terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vidas

Ele há cada conversa!

Ontem, à porta de uma funerária de Vila Real, o respectivo proprietário, com quem trocava cumprimentos rituais de Boas Festas, disse-me, a certo passo: "Ainda hoje falei do senhor embaixador a um colega de Portalegre. Ele foi a França buscar um cadáver e queixou-se-me das demoras consulares por lá". Defensivo e burocrático, reagi logo: "Ele que me contacte se, no futuro, tiver problemas". E fui andando.

Entramos para a carreira diplomática com o sonho de fazer parte de grandes negociações internacionais para acabarmos a agilizar os negócios da morte. É a vida, como dizia o outro engenheiro.

8 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

Ontem um post sobre "ocios do oficio" hoje um sobre "ossos do oficio".
Il faut de tout pour faire un Monde.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
A diplomacia tem que lidar com a morte e o bem dos vivos.
Certamente nunca lhe passou pelas mãos um caso de um/a condenado à morte.
Assim aconteceu com o embaixador Castello-Branco, em 1991, em Banguecoque, que desesperadamente tentava livrar, da “corda”, em Singapura, uma pobre rapariga, nascida em Macau, que aproveitada a sua inocência foi correio de heroína, de Banguecoque para Amesterdão e apanhada com 5 quilos no aeroporto.
Efectuada uma diplomacia sob os segredos dos deuses, para que a comunicação social não viesse a prejudicar a comutação da pena capital em troca da perpétua que se esperava.
Todo o processo como “manga de alpaca” passou pelas minhas mãos e penoso.
E mais drama foi de quando pela manhã de outro dia da noite que foi executava retirei um faxe da máquina para colocar no expediente do chefe de missão, onde a cadeia informava para que fosse contactada a família da Ângela e levantar o seu corpo.
José Martins

Anónimo disse...

O cenário reporta-se a um episódio em 1984...

O Sr. em vida, uma pessoa importante, pelo montante "previsto" aparentemente na conta bancária, não tinha quem o vestisse na morgue pois o sr. funcionário da agência funerária tinha recalcamentos válidos que o cadáver em vida lhe tinha infligido tipo uso e abuso de poder fazendo-o sentir-se Pobre como se fosse um defeito de carácter e recusava-se a vesti-lo...

A filha intocável na sua maquilhagem global veio pedir-me Sra. Enfermeira não se importa de ir á Morgue vestir o Meu Pai...

Claro que me importo...Não é minha função... A minha função culmina com os cuidados ao corpo do cadáver e com a concepção final da múmia...

-Mas Eu pago-lhe...

Não paga não...Isso é o que a Sra. Pensa.

Por Favor...

Ah!... Palavra mágica que ressuscitou/activou a minha memória do juramento de Nightingale...

Juro cuidar sem me deter perante preconceitos oriundos de raça religião, concepções politicas,cor da pele, religião, diferenças de género... And so on, And so on ...
De qualquer forma Eu não exerço funções na Morgue, Nem estou autorizada...

Por Favor ...Não tenho ninguém que o faça e disseram-me que a Sra era boa.

Está bem , mas vou lá como pessoa vou-me vestir, a roupa normal, sem a dignidade da minha Bata e vou lá ...Pelas Almas Que lá tenho...

Lembrei-me da Avozinha Eusébia que não gostava que eu fosse para Enfermeira porque podia ver homens Nús... Enfim...

Isabel Seixas

Gil disse...

Já que navegamos uma onda tanato-diplomática, não resisto a lembrar uma assaz mórbida competição entre uma Embaixada de Portugal e uma sua congénere de outro país europeu, numa capital africana.
Morrera um muito popular dignitário religioso e o Estado em questão não tinha meios para lhe organizar exéquias condignas por falta de caixão disponível.
As duas Embaixadas em causa tinham caixões em "stock", para o que désse e viesse, dado que no país grassava uma mortífera guerra e era natural acautelar a necessidade de repatriação de cadáveres.
Ambas as Embaixadas fizeram questão de oferecer os préstimos ou, melhor, os féretros.
Entrecruzaram-se diligências junto ao MNE local, moveram-se discretas influências, algumas pequenas pressões foram exercidas. Os diplomatas em compita não coseguiam, nos seus fortuitos encontros, disfarçar, sob os sorrisos e cumprimentos protocolares, uma surda hostilidade.
A certa altura, verificou-se estar em perigo o Pátrio prestígio: se devidamentamente paramentado, o cadáver extravazava da urna lusitana mas cabia confortavelmente - se esta expressão tem cabimento - no ataúde inimigo.
Valeu à nossa Embaixada a amizade pessoal que se estabelecera entre o Chefe de Missão e o Ministro do Negócios Estrangeiros e a franca simpatia que o então PM dedicava ao nosso país.
Aceite o pricípio de que o caixão seria português, tomou-se também como boa como boa a solução de retirar a mitra do prelado e colocá-la sobre o peito e os braços cruzados do defunto que, assim, foi devidamente sepultado com participação portuguesa.
Demorou algum tempo o restabelecimento das cordiais relações entre as duas potências desavindas mas tudo acabou em bem (se é que a palavra é adequada em questões funérias).

Marta disse...

feliz 2010
feliz TUDO.

Helena Sacadura Cabral disse...

Pese embora o final um pouco "finado" deste tema, confesso que com a boa disposição que, ainda, me caracteriza - até que seja eu a finada! - não pude deixar de sorrir com o lamento de quem sonha com as grandes negociações internacionais e se vê, sem o desejar, a agilizar os negócios da morte.
Ai, Senhor Embaixador, com as mais respeitosas diferenças, fez-me lembrar os sonhos que tive ao entrar para o Banco Central e as dificuldades que me coube suportar por ter sido a primeira mulher a ousar lá penetrar...

Helena Sacadura Cabral disse...

Ah! Esqueci-me da gargalhada que dei com o post da Julia. É, de facto, preciso fazer de tudo - ou, vá lá, quase tudo - para se construir o mundo...
É a vida como diria o "meu" arquitecto!

Anónimo disse...

Já agora, não se recordam de um caso anos atrás, de um cadaver de um nigeriano enviado, de londres para Lagos (ainda então a capital daquele país africano) como "mala diplomática especial" e que dentro do caixão ia junto uma determinada quantia de droga? Foi um sarilho diplomático.
Adido de Embaixada