sábado, 28 de fevereiro de 2009

Comissões mistas

Naqueles tempos, as chamadas “comissões mistas”, as visitas técnicas de membros dos governos aos seus homólogos de outros países, para assinar ou cumprir acordos, demoravam vários dias, entrecortados de trabalho e de algum lazer. Bons tempos esses!

Estávamos em Marrocos, no início da minha carreira, e eu fazia parte de uma dessas delegações, chefiada por um político jovial e mundano, saído de uma área técnica que não vem para o caso referir.

Acabado o jantar oficial do primeiro dia, em Rabat, o nosso governante chama-me à parte e coloca-me uma questão: “Você é muito mais novo que eu, mas já ouviu falar do caso Profumo?”. Ora eu conhecia bastante bem a história do ministro da Defesa britânico, John Profumo, que, cerca de 15 anos antes, havia caído em desgraça, com grande escândalo público, por partilhar uma amante com o adido militar soviético.

Estranhei um pouco que a curiosidade prosseguisse, numa linha inquisitiva: “E lembra-se do nome dela?”. Com algum gozo, mostrei a minha familiaridade com a intriga política londrina e disse-lhe que o nome era Christine Keeler. Ele sabia.

Mas o que eu não sabia, e ele logo me revelou com um sorriso cúmplice, é que, segundo informações seguras de que dispunha, Christine Keeler vivia então em Marrrocos, mais precisamente em Casablanca, onde dirigia nada mais nada menos que uma próspera “casa de meninas”.

Chegado a este ponto, o nosso político – que, diga-se de passagem, não foi muito longe na sua carreira governativa – lança-me o desafio: “Meu caro, você é um homem do mundo, lá dos Estrangeiros e agora vai ter de mostrar o que vale. Tem como missão arranjar maneira de, numa destas noites, eu dar um salto lá à “casa” da Keeler. Fale com o protocolo marroquino, eles estão habituados a estas coisas. E você, se quiser, até pode vir comigo. Tome bem nota: é um encontro com a História!”.

Caí das nuvens, confesso. Fiz-lhe ver que, andando nós com batedores, com uma delegação relativamente numerosa e enredados em compromissos oficiais vários, era um pouco delicado e difícil montar uma escapada lúdica daquele porte, para uma cidade a quase uma centena de quilómetros da capital. Mas o nosso político insistiu e, praticamente, só não ameaçou queixar-se de mim em Lisboa porque, apesar de tudo, este tipo de tarefas não fazia parte, pelo menos obrigatória, da “job description” dos nossos diplomatas.

A minha discreta missão junto do protocolo marroquino não teve, porém, aquilo que se possa qualificar como um acolhimento estusiasmado. No entanto, para atenuar os fulgores do nosso político, lá se conseguiu para ele um programa alternativo, através de uma espécie de “room service” feminino, que a viúva de um antigo chefe da polícia de Rabat tinha instalado para clientes VIP, no hotel onde nos alojávamos. Do mal o menos.

John Profumo morreu há escassos anos, bem depois no nosso episódico governante. Christine Keeler, que tem hoje 67 anos (na bela foto que reproduzo tinha 19), acabou por ganhar renovada fama, em 1989, com o filme “Scandal“, onde era relatada a sua aventura londrina. Não verifiquei, na autobiografia que publicou, os relatos das suas posteriores noites de Casablanca. Mesmo que o tivesse feito, e graças à minha lamentável imperícia diplomática, eles não poderiam incluir qualquer nota sobre a visita de um fogoso político português, nos idos da década de 70. A menos que outros por lá tivessem andado! Quem sabe?...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Omissão

O "The Economist", provavelmente a mais bem escrita revista do mundo, atravessa tempos de notória perplexidade, em face da conjuntural derrota das terapias que sobranceiramente se habituou a espalhar, sempre que em qualquer lugar emergiam sintomas de moléstias político-económicas. Porém, com a inconfundível graça do seu estilo, está a digerir, embora a custo, o que por aí vai em matéria de recurso a um receituário de cariz mais estatizante, nestes tempos em que alguém tem de dar uma mão à "mão invisível" que ela sempre sacralizou.

A sua edição de hoje traz, na capa, um belo desenho com a "conta" a pagar pela Europa em crise, onde se pode ler, no mesmo pacote dos mais evidentes "desastres" nacionais, a referência a alguns países dos últimos aderentes - Hungria, Bulgária, países bálticos – e a outros como a Irlanda, a Grécia e... a Itália.

O "The Economist" nunca faz nada ao acaso, muito menos nos seus "cartoons". Por isso, com alguma ironia, quase que apetece dizer que, num tempo de más notícias como o que vivemos, a omissão de uma referência a Portugal arrisca-se a ser interpretada como um discreto elogio.

Mas, desde já, peço antecipado perdão à poderosa escola do pessimismo profissional lusitano por esta minha arrojada heterodoxia. Não queria ofender, está bem?

O amigo nepalês

Nas estatísticas de consultas deste blogue, dei-me há pouco conta que houve, pelo menos, um visitante oriundo do Nepal. Aguarda-se, com alguma ansiedade, que os nossos leitores no Butão dêem um ar da sua graça.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Siza

Percebo pouco de arquitectura e, talvez por isso, a obra de Álvaro Siza Vieira que ainda mais me toca continua a ser um dos seus primeiros trabalhos - a Casa de Chá da Boa Nova (na imagem), em Leça, perto do Porto. Mas tenho visto dele outras coisas magníficas, de uma genialidade quase mágica. Embora, também por vezes, tenha de confessar a minha dificuldade em reconciliar-me com certas soluções por ele encontradas, como foi o caso da reconstrução do Chiado, em Lisboa.

Esta minha condição de assumido leigo, e de mero leitor impressionista das suas obras, não me impede de notar que os principais meios da arquitectura universal têm hoje um elevadíssimo apreço por Siza Vieira. Recordo-me que Oscar Niemeyer, quando lhe fui apresentado, me disse espontaneamente: "vocês têm um arquitecto de grande qualidade, lá em Portugal: Álvaro Siza".

A cumular todos os prémios que tem recebido por esse mundo fora, Siza Vieira foi hoje galardoado com o mais importante do Reino Unido, um país onde as coisas da arquitectura, ao que sei, são tratadas com imenso rigor.

Num tempo de algum exacerbar da nossa proverbial tendência para a auto-flagelação, este tipo de acontecimentos deveria ajudar a alimentar o orgulho nacional português. Mas será que vai?

Do anonimato

Alguns comentários anónimos em blogues ou em sítios informáticos de jornais, quando deliberadamente ofensivos ou obscenos, devem merecer da nossa parte a consideração dada à cobardia de uma carta não assinada. Para mim, sem excepção, convocam a piedade que é devida aos pobres de espírito.

É claro que não me estou a referir a anódinos e civilizados comentários que, mesmo quando sem assinatura, dão graça e vida aos blogues e sítios informáticos, servem de estímulo, e até de saudável contraditório, a quem escreve. Esse é o anonimato benévolo, perfeitamente normal e sempre bem-vindo.

O que eu quero notar é a circunstância de, com grande frequência, depararmos, nas áreas dedicadas aos comentários, com uma imensa legião de corajosos escribas anónimos que, na solidão cómoda do seu teclado, se dedicam a insultar quem lhes desagrada, a denegrir aquilo que nunca teriam a coragem de dizer cara-a-cara ou a assinar com o nome verdadeiro e identificável por debaixo.

Há hoje por aí um mundo clandestino que destila fel e acrimónia, muitas vezes com laivos xenófobos e racistas, prenhe de adjectivação ácida e de óbvios recalcamentos. Todas as sociedades, ao que parece, tem destas "faunas rascas", o que talvez justificasse um estudo sócio-psicológico, com uma dimensão médica a ajudar. Embora já haja um óptimo medicamento para esta patologia: chama-se "Delete", é eficaz, tem um efeito imediato e pode usar-se as vezes que se quiser.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Direitos Humanos

Desde há muito que o State Department - o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano - distribui, por esta altura do ano, as suas "notas" sobre o comportamento dos vários países do mundo em matéria de Direitos Humanos. Funcionamento das prisões, liberdade de imprensa, actuação de forças policiais, tratamento das minorias e uma panóplia de outras áreas são passados a pente fino, sob critérios que se pretendem paradigmas de uma ordem internacional respeitadora daqueles direitos.

Trata-se de um documento sempre interessante de ler e que, aliás, é curioso comparar com o relatório anual da Amnistia Internacional e com alguns outros estudos similares que vão estando disponíveis, alguns limitados a certas áreas geográficas.

Tenho imensa pena, aliás, que este bom exemplo de Washington não seja seguido por outros Estados, os quais, de caminho, poderiam pronunciar-se também sobre a situação que se vive nos próprios Estados Unidos da América, país que, curiosamente, recusou integrar o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas e não é subscritor do Tribunal Penal Internacional, criado para punir os crimes graves contra a humanidade.


(Em tempo: sobre o tema valerá a pena ler esta notícia)

Clube católico


Há dias, num encontro com membros de uma Comunidade portuguesa perto de Paris, alguém me perguntava, com o notório embaraço de isso poder ser considerado uma curiosidade excessiva, se o novo embaixador português tinha, em Portugal, uma preferência clubística.

Naturalmente que não dei a triste resposta que ouvi, já lá vão mais de duas décadas, a uma personalidade política portuguesa de renome europeu, a qual, no desejo imparável e tonto de querer parecer consensual, e não obstante muitos conhecerem a sua cor futebolística, avançou, à minha frente, com a seguinte patetice: "o meu único clube é a selecção nacional!".

Eu sou mais directo e, por isso, costumo dizer que sou adepto de um clube essencialmente católico: só ganha quando Deus quiser! E, naturalmente, também perde quando Deus quer. Mas hoje à noite fiquei com algumas dúvidas metafísicas: será que houve, de facto, algum desígnio divino no que nos aconteceu?


(Em tempo: isto de ser-se sportinguista tem a superior vantagem de sabermos lidar muito bem com o infortúnio, com grande e insuperável "aisance". Daí que me apeteça deixar-lhes duas belas anedotas que me chegaram sobre a pouco agradável noite de 4ª feira:

A mulher de Paulo Bento acorda-o, de manhã, e diz-lhe:
- Acorda, Paulo, já são seis!
- O quê? Marcaram mais um?

A segunda anedota é apenas um anúncio: a partir de agora a única publicidade inserida nas camisolas do Sporting será a das lavandarias "5 à sec"!)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cher collègue...

Da sina de um embaixador chegado a um novo posto faz parte uma prática tradicional: a visita aos colegas. Não a todos, como é evidente, em especial em capitais como Paris, porque, se assim acontecesse, passaríamos meses em conversas. Mas a verdade é que, quantos mais embaixadores visitarmos, mais rapidamente nos tornaremos populares e conhecidos, valha isso o que valer.

Este é o tipo de exercício que, se bem aproveitado, nos pode dar o ensejo de adquirir alguma rápida sensibilidade, extraída da experiência específica de cada um dos colegas visitados. Alguns são mais formais e parcos em palavras, outros mais exuberantes e prolixos, uns mais conhecedores e profundos, outros mais “leves” na qualidade dos seus comentários, uns mais prudentes, outros mais indiscretos. Mas de todos se recolhe sempre alguma coisa de útil, lições resultantes da sua estada no país, do seu contacto com as autoridades, da sua leitura dos acontecimentos políticos, da sua opinião sobre determinadas figuras. E até de aspectos práticos da vida local.

A conversa-tipo tem quatro tempos clássicos: alguma referência ao nosso último posto e a aspectos particulares da nossa carreira (com notas de eventuais contactos com a do interlocutor), lembrança de colegas do embaixador visitado com quem fomos cruzando por esse mundo (quase sempre esquecendo os respectivos nomes...), idem para os portugueses que ele conhece (e que, penosamente, teremos de ajudar a identificar...) e, naturalmente e como “grand final” substantivo, uma abordagem da situação no país onde ambos estamos representados. Enfim, meia-hora de café ou chá e simpatia, que termina, invariavelmente, pela decisão de nos tratarmos pelo nome próprio.

Regra importante da convivência diplomática é procurar conseguir decorar o primeiro nome dos novos conhecimentos, em especial se são oriundos de países com os quais temos relações mais próximas. Mas decisivo, também, é vir evitar a gafe fatal: confundir o nome dos países que eles representam. Vir a encontrar o embaixador, por exemplo, do Ruanda e dizer-lhe “Alors, mon cher Philippe, comment vont les choses à Kigali?” e descobrir, no segundo seguinte, que, afinal, se chama Jacques e é o colega do Burundi, seria garantia certa de desagrado eterno. Nas Nações Unidas, significaria que o voto do Ruanda estaria perdido por muito tempo...

Num mundo diplomático em que muitos nos vamos cruzando, acaba por ser agradável deparar com colegas com os quais coincidimos noutros postos, reforçando uma relação que até pode ter sido então algo distante, mas que a lógica destas coisas leva a que agora seja promovida e saudada como uma “velha amizade”. Não se trata de hipocrisia: trata-se de aproveitar esses ténues laços de ligação pessoal para ultrapassar, de certa forma, algum artificialismo que esta carreira provoca e para atenuar alguma deriva para a solidão a que a vida diplomática a todos nos condena.

O leitor já deve estar a interrogar-se: mas, afinal, a vida diplomática é isto? Não é só isto, mas é também isto. E este tipo de relacionamento humano, por mais “ligeiro” que possa parecer, acaba por ser a rede informal onde assenta muita da nossa recolha de novidades, de confirmação de notícias, de descoberta de algumas informações que nos é importante conhecer. Talvez por esse motivo, alguém já qualificou a diplomacia como o “smart power”.

Voltando ainda à anterior questão do nome do “cher collègue”, e ao facto de podermos lembrar-nos ou não dele, cada vez mais me convenço que a vida social da diplomacia tem a imensa e assustadora virtualidade de funcionar como um permanente teste preventivo da doença de Alzheimer.

Frase

Escreve Bruno Le Maire, actual secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, no seu livro "Des Hommes d'État":

"A aventura europeia, que de aventura já só tem o nome, tem necessidade de projectos para reencontrar um élan, visão, resultados concretos e também precisa de heróis mais modernos do que um Schuman ou um Monnet, desde que sejam respeitáveis".

O texto já tem alguns anos, mas os tempos dão cada vez mais validade a esta simples frase.

Librairie Portugaise


O feriado de Carnaval e um belo sol de inverno deram tempo e ensejo para flanar (de "flâner", o que o meu Pai diria ser um desnecessário galicismo) por Paris. Nessa jornada, por definição, sem destino certo, fui dar à Librairie Portugaise.

Trata-se de um pequeno espaço, dotado de um riquíssimo acervo de obras ligadas a Portugal (mas também ao Brasil e aos restantes países lusófonos), com edições próprias mas com uma muito variada recolha de trabalhos de outros editores.

Haviam sido o Eduardo Prado Coelho, depois a Didas e o Luís Castro Mendes e, mais recentemente, a Manuela e o Nuno Júdice, quem me tinha falado de Michel Chandeigne e do seu trabalho em prol da difusão da língua e da cultura portuguesa em França.

Durante cerca de uma hora, tivemos aquela que terá sido a primeira de várias conversas. Dela resultou o meu compromisso de que o livro "Les Portugais à Paris - au fil des siècles & des arrondissements", a editar pela Chandeigne, vá ser lançado, talvez ainda em Março, na residência da Embaixada de Portugal em Paris.

E, desde já, recomendo vivamente uma visita à Librairie Portugaise.
E aqui fica, desde já, a publicidade plenamente assumida: 10, rue de Tournefort, 75005 Paris, tel. 01 43 36 34 37, tendo por sítio informático http://www.editions-chandeigne.com/, metro Monge, abertura 11-13 h, 14-19h, de 2ª a 6ª.

Bom senso

Detecto muito de hipocrisia e de oportunismo em algumas das indignações, de cariz quase libertário, que por aí emergiram em face da decisão de mandar recolher, da venda indiscriminada ao público, exemplares de uma obra que, ao que li na imprensa, se apresentava na capa com uma famosa, bela e impúdica pintura de Courbet (coloquem a palavra "Courbet" no Google Images e logo a verão).

A esses espíritos tão sensíveis à preservação, sem limites, do direito de expor em todas as dimensões públicas e privadas, independentemente da idade dos que a elas têm acesso, todo o tipo de obras de arte, eu gostaria de perguntar se acaso têm sobre a mesa da sua sala, à vista das crianças da casa, os albuns desse fotógrafo de eleição que é Mapplehorpe. Ou se considerariam natural se certos poemas conhecidos de Bocage ou de António Botto fizessem parte das leituras postas à disposição dos seus jovens filhos.

Por princípio, não é muito saudável ver os poderes públicos arvorarem-se em juízes do que alguém pode ou não ver. Em regra, tudo deve estar acessível a todos e também começa a ser óbvio que o conceito daquilo que possa ser uma imagem chocante tem vindo a variar ao longo dos anos - com impacto nos critérios do seu acesso a determinadas faixas etárias.
Mas sejamos honestos: neste caso do quadro de Courbet, a questão não é do domínio da censura, mas apenas de mero bom-senso.

(Em tempo: acabo de me dar conta que o livro em causa é editado por um velho amigo meu. Como é evidente, nada do que eu penso muda, só por essa circunstância.)

(Em tempo - II: ainda a propósito de Braga, onde o episódio do livro se passou, um outro amigo sugere-me ironicamente, que faça uma referência ao magnífico "O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor", um belo texto, com quase 40 anos, do Luiz Pacheco. Ela aí fica, "à toutes fins utiles"...)

(Em tempo - III: "a liberdade de atirar o nu explícito de Courbet à cara de quem passa e o não procurou, de um pai indefeso que passeia uma criança pela mão numa inocente feira de livros, é uma falsa liberdade" , escreve hoje no Expresso Miguel de Sousa Tavares no seu artigo "Somos tão modernos!")

Lagoa Henriques (1923-2009)



Tenho a maior da dúvidas que Lagoa Henriques, que há dias nos deixou, gostasse de ficar conhecido apenas como o autor da estátua de Fernando Pessoa à mesa do café, em frente à Brasileira do Chiado, com cuja companhia muitos estrangeiros procuram caricaturar a imagem da sua passagem por Lisboa.


Mestre Lagoa Henriques tem uma imensa obra feita, alguma dela em outros espaços públicos. Mas tem, além disso, décadas de dedicação ao ensino universitário, nas duas principais Escolas de Belas-Artes do país.


Este blogue não tem uma vocação de registo necrológico, mas entendo que é importante não deixar passar em claro factos relevantes ligados a pessoas que desenham, de certo modo, a face de Portugal. E a morte, goste-se ou não, costuma ser o tempo certo para rememorar as vidas que valeram a pena.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Europa unida?

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, manifestou ontem, publicamente, o desagrado de Portugal pelo facto de um pequeno grupo de países da União Europeia, composto pelos Estados membros europeus do G8 e por alguns outros convidados, terem reunido separadamente, neste fim-de-semana, a nível de chefes de Estado e de Governo. Note-se que, já no próximo fim-de-semana, todos os líderes dos 27 irão estar juntos, numa reunião regular.

A unidade europeia e o carácter colegial das decisões no seio da União fragilizam-se sempre que estes grupos se formam, qualquer que seja o pretexto invocado, assumindo-se como uma espécie de "núcleo duro" de ricos, poderosos e influentes, que define entre si estratégias que, posteriormente, tentam impor aos restantes.

Diga-se que esta é uma prática já antiga, em que alguns dos nossos parceiros europeus são useiros e vezeiros. Mas nunca é demais denunciá-la e reagir contra ela, até para tentar evitar que seja usada com maior frequência.

O que se afigura mais surpreendente - e que o ministro português não deixou, muito justamente, de sublinhar - é que o actual presidente da Comissão Europeia aceite estar presente nestes encontros de "capelinha", dando, dessa forma, uma legitimação formal europeia a modelos discriminatórios que afectam os direitos de representação igualitária de alguns dos Estados. Neste caso, o seu.

Rolex

Uma das mais mediáticas figuras francesas dizia, há dias, na televisão, que "quem, até aos 50 anos, não tiver um Rolex, terá falhado na vida".

Imagino o que ele não pensará de quantos, como é o meu caso, não só não têm um Rolex como nem sequer têm, nem nunca tiveram, a menor vontade em adquirir um.

República

É já para o ano que se comemorará, em Portugal, o centenário da implantação da República. Parte do programa das comemorações acaba de ser anunciado pelo respectivo presidente, Artur Santos Silva.

Historicamente, Portugal foi a segunda República a ser criada na Europa, depois da República Francesa, se descontarmos o modelo mais atípico da Confederação Suíça.

A ideia da República - que em França se assume de há muito como uma espécie de ética colectiva de cidadania - acabou por ter em Portugal um percurso ligeiramente diverso. Explorando o ambiente de alguma decadência nacional, que marcou o período da monarquia constitucional durante o século XIX, as ideias republicanas impuseram-se então como um sopro de patriotismo, naturalmente também marcado pelo cultivo dos princípios da clássica trilogia liberdade - igualdade - fraternidade, bem como pela afirmação da educação como o centro do processo emancipador do povo.

Em 1910, uma Revolução eminentemente urbana derrubou o regime monárquico, que estava muito enfraquecido por sucessivas crises, por uma deriva autoritária e, em particular, pelo assassinato violento, dois anos antes, do rei e do seu sucessor directo. O novo regime que daí resultou - uma democracia parlamentarista que mais tarde veio a ser conhecida como 1ª República - teve um percurso atribulado, numa sociedade política muito dividida, com a emergência de lutas operárias e fortes tensões sociais, instabilizado também pela acção dos seus inimigos, muitos deles ligados aos derrotados de 1910.

No ano de 1926, seguindo a tendência autoritária que se afirmava pela Europa, a 1ª República portuguesa foi derrubada por uma ditadura militar, a qual, a partir de 1933, deu origem ao regime do chamado Estado Novo, servido por uma Constituição antidemocrática e um ambiente de forte limitação das liberdades públicas.

Se bem que inscrito nas novas instituições, o conceito de "República" foi então diabolizado, em permanência, e a imagem dos tempos convulsos da 1ª República foi usada à saciedade como exemplo político negativo. À época, alguém se afirmar "republicano" era equivalente a dizer-se "democrata", o que praticamente significava assumir o risco de ser colocado no grupo dos opositores ao Estado Novo.

Com a Revolução democrática de 25 de Abril de 1974, a República ganhou pleno reconhecimento e dignidade. A Constituição de 1976 consagrou mesmo um novo nome para o parlamento, que deixou de ser a "Assembleia Nacional" do Estado Novo para passar a designar-se "Assembleia da República".

Talvez pelo facto da ideia republicana continuar a não ter hoje em Portugal uma imagem substantiva similiar à que tem em países como a França - e apareça ainda muito ligada ao simplismo da dualidade contrastante com a Monarquia -, as comemorações previstas para 2010 têm a intenção de sublinhar os fortes valores de cidadania que sustentaram a luta de quantos, ao longo de muito mais do que um século, sustentaram em Portugal a luta pelos ideais republicanos.

Mas os opositores do culto da República - uns monárquicos, outros apenas conservadores opostos ao que consideram ser o aproveitamento do ideário histórico republicano pelas forças mais à esquerda no espectro político - prometem contestar estas comemorações, pelo que se anuncia um período de alguma polémica.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

José Megre (1942-2009)

As linhas negras no mapa acima reproduzido, cuja versão maior pode ser vista aqui, representam as viagens feitas através do mundo por José Megre, o engenheiro português que, com 66 anos, ontem morreu. Megre era a verdadeira personificação do conceito de "globetrotter", tendo visitado, quase sempre ao volante de viaturas, 193 dos 194 países do mundo.

Era um homem portador de um sorriso de grande simpatia, que transmitia um ar de serenidade que, com o tempo, se foi tornando quase patriarcal. A RTP trouxe-o aos portugueses, há muitos anos, a falar de motores e de automóveis, numa linguagem para leigos, aproveitando a sua formação técnica. Vimo-lo também muito no mundo dos ralis e do "todo-o-terreno", em especial no tempo em que o Paris-Dakar ainda merecia esse nome.

De todos os Estados que compõem este mundo, José Megre apenas não visitou o Iraque, porque nunca conseguiu autorização para entrar no país. Por ironia, o Iraque é talvez um dos países do mundo onde mais gente entrou sem ser autorizada.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Alcachofras diplomáticas

Num passeio na fria manhã deste sábado, num mercado de legumes de Paris, deparei com uma bancada cheia de belas alcachofras, o que me recordou uma historieta diplomática do final dos anos 80.

Estávamos nos tempos da renegociação da Convenção de Lomé, o acordo que, nomeadamente, permite aos países africanos (e também a outros das Caraíbas e do Pacífico) exportar para a Europa, em condições privilegiadas, algumas das suas produções agrícolas, parte das quais essencial para sustentarem as suas débeis economias. Nesses cíclicos momentos negociais, os produtores europeus tentavam sempre convencer os seus governos a evitar que a Europa fizesse novas concessões. A Comissão Europeia, responsável pela negociação, propunha uma lista de possíveis novas aberturas e os vários Estados europeus retiravam dela, apresentando as suas razões, produtos que entendessem concorrentes com os seus.

O nosso Ministério da Agricultura enviara-nos uma lista de “produtos sensíveis” para os agricultores portugueses. Conseguíramos sustentar a maior deles, mas, nas versões sucessivas da “lista negativa” europeia, a Comissão teimava em não incluir - imaginem! - as nossas alcachofras. Porque não compete aos diplomatas, que se encarregam de negociar, serem eles a “deixar cair” as objecções colocadas pelos departamentos especializados, era nosso dever tentar encontrar, e até inventar, todos os argumentos possíveis para sustentar o bom fundamento das nossas posições de defesa comercial.

Num determinado passo das discussões técnicas, uma nova “lista negativa” chegou à mesa das negociações. Mas, uma vez mais, nada de alcachofras... Pedimos a palavra e regressámos ao nosso argumentário, tão convincente quanto possível, sublinhando que as margens de comercialização dos nossos produtores de alcachofras eram já muito reduzidas, que uma invasão do nosso mercado por alcachofras de origem africana originaria um desastre económico no sector, etc. Não sei se fomos ao ponto de referir a possibilidade de crescimento de desemprego sectorial, bem como outros efeitos colaterais de natureza social, mas devemos ter ficado perto disso.

Recordo-me que a enfática posição portuguesa foi apoiada pela Grécia e pela Itália, embora, em ambos os casos, com uma convicção que se me afigurou um tanto débil, o que tomei à conta do facto de poderem estar a reservar-se para um defesa prioritária de outros produtos, em que teriam maior interesse.

Finalizada que foi a apresentação do nosso caso, feita com todo o garbo possível, a Comissão Europeia tomou a palavra, através de Manuel Marín, o comissário do pelouro. Como quase todos os espanhóis, Marin falava um francês com uma pronúncia macarrónica, cheia de “xes”, o que dava às suas intervenções uma sonoridade algo caricata, um castelhano em tom rural beirão. Mas Marin – que, entretanto, já foi ministro e presidente das Cortes espanholas – é um homem fino e muito inteligente. Além de ser um bom amigo de Portugal, diga-se de passagem. Dirigindo-se à presidência da sessão, disse ter tomado muito boa nota dos sólidos motivos que a delegação portuguesa, apoiada por outras, acabara de apresentar, "com tanto brilho", com vista a recusar, liminarmente, a possibilidade de autorizar a entrada de alcachofras africanas no mercado português.

Chegado que foi este ponto do discurso do comissário, a delegação portuguesa ficou mais descansada. Imagino que nos teremos recostado nas nossas cadeiras, prenhes de satisfação pelo dever cumprido. E preparávamo-nos para ouvir da Comissão Europeia a confirmação final de que, por consequência, ela iria, finalmente, colocar as nossas prezadas alcachofras na “lista negativa”.

Foi então que, continuando a dirigir-se ao presidente da sessão, como era de regra, mas olhando de viés para a delegação portuguesa, Marin acrescentou: “Mais, M. le Président, je dois vous avouer un secret: il n’a pas d’artichauts en Afrique” (“Mas, senhor Presidente, devo confessar-lhe um segredo: não há alcachofras em África”). Afinal - surpresa das surpresas! -, a África não produzia as alcachofras que nós, tão denodadamente, tentávamos impedir de concorrerem com as nossas!

A sala entrou em gargalhadas – e nós em sorrisos, definitivamente, bem amarelos. Pela teimosia do nosso Ministério da Agricultura, numa defesa pateta das nossas alcachofras, tínhamos perdido uma boa ocasião para não desperdiçar capital negocial numa discussão europeia.

Mas, também eu, devo confessar-lhes um segredo: hoje de manhã, no mercado de Paris, não me contive e deitei um olho às caixas que acondicionavam as alcachofras. Não fosse dar-se o caso de serem originárias de algum país africano. Não eram.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Yé-yé

Não conheço pessoalmente Luís Pinheiro de Almeida, que teve a amabilidade de deixar um comentário no post "Portugal e o Futuro".

Mas acho que faria muito bem a todos os leitores deste blogue, em especial aos que gostam de música francesa, conhecerem alguns CD's por ele organizados, quer "Os anos do yé-yé" (dois CD's), outros com Margarida Pinto Correia, esses sob o título comum "A Idade da Inocência" (sete CD's). E não sei se perdi alguns...

Talvez isso possa não dizer muito a novas gerações, mas essas compilações trazem-nos, entre tantos outros temas dos tempos do vinil, coisas (que aqui pode já ouvir clicando o nome das músicas sublinhadas) como "L'important c'est la rose" (Gilbert Bécaud), "Ça va pas changer le monde" (Joe Dassin), "Tous les garçons et les filles" (Françoise Hardy), "Une belle histoire" (Michel Fugain), "Tombe la neige" (Adamo) - e cito apenas, dentre algumas dezenas, alguns temas escolhidos de dois desses discos.

A música francesa, tal como a italiana, desapareceu quase definitivamente de Portugal, hoje esmagada pela produção anglo-saxónica. Mas acho que vale sempre a pena revisitar os seus anos de ouro, não necessariamente por uma qualquer nostalgia, mas porque representou um tempo magnífico de produção musical que, queiram alguns ou não, faz parte integrante do nosso património de memória.

Nuno Júdice

E não me venham com a conversa de que não se lê literatura porque os livros estão caros! Por 50 cêntimos, com a compra da revista "Visão" desta semana (também em Paris, claro!), é possível adquirir um volume com prosa e poesia de Nuno Júdice, que inclui o seu magnífico ""Pedro, lembrando Inês".

Nuno Júdice é um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

Durante vários anos foi Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e director do Instituto Camões em Paris e, actualmente, dirige a revista "Colóquio Letras", da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nascido na Mexilhoeira Grande, em 1949, tem trabalhos na área da poesia, do ensaio e da ficção. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e obteve o grau de Doutor pela Universidade Nova de Lisboa, onde é Professor Catedrático.

A sua estreia literária deu-se com "A Noção de Poema", em 1972. Em 1985, recebeu o Prémio Pen Clube e, em 1990, o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus. Em 1994, a Associação Portuguesa de Escritores distinguiu-o pela publicação de "Meditação sobre Ruínas". Foi finalista do Prémio Europeu de Literatura Aristeion. Assinou obras para teatro e traduziu autores como Corneille e Emily Dickinson.

Foi Director da revista literária Tabacaria, editada pela Casa Fernando Pessoa, e Comissário para a área da Literatura da representação portuguesa à 49ª Feira do Livro de Frankfurt. Tem obras traduzidas em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e França.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Portugal e o Futuro

O mal-estar entre os militares profissionais fora já potenciado pela decisão do Governo de Marcello Caetano de facilitar o acesso de "milicianos" ao seu quadro de oficiais. A acrescer a esse sentimento corporativo, era patente, em muitos desses quadros, um crescente cansaço pela repetição, sem fim à vista, de comissões de serviço nos três teatro de guerra (Angola, Moçambique e Guiné), naquilo que o regime português chamava "Ultramar" e que o mundo exterior teimava em considerar como meras colónias.

Viviam-se os primeiros anos da década de 70 do século passado e, no imaginário das tropas profissionais, começavam a emergir o nome e o carisma de um general destemido, que, como governador da Guiné, empreendera políticas sociais que haviam cativado sectores populacionais que o PAIGC também disputava e que, ao que se sabia, havia mesmo tentado compromissos com a guerrilha pró-independentista. Um homem que caminhara um longo caminho, desde os tempos em que integrara, como observador, a "Legião Azul" das tropas alemãs no combate na frente russa, até se ter tornado numa figura algo heterodoxa mas muito prestigiada, que sobressaía no seio de uma hierarquia militar marcada pelo cinzentismo acrítico.

Esse general era António de Spínola, uma personalidade com um recorte pessoal muito próprio, oriundo da arma de Cavalaria, da escola dos Pupilos do Exército, que tinha a arte de cativar e criar prosélitos, de lados opostos do espectro político.

Spínola não tinha o estilo de um general moderno - usava monóculo e uma chibata de cavaleiro -, mas era então visto como um militar muito à frente da média dos seus pares, com êxitos operacionais no terreno e já com uma vocação para uma reflexão autónoma no domínio das opções de políticas de enquadramento sócio-económico, o que se configurava quase como um escândalo, no cenário de imobilismo que o regime de então alimentava.

Perante umas Forças Armadas que, no fundo, consideravam ter já sustentado uma guerra, por mais de uma dezena de anos, sem que o poder político tivesse encontrado para ela uma solução política, Spínola funcionava como a principal bandeira de esperança, não obstante alguns sectores militares mais progressistas alimentarem sobre ele algumas desconfianças.

Também a alguns políticos não passou desapercebido o potencial mobilizador de Spínola. Sá Carneiro e o grupo de liberais, então já desiludidos, mas que, inicialmente, haviam acreditado na abertura que Marcello Caetano anunciara sem concretizar, chegaram a pensar nele para uma candidatura alternativa à Presidência da República, em 1971. Mas Spínola não estava então preparado ou inclinado para correr esse risco.

Em 1973, terminada a sua comissão na Guiné, Spínola regressou a Portugal e, claramente "à contrecoeur", Marcello Caetano foi como que obrigado a recompensar o seu inegável e crescente prestígio na corporação militar com a atribuição do posto de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, subordinado a outra figura também com grande aceitação entre os seus pares, o general Francisco da Costa Gomes.

Com a ajuda de alguns amigos, António de Spínola havia então redigido um livro que iria mudar a História de Portugal - "Portugal e o Futuro". Essa obra, se bem que não trouxesse nada de muito novo no tocante à história das ideias sobre como enquadrar um futuro de evolução de uma situação colonial, representou, no contexto português, uma verdadeira pedrada no charco das ideias feitas. Com alguns episódios que se podem situar entre o críptico e o equívoco, o livro foi publicado e tornou-se, por assim dizer, numa espécie de pronunciamento a prazo, no prenúncio da desinquietação que veio a atravessar, de forma decisiva, as Forças Armadas portuguesas e que veio a dar origem à Revolução de 25 de Abril de 1974.

Passam agora precisamente 35 anos sobre a edição de "Portugal e o Futuro".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Braga

Algumas vezes, nos anos 60 e 70, fui ver jogos do Sporting de Braga ao velho estádio "28 de Maio", nos tempos da preeminência e da proeminência da família Santos da Cunha na vida política e desportiva da cidade. As suas bancadas de pedra, que lembravam o Estádio Nacional, traziam-nos irresistivelmente à memória obras similares da arquitectura desportiva e monumentalista europeia da época da sua construção. Hoje em dia, o Braga abandonou esse seu campo de matriz "estado-novista" e é servido por um novo e belo estádio (imagem), que é talvez a mais criativa solução arquitectónica que nos resta do Euro 2004.

Mas esta nota serve apenas para registar quanto me impressiona o facto do Sporting de Braga ter vindo a demonstrar uma maturidade desportiva europeia muito pouco comum, um comportamento sem complexos perante equipas que, à partida, estariam num "campeonato" diferente do seu.

Ontem, ao ganhar folgadamente ao consagrado Standard de Liège, consagrando-se como a única equipa portuguesa que nos resta na taça UEFA, o Braga deu uma magnífica demonstração de classe e de cosmopolitismo futebolísticos, consagrando-se, uma vez mais, como um dos clubes portugueses com maior afirmação internacional. É muito bom para o futebol português não ficar eternamente restringido ao Porto, Benfica e Sporting, agora que o Boavista entrou num triste ocaso.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Berardo em Paris

A polémica foi grande, quando o Estado português deu o seu acordo, em 2007, para reservar parte do Centro Cultural de Belém para a exibição permanente da colecção de Joe Berardo, um empresário português apaixonado por arte contemporânea. Pode mesmo dizer-se que esse debate não se extinguiu, argumentando uns com o excessivo compromisso financeiro assumido pelo Estado, atenta a qualidade das obras, arguindo outros com o facto de Portugal passar a garantir a permanência, no seu solo, de um acervo pouco comum de arte contemporânea, reunida ao longo de anos, e com um valor de mercado assegurado.

Para além de tudo o que se possa dizer, a verdade é que a circunstância de, numa cidade como Paris, onde a arte de grande qualidade abunda por tudo quanto é museu, estar hoje em exposição (até 22 de Fevereiro) cerca de 10% da colecção Berardo (no Musée du Luxembourg) parece poder retirar alguns argumentos aos seus detractores.

Nessa exposição podem ser vistos trabalhos de figuras como Vieira da Silva (imagem), Max Ernst, Magritte, Miró, Andy Warhol, Man Ray, de Chirico, Pollock, Dali e muitos outros. Serão as obras maiores desses autores? Claro que não são, mas vale sempre a pena vê-las, quanto mais não seja pelo facto de representarem um conjunto significativo de artistas, reflectindo as principais tendências do século XX. Os parisienses devem ser os primeiros a pensar assim, a ajuizar pelo sucesso do evento.

O cozinheiro "iraniano"

A revolução iraniana acabara de acontecer. Estava na Noruega, era 1979, há 30 anos. O Xá tinha saído do país e os nossos colegas iranianos tinham desaparecido dos circuitos diplomáticos. A Embaixada do Irão era um belo edifício, quase em frente à nossa, na Drammensvein.

Um dia, sou avisado que um português, residente em Oslo, queria falar comigo - eu era então o encarregado de negócios, na ausência do embaixador. Aparece-me um tipo gorducho, algo afogueado, a apresentar um problema. Desde há anos que era cozinheiro da Embaixada iraniana. De um dia para o outro, todos os iranianos da Embaixada se tinham ido embora. Ele estava sozinho, sem instruções, sem dinheiro... o que havia de fazer? Pensava ir à procura de um novo emprego. E faz-me uma pergunta inesperada: podia eu ficar com a chave da Embaixada, para eu a dar aos meus futuros novos colegas iranianos?

A ideia era bizarríssima. Cuidei em nem sequer transmitir o assunto a Lisboa. Os telegramas com historietas, subscritos pelos substitutos dos chefes de missão são, no anedotário do MNE, motivo regular de gozo dos colegas. E a história de um cozinheiro português a "entregar-me" a Embaixada do Irão iria fazer o gáudio dos claustros das Necessidades. Assim, optei por entrar em contacto com o serviço do protocolo do Ministério dos estrangeiros norueguês, com quem aconselhei o cozinheiro a falar.

Passadas semanas, uma nova e mais ortodoxa equipa diplomática iraniana chegou, finalmente. O nosso cozinheiro foi, de imediato, despedido. O menu tinha mudado no Irão.

Lembrei-me deste episódio ao verificar que, aqui por Paris, está a ser recordada a mudança política ocorrida há três séculos no Irão. Aliás, foi de França que, nesse mesmo ano de 1979, partiu o Ayatollah Khomeini, que aqui viveu refugiado por cerca de um ano, depois de um exílio por vários outros países.

Imigração

A imprensa portuguesa dá hoje conta do facto de cerca de 38 mil estrangeiros, imigrantes em Portugal, terem pedido a nacionalidade portuguesa, durante o ano de 2008.

Algumas vozes, de forma mais ou menos audível, são contra aquilo que consideram ser a criação "artificial" de cidadãos portugueses, por um mero motivo de interesse e oportunidade. Outros entendem ser de toda a justiça dar, a quem contribui para a criação de riqueza no nosso país, o direito de poder usufruir, em pleno, dos nossos direitos de cidadania.

Tenho uma visão muito positiva do efeito global da presença e integração dos estrangeiros em Portugal, embora não desconheça alguns dos problemas por elas suscitados. Mas, historicamente, foi o facto de ser um porto de chegada para muitas gentes, um cruzamento e ponto de passagem de várias nacionalidades, que deu a Portugal a imagem de país acolhedor e simpático que hoje tem no mundo e que, por outro lado, acabou por tornar a nossa cultura mais aberta e tolerante.

Nos dias que se vivem na Europa, quanto ao modo de lidar com os estrangeiros, devemos ter orgulho na nossa diferença.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Citações

Muitas pessoas quiseram ter a simpatia de se referir a este blogue - em mails, em imprensa, nos comentários ou em outros blogues, os quais agora aqui se assinalam por ordem alfabética, embora correndo o risco de alguma involuntária omissão:

The Abrantes Partnership,
Maquiavelencias,
Praça Stephens
A Cagarra,
Politeia,
Enxuto,
Criativemo-nos,
Tomar Partido,
A Origem das Espécies,
Causa Nossa,
Rever Portugal,
Locutório,
Notas Verbais,
Mundos Paralelos,
A Nossa Candeia,
Delito de Opinião

Colisões

Dois submarinos nucleares, um britânico e um francês, colidiram no Atlântico. Há dias, dois satélites, um americano e outro russo, colidiram no espaço. É obra!

Rádio Alfa

Há dias, visitei pela primeira vez a Rádio Alfa, uma emissora luso-francesa da região de Paris, onde a Embaixada de Portugal tem um espaço regular de informação, criado pelo meu antecessor.

A Rádio Alfa é propriedade do comendador Armando Lopes, uma força da natureza, um poço de simpatia, um homem de sucesso, nascido em Caxarias (Leiria), que alimenta o orgulho nas suas origens.

Nos corredores da Rádio Alfa, para além de me ter cruzado com simpáticos conhecimentos de outras eras, tive o gosto de encontrar, pela primeira vez, João Paulo Diniz, um grande senhor da história da rádio portuguesa.
Quem dera que a Língua portuguesa pudesse ter muitos espaços como este em França!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Cravos vermelhos

Depois do bloqueio, Israel autorizou a primeira exportação de flores produzidas em Gaza pelos palestinianos: 25 mil cravos vermelhos, destinados à Europa.
(Com vénia ao Corta Fitas)

Rui Paula

É necessária alguma coragem para nós, portugueses, nos aventurarmos pelas sendas da alta gastronomia, perante um país como a França, de onde partem os critérios de avaliação mais exigentes, como os guias Michelin anualmente fazem questão de recordar-nos. Justo ou injustamente, as coisas são assim.

A realidade, porém, é que Portugal tem já hoje uma série de chefes de cozinha que, sem favor, se apresentam num patamar de qualidade muito apreciável, pedindo meças a muitos estrangeiros.

Conheço relativamente bem um deles, Rui Paula, que hoje dirige o restaurante duriense DOC, depois de anos à frente do Cepa Torta, em Alijó. Em pouco tempo, Rui Paula fez do DOC uma referência da boa gastronomia portuguesa.

Recentemente, lançou um belo livro - "Uma Cozinha no Douro" -, escrito por Celeste Pereira e com fotos de Nelson Garrido, que agora acaba de ser galardoado com dois prémios do Gourmand Word Cookbook.

O autor deste blogue sente-se feliz por ter feito uma apresentação pública deste livro e de para ele ter modestamente contribuído com um pequeno texto.

No futuro, é minha intenção trazer Rui Paula a França - bem como outros destacados chefes portugueses -, a fim de podermos provar aos franceses que a nossa cozinha está num belo momento. E para adverti-los de que se cuidem...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Passaporte

Há dias, referi casualmente, num grupo de amigos europeus, o facto de que, ao chegarmos ao aeroporto de Lisboa, vindos de um país estrangeiro fora da área Schengen (que já abrange muitos Estados europeus), os novos passaportes portugueses já nos permitem entrar no país (bem como dele sair) sem que nos confrontemos com a cara de qualquer funcionário policial. Muitos quase não acreditaram.

Expliquei, com algum orgulho, que a simples colocação desse nosso novo passaporte numa máquina, combinado com o olhar para uma câmara, resulta na abertura de uma porta de vidro, com livre passagem e imediata entrada no país. Tudo em 30 segundos.

Posta de parte a leitura pessimista de um amigo, que é simultaneamente meu e da onça, o qual objecta que, dessa forma, ficamos mais tempo à espera das malas que tardam a chegar às esteiras, há que reconhecer o muito que andámos desde os tempos em que a rapaziada da Pide nos escrutinava com um olhar oblíquo que, por mais inocentes que estivéssemos, nos provocava alguma pontual taquicardia. Eu sei que há uma diferença imensa entre a sinistra Pide e o benévolo SEF, mas, mesmo assim, confesso que prefiro o anonimato orweliano da nova máquina. E, a julgar pela cara dos meus amigos estrangeiros, eles também…

São Valentim

É curioso recordar que na cidade de Chicago, faz hoje precisamente 80 anos, a noite não ficou famosa pelos jantares dos pares de namorados.

Crise?

Como há dias dizia por aqui um comentador televisivo, estará com certeza bem melhor na vida quem perdeu "tudo" numa operação com o especulador Madoff do que um desempregado da Renault.

Ao olhar para os números do leilão das peças de arte da colecção de Pierre Berger e de Yves Saint Laurent, que daí a dias aí vem (o lucro das vendas pode ir até 400 milhões de euros), e cujo catálogo custa uns meros 200 euros, vê-se melhor como há vários mundos neste mundo e que, enquanto alguns estão já definitivamente no zero, para outros a crise será sempre e apenas uma questão de um zero a mais ou a menos.

Este leilão de um verdadeiro museu privado, que o último "Nouvel Observateur" nos descreve e a que muito poucos tiveram acesso - com Picasso, Degas, Klimt, Goya, Gauguin, Ingres, Manet, Seurat, Cézanne e tudo o mais que se possa imaginar) -, terá como compradores garantidos novos nababos russos, casaques e outros mais, que já rondam Paris em jactos privados, à procura das vantagens da globalização do mercado da arte. Daqui a semanas, estas preciosidades espalhar-se-ão por vários países, como que democratizando o seu usufruto (provavelmente, continuando em domínios privados), até que o futuro lhes aplique a velha filosofia redestributiva dos três D das oportunidades no mercado de obras de arte: "death, divorce, debts".

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Alain Oulman

Alguns portugueses surpreendem-se, por vezes, ao verem o nome francês de Alain Oulman assinar alguns dos mais belos fados de Amália Rodrigues.

Oulman era filho de um industrial francês, mas nasceu em Portugal, em 1928. Apresentado a Amália por um diplomata português, musicou para ela textos de poetas como Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos, Pedro Homem de Melo ou Manuel Alegre.

Em 1966, envolvido na vida política portuguesa, Alain Oulman foi preso pela Pide, vindo a conseguir ser expulso para França, graças à intervenção de Amália junto do então embaixador português em Paris, Marcello Mathias. Após o 25 de Abril, quando Amália foi acusada de cumplicidade com o regime ditatorial português, Oulman surgiu a defendê-la na imprensa.

Ontem à noite, em Brunoy, perto de Paris, ao assistir a um belíssimo espectáculo de fado protagonizado por Kátia Guerreiro, que cantou uma sua canção, lembrei-me deste luso-francês a quem a música portuguesa tanto deve. Oulman morreu em Paris, em 1990.

O frio

Há dias, ao passar pela Place da la Nation, aqui em Paris, veio-me à memória um episódio, no mesmo local, sobre a qual já lá vão, quase dia-por-dia, 38 anos.

Era Março de 1971 e eu caminhava distraidamente pela praça, naquele tipo de turismo para quem o simples passeio por Paris era já metade do usufruto da viagem, quando dou de caras com um antigo colega de liceu, que sabia ter saído “a salto” de Portugal, e a quem tinha perdido, por completo, o rasto. Fizemos aquela festa tradicional, típica de dois transmontanos que se prezam. Generoso, convida-me a ir beber uma cerveja à sua casa, ali perto.

Foi-me contando que lavava janelas a partir das 6 da manhã (“não é nada mal pago, sabes? Mas é muito chato ter de sair de casa às 4!”). Em fins de tarde, aproveitava para assistir a uns cursos livres na universidade de Vincennes. Sem mo dizer expressamente, deu-me a entender que era militante de um partido político português na clandestinidade, o que conteve a minha curiosidade inquisitiva sobre o resto da sua vida em Paris.

Subimos ao apartamento onde vivia, uma sala e um quarto, num 4º andar sem elevador, com uma cozinha a meias com um argelino, de cuja área da casa chegava um cheiro a comida pouco apelativo. “O problema é o frio. A casa não tem aquecimento. Temos de pôr aquecedores, mas a electricidade é cara. Às vezes vou para a cama mais cedo, só para me aquecer”. E, num tom mais triste, daquela saudade que a minha presença lhe trazia, acrescentou: “Queres saber uma coisa? Lá em Vila Real, o nosso frio era diferente”.

Pois era. O frio da terra portuguesa, para quem sofria a distância e a tragédia da emigração e do exílio, tinha outro calor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Não há coincidências?

O cenário é a Hatchards, uma bela livraria de Londres, na tarde de ontem. Passo lentamente os olhos pelas estantes especializadas em temas internacionais e, subitamente, deparo com um livro de memórias políticas de Stephen Wall, antigo embaixador britânico em Lisboa e, mais tarde, junto da União Europeia.

Durante quase seis anos, a partir de 1995, negociei com Wall, em Bruxelas, coisas tão variadas como os pormenores dos tratados europeus, os fundos comunitários, a doença das vacas loucas ou os direitos humanos no Timor ocupado. Wall havia sido assessor de John Major e sê-lo-ia também de Tony Blair. É unanimemente considerado um dos grandes especialistas britânicos em temas europeus. Perdi-o de vista a partir de 2001 e tinha a ideia de que havia abandonado as tarefas de “civil servant”, que andava pela vida empresarial.

Volto-me para ir pagar o livro e com quem dou de caras, a dois metros de mim? Com Stephen Wall, aliás, Sir Stephen Wall. Um abraço, trocámos novos telefones actualizados, falámos das famílias e despedimo-nos, com um almoço combinado para daqui a semanas.

Dando eu de barato que Wall não se dedica a controlar, nas tardes chuvosas de Londres, as estantes das lojas onde se vendem as suas obras, há que convir que a ocorrência deste encontro, na ocasião da compra do seu livro, configura uma hipótese entre milhões. Não há coincidências? Sei lá! (citando dois títulos de Margarida Rebelo Pinto, que, talvez também por um acaso, não li.)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Bartolomeu Cid dos Santos

Olá, Bartolomeu

Hoje à noite, para as bandas de Gower Street, nessa Londres chuvosa, estaremos juntos a saudar a memória do nosso velho Joseph Crabtree, essa figura de perfil renascentista cuja eterna glória anualmente nos reúne, na clássica jantarada das 2ªs quartas-feiras de Fevereiro, quase sempre de recorte gastronómico duvidoso, mas que nós aprimoramos com alguns alcoóis de boa cepa.

Agora que as mulheres já podem assistir ao repasto (também graças ao teu e ao meu voto, lembras-te?), a Fernanda lá estará, como sempre esteve, a teu lado. Eu vou de Paris, o António vai de Lisboa, o João vai do banco e o Helder, desta vez, é obrigado a faltar. Tu, presumo, és capaz de te atrasar. Mas, num paradoxo digno do Huxley, todos estaremos presentes desde o primeiro momento.

Sabes bem que guardaremos o teu lugar, esse lugar único que soubeste criar, em nós, para ti. Porque, como dizia o teu apreciado Lopes Graça, tu serás sempre dos que "vão ao nosso lado".

E mais não digo, porque não sei nem consigo.

So long, Barto

Estou certo que o leitor perdoará o intimismo desta evocação simultânea do grande gravurista português que foi Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008) e de uma figura, não bafejada pela existência, que dá pelo nome de Joseph Crabtree (1754-1854).

Gastarbeit?

Pode parecer estranho que o embaixador de Portugal em França aborde um tema relativo ao Reino Unido. Mas a verdade é que, hoje em dia, nada do que é europeu nos é alheio.

A reacção nacionalista dos trabalhadores britânicos, ao procurarem limitar a contratação de operários estrangeiros, mesmo aqueles que são oriundos de países nos quais eles próprios têm direito de trabalhar, deve ser analisada com grande atenção. O que se passou no Reino Unido pode, com muita facilidade, repetir-se aquém-Mancha.

Esta reacção de proteccionismo nacional pode ter o seu quê de compreensível, se pensarmos na angústia dos desempregados britânicos. Mas compete aos governos - a todos os governos europeus - terem a frieza de esclarecer os seus cidadãos, desempregados ou não, que, ao limitar-se a livre circulação de trabalhadores, está-se a ferir o contrato europeu, está a desrespeitar-se o compromisso assumido formalmente por todos os subscritores da União Europeia - protegerem as "quatro liberdades": mercadorias, serviços, pessoas e capitais.

Se acaso amanhã viesse a considerar-se legítimo limitar a possibilidade dos trabalhadores serem recrutados livremente dentro do espaço da União Europeia, independentemente do seu país de origem, então seria igualmente legítimo que nos interrogássemos por que razão deixamos entrar os produtos estrangeiros nos nossos supermercados, qual o motivo por que permitimos que as nossas empresas possam ser adquiridas livremente por estrangeiros, que lógica existe para que uma seguradora, um banco ou uma construtora de um país europeu possa actuar sem entraves noutro, etc.

A União Europeia é um todo, as suas vantagens e desvantagens compensam-se entre si, pelo que a bondade das suas diversas dimensões não pode ser considerada e avaliada isoladamente. Se acaso algum governo europeu se sentisse tentado a dar cobertura política a quaisquer sentimentos populares assentes em reacções emocionais da índole dos que afloraram na desesperada reacção dos trabalhadores britânicos, isso significaria entreabrir uma porta trágica para o regresso da intolerância. Daí à xenofobia e até ao racismo seria um curto passo. Entendamos as razões da angústia de quem sofre, mas encontremos para ela respostas racionais e serenas.

O cartaz acima reproduzido é, a meu ver, a triste marca de uma Europa que nos compete recusar, em absoluto. Até por todas razões subliminares que porventura ocorram ao leitor, ao olhar para ele.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Scolari


Já se ouvem os "eu bem dizia!" dos detractores de Scolari, nesta sua intempestiva saída do Chelsea.

Lamento muito, mas não partilho dessa alegria. Também eu, como "treinador de bancada", discordei bastantes vezes das suas opções técnicas, de alguma tibieza nas substituições, de certas teimosias que talvez fossem despropositadas.

Mas pergunto: quem, para além de Otto Glória, ajudou a dar mais alegrias aos Portugueses espalhados pelo mundo?

Um abraço luso-brasileiro de solidariedade, Felipão!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um pouco de energia

Em tempos económicos menos bons, como aqueles que atravessamos, talvez faça um pouco de bem à nossa auto-estima verificar como outros reconhecem alguns sectores de excelência que existem em Portugal.

Esse é o caso das indústrias dedicadas às energias renováveis, analisado por esta reportagem da CBC, do Canadá.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Livros

Interessante o que escreve hoje, no "Libération", Luis Sepúlveda - um jornalista e escritor chileno cuja leitura muito recomendo: "A vida em sociedade torna-se estranha quandos nos aproximamos dos 60 anos; eu falo de livros que os outros não leram e os outros falam de livros que eu não tenho nenhuma vontade de ler".

E ele ainda não sabe que isso se torna porventura mais verdade quando já se passou dos 60 anos...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

JL

Só esta semana tive a possibilidade de olhar, com olhos de ler, para o nº 1000 do "Jornal de Letras, Artes e Ideias", o JL.

Comprei e li (li o que pude, e foi sempre menos do que deveria) o JL desde o seu primeiro número, tendo encadernado as suas primeiras 500 edições. Continuo a comprá-lo (julgo não ter falhado um número) e a lê-lo (como disse, à medida do que o tempo me deixa possível).

Porque se trata de uma publicação de grande dimensão (e já foi maior), e a maioria de nós vive em casas e não em bibliotecas, vi-me na obrigação de me "desfazer" dessa preciosa colecção, tendo-a oferecido ao Instituto Camões, ao tempo em que era dirigido pelo meu amigo Jorge Couto - hoje director da Biblioteca Nacional de Portugal. Julgo que por lá continuará...

No Brasil, de onde há pouco saí, o JL é venerado nas cátedras de literatura, na Academia Brasileira de Letras, entre os jornalistas e os escritores. É que, em todo o mundo, e para as coisas em língua portuguesa, não há nada que se lhe compare ou equivalha.

Hoje quero apenas prestar aqui uma singela homenagem ao JL e, muito em especial, ao seu director, José Carlos de Vasconcelos. O país ainda não terá medido o quanto deve ao esforço que o JL tem feito para a divulgação da cultura e das artes portuguesas. É uma obra monumental, que se estende aos restantes países onde se fala português e cujas produções literárias e produções artísticas merecem sempre um cuidado permanente no jornal.

Estes 1000 números do JL representam muito do que se melhor se tem feito pela cultura portuguesa, de quem José Carlos de Vasconcelos é, sem a menor sombra de dúvida, o maior embaixador. Com estes 1000 números do JL, pode dizer-se que a cultura portuguesa fica "milionária".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Toma!

Será um pouco de Portugal que se irá perder se acaso se confirmar a possibilidade de encerramento das conhecidas Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha.

A crise económica leva muita coisa à sua frente, mas é mesmo totalmente impossível evitar que ela também nos leve a nossa memória, algo tão identitário como as figuras de Bordalo Pinheiro?

Por mim, ainda tenho esperanças de que o Zé Povinho vá conseguir fazer um manguito à crise.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

António Maria Pereira

Com a morte, há dias, de António Maria Pereira, a França perdeu um grande amigo em Portugal.

O cosmopolita e bem sucedido advogado de Lisboa, especialista reputado em propriedade intelectual, que desapareceu aos 85 anos, foi o criador do Círculo Voltaire, que, durante anos, trouxe a Portugal vultos importantes da cultura francesa.

Em reconhecimento dessa dedicação, em 2002, a Academia Francesa atribuiu-lhe um "Prix du Rayonnement de la Langue et de la Littérature française".

Para além dessa dimensão francófila, António Maria Pereira era o orgulhoso descendente de uma familia de importantes editores portugueses e, no plano dos valores, um grande defensor dos direitos humanos e, com grande e regular evidência pública, dos direitos dos animais. Foi, também, em Portugal, das pessoas que mais abertamente apoiaram a criação do Tribunal Penal Internacional (TPI), quando a respectiva consagração era ainda insegura.

Um homem de bem, portanto.

O nome

Pergunta-me um amigo a razão pela qual este blogue tem o nome que tem.

A resposta é fácil. A mim disse-me sempre muito o cinema francês da Nouvelle Vague, com figuras como François Truffaut, Jacques Rivette, Eric Rohmer, Claude Chabrol ou Jean-Luc Godard. Lembrá-los era o mínimo que poderia fazer, ao vir viver para Paris. E dado que seria, com toda a certeza, muito estranho eu dar a este blogue o nome do filme mágico de Godard - "À bout de souffle" -, optei por plagiar parte do título do seu "Deux ou trois choses que je sais d'elle".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

André de Gouveia

Residência André de Gouveia
Muitos desconhecem a figura de André de Gouveia, que dá o nome à residência portuguesa que, há mais de 40 anos, existe na Cidade Internacional Universitária de Paris, graças à generosidade da Fundação Calouste Gulbenkian.

André de Gouveia foi um humanista do século XVI, que residiu em Paris e fez parte de uma importante geração de figuras portuguesas educadas então em vários países da Europa. Foi graduado pela Universidade de Paris, doutorou-se em Teologia, tendo chegado a director do Collège de Sainte-Barbe. Em 1533, foi eleito reitor da Universidade de Paris, tendo, mais tarde, regressado a Portugal para fundar o Colégio Real das Artes, de Coimbra.

Elogiado como como pedagogo por Montaigne, Gouveia privou com Martinho Lutero e teve uma grande importância na reforma dos estudos superiores em Portugal. É uma figura que honra Portugal em França mas de que, infelizmente, em Portugal pouco se fala.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A abrir

Por que diabo se lembrou o embaixador de Portugal de criar um blogue (escrevo sempre assim, à portuguesa) ? Imagino que essa deva ser a pergunta, de legítima curiosidade, de quantos chegam a este primeiro texto, publicado no dia da minha chegada a Paris.

Pois bem, a resposta é simples: porque entendi que poderia valer a pena testar esta via como forma de dar a conhecer, a quantos considerem minimamente interessante sabê-la, a minha perspectiva sobre factos que, de certo modo, se liguem à actividade que actualmente exerço, bem como sobre diversos aspectos da vida e da actualidade portuguesa ou luso-francesa - acontecimentos, pessoas e ideias - que entenda valer a pena sublinhar aos potenciais leitores. E algumas notas pessoais, que me pareça curioso deixar expressas.

Que fique bem claro que este não é um portal oficial: para isso, a Embaixada tem os seus veículos próprios de informação e de diálogo. Aliás, usá-los é um direito que estimulo muito que seja exercido.

Este será - convém ter claro - um espaço de aparição irregular, sem uma tentação de actualidade, ao qual não quero, por isso, associar nenhuma temporalidade cíclica, diária ou outra. Desenganem-se os que esperam um diário.

Não excluo que possa parecer algo pretencioso, aos olhos de alguns, dar à estampa textos na primeira pessoa, como que assumindo que a visão do embaixador português possa, pelo mero usufruto desse estatuto, ter um mérito que justifique a sua leitura. Mas fico confortado com a ideia de que só me lerá quem quiser e que ninguém será obrigado, por dever oficioso ou outro, a seguir o que aqui se colocar.

Noutras funções, embora também num outro modelo, já utilizei o blogue como forma de comunicação e, confesso, o seu resultado foi muito reconfortante. Agora, neste caso, e ao fim de algum tempo, logo se verá. Se a assiduidade dos leitores o justificar, o exercício continuará. Se não for esse o caso, o blogue terá o destino óbvio.

Duas questões finais, para bem esclarecer.

A primeira para dizer que o espaço de comentários estará aberto a quem os desejar fazer, no entendimento que, tal como este blogue, não sejam anónimos. E que sejam escritos em tom construtivo e com a necessária urbanidade, como é óbvio.

A segunda para esclarecer que, embora, como disse, este espaço não tenha uma natureza oficial, naturalmente que quem o escreve assume, em pleno, a responsabilidade da função que exerce e que, por essa razão, não se esquece dela ao escrever. "À bon entendeur"...