domingo, 22 de novembro de 2009

Necessidades

Num post antigo, falou-se aqui das malas diplomáticas que, no ministério dos Negócios Estrangeiros, eram transportadas através da Europa (e para os EUA) por jovens profissionais, quase sempre nos seus tempos iniciais da carreira. Era uma tarefa agradável, embora algo cansativa, pelo somatório de viagens consecutivas que implicava, nos seis dias da tarefa.

Numa dessa semanas, creio que em 1978, coube-me a mim "ir de mala". Uma das etapas do circuito desse tempo era Belgrado. Era aí que estava instalada a Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), que iria dar origem à OSCE, já no período da "détente". Mal eu sabia que, anos mais tarde, ainda me iriam calhar dois anos de "osceosidade", em Viena!

Saído de Lisboa, passei, em dias sucessivos, por Londres e por Bruxelas. A bem dizer, era este o destino principal da "mala acompanhada", por aí se situar a sede da NATO. De Bruxelas, parti para Viena, onde a esmagadora maioria da correspondência que eu levava iria desaparecer, encaminhada para postos dos antigos países comunistas, de onde as nossas Embaixadas enviavam à capital austríaca os seus diplomatas, para a respectiva recolha e canalização dos seus relatórios para Lisboa. Já pouco seguia na mala para Belgrado, a ajuizar pelo tamanho do pacote que me havia sido entregue em Viena, cujo conteúdo, naturalmente, eu desconhecia.

Belgrado, num inverno sob neve, era uma cidade cinzenta e algo desconfortável. De autocarro, fui parar, já muito ao final da tarde, ao imenso Hotel Jugoslávia. Passava da hora de fecho da nossa missão temporária junto da CSCE, pelo que decidi ficar com a mala diplomática à minha guarda (período das refeições incluído, porque não era permitido perdê-la de vista) e entregá-la no dia seguinte, logo de manhã.

Tomava eu um banho reconfortante no hotel, preparando-me para jantar, quando me chega um telefonema da secretária do Embaixador, dizendo-me que o embaixador queria que eu fosse, ainda naquele dia, ao escritório da missão, para entregar a mala. Reagi, dizendo que era já muito tarde. Qual quê!? O embaixador insistia e pedia mesmo que eu fosse de táxi, porque não podia dispensar o seu motorista. Furioso, lá tive de encasacar-me para o gelo da cidade, no fundo algo intrigado com a estranha urgência da documentação. Mas, quem sabe?, podia tratar-se de instruções para uma diligência ou contactos.

Chegado à missão, fui levado à presença do embaixador, que exclamou: "Ora temos então aqui a nossa mala! Já não era sem tempo!", numa clara "indirecta" à minha resistência, complementada pela displicência com que me saudou. Preparava-me para sair do gabinete e regressar ao hotel quando me dei conta que embaixador se mostrava muito empenhado a ser ele próprio a quebrar os selos diplomáticos do pacote. Por curiosidade, deixei-me ficar na cena. E foi então que assisti à aparição de um embrulho, saído de dentro do pacote que, com toda a segurança e cuidado, eu transportara por várias capitais. Vi os olhos do embaixador encherem-se de alegria: "Até que enfim! Estava a ver que o nosso colega de Havana nunca mais se despachava!". E lá abriu ele, com a avidez do vício, a sua caixa de "Cohibas", pelos visto a única "correspondência" relevante que, para escapar aos riscos da espionagem comunista, nesses derradeiros anos da Guerra Fria, eu levara em mão até Belgrado...

9 comentários:

Helena Oneto disse...

Mais uma das "Necessidades" contada com imensa piada. Deliciosa sobremesa para um jantar de domingo!

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador, compreendo a sua decepção. Mas creia que para um apreciador de charutos - é o meu caso, infelizmente - a expectativa de os ter nas mãos supera, algumas vezes, os limites do razoável...

Anónimo disse...

Seria "craving" impulso para consumo?
Há autores que consideram uma emergência em termos da necessidade premente que determinada substância gera no organismo após um sindrome de privação.

Começo a achar que ser Embaixador é a profissão mais dinâmica que conheço em termos de amplitude de áreas/dimensões humanas de intervenção.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,
Meses atrás, amigos comuns de Brasilia (AA), mostraram-me o seu blog, gabando as suas qualidades literárias. Eu que de blogs era pouco entusiasta, pensando que seriam mais da esfera quase privada de cada um e para os seus amigos, agora sou um leitor atento deste seu espaço...e de outros. Os meus parabéns pela imaginação e maestria, diria eu, de contador destes eventos da vida real. Este não resisto a comentar e que nos mostra que nem só de trabalho/diplomacia vive o ser humano.
António Escarduça

Luís Bonifácio disse...

E Hoje em dia?
Continuamos a pagar os caprichos dos seus colegas?

João Antelmo disse...

As mala diplomáticas têm servido para muita coisa, menos a portuguesa do que algumas outras:
contrabando e outros tráficos, espionagem, etc..
Uma das utilizações, não da mala em si mas das suas virtualidades, é o "conto do vigário".
Há uns anos, num país do sudeste europeu, um comerciante local pretendeu vender-me uma peça artística cujo enorme valor afiançava e cuja posse pelo indivíduo em questão seria, a ser autêntica a peça, manifestamente ilegal.
Na capital desse país, aquele tipo de artigo, que era de natureza religiosa, tinha grande circulação entre os expatriados que se aproveitavam, sem pudor, do estado de coisas produzido por uma guerra recente. Ao mesmo tempo, proliferava, é claro, um mercado de imitações e falsificações tão dinâmico como o outro.
Apesar da minha recusa em comprar, o vendedor continuou o assédio, e o preço pedido foi descendo, aproximando-se vertiginosamente do valor real, isto é, de uma ninharia.
Aí, invoquei a ilegalidade e o enquadramento criminal da exportação de tais artefactos que, segundo a legislação local, era passível de enormes penas de prisão.
Aí, o indivíduo garantiu-me que, com um adicional adequado (mais ou menos o preço pedido inicialmente), ele garantia a exportação através de uma mala diplomática.
Fiquei algo curioso e decidi ver até onde iria o talento de vendedor do homem. Perguntei de que Embaixada seria a mala diplomática utilizada.
Depois de alguns rodeios destinados a colorir de verosimilhança o paleio, o vendedor, que ignorava tudo sobre mim, informou-me de que se trataria da Embaixada de um país da União Europeia.
Desembaracei-me, com algum custo, do persistente homem de negócios (por assim dizer).
Passado algum tempo, em conversa com o Embaixador do país que tinha sido mencionado, contei-lhe o que sucedera mas cometendo a "gaffe" de não anunciar, desde logo, a minha incredulidade. O Embaixador formalizou-se e, em tom ofendido, insurgiu-se contra as calúnias e as difamações de que a sua Embaixada era alvo. Embaraçadamente, eu tentava interrompê-lo e garantir que nunca me passara pela cabeça acreditar no traficante.
Este caso produziu um notório arrefecimento da simpatia que o Embaixador me testemunhava antes e que nunca mais consegui recuperar.
Algum tempo depois, já o Embaixador em questão estava noutro posto, contei a história a um responsável político local.
Muito divertido, relatou-me, então, um facto que alimentara, uns anos atrás, os mexericos da comunidade diplomática: o tal Embaixador fora vítima do "conto do vigário" e pagara uma verdadeira fortuna por uma peça que seria exportada através da mala diplomática de Chipre, salvaguardando a integridade da sua Missão.
Havia, contudo, dúvidas sobre o real valor da "antiguidade" porque ela nunca chegou à Embaixada de Chipre e, muito menos, às mãos do incauto “comprador”.

Santiago Macias disse...

Faltou ao embaixador em Belgrado a subtileza "do do chapéu". Em todo o caso, e embora o relato do sr. embaixador seja omisso quanto a esse aspecto, espero que o tenho convidado a partilhar um Cohibas. Como se costuma dizer "é o mínimo"...

Francisco Seixas da Costa disse...

Não fumo...

Helena Oneto disse...

Esta história é uma maravilha !!
Tanto "sacrifício" para nada...

E tão bom rir:)!