sábado, 5 de setembro de 2009

Carta a Liedson

Caro Liedson

Neste dia em que você pode vir a vestir pela primeira vez a camisola das quinas (e, já agora, como novo cidadão português, conviria que soubesse a razão pela qual essas quinas existem e porque figuram na nossa bandeira) quero enviar-lhe um muito sincero abraço de saudação por ter decido juntar-se a nós - embora você, como brasileiro, nunca tivesse estado muito distante.

Agora que as artes administrativas do Dr. Madaíl conseguiram apressar, pelo interesse de recrutamento urgente de pé-de-obra especializado, a emissão do seu novo bilhete de identidade, digo-lhe que vejo com muito agrado uma pessoa com a sua correcção, simpatia e profissionalismo passar a ser oficialmente um de nós. Há vários anos que você é um modelo de integração brasileira na sociedade portuguesa, para orgulho dos seus compatriotas de origem e para prazer de quem aprecia a sua bela arte futebolística, como é o meu caso.

Porém, agora já com a honestidade de compatriota, gostava de fazer-lhe uma séria advertência: você vai, muito rapidamente, ter de escolher uma de entre duas atitudes.

A primeira será você transportar, para a sua nova qualidade de português, muito daquele maravilhoso optimismo que faz parte da matriz do seu país, esse orgulho, essa crença e saudável maneira de ver a vida e um futuro que sempre "vai dar certo". De algum modo, isso retribuiria o "cheirinho a alecrim" que o Chico Buarque nos pediu e que, agora, bem precisávamos de volta - se puder, ouça bem a canção do Chico, porque ela explica muito do que houve e há entre nós.

Outra opção - o seu verdadeiro atestado de "ser português hoje" - será você, com a ampla legitimidade que o seu estatuto de lusitano "de carteirinha" agora lhe dá, entrar na onda dominante. Para isso, apenas tem de assumir o fado da desgraça, afivelando o carão do descontentamento, esse "mal-estar" (ia escrever "mal de vivre", mas receio que você não seja muito dado ao francês) que é hoje uma nossa marca de identidade quase obrigatória.

Não se arrisque, por isso, caro Liedson, a continuar a saudar alguém com o seu carioca "tudo bem?", porque pode ouvir, logo de volta, "das boas", como cá dizemos, talvez mesmo um arrogante "olha-me para este!?". Se quer passar a ser português contemporâneo de parte inteira, estando com os ares do tempo, logo na próxima segunda feira, ao entrar na porta 10A de Alvalade, ponha uma cara grave e angustiada, tipo Paulo Bento depois das derrotas, e queixe-se, queixe-se muito, de tudo e de todos, comece a dizer que isto é um país miserável, que está tudo mal, do clima ao trânsito, do que não posso dizer ao que você sabe que todos dizem. Não vou ao ponto de aconselhá-lo a chamar já "choldra" ao país (como fazia um saudado personagem de Eça de Queirós, um autor que você ganharia em ler, no intervalo dos treinos) ou a qualificar Portugal de "piolheira", como fazia um rei a quem o destino retribuiu com uma bala na cabeça.

Pode mesmo contar a anedota de que este ano está a ser tão mau, tão mau, que já parece o ano que vem. Vai ver que cai bem entre os seus amigos portugueses, que intimamente pensarão: "Este Liedson está muito bem integrado!".

A escolha é sua. E não resisto a oferecer-lhe uma música, que é um retrato curioso deste seu novo país, também à beira-mar espraiado.

Boa sorte, Liedson, e seja muito bem vindo ao seu Portugal!


Post Scriptum (por extenso latino, que o tempo não está para brincadeiras) - Publico este texto antes da sua provável estreia na selecção. Espero que a possa ajudar a sair do buraco onde a gestão pós-Scolari a meteu e onde agora se conta com a sua "macumba" para nos safarmos. Mas não se angustie. Se a não conseguir ajudar, porque você não pode fazer tudo, continue a marcar belos golos no clube a que tanto se tem dedicado e que muito continuará a necessitar de si. Como brasileiro ou como português.
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Post Scriptum 2 - Mal eu sabia, caro Liedson, que seria você o "culpado" pelo prolongamento da esperança lusitana de ainda poder estar no Mundial da África do Sul. Dizendo as coisas de outro modo: adiou (espero bem estar errado) por uns dias a saída de cena do senhor professor Queirós. Ele fica-lhe a dever isso. A nós (mas gostava de estar enganado, repito) ficar-nos-á a dever muito mais.

10 comentários:

Anónimo disse...

Delicioso texto este!
P.Rufino

Francisco Seixas da Costa disse...

Nunca me passou pela cabeça que teria, um dia, de "censurar" um comentário feito neste blogue pela Dra. Helena Sacadura Cabral, uma pessoa que há muito me merece um imenso respeito e a quem aqui devo imensas atenções.

Porém, o seu último comentário - precisamente pelas muito imerecidas "notas" positivas que nele me atribui - vai bastante para além daquilo que a minha própria imodéstia poderia deixar alimentar, se bem que tivesse feito com que o meu ego tivesse ficado bem saciado por algum tempo.

Creia que lhe agradeço muitíssimo o que escreveu a meu respeito, mas permita-me, por uma vez, usar um muito cordial lápis azul de censura, travestindo-me, por um dia, de um daqueles pobres coronéis da Rua do Mundo, vulgo da Misericórdia que lhe peço por esta minha ousadia.

Sidalia disse...

Como portuguesa não me revejo no retrato que faz de nós . Como residente e também cidadã brasileira a sua descrição do brasileiro é de folhetim turistico muito longe do real... O Brasil não é só carioca nem carioca é o cara tudo numa boa... muito pessimismo, muito fatalismo e cá dê do sorriso do cearense?

Francisco Seixas da Costa disse...

OK Sidalia, aqui fica a sua dissidência. E viva a liberdade!

Anónimo disse...

Parabéns FSC pelo excelente texto. Dos melhores que já li de sua autoria.
Discordo totalmente da Sidalia. Gostaria de ver os retratos que ela tem do português e do basileiro.

JR

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Embaixador, permita-me que hoje o trate assim. Tudo o que escrevi a seu repeito é a mais pura das verdades. E como já tenho "idade, estatuto e posição social" * para dizer o que penso, tenho-me permitido dizê-lo em ocasiões culturais, sem correr o risco de qualquer má interpretação.
Quanto ao vaticínio que lhe fiz veremos se, um dia, não recebo um telefonema seu para me felicitar pelo acerto. Nessa altura, Senhor Embaixador, vai ter que me ouvir e...pagar um jantar!

Anónimo disse...

Eu nem sequer conhecia este Liedson e por isso é-me muito dificil saber se ele mereceria um tao alto destaque. Mas uma palavra de bem-vindo entre nos com este conteudo é bem mais acolhedora que uma cessao solene ao toque do hino nacional como parece que agora se faz cà em França nos saloes dos Prefeitos quando atribuem a cidadania ao estrangeiro... Depois este texto tem muito mais do que uma palavra acolhedora e do que um conteudo futebolistico! Partindo de uma trama afinal "corriqueira", este tao curto e proficuo resumo coloca elevadas questoes que nem sucessivas leituras deixam ver tudo que està entre linhas... E é aqui que se vê o génio dos que sabem escrever. Censure isto se quizer mas saiba que nao é so HSC que viu no texto o que viu e nunca foram as censuras que calaram as verdades.
José Barros

Sidalia disse...

Caro anonimo não tenho retratos apenas conhecimento e vivencia com muitas maneiras de estar e ser que raramente condizem com os estereótipos. Na essência somos todos iguais aqui, aí ou além . Por aqui para o cidadão comum você caro anonimo tem que ter bigode e chamar-se Manuel e provavelmente ser padeiro... até pode ser.
Cumprimentos.

Fábio disse...

Prezado Amigo,
Fantástico texto. Concordo consigo!
Falta-nos essa alegria e vontade de vencer.
Vivo os dois lados dessa história, pois sou (na minha família) a primeira geração de portugueses nascida no Brasil. Não podemos acreditar que a Espanha progrediu tanto apenas pelo tamanho da população e território.
Um cordial abraço desse lado do Atlântico.
Fábio Ferreira Durço

Eduardo Ricou Velho disse...

Prezado Senhor Embaixador Seixas da Costa,


Acabo de ter tido o prazer de ler o texto acima entitulado, sobre Liedson e sua inclusão na selecção nacional.

Como luso-brasileiro que sou, e apreciador de bom futebol, partilho de alguma da sua opinião quanto a este tema, inerente ao jogador, e por outro lado inerente também à questão 'identidades nacionais'.

Sou sobrinho de uma funcionária do seu gabinete em Paris, que a propósito casual, me terá mencionado os blogues 'notas verbais' e consequentemente 'duas ou três coisas'. Gostei!

Felicito-o por ter tal visão do jogador e sobre a importância da simbiose humana e cultural luso-brasileira.


Com os meus melhores cumprimentos, subscrevo-me com consideração


Eduardo Ricou Velho
www.poesiaespacial.blogspot.com