domingo, 30 de agosto de 2009

Retrato de um amigo

Nestes que são os últimos dias de férias para a maioria das pessoas, lembrei-me de quem tem a sorte de estar quase permanentemente nelas. Desde há muitos anos que tenho um amigo, com uma actividade cuja matriz é em tudo alheia à da minha profissão, cuja capacidade para conseguir escapar à rotina do trabalho se tornou já lendária. Procura, em primeiro lugar, não ter nada para fazer e, se isso se torna em absoluto impossível, tenta fazer apenas o que lhe apetece e, mesmo assim, no tempo que lhe apraz. Como é inteligente, tem já um insuperável "know-how" na matéria, uma soma de truques que confundem os não iniciados, pouco aptos a detectar essa imparável deriva lúdica em que consegue transformar o seu quotidiano.

Mas não julguem que se trata de tarefa fácil: ele tem imenso "trabalho" em lutar por funções que o isentem de trabalhos, em que os horários possam ser detalhes despiciendos, onde sejam viáveis exercícios criativos de ubiquidade administrativa, mas também onde sempre possa, a olhos desprevenidos, fazer passar um sopro de actividade virtual, dando permanentemente a ideia de ter alguma coisa em curso de execução. Ah! e queixa-se das episódicas tarefas que lhe cabem, como é natural. Enfim, trata-se de um génio na gestão do seu tempo, que deveria mesmo escrever um manual sobre o tema, se isso não desse trabalho...

Como (algum) mundo é o que é, como ele sabe "mexer-se" e não é mau rapaz, lá vai (não) fazendo pela vida, nesse seu anti-stakhanovismo endémico, o qual, a meu ver, deve fatigar imenso. Sempre achei que, quando um dia ele vier a ter um epitáfio - e não será "morto de cansaço"... -, deveria ser uma corruptela do lema do infante dom Henrique: "Talent de rien faire".

8 comentários:

Helena Oneto disse...

Dois amigos geniais !

BL disse...

Ou muito me engano ou sei quem é. Mas não digo.

anamar disse...

Mas que arte e engenho!!!
:))

expressodalinha disse...

Belo post. Um exemplo de escrita em blogue.

Anónimo disse...

Deve ser um admirador de Tristao Bernard que jà dizia que esse género de homens (ou mulheres) levantam-se muito cedo todos os dias para terem o dia todo a nao fazerem nada... Foi assim que pessoalmente tentei fazer durante todo este mês de Agosto!
José Barros

Anónimo disse...

Tirando aquela de não ser da profissão - "erreur de frappe"? - eu ia apostar que tenho o retrato do fulano em causa à minha frente. E mais não digo, para o Seixas não ficar sem um amigo. Embora ele tenha muitos.

Helena Sacadura Cabral disse...

Há sempre um especialista desses na profissão. Em tempos conheci um. Nosso colega de formação. Esse foi longe!

manelserra disse...

Eu também penso saber quem é...