quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Malas

Há dias, ao transportar uma mala através de uma praça da província francesa, do hotel fronteiro para a estação do caminho de ferro, dei comigo a reflectir numa sábia recomendação que recebi de um antigo embaixador, já há umas dezenas de anos.

Falávamos precisamente da França, das suas belas estações ferroviárias e do prazer de viajar de comboio, que nos era comum. Foi então que o embaixador me comentou: "Você reparará que há quase sempre uns hotéis situados em frente às estações, algumas vezes colados a elas, em França com o nome frequente de "Hotel de la Gare". Siga o meu conselho: nunca se instale num desses hotéis!".

Intrigado, perguntei: "Porquê? Por causa do ruído dos comboios? Têm fraca qualidade?".

"Não, nada disso, homem!", responde-me o embaixador. "O problema é outro: são sempre demasiado longe para se carregar as malas e demasiado perto para se poder alugar um taxi!".

Os hotéis "de la Gare" já passaram um pouco de moda, as malas agora já têm rodas, o que infirma um pouco o raciocínio da época, mas, mesmo assim, com o tempo a pesar-me, cada vez tendo a dar mais razão ao meu velho embaixador.

5 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Mas que sabedoria tinha o seu/nosso velho Embaixador. Quantas vezes não pensei, já, isso quando me desloco por 24horas a qualquer sítio?
Mesmo com as rodinhas nas malas é melhor ficar num hotel agradável e ir de táxi! Ou...ter alguém, gentil, que nos leve as malas!

José Barros disse...

Guardo desde há muito tempo uma aversão epidérmica aos comboios e aos caminhos-de-ferro da qual não consigo desprender-me. Também dos hotéis próximos da linha mas unicamente por causa do tilintar dos móveis no momento de os comboios passarem.
Se bem que conheça os motivos desta aversão e tentasse já resolver aquela dificuldade que decerto é psicossomática ainda não o consegui. Há uns anos atrás, numa tentativa de me apaziguar com este transporte, resolvi ir de comboio a Portugal e comprei o bilhete Paris / Fundão, ida e volta, com o desconto dos 20% como generosamente a companhia francesa faz para o gozo de férias. Aquela diferença de largura das linhas entre a França e a Espanha já estava resolvida mas mesmo assim fui obrigado a mudar de carruagem em Handaia. O conforto relativo que conheci até ali foi suprimido no comboio espanhol cuja carruagem pertencia aos caminhos-de-ferro portugueses. Além do barulho ensurdecedor e das sacudidelas que eram idênticas às que conhecera algumas dezenas de anos atrás, nesta noite de fins de Dezembro com a ajuda de uma avaria no aquecimento passei por temperaturas com o mercúrio a descair para os centígrados insuportáveis. Chegados à Guarda, com o frio que estava, durante aquele tempo de espera para a mudança de comboio numa estação em obras e sem nenhum sítio a que se pudesse chamar “ponto de acolhimento” não havia humor que pudesse resistir... Vieram-me logo ao de cima da memória as condições de transporte que conhecera nos anos sessenta e setenta onde as companhias vendiam bilhetes sem conta e os portugueses que durante as férias não esqueciam Portugal eram transportados em carruagens superlotadas e muitos deles, homens, mulheres e crianças, seguiam entulhados nos corredores... Deixa-te comboio que nunca mais!
O automóvel, com uma noite de descanso num hotel em Handaia, que nos meses de Julho e Agosto tem de ser reservado atempadamente é, mesmo assim, mais confortável. Não obstante este maior conforto, o ano passado, quando uma delegação de um município português veio de “carrinha” aqui a França um dos vereadores, para me comover, apressou-se a pedir a chave do “seu” quarto para uns momentos de descanso porque não aguentava mais o esfalfe da viagem. Para revigorar-lhe o alento disse-lhe que, pessoalmente, iria inaugurar naquele ano, precisamente, a minha sexagésima viagem de ida e volta a Portugal. E esta minha ousadia deu-lhe ânimo porque optou por ficar mais tempo em convívio e até já disposto para uma volta de descoberta da região...
Para nós não é a dificuldade do transporte das malas que, de facto, agora elas até têm rodas. A maior dificuldade está no “fazer” e “desfazer” malas; no que é indispensável levar consigo e no que é supérfluo; no cantinho onde colocar os pequenos “cadeaux” e na escolha destes, para um lado e para o outro porque agora há família e amigos nos dois países... No dizer da minha esposa, que é mais minuciosa nestas tarefas, os emigrantes passam a vida a “fazer e desfazer malas”...

Anónimo disse...

Esses hoteis de Gare têm, também, por vezes, outros "inconvenientes"...mesmo com mala com rodas.
Albano

Anónimo disse...

"Inconvenientes" que, para alguns, não deixam de trazer alguma comodidade, há que notar.

ECD disse...

Ao ler este post veio-me à ideia uma figura muito conhecida de Setúbal que ao longo da vida teve múltiplos ofícios sem nunca “se demorar” em nenhum (mecânico, pescador, servente no ferry, carpinteiro, mergulhador, embarcadiço, vendedor ambulante de gelo, contrabandista, estivador, treinador de luta livre, cultivador de minhoca, etc. etc.). “José”, que a partir de certa altura passou a auto-intitular-se “operário especializado em oficios não especializados”, no inicio dos anos 1980 arranjou uma espécie de outdoor que durante alguns semanas colocou diariamente “quando já o dia ia alto” junto à entrada do snack do H. S.. Neste improvisado outdoor, para além do nome e da lista dos mais variados serviços que podia disponibilizar aos eventuais interessados, estava escrita a seguinte frase :”Para viver sem problemas é preciso ser desenrascado e inteligente”. Vendo bem, os diplomatas partilham desta filosofia de vida. Quem senão um diplomata se lembraria de escolher um hotel tendo em linha de conta a possibilidade ou não de ir para a gare de táxi? Como “José”, os diplomatas são perspicazes na resolução das pequenas coisas do quotidiano e eficazes nas mensagens transfigurada de boutades que fazem passar. Têm .... muito mundo!