quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Coabitação (2)

Há dias, deixei aqui uma nota sobre a recente biografia de Jacques Chirac, sublinhando o que nela se diz, a certo ponto, sobre a sua "coabitação" institucional com François Mitterrand.

Para quem possa não estar familiarizado com o conceito, importa dizer que o termo "coabitação" se aplica, no actual regime francês, à coexistência de um presidente da República e de um primeiro-ministro oriundos de famílias políticas opostas. Alguns verão similitudes com o que se passa noutros cenários geográficos, mas a realidade francesa é muito típica: o presidente da República tem uma vasta gama de poderes, nomeadamente na ordem externa, e preside aos Conselhos de ministros. Em rigor, a filosofia funcional do actual regime francês vai no sentido de fazer coincidir as orientações programáticas de ambas as personagens, sendo originalmente a "coabitação" um fenómeno quase fora da normalidade institucional. Porém, o facto de se terem produzido já alguns casos dessa natureza como que criou já em França uma "jurisprudência" de comportamento político, nesse cenário de regulação de vontades eventualmente conflituais.

Hoje, queria deixar uma nota sobre outra "coabitação" que Mitterrand manteve durante os seus dois mandatos, desta vez com Edouard Balladur. O antigo primeiro-ministro publicou há pouco tempo o livro "Le pouvoir ne se partage pas/Conversations com François Mitterrand", que nos ajuda a fazer a leitura dessa figura complexa que foi o antigo presidente socialista.

Com este livro, Balladur quer deixar um testemunho desses pouco mais de dois anos, reconhecendo que pode ser objecto da "suspeita de ser inspirado por motivos egoístas, com risco de ver a sua boa-fé posta em causa, com a crítica de travestir a realidade" em benefício da sua reputação. Lido o livro, e sem descartar a possibilidade dessa leitura ser fixada em alguns leitores, ficou-me mais a sensação da necessidade do antigo primeiro-ministro "utilizar" (e não digo isto no sentido pejorativo) Mitterrand para se definir a si próprio politicamente, assegurando melhor, por esse meio, o seu lugar na história política da direita francesa.

Mas notemos um passo do que Balladur refere sobre a sua relação com Mitterrand: "À bien des égards, je me sentais plus proche de lui que de beaucoup d'autres par les goûts intellectuels, la formation reçue, les affinités nées d'un regard semblable porté sur les hommes et sur l'histoire. Mais il allait si loin dans la recherche de la connivence qu'il m'était difficile de ne pas voir mis à nu les ressorts de la comédie qu'il me jouait. Et, cependant, il existait entre nous, sinon une forme de sympathie, du moins l'impression de se trouver l'un avec l'autre en terrain familier."

5 comentários:

Helena Oneto disse...

'Omnis homo mendax'?
'Vir bonus dicendi peritus ?

E óbvio que me refiro a E. Balladur.

Julia Macias-Valet disse...

Pronto ! E la ficamos (os que frequentaram o liceu nos finais dos anos 70, principios dos anos 80) sem perceber o que escreveu Helena Olneto.
Grande falha essa da Educaçao Nacional Portuguesa a de ter abolido o estudo do latin...
Poderiam ao menos ter-nos deixado a a opçao !

José Barros disse...

A coabitação com Mitterrand serviu muito Balladur na sua corrida ao Eliseu. Também na “traição” à velha amizade de trinta anos com Chirac deve ter havido ali qualquer coisa de Mitterrandismo... Em todo o caso deveria ser um gozo para Mitterrand observar esta primeira volta das presidenciais em 1995 onde se podia pensar que Jospin poderia ter mais “chances” com Balladur do que com Chirac. Mas foi Chirac que ficou em segundo lugar para enfrentar Jospin e depois foi o que todos sabem...

Helena Oneto disse...

Cara Julia,

Nos anos 60 do século passado -como diz o Senhor Embaixador- aprendia-se latin no Liceu. As aulas de latin eram uma autêntica "estucha". Passei 2 anos a aprender de cor as declinações e o "De Bello Gallico" de Caius Julius Caesar. Mas o pouco que reti tem-me ajudado muito.
Não costumo debitar locuções latinas, mas, por vezes, elas traduzem melhor e de forma mais concisa o que queremos dizer.

A proposito do que escreve E. Balladur das suas "affinités" com Mitterrand, penso que ele, como a grande maioria dos politicos, não diz a verdade.... Mas há uns que mentem melhor que outros.

Julia Macias-Valet disse...

Obrigada Helena pela sua atençao e pela traduçao.
é claro que o latim pode ser considerado como uma "estucha", mas pode ser uma base de trabalho de linguistas, tradutores, historiadores, farmacêuticos, botânicos, astronomos, etc...mas se nao aprendê-lo como sabê-lo ?
Também é obvio que as linguas precisam do seu terreno natural para se "épanouir" e como nao saimos pela rua falando latim... talvez em Portugal se tenha achado que era desnecessario perder tempo aprendendo algo que nao se utiliza no dia a dia. Estamos aqui mais uma vez, perante a falta de sentimento de "memoria" e perante a nossa sociedade de consumo imediato.

Quando vim trabalhar para Paris os meus amigos diziam que eu falava como o François Miterrand. Alguns anos de Alliance Française em Lisboa fizeram com que falasse um francês gramaticalmente perfeito mas desfazado do que se falava na "rua".
Mas como o saber nao ocupa lugar... de um françês estilo Miterrand (ou Balladur) passasse facilmente a um de estilo Sarkozy. O contrario ja nao sei se é possivel !

PS Um dos meus filhos (14 anos, hoje) estuda latim hà três anos. E ao que parece isso ajuda-o na logica matematica.