quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Filatelia e diplomacia

Sucumbi ontem a alguma nostalgia ao participar, aqui em Paris, na inauguração do Salão de Filatelia, no qual Portugal é o país convidado de honra.

Por instantes, vi-me nos tempos da minha adolescência, durante a qual, sob a orientação do meu pai e a tutela profissional dos clássicos catálogos portugueses de Eládio de Santos e Simões Ferreira, bem como do francês Yvert & Tellier, apurei uma muito razoável colecção de selos (que inclui mesmo o que está na imagem, o célebre "5 reis D. Maria", o primeiro selo português). Até que, lá pelos anos 80, deixei de me interessar pelo assunto, nunca percebi bem porquê - mas, muito provavelmente, porque outros entusiasmos alternativos tenham suplantado a filatelia no meu mercado pessoal de interesses. Não deixou, contudo, de ser um tempo bem curioso, em que muito aprendi de geografia e de história do mundo através dos selos.

Hoje, fiquei com a sensação de que a filatelia tende a ser uma coisa de um outro tempo. Muito poucos jovens havia no Espace Champerret para apreciar a bela exposição aí instalada. A era do e-mail ou dos SMS's parece estar a fazer desaparecer a prática do coleccionismo filatélico e, em especial, a não conseguir conquistar para ela as novas gerações.

Curiosamente, os correios portugueses mantêm um dinamismo que pode ser considerado em contra-corrente com esse desânimo e continuam a imprimir, com grande regularidade, belas colecções de selos e de produtos editoriais que lhes estão associados, conseguindo mobilizar para esse trabalho excelentes artistas plásticos nacionais. Foi, aliás, muito agradável verificar o elevado prestígio que os nossos profissionais do sector disfrutam junto dos seus pares europeus.

Pela sua qualidade, pelo modo como projectam a estética e os valores portugueses, os nossos produtos filatélicos dão hoje uma contribuição para a imagem de Portugal que podemos quase qualificar como "diplomática". Pena foi que, no famoso escândalo da empresa filatélica ibérica Afinsa, tenha acabado por ficar um "selo" diplomático português...

2 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador,
Há uma idade em que se coleccionam coisas. Bonitas, de preferência. Depois vem a idade em que se usam as coisas. De seguida a idade em que se coleccionam pessoas. Depois aquela em se usam as ditas. E, por fim, por fim, acaba-se sem umas e sem outras...
Embora pareça pessimismo, estou a sorrir, ao escrever isto!É que às vezes é uma sorte que isso aconteça...

Carlos disse...

Bom artigo e bom comentário anterior. Porém, talvez fosse conveniente acrescentarem-se dois pormenores.
1- A filatelia andava bem até que a especulação entrou na corrida, principalmente aqui na Peninsula Ibérica. Os interesses obscuros
deram no que deram. E houve muita gente a perder dinheiro a sério. E à nossa boa maneira os processos que vão decorrendo nunca mais chegam ao fim.
2- Também convém lembrar que a malta nova, e os menos antigos também, uns nunca aprenderam a escrever cartas e bilhetes postais. Vai tudo por SMS ou mail e os outros pelos mesmos motivos, já se esqueceram. Aliás, se alguém viesse a perguntar a pessoas com menos de 30 anos quantas vezes é que foram aos Correios comprar um selo, colá-lo numa carta e mete-la no marco, ficavamos todos admirados.
Mas os Correios e o seu Clube do Cleccionador, apesar de tudo isto, merecem os parabens pelo magnifico trabalho que continuam empenhados a fazer. Pode ser que a história, algum dia venha a dar público valor à filatelia. Era merecido e devido. Penso que é uma questão de tempo. Mas os vendilhões do templo não podem entrar de novo.