sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sair & entrar

Há dias, num jantar aqui em Paris, veio à baila a origem da nossa expressão "sair à francesa", que também é usada noutros países europeus. Desde há muito que a liguei à ideia de alguém que, numa festa ou numa outra ocasião social, se escapule "sem dizer água-vai" (e aqui está outra expressão interessante, desta vez muito lisboeta) aos donos da casa. Por que razão isso aparece ligado aos franceses, sempre tidos por seguidores estritos de protocolo, não se sabe.

Isto leva alguns, mais simpáticos ou mais imaginativos, a irem para a justificação de que se trata de uma corruptela de "saída franca", isto é, saída livre de mercadorias, sem pagar impostos. A verdade é que a expressão é antiga entre nós. Nicolau Tolentino, o poeta satírico que morreu em 1811, escreveu: "Sairemos de improviso/despedidos à francesa". O que inviabiliza as versões que a ligam ao tempo das invasões napoleónicas.

Pelo sim pelo não, os franceses "passaram a bola" através da Mancha e criaram a expressão "filer à l'anglaise" (ver nota no fim), fórmula que já tenho visto utilizada num sentido não físico, por exemplo, designando uma escapatória numa conversa que se torna menos conveniente. Quem souber mais sobre isto que se levante por escrito.

Para que este post não pareça agressivo para o país que tão generosamente me acolhe no seu seio, para utilizar a fórmula do saudoso A.B. Kotter, aqui fica uma diplomática nota de tom auto-flagelatório: em Itália, "entrare alla portoghese" significa ter acesso a algo sem ser convidado ou sem pagar.

Só que, neste caso, e repercutindo outro clássico, parece que a História nos absolverá. Com efeito, a ideia terá ficado na memória italiana pelo facto de, aquando da famosa embaixada do rei dom Manuel I ao papa Leão X, os cidadãos portugueses que a integravam terem sido, por um gesto de hospitalidade local, isentos de pagamento para a frequência de locais públicos. Daí decorre, talvez, a generalização que passou a fazer-se. Mas, porque não tenho vocação para ser um "historiador à Saraiva", também não garanto, em absoluto, a consistência desta versão. A qual, como por lá também se diz, "se no e vera e bene trovata".

Em tempo: eu tinha escrito erradamente "sortir à l'anglaise". Um leitor atento esclareceu-me (leiam-no nos comentários)

6 comentários:

Anónimo disse...

Como se diz na RTP, assim se escreve em bom português.

expressodalinha disse...

Aprende-se muito nos blogues.

Anónimo disse...

Ás vezes...

Anónimo disse...

Sem sentido depreciativo a concretização das expressões, nomeadamente a possibilidade de sair à francesa"claro sair,assumindo o protagonismo a nacionalidade que se detém, em certos contextos até é oportuna.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

E conviria citar o "ir p'ro maneta", uma boa marca da "cooperação" francesa em Portugal.

Rui Pires

mpereiradecastro disse...

Em França dizem "filer à l'anglaise" em vez de "sortir à l'anglaise".

Sobre a origem deixo umas propostas:
_ Fuir discrètement:
L'expression proviendrait de l'ancien verbe "anglaiser", pour "voler". Par la suite on aurait utiliser "filer à l'anglaise" pour utiliser la façon discrète dont part un voleur qui vient de faire son coup. Par analogie, on a aussi vu apparaître l'expression "partir comme un voleur".(in www.linternaute.com)

_ L'expression date de la fin du XIXe début du XXe siècle:
L'idée la plus répandue est qu'elle serait liée à une certaine antipathie entre la nation anglaise et la nation française pendant des siècles. Le langage aurait donc mis l'accent sur la fausseté et sur l'impolitesse alors reprochée aux Anglais.
Les Anglais ayant rendu la parelle aux Français par leur expression "to take the French leave", soit "prendre la fuite française".

Néanmoins des rapprochements plus linguistiques peuvent être avancés:
- le verbe "anglaiser" qui signifiait à la fin du XIXe siècle "voler" qui aurait été transformé en argot: "à l'anglaise" signifiant ainsi "à la manière d'un voleur".

- une autre piste est envisageable: à la même période l'"anglais" était, selon Esnault, "les latrines des conscrits de St-Cyr".
On peut alors imaginer que l'expression aurait suivi de multiples changements passant de "pisser à l'anglaise", qui signifiait alors s'enfuir d'un rendez-vous en prétextant un besoin urgent, à "se tirer à l'anglaise", puis "filer à l'anglaise". C'est cette hypothèse que privilégie Duneton.(in www.francparler.com)

_ Partir sans dire au revoir, sans se faire remarquer:
L'origine de cette expression n'est pas certaine.
Il peut s'agir d'une vengeance relativement récente vis-à-vis des Anglais qui utilisent l'expression "to take French leave" (filer à la française).
Il peut s'agir aussi d'une déformation orale du mot "anguille".

Parmi d'autres explications, au XVIe siècle un créancier était appelé un 'Anglais' et on imagine bien le débiteur 'filer à l'anglaise' lorsque son créancier était dans les parages. (in www.expressio.fr)