quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mobilidade Social

Um novo fenómeno está a preocupar a França: o chamado "déclassement" social.

Tradicionalmente, o bem-estar e a confiança na sociedade baseia-se muito na regra optimista de que cada geração consegue, em regra, face à geração dos respectivos pais, consagrar uma "subida" social. Os pais lutam para que os seus filhos tenham uma vida melhor do que a que eles próprio tiveram e o alimentar dessa perspectiva constitui uma das forças-motrizes do progresso e da satisfação intergeracional.

Ora os últimos números conhecidos em França revelam que, sendo ainda a ascensão social maioritária no país, começam a ser quantitativamente muito importantes os casos em que os filhos de uma geração acabam por ter condições de vida inferiores às dos seus pais, não obstante possam ter acesso a certos símbolos de modernidade que muitos confundem com saltos no bem-estar (internet, iPod, discotecas, telemóveis, roupa de marca, etc), dando uma imagem ilusória de progresso. O insucesso escolar, a aumento da competição académica e profissional, o desemprego e as dificuldades de acesso a uma habitação condigna - com consequências numa saída cada vez mais tardia da casa das famílias - tudo isto aponta para consagrar um "déclassement" social. Daí à gestação de um clima acentuado de "malaise" e de inadaptação, com consequências políticas curiosamente muitos pouco unívocas, é um passo muito curto.

Estarão as forças políticas tradicionais à altura de se confrontarem com esta nova geração de "enragés" sociais?

4 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Embaixador tocou num nó górdio terrível. A confusão entre símbolos sociais e qualidade de vida está a avolumar-se de forma penosa. O português de baixos recursos come fora, tem três telemóveis, tem iPod, tem Nikes e frequenta discotecas. Tudo com o maquiavélico cartão de crédito que tanto contribui para o alto endividamento familiar.
Que medidas foram tomadas para combater isto numa sociedade que preza mais o parecer do que o ser? Poucas.
E a televisão que poderia aqui prestar um verdadeiro serviço público, só ajuda a agravar o problema com a sua lamentável programação.
Ou não será?

Helena Oneto disse...

Estou perfeitamente de acordo com a analise da Doutora Helena Sacadura Cabral no que respeita à géração pos-25 de Abril. Mas, a razão princial do "desgosto" de ser português(a), na minha opinião, é o facto de termos tido uma madrasta por Patria ou uma Patria madrasta. O diabo que escolha... isto, não justifica o anti-patriotismo primario que destila uma imagem destorcida do proprio sentimento de ser português.

Ana Cortez disse...

Sr. Embaixador,
pertencendo a uma geração ainda relativamente jovem (talvez a que sentirá de forma mais directa este "déclassement" social), não posso negar que as forças políticas tradicionais têm perante si um desafio difícil. Mas, simultaneamente, não deixo de me entristecer com a inércia interna de uma geração que poderia fazer muito mais por si mesma...

Helena Oneto disse...

rectificação : o meu comentario precedente refere-se ao post "Portugueses" e não à "Mobilidade Social".