sábado, 8 de agosto de 2009

Raul

Este blogue é pessoal, pelo que entendo que nele há sempre lugar para assinalar aquilo que respeita aos meus amigos. Mas, mesmo que assim não fosse, a desaparição de Raul Solnado teria, obrigatoriamente, que merecer uma nota de destaque.

Solnado foi uma das grandes figuras do humor português, que marcou gerações. Hoje, pelos jornais, rádios e televisões, muitos lembrarão as suas divertidas histórias em disco, as revistas do Parque, o Zip-Zip, a Cornélia, o Villaret e outras tantas aventuras de uma vida rica que a Leonor tão bem descreveu na sua biografia. Pode dizer-se que, com a sua palavra, o Raul acabou por se transformar, por assim dizer, num amigo íntimo de muitos portugueses, ao longo dos muitos anos que lhes entrou em casa. Para os mais novos, há também um Solnado televisivo e o seu magnífico retrato do polícia Covas em "A Balada da Praia dos Cães". E há, ainda, o Solnado da Casa do Artista, uma obra grande a que tanto se dedicou. E gostava de notar que, no Brasil, por onde andei uns tempos, encontrei sempre um imenso respeito em torno do nome de Raul Solnado - um dos poucos nomes da cultura contemporânea portuguesa que lá dispõe de grande popularidade.

Uma nota mais pessoal. Há muitos anos que o Raul era um dos nossos comparsas da "mesa dois" do Procópio, esse bar lisboeta onde actualizamos o país, numa tertúlia assumidamente irresponsável, marcada pela ironia e pela amizade. Tive a honra de ser, com ele e outros, co-autor da "biografia" editada do Procópio, onde procurámos desenhar as décadas de boa disposição que o "Retiro da Dona Alice" nos proporciona e a que o Raul tanto ajudou. Tivemos o Raul como integrante dos jantares que, em cada Dezembro, juntaram o pessoal da "dois" e que, este ano, se irá fazer sem ele. Na "dois", onde fica para sempre o seu retrato, desenhado pelo Chico Caruso, vamos agora perder, pelas noites, as suas belas historietas. E, mais do que isso, a sua amizade e ternura. Sem o Raul, as coisas passam a ter muito menos graça.

6 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Infelizmente parece esquecida a maior intrepretação de Solnado - o Dom Roberto

Gil disse...

Lembro-me do "Dom Roberto".Não tenho a certeza que tenha sido a maior interpretação do Raul mas foi notável.
Mas do Raul Solnado ficarão, para os amigos, coisas que completam a imagem do grande actor que foi: a cultura, a generosidade, o humor subtil, o espírito solidário.
O Embaixador tem razão: vai fazer falta na "Dois"; mas não será só aí.

Anónimo disse...

A nós os que auferimos do seu talento impar em comunicar uma alegria que nos permite sorrir espontâneamente, claro um grande perpétuo obrigado...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Hoje, numa das várias entrevistas sobre Raul Solnado, uma figura pública dizia que Raul Solnado nada nos ficou a dever e que nós também nada lhe ficámos a dever.
Que enorme equívoco! Se Raul Solnado nada nos ficou a dever, nós ficámos a dever-lhe muito.
No que me respeita, sinto uma enorme dívida para com ele. E a não ser que alguém me diga quanto vale um sorriso ou o preço de uma boa gargalhada, ficar-lhe-ei eternamente devedor.

JR

Alcipe disse...

Ó JR, quem foi esse figurão, diga-nos lá?

Dylan disse...

"A vida num palco"

Não sendo eu da geração de Raúl Solnado, sei a perda irreparável que o seu desaparecimento provocou, numa época em que a comédia se confunde com o insulto brejeiro. O actor aprendeu com os melhores - João Villaret, António Silva e Vasco Santana -também por isso, merece estar na galeria dos imortais. Imaginemos a audácia e a inteligência de ridicularizar o Antigo Regime e os seus tabus, contornando a censura, utilizando jogos de palavras numa encapotada infantilidade. Foi um homem solidário que deu tudo pelo teatro, muitas vezes colocado acima dos interesses familiares.

http://dylans.blogs.sapo.pt/