segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Fardas

JustifierUm dia, na segunda década dos anos 70, a Embaixada de Portugal em Londres recebeu a visita de um militar de Abril, membro do Conselho da Revolução, homem muito estimável, que deixou uma rara imagem de educação, elegância e bom-senso na sociedade política de então.

Como se impunha, o embaixador ofereceu-lhe uma refeição. O repasto correu de forma simpática, na magnífica sala de jantar ornada de pinturas, daquela que é, sem sombra de dúvidas, uma das mais belas residências que Portugal tem pelo mundo.

Num determinado momento da conversa, o nosso militar deixa cair uma confissão: "Vou contar-lhe um segredo, senhor embaixador: um dos meus maiores sonhos foi sempre poder vir a ser, um dia, embaixador de Portugal em Londres". Os tempos políticos, à época, não eram já muito propícios a poder garantir, de mão beijada, sinecuras a quem não possuía experiência e qualificações profissionais adequadas à função. Mas nunca fiando...

E, por essa razão, e perante o silêncio protocolar do embaixador, o militar não ficou sem resposta. Um jovem diplomata presente, homem do mundo, cuja inteligência e arte voltariam, no futuro, a colocar Londres no seu destino, não resistiu e retorquiu: "Tem graça, senhor major. No meu caso, é precisamente o contrário: sempre tive como ambição de vida ser comandante da Região Militar Norte"...

O major, inteligente e perspicaz, entendeu o recado. E mudou de conversa.

10 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

E onde estão ambos, hoje, Senhor Embaixador? :))

Francisco Seixas da Costa disse...

Na reforma. No MNE os nomes são sobejamente conhecidos. Os blogues "diplomáticos" vão adiando essas clarificações...

Anónimo disse...

Cada um na sua arte jà o ditado popular o dizia. Mas sabemos que sempre houve, também, através dos tempos, portas abertas para compadrios...
José Barros

Helena Sacadura Cabral disse...

Ainda bem Senhor Embaixador, porque cada um no seu ofício. Finalmente... estão ambos no mesmo. Mas sempre lhe digo que militares como embaixadores deve ser tão arriscado quanto o contrário. Cruzes!

Francisco Seixas da Costa disse...

Verdade seja que, na História pós-Abril, houve um militar de carreira como Embaixador "miliciano". E há ex-militares milicianos a "servir de" embaixadores, como o é o caso do subscritor deste comentário. Há, contudo, uma diferença, quiçá despicienda: nós tivemos de passar muitos anos até atingir o posto de embaixador...

manelserra disse...

Na "segunda década dos anos 70"? Quando foi isso ? :-))
Abração

Anónimo disse...

Que saudades...
Um abraço
F.A. Rodriguez

Joaquim Pinto disse...

Sr. Embaixador Francisco Seixas da costa.
quero felicita-lo pelo seu blogue. duas ou três coisa. tenho visto com imenso gosto as noticias postas e divulgadas no seu blogue. Tambem lhe que apresentar os meus cumprimentos, e apezar de estar como embaixador de Portugal em Paris. esta. sempre presente nos Pinto's Cabeleireiros.
em Lisboa.
Um abraço de toda a equipa

Força Espinho disse...

Na "segunda década dos anos 70" é uma expressão brilhante... como brilhante é todo o seu blogue.
Muitos parabéns! Adoro!

Francisco Seixas da Costa disse...

Parabéns, Força Espinho! Foi o único que notou a expressão... Obrigado pelo comentário.