Lisboa, num protesto académico ditado por uma razão que já me escapou. Lembro-me de ter tomado a palavra e, para sua irritação, “decretar” que a aula estava suspensa, a fim de informarmos os estudantes (essencialmente, as estudantes, lembro-me) da seguramente magna questão que ali nos levava.

Anos depois, fui seu aluno num curso de Semiologia (estava na moda!) no Centro Nacional de Cultura, tendo, mais tarde, convivido um pouco mais com ele em noites lisboetas, na Grã-fina e no Montecarlo. Era uma figura com uma intensa curiosidade intelectual, que tudo lia, que nos ia revelando, com erudição, as novidades recém-chegadas desta Paris que sempre o fascinou.

Eduardo Prado Coelho teve um percurso político e público por vezes controverso, mas é, incontestavelmente, uma figura a quem Portugal muito deve. Crítico e divulgador, descobriu e promoveu talentos em diversas áreas culturais, em especial na literatura, onde era um reconhecido especialista. Muitas das ideias que marcaram a modernidade nas últimas cinco décadas chegaram a Portugal pela sua mão, tendo essa sua intensa e dispersa actividade prejudicado, talvez, uma carreira académica na qual estaria vocacionado a ter sucesso. Nos últimos anos, dedicou-se à análise do quotidiano nas colunas da imprensa, tornando-se a sua leitura um vício para muitos, entre os quais eu me contava.

Em Paris, onde me recordo de o ter visitado nos anos 80 na sua casa no Marais, foi um entusiasmado militante da promoção cultural portuguesa, com um indiscutível êxito, como ainda hoje por aqui se recorda.

Por ocasião da sua morte prematura, em 2007, fiquei com a sensação de que o nosso país lhe prestou um tributo que ficou muito aquém do que ele verdadeiramente merecia. É pena.

Bandeiras do passado

A utilização da bandeira nacional portuguesa em tudo o que era janela ou varanda, durante o Euro 2004, representou uma saudável banalização do nosso símbolo nacional, uma espécie de apropriação popular de algo com que todos patrioticamente nos identificamos, mas com o qual vivíamos uma incompreensível cerimónia. Foi um movimento inédito em Portugal, curiosamente mobilizado por um brasileiro - e creio que nenhum outro estrangeiro, para além de um cidadão brasileiro, poderia ser "autorizado" a lembrar-nos o orgulho que devemos ter na nossa bandeira.

Mas Portugal tem sempre, infelizmente, um "outro lado". Hoje, vêem-se, em imensas casas do nosso país, bandeiras ainda desse tempo, rasgadas, desbotadas, esfiapadas, indignas de serem desfraldadas. Será preciso lançar um outro movimento nacional para as recolher?

E, de passagem, não se poderiam mandar retirar as placas "Expo 98", que ainda subsistem pela zona oriental de Lisboa? Com os diabos! Já lá vão mais de 10 anos...

Mas, neste involuntário culto passadista, fruto do luso descuido, quero deixar claro que não incluo o repintar de uma parede da minha rua, em Lisboa, onde subsiste, com subversivo romantismo, "Vota Octávio Pato"...

Bijagós... nazis!

Num artigo a propósito da Guiné-Bissau, o "Figaro" de hoje traz a seguinte pérola de jornalismo, referindo-se às ilhas Bijagós:

"Le chapelet d'îles dispose des pistes d'avion de fortune construites par les Portugais pour les nazis pendant la Seconde Guerre mondiale."

A imaginação não tem limites...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Loulé em Lomé

Ao ler a notícia de que o Presidente da República portuguesa foi há dias recebido, na Alemanha, ao som do "Tia Anica de Loulé", veio-me à memória um episódio passado há quase 20 anos, em finais de 1989, em Lomé.

Estávamos no acto formal da assinatura da 4ª Convenção de Lomé, estabelecida entre a Europa e 69 países espalhados pela África, pelas Caraíbas e pelo Pacífico. Foi uma cerimónia interminável, com imensos discursos e com os representantes de cada país a serem chamados, um por um, a assinar o texto, no palco de um grande auditório da capital do Togo. Logo que o nome de um país era mencionado nos altifalantes, e enquanto se processava a deslocação do respectivo dignitário para a mesa da assinatura, desciam, pelas escadarias laterais do anfiteatro, coloridos grupos de dançarinos, ao som de uma música alusiva ao país em causa, levando à frente a bandeira e um cartaz com uma grande fotografia do respectivo chefe de Estado (descobri esta imagem da cerimónia no Google).

Já me não recordo da música que foi escolhida para Portugal, mas lembro-me bem do grande espanto de toda a nossa delegação ao verificar que, sempre que eram chamados os ministros de cada um dos cinco países de língua portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe"), a música utilizada era, invariavelmente, ... a "Tia Anica de Loulé"!

Imagino que alguns, com resquícios de radicalismo, pudessem ter pensado que se tratava de uma forma encapotada de neo-colonialismo musical, muito embora a organização do evento fosse africana. Pelo sim pelo não, acho que não suscitámos a questão junto dos nossos amigos dos PALOP...

O que cada vez mais fica provado é que a "Tia Anica de Loulé" tem uma misteriosa mas forte expressão internacional. Vá-se lá saber porquê!

Lídia Jorge

Não pudemos ter Lídia Jorge em Paris, mas o Salon du Livre foi o local escolhido para a homenagem que lhe foi prestada, no sábado, com a entrega do Prémio da Associação Francesa de Psiquiatria, pela versão francesa da sua obra "Nós combateremos a sombra", destinado a galardoar trabalhos que "evocam e aprofundam a problemática humana e que respeitem a verdade dessa problemática".

Um orgulho para a cultura portuguesa.

Manuel Alvess (1930-2009)

Morreu Domingo, em Paris, Manuel Alvess, aquele a quem Daniel Ribeiro (num sentido artigo publicado no site do Expresso, que aqui se reproduz, com a devida vénia) chamou "o mais secreto dos pintores portugueses":


"Cultivava o que os franceses chamam um humor "décalé". Solitário, vivia num mundo à parte, parecia uma pessoa fria, mas não era. Habitava num pequeno estúdio no bairro da Bastilha, em Paris, e era o que o que se poderia chamar um "tipo extraordinário". Mostrava aí as suas obras aos amigos com entusiasmo e, sempre, com um sorriso irónico. A ironia era um sinónimo dele próprio e também da sua obra. Gostava de chapéus de abas e adorava Fernando Pessoa, com quem aliás se parecia fisicamente. A Fundação Serralves tirou-o do anonimato há cerca de um ano com um retrospectiva da sua obra que surpreendeu o mundo da arte em Portugal. Era um intelectual. Natural de Viseu, disse um dia a este correspondente que fazia um trabalho burocrático de contabilista. Fazia muito mais do que isso, evidentemente. Trabalhou sobre o papel selado da sua infância, sobre os pesos e medidas, perfurou minuciosamente telas, jogou com as matérias, o vazio, as cores, os pincéis e os objectos. Deixou uma obra de rara originalidade, longe, muito longe das modas e do mundo VIP da pintura. Foi amigo dos colegas Lourdes Castro e René Bertholo, que já viviam em Paris quando ele aí desceu, em 1963, do famoso comboio dos emigrantes portugueses - o Sud-Expresso, na estação de Austerlitz. Até ao fim, esta manhã, às 9 horas, manteve uma relação especial com outro pintor português, igualmente residente em Paris - José David. Encontrámo-nos diversas vezes no ateliê deste último, em Montparnasse, onde Zé David nos servia carinhosamente os melhores pratos de bacalhau cozido e frango com gengibre do mundo. Foi José David que me deu a notícia, a chorar, da morte de Alvess. "Era um irmão, um amigo, mais do que isso", disse. Muito afectado pelo seu desaparecimento, não quis acrescentar mais nada. Alvess, o solitário, adorava esses encontros no ateliê do amigo. Era de uma inteligência rara e, por vezes, parecia até um pouco extravagante. Viveu livre e procurou a sorte de conseguir ter tido uma vida vertical e digna, como uma obra de arte. Sempre com dificuldades financeiras, sem compromissos com críticos ou galerias - raramente vendeu um quadro antes da exposição em Serralves - foi feliz. O trabalho dele foi a arte. Viveu para ela e confundia-se com o seu trabalho - algumas das suas mais belas telas são soberbos e inconfundíveis auto-retratos. Nunca se preocupou por vender pouco ou nada. Foi um ser humano e habituou-se a reduzir as necessidades que a vida impõe. Pôde, assim, ser independente e viver em paz. Acrescentara um S ao nome de família. Manuel Nogueira Alves contou-me um dia a historia desse S a mais no apelido. Foi mais uma das suas ironias: os franceses teimavam em acentuar a ultima sílaba do seu nome, e ele fez-lhes a vontade, para acabar com as confusões. Fez "performances" que chocaram Paris. O jornal conservador, le Fígaro, não gostou de um dos seus primeiros happenings na capital francesa, nos anos 60 - à porta do Museu de Arte Moderna, o português despejava e limpava lixo, mecanicamente, horas a fio, como os seus compatriotas, emigrantes miseráveis, faziam, na época, durante todo o dia. O jornal reprovou a ironia do artista. Alvess foi mais do que um pintor. Na realidade foi um artista completo. Uma outra vez, noutra "performance", criou a "primeira imagem": fabricava em público um espelho e depois chamava alguém da assistência para ver o trabalho. O espectador via-se ao espelho e ele oferecia-lhe o objecto, cuja primeira imagem fora a do seu feliz primeiro proprietário. Construiu uma obra ao longo de décadas, repito, de singular originalidade. Exactamente à sua imagem de homem sincero, cheio de humor, a um tempo extremamente inteligente, simples e tímido. Paris e sobretudo os bairros da Bastilha, de Saint-Germain de Prés e de Montparnasse, onde adorava passear, não serão mais os mesmos. Vai faltar-lhe a figura fugidia de um artista português, um verdadeiro parisiense vindo da Beira Alta que aí viveu como uma sombra, mas que, no convívio como os amigos, ria com um sorriso luminoso e gargalhadas francas. Manuel Alvess foi um grande pintor e um homem sem nada na manga. "Tive sorte, vivi como um artista", disse há poucos dias, a um dos seus últimos visitantes. Nem o cancro que o vitimou lhe conseguiu apagar a ironia."

Ainda o Tibete

Afinal, está esclarecido o mistério do nosso leitor no Tibet. Pelos vistos, é poeta - e dos bons - e até tem blogue. Aqui fica a sua imagem, com conhecidos locais.

O "16 de Março"

Foi um tempo confuso, revelador de que o “movimento dos capitães”, formado no final de 1973 com finalidades de reivindicação corporativa mas que evoluíra já para um projecto político que tinha como principal objectivo o derrube do regime, ainda tinha dentro de si algumas significativas contradições, fragilidades e hesitações.

A demissão do general António de Spínola do cargo de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, na sequência da publicação do seu livro “Portugal e o Futuro”, lançou uma forte perturbação no seio dos seus apoiantes. Na sua sequência, em 16 de Março de 1974, um grupo “spinolista” tomou conta do regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, numa acção que, supostamente, era destinada a provocar o levantamento de outras unidades militares, finalizando com uma marcha sobre Lisboa. Por razões que ficaram deficientemente explicadas, essa movimentação militar havia sido mal planeada e não teve qualquer eco. O regime reagiu, embora com cuidada moderação repressiva, e deteve os revoltosos na prisão militar da Trafaria.

O que terá levado os “spinolistas” a esta aventura? O próprio Spínola tê-los-á estimulado? O desejo de tomarem a liderança de uma revolução que talvez pressentissem que, sem essa atitude vanguardista, escaparia ao seu controlo, como viria, de facto, a acontecer?

Para quem planeava a queda militar do regime, o “16 de Março” terá tido a grande virtualidade de mostrar as cartas de que o Governo dispunha, a sua capacidade de reacção e as forças militares com que podia contar.

Na unidade militar em que eu prestava serviço, como oficial miliciano, serviu claramente para “contar espingardas” e para perceber quem, chegado o momento da verdade, estava ou não disposto a arriscar-se a lutar. E, do mesmo modo, a identificar quem teria de ser neutralizado.

Há precisamente 35 anos, o “16 de Março” foi já o prenúncio do 25 de Abril.

domingo, 15 de março de 2009

O esquema

O António era um conquistador “nato” ou, como ele dizia, com graça e referindo-se às suas tendências esquerdistas, menos “Nato” e mais “Pacto de Varsóvia”.

Conheci-o em Paris, nos anos 60, onde estudava sociologia e levava uma bela vida, hospedado da cidade universitária, com um cheque mensal enviado pelo pai, um militar da Marinha que a Revolução havia de alcandorar na hierarquia. Vestia-se sempre impecavelmente, tinha um MGB GT que era a inveja de muitos, abancava com nocturna regularidade na barra do Gambrinus, onde espalhava a sua imensa simpatia e charme.

É claro que o facto de ser casado lhe limitava, naturalmente, o espaço de manobra para as aventuras, pelo que necessitava de montar alguns estratagemas para as levar a cabo. O que quase sempre conseguia.

Naquele mês de Março de 1974, ambos estávamos a prestar serviço como oficiais milicianos na EPAM (Escola Prática de Administração Militar), na Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar. Um dia, o António pediu a minha ajuda para uma “operação”: telefonar à mulher dele, a meio da manhã, informando-a de que, inesperadamente, tinha ocorrido uma emergência e que ele fora enviado, com outros colegas, para um “exercício militar”, pelo que estaria incomunicável durante 48 horas. Devia acrescentar que era apenas um treino, pelo que não havia qualquer razão para ela se preocupar. Na lógica de uma velha (ainda que contestável, eu sei!) solidariedade masculina, prontifiquei-me a fazer a chamada telefónica.

O plano do António era arrancar cedo para a Ericeira, acompanhado de uma bela pequena, impante no seu MGB. Havia já assegurado, antecipadamente, uma folga no serviço, para que tudo corresse sem falhas. No seu caminho para a Ericeira, passou na Alameda das Linhas de Torres e do que se lembrou? De ir atestar o depósito de gasolina na unidade militar, onde o preço era muito mais barato. Esse era um dos privilégios que ninguém deixava de utilizar.

À chegada à EPAM, um complexo situado onde hoje é uma universidade, o António estranhou ao ver que os grandes portões de entrada estavam fechados, contrariamente ao que era habitual. Buzinou, aparecendo pela guarita a cabeça do sargento-de-guarda, o qual, reconhecendo-o, deixou entrar o MGB.

Só que a vida tem destas surpresas: estávamos precisamente no dia 16 de Março, as tropas fiéis ao general Spínola tinham-se amotinado na noite anterior nas Caldas da Rainha e a EPAM, como todas as unidades militares, estava, desde há horas, de rigorosa prevenção. Como era de regra nestes casos, todos os militares ficavam obrigatoriamente retidos em serviço.

O António já não foi autorizado a abandonar a unidade, recordo-me da sua fúria e do imenso gozo com que alguns de nós, conhecedores do “esquema” que acabara de se esboroar, vimos a pobre e bela amiga do António a ter de sair da EPAM, a pé, com um saco na mão, em busca de um táxi ou de um autocarro.

Por mim, livrei-me de ter de dizer uma mentira à mulher do António. Ele tinha agora um álibi imbatível.

Hardy

Quando surgiu, e para a minha geração, Françoise Hardy representava um modelo muito particular na música francesa, ao tempo marcada por ritmos bastante mais vibrantes e sonoros. Aquela imagem "modiglianica", de cabelos longos, a tocar viola e a cantar, em tom sereno, coisas algo inocentes, dizia bem com a nostalgia de alguma juventude portuguesa dos final dos anos 60. Quem, à época, não terá ficado marcado pelo "Je suis d'accord" ou o "Ton meilleur ami"? Quase que pode dizer-se que Carla Bruni segue hoje muito do seu antigo registo musical.

Perdi-a de vista, por muito tempo. Às vezes ouvia uma sua nova canção, mas, confesso, o estilo deixou de me despertar curiosidade. Ou melhor, só fiquei mais atento quando um dia constou que teria apoiado ideias racistas de Jean-Marie Le Pen, o líder de extrema-direita francesa. Posteriormente, ouvi-a recuar dessa atitude, num discurso um tanto embrulhado, de quem terá sempre grande vantagem em não andar muito pela política.

Li, há dias, as suas memórias, "Le désespoir des singes et autres bagatelles". Um livro bem escrito e bem articulado, que dá mostras de que percebeu a vida.

E ontem lá esteve, no Salon du Livre, a dar autógrafos. Não a vi, mas dizem-me que está como a foto acima a mostra, com o mesmo ar sereno, com os cabelos brancos. Acontece a muitos...

sábado, 14 de março de 2009

Portugal em Paris

"Les Portugais à Paris - au fil des siècles & des arrondissements" passa a ser uma bíblia para quem, como eu, tenta hoje descobrir na capital francesa as marcas da passagem dos portugueses. Com humor, de uma forma leve e numa escrita agradável, lá está tudo quanto de português deixou alguma marca por Paris.

Este trabalho de Agnès Pellerin, em que colaboraram Anne Lima e Xavier de Castro, tem gravuras de Irène Bonacina, onde, com grande imaginação, dom Sebastião, Vasco da Gama e Eça de Queirós se cruzam com gentes de hoje. E uma capa onde Paris passa a um azulejo português.

Fizemos ontem o pré-lançamento de mais esta edição de Michel Chandeigne no Salon du Livre, com vinho português e boa disposição.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Alto Volta

A história (verdadeira) passou-se no Ministério dos Negócios Estrangeiros, nos anos 70.

Num dossiê levado ao ministro, seguia o texto de uma qualquer convenção estabelecida no âmbito das Nações Unidas, o qual era acompanhado de um anexo, com a lista dos países subscritores que já a haviam ratificado. Estranhamente, porém, a lista dos países incluída no anexo tinha uma primeira página apenas com a referência a dois países, seguida de uma outra com mais de 80. Tudo por ordem alfabética.

O ministro perguntou, um pouco intrigado, a razão pela qual se faz essa separação. Ninguém soube responder. Um lapso, pela certa. Nada de importante, contudo.

Aborrecido com o incidente, e logo que regressou ao seu serviço, o responsável chamou o jovem funcionário diplomático que preparara o dossiê. A mesma perplexidade: ele também não vira a lista antes .

Para tentar acabar com o mistério, chamou-se a dactilógrafa, para que explicasse a razão por que tinha feito as coisas dessa forma. Com a maior calma, ela elucidou: "Por que razão só coloquei dois países numa página e os restantes noutra? É muito simples: porque depois do segundo país estava lá escrito... Alto Volta. E eu mudei de página, claro!".

O erro não se repetirá. O Alto Volta mudou entretanto de nome, para Burkina Faso. Deve ter sido para evitar confusões destas...

Citações III

... e este blogue foi também citado no Fio de Prumo, o que muito agradece.

O problemas destas referências é que são "apanhadas" no "Google Blog Search", cuja fiabilidade é discutível.

Afropessimismo?

A descrença na eficácia do desenvolvimento africano, provocada por inúmeros insucessos e recuos, nos processos políticos e de crescimento de muitos dos seus países, gerou, já há bastante tempo, o cínico conceito de "afropessismismo".

O caso de Cabo Verde, onde hoje está em visita oficial o primeiro-ministro português, é um bom exemplo de um Estado africano que evoluiu de um modo extremamente positivo, uma experiência política que a comunidade intenacional tem obrigação de apoiar e de incentivar, cada vez mais. Com uma natureza hostil e escassos recursos materiais, mas com uma determinação humana muito forte, Cabo Verde tem dado ao mundo uma lição de como é possível estruturar uma sólida democracia, com respeito pela alternância e pela plena preservação do Estado de direito. Daí o respeito que o país recolhe hoje no mundo, serviço por uma diplomacia de qualidade, que não descura a promoção da riqueza cultural que projecta.

Julgo que os portugueses se sentem hoje felizes por constatarem que o seu país mantém com Cabo Verde, desde há vários anos, uma relação de frutuosa cooperação, em todos os domínios, um sólido entendimento e amizade, que sempre foi muito para além das orientações dos conjunturais governos, de um lado ou do outro. E isto não é apenas "langue de bois" diplomática, é a pura realidade.

Cabo Verde é a prova provada que o "afropessimismo" não tem razão de ser.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Camarote

Ainda o futebol.

Confirmei ontem à noite, no Parque dos Príncipes, o meu tradicional incómodo em ver jogos de futebol nos camarotes, com os presidentes dos clubes e convidados.

Irrita-me ficar limitado na minha capacidade de poder dar um grito, de poder exteriorizar a minha decepção ou contentamento por uma jogada, de lançar uma "farpa" verbal ao árbitro ou ao "bandeirinha", de protestar por um fora de jogo mal assinalado. Há uma contenção hipócrita em todos os camarotes dos estádios. Confesso que prefiro a bancada simples, ficar entre "os meus", ter a liberdade de dizer alto o que me vai na alma.

Ontem, no PSG-Braga, numa bela noite de bom futebol português, lá estive a "fazer de embaixador"...

Porto de honra

Pode gostar-se, ou não, do clube. Pode admirar-se, ou não, a respectiva gestão e os seus métodos. O que ninguém pode negar, com honestidade, é que o Futebol Clube do Porto é, nos tempos actuais, a face mais prestigiada do futebol português no exterior.

Citações II

Mais alguns blogues tiveram a simpatia de nos citar ou referir.
Aqui fica a respectiva lista:

O Cigarrilha
Puxa Palavra
S/a pálpebra da Página
A barbearia do senhor Luís
Lino Braga
Bicho Carpinteiro
Memória Virtual
Carlos Alberto
NRP Cacine
Estado Sentido
O Sinaleiro da Areosa
Cogitar
Mundos Paralelos
Delito de Opinião
Leandro on the Road
Tomar Partido
Café História
Contra Capa
Francisco del Mundo

Angola

JustifierFoi um caminho longo, muito longo. Dos traumas da guerra às crises pós-independência, das andanças da UNITA por Lisboa aos acordos de Bicesse, das tensões diplomáticas pontuais à recuperação da confiança.

As relações luso-angolanas parece terem encontrado, nos últimos anos, um ponto de estabilidade favorável aos interesses dos dois países. Ainda bem que assim sucede. E todos esperamos que assim continuem, agora que a nova prosperidade angolana lhe permite um cruzamento de interesses financeiros com Portugal.

Vivi em Angola, entre 1982 e 1986, num dos períodos turbulentos que marcaram as relações entre os dois países. Era um tempo de guerra civil, com Luanda quase sitiada, com recolher obrigatório e montras e lojas desertas. Às vezes não havia água, às vezes faltava a luz, dias havia em que, no Hotel Trópico, o menu era peixe frito com arroz ao almoço e arroz com peixe frito ao jantar. Salvavam-se os fins de semana na ilha ou no Mussulo, as lagostas do Mário em Cabo Ledo, os muitos amigos e a imensa simpatia de um povo sofrido e cansado.

No plano político-diplomático, foram momentos muito complexos para as relações bilaterais, anos de trabalho paciente e delicado. Espero que esse esforço possa ter contribuído para alguma coisa do que, posteriormente, se construiu.

A Angola de hoje - dizem-me - é algo diferente, mais cosmopolita e movimentada, com negócios a emergir por todo o lado, com uma presença portuguesa mais actuante e bem aceite. Mas, em especial, agrada-me pensar que os sorrisos largos e francos das quitandeiras dos mercados de Luanda podem agora reluzir, mais felizes. Bem o merecem!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Duas Igrejas

O actual arcebispo de Olinda e Recife, José Sobrinho, lançou uma "excomunhão" sobre a mãe e os médicos que fizeram abortar uma criança de nove anos, estuprada pelo padrastro. Não me pronuncio sobre a eficácia punitiva do acto, mas julgo ser de registá-lo, no mundo do século XXI.

E talvez valha a pena utilizar o pretexto para evocar a figura de Helder da Câmara, um antecessor do actual arcebispo na mesma diocese, figura ímpar de dignidade e coragem na vida cívica do Brasil, um referente dos valores da democracia e dos Direitos Humanos, em tempos nada fáceis.

Já agora, lembro também um facto que por muitos é desconhecido: quando, em 1960, o cardeal Cerejeira celebrou missa na inauguração de Brasília, foi o então bispo Helder da Câmara quem o coadjuvou.

Uma vez mais, duas igrejas, lado a lado.