sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Migrações

Recordava Jacques Toubon como ministro dos governos de Jacques Chirac, bem como deputado europeu. Ontem, visitei-o como presidente da Cité Nationale de l'Histoire de l'Immigation, e com ele estive a analisar a possibilidade de trabalharmos em iniciativas tendentes a sublinhar publicamente aspectos da migração portuguesa para França.

Este museu está instalado num edifício remanescente da Exposição Colonial de 1931, ricamente decorado com um curioso conjunto de símbolos artísticos desse mesmo tempo. Colocá-lo agora ao serviço da memória da imigração, que dá destaque às componentes da presente diversidade da sociedade francesa, constitui um imaginativo gesto cívico.

No diálogo com Jacques Toubon tornei claro por onde pretendemos avançar, na colaboração que a Embaixada pretende estabelecer com a instituição que ele dirige com grande entusiasmo e dinamismo. A aventura migratória de Portugal para a França é uma saga heróica de cuja memória não nos devemos afastar, porque constitui um singular património de dignidade e de coragem, um tempo histórico de que sempre nos devemos orgulhar. Um orgulho que é devido a homens e mulheres que tiveram a força anímica para dar o salto para um futuro de sacrifício e trabalho - como foi o caso do nosso compatriota Baptista de Matos, uma figura destacada da comunidade em Paris cujo percurso pessoal aparece singularizado na exposição permanente patente no museu. Mas esse orgulho tem sempre de ser pontuado pela consciência de que esses cidadãos foram obrigados a encontrar no estrangeiro as soluções para o seu destino, porque o seu próprio país foi incapaz de lhas proporcionar.

Assim, e sem esquecer nunca esse tempo de sacrifício, não creio ser prioritário estar a sublinhá-lo obsessivamente em exposições ou debates, a menos que esses inventários de memória sejam centrados em temáticas específicas que ainda não hajam sido suficientemente abordadas e que nos ajudem a aprofundar algumas dimensões mais interessantes. O que essencialmente nos interessa é olhar em frente. Por isso, as hipóteses de trabalho que analisei com Jacques Toubon prendem-se também com a análise dos processos de integração das actuais gerações de portugueses e de luso-descendentes, como exemplo de percursos a seguir e a relevar em termos públicos.

Tenho esperança de que seja possível vir a estabelecer uma relação de útil cooperação entre algumas instituições portuguesas e este museu da imigração, com vista a dar visibilidade e destaque àquilo que foi e é o magnífico esforço da nossa comunidade em França.

8 comentários:

Manuel Antunes da Cunha disse...

De facto, a população portuguesa ou de origem portuguesa em França ainda é invisível. Menos invisível do que há alguns anos, é certo, mas ainda há muito por fazer. O seu contributo para a vitalidade económica, social, cultural e política dos dois países deve ser ainda mais valorizado e incentivado. Não temos que olhar sempre para trás... Mas, se me permite, como nos aproximamos a passos largos do cinquentenário da chegada dos grandes fluxos migratórios portugueses em França, uma série de iniciativas com uma certa envergadura e visibilidade no espaço público francês poderia ser uma excelente oportunidade para sensibilizar os dois países, mas também a própria comunidade, para a vitalidade duma população que se afirma (mais ou menos, conforme os casos) em todos sectores.
Finalmente, apraz-me registar que, tal como o seu antecessor, o senhor Embaixador tem um olhar lúcido sobre a emigração portuguesa. Mais do que discursos grandiloquentes, é bom reconhecer que a emigração portuguesa existe porque, há um dado momento, muitos Portugueses não tinham condições para alicerçarem o seu projecto de vida em Portugal. Dito isto, há que arregaçar as mangas e olhar para a frente.

Francisco Seixas da Costa disse...

Agradeço as palavras e a sugestão, que vou explorar.

Anónimo disse...

Em rigor, não tenho noção da profundidade da aculturação reciproca neste contexto da emigração Portuguesa para os Franceses e Portugueses,quem mais aculturou quem...

Conheço no entanto as mais valias, em qualidade de vida, para os próprios emigrantes e familias potenciadas pela valorização/remuneração do trabalho executado e a décalage do cambio que incentivava o poupar.

Também a conotação da saudade crescente em onze meses passivel de ser mitigada num só mês em presença fisica.

O vazio insondavel da ausência nas dúvidas existenciais, dos filhos que ficaram, em olhares vagos de incertezas, se valeu a pena o preço pago.

Um Museu de respeito pela coragem de acreditar na procura de uma vida Melhor...

Mais uma iniciativa de louvar.
Isabel Seixas

José Barros disse...

Estar de acordo em não falar muito do passado da emigração seria não querer remexer com aqueles episódios que nos aparecem hoje, a uma distância temporal tão curta, como episódios de outra civilização que a nossa...
Mas quem viveu aqueles episódios não quererá apagar esse passado do qual, afinal, até se riem com o orgulho de terem vingado, sozinhos, aquela hostilidade ressentida pela adversidade... O termo hostilidade refere-se ao choque cultural que a maioria desta emigração conheceu ao chegar aqui devido à falta de conhecimentos da língua e das leis num país que funcionava a léguas de distância da cultura aldeã que a maioria dos emigrantes portugueses trazia e, por outro lado, à falta de organismos vocacionados para os ajudar à chegada e isto tanto pela parte portuguesa que francesa.
A economia francesa manifestava uma inconsolável falta de mão-de-obra e aceitava quantos portugueses chegassem, viessem eles de acordo com o governo português passando pela ONI, mas a conta-gotas, ou clandestinamente em maior número para fugirem à guerra ou aos salários de miséria que recebiam em Portugal. Estes, mal chegavam a Handaia, eram logo protegidos pela própria polícia francesa que estava sensibilizada à falta de mão-de-obra e não havia, então, a mínima dificuldade para os legalizar. Nem as repetidas intervenções de Salazar junto de De Gaulle para evitar uma grande hemorragia de jovens portugueses que eram precisos para o ultramar fizeram inflectir o governo francês porque também precisava deles para outra frente de combate... Assim, os exércitos de trabalhadores emigrantes para alimentar as frentes de produção chegavam em vagas sucessivas. A maior lacuna por parte da França teria sido a falta de previsão de aboletamento! Esta carência no acolhimento obrigou milhares de famílias ao “desenrasca” e a um certo “renfermement communautaire” que ainda hoje se manifesta. Ainda que os portugueses possam reconhecer um relativo “Welcome” de abraços abertos da França, será no capítulo do alojamento que a França falhou de forma mais imperdoável e esta falta obrigou ao “desenrascanço”, como dissemos, e à construção por mãos próprias de bairros de lata nos subúrbios das grandes cidades sendo o de Champigny o que mais população teria recebido atingindo uma capacidade de cerca de dez mil moradores. Muitas barracas, aliás, estavam construídas em paredes de blocos e cimento e eram propriedade de um mesmo dono, português, que as alugava a bom preço. Afinal verificava-se que no meio desta miséria e lama, havia também gente que enriquecia...

José Barros disse...

A emigração portuguesa deve interessar-se pela programação das actividades que o Museu da Imigração desenvolve regularmente. Alguns portugueses acompanharam de perto a criação deste espaço e intervieram no interior dos debates. Cito aqui o Manuel Dias que participou no interior do grupo de reflexão e a Revista “Latitudes”, editada em Paris em língua portuguesa que está presente neste espaço integrada nas “Revues Plurielles”. Esta Revista, apesar das suas dificuldades, mantém-se com regularidade há mais de doze anos e afirma na sua linha editorial: « Au moment où la mondialisation des échanges devrait favoriser la connaissance de l'autre et sa diversité, c'est au contraire à une standardisation culturelle que l'on assiste, infériorisant et rejetant systématiquement la culture de nombreux pays du monde. Face à ce phénomène réducteur, face au repli sur soi-même et à la frénésie marchande qui nous envahit, le pluralisme culturel peut-il encore exister ? Humblement, mais avec ténacité, à chaque numéro de LATITUDES nous tentons d'apporter un élément de réponse positive à cette question, en faisant connaître et en promouvant les cultures lusophones en France, dans un esprit de dialogue interculturel ».
Quanto ao local escolhido para a “Cité Nationale de l’Histoire de l’Immigration”, precisamente por ter abrigado o passado colonial e guardar intactos longos frescos nos seus muros interiores, foi motivo de contestação forte por sectores da imigração que não queriam ver associadas em harmonia as noções de colonização com os ideais de independência que vêm esfolar as cicatrizes daquele passado nas imigrações recentes nomeadamente vindas do Magrebe, do Camboja e da África Negra e que parecia associar numa mesma lógica escravatura, colonialismo, imigração...

Francisco CUNHA RIBEIRO disse...

Sr Embaixador:
- Parabéns, muitos parabéns, pela iniciativa.
- Os nossos emigrantes merecem a preocupação que V. Exª manifesta ao entregar-se a esse projecto que é muito bonito.
- Estive aí a estudar e a trabalhar cerca de três anos; convivi de perto com os nossos corajosos emigrantes e conheço bem as entranhas das suas façanhas.
- Mais uma vez muitos parabéns, Sr Embaixador.

Francisco Cunha Ribeiro

Francisco Cunha Ribeiro disse...

Já agora Sr Embaixador,( pedindo desculpa pelo abuso) se um dia for ao RASPOUTINE, que deve concerteza conhecer, poderia fazer-me o favor de entregar este poema escrito por quem lá trabalhou, como "comis", em 1979? Eu Próprio?

Merci d`avance


RASPOUTINE MON AMOUR


Je rappelle le jour où je t`ai rencontré
Tout ému, je tremblais d`émotion,
Je suis rentré Jusqu`au fond de ton cœur
Où tout était rouge , blanc, et Noir
N`est-ce pas Michel, n`est-ce pas Léon ?

La belle Nicole souriait souvent
Et je regardais ses seins comme des trésors cachés
Quand on mangeait ensemble
J`avais dix-neuf ans…

Et le cuisinier Claude , très maigre. très grand
Non en stature, mais en sa profession
Des fois il criait et avait bien raison
Les commis oubliaient de prendre les plats
Et les monter dans la salle du restaurant

Les desserts sans Roger ne seraient nule chose
Il y avait de la magie dans ses mains très blanches
Et avait un gros ventre , mais toujours souriant

Albert, Slava et Michel, les maîtres
Travaillaient fort les samedi
Mais les lundi ils étaient des traîtres
Ne faisant que des « conneries »…

L`orchestre tzigane et leurs instruments
Faisaient rentrer des oiseaux
Dans ce beau restaurant

Jane Birkin y allait avec Gainsbourg, son amant
Gainsbourg se soulait de champagne
Birkin se soulait à son tour
Mais ce n`était que d`amour

Les grands seins de Deneuve
Y sont allés un jour
Et pour un petit instant
La nuit se fit jour
Chez Raspoutine,
Mon grand Amour !

FRANCISCO CUNHA RIBEIRO

Anónimo disse...

Apenas uma correcção. É "a um dado momento" e não, obviamente, "há um dado momento".

Manuel Antunes da Cunha