quinta-feira, 9 de julho de 2009

Robert McNamara (1916-2009)

Julgo que foi a primeira das várias vezes em que, por dever de ofício, tive de passar longas horas num já célebre barracão de conferências que existe em Maastricht, cidade holandesa encravada na Alemanha, que dá pela sigla de MECC. E nunca pela melhor razão: a excelente feira de antiguidades que lá tem lugar, no primeiro semestre de cada ano.

Estavámos em meados de 1990 e recordo-me que se tratava de uma qualquer conferência sobre questões de cooperação para o desenvolvimento, tema a que então especialmente me dedicava. Robert McNamara era um dos conferencistas e, devo confessar, a minha atenção ao que iria dizer havia sido mobilizada na razão directa da imagem, quase fotográfica e caricatural, que eu dele tinha - uma figura de cabelo oleadamente penteado para trás, qual ministro de Salazar. Lembrava-me, e lembro-o aqui, a mostrar um mapa do Vietnam, nos seus tempos de secretário da Defesa dos EUA, com um ponteiro que devia assinalar bombardeamentos e "santuários", no auge dessa carnificina sem sentido, para a qual a lógica cega da Guerra Fria tinha conduzido a América. E da qual o orgulho do país saiu com uma profunda ferida, que veio a conduzir à posterior eleição de Ronald Reagan.

Ao meu lado, lembro-me bem, estava sentado Abdul Magid Osman, então ministro das Finanças de Moçambique, velho amigo dos tempos em que ambos trabalhávamos na Caixa Geral de Depósitos, no início dos anos 70. E foi com Abdul que comentei aquilo que já sabíamos ser a surpreendente transfiguração de McNamara: do infatigável "warrior" anti-vietcong, tínhamos perante nós um homem sensível à situação do mundo em desenvolvimento, atento às suas necessidades, titulando a alteração da matriz dos estáticos "programas de ajustamento estrutural" do Banco Mundial, o organismo a que McNamara agora presidia. O jingoísta McNamara era agora um homem quase sereno, a caminho da reconciliação com o seu passado.

Seis anos mais tarde, Robert McNamara publicou "In Retrospect - The Tragedy and Lessons of Vietnam", um livro que aconselho vivamente a quem não tiver a fraqueza de se não querer enfrentar com a verdade. Um livro que honra um homem que não teve o receio de reconhecer os seus erros, por mais trágicos que hajam sido.

Em 2001, tive o privilégio de ouvir de novo McNamara no Council on Foreign Relations, em Nova Iorque, apontar, a tempo e horas, os perigos que detectava na equipa do recém-eleito George W. Bush. Recordo a sua lucidez, que não era minimamente incompatível com o seu patriotismo, que alguns neo-mccaristas, num certo momento, quiseram pôr em causa.

McNamara morreu agora, com 93 anos. Desconheço se chegou a ter a consciência da esperança que Obama representa para uma certa América. Porque Obama é hoje - e esperamos que possa continuar a sê-lo - a América que a contrição de McNamara também ajudou a construir.

8 comentários:

Anónimo disse...

Tenho um amigo em França que me ensinou que devemos desconfiar dos homens politicos que começam a "chavirer" da esquerda para a direita mais do que os que descaem da direita para a esquerda... Porque os primeiros custa-lhes muito mais a pararem a sua evoluçao! E temos hoje, tanto nos politicos franceses como portugueses, alguns exemplos desta teoria que vem dar razao àquele meu amigo.
José Barros

João Antelmo disse...

Mesmo como Secretário de Defesa, actividade na qual passou à História com o arquitecto da escalada no Vietnam e viu i seu nome quase universalmente execrado, McNamara pareceria um Dr.Jekill and Mr. Hide.
Na adnibistração Kennedy, ele, que vinha das fileiras do Partido Republicano de Nixon, começou por desmantelar as doutrinas norte-americas da "retaliação massiva" e do "first strike attack" que substituiu pela "resposta flexível", defendeu que a paz não estava na superioridade da capacidade nuclear americana.
mas sim na "capacidade de destruição mútua".
Na administração Ford, apareceu Mr. Hide: a escalada, os bombardeamentos massivos de cidades e os famigerados napalm e "agente laranja", hoje considerados armas criminosas e amplamente usados no Vietnam, no Laos e no Cambodja.
Penso que será a face Mr. Hide a que vai prevalecer na história do "whiz kid" de Kennedy.

Anónimo disse...

O “International Herald Tribune”, desta última 3ªFeira, publicou um interessante artigo sobre ele. À parte a menção que aqui o Embaixador faz, no respeitante ao “atoleiro” que foi o Vietname (“…no auge dessa carnificina sem sentido…”), destacaria nesse artigo, entre outros aspectos, a questão cubana e, sobretudo, uma frase, respeitante ao lançamento das bombas atómicas no Japão, durante a II Guerra Mundial, em que, segundo o articulista (mencionando o documentário “The Fog of War”), Robert MacNamara “had played a supporting role in those attacks, running statistical analyses for Gen. Curtis LeMay”. As frases, que nos fazem pensar (e muito), são as seguintes: “We burned to death 100.000 Japanese, civilians – men, women and children. About 900.000 civilians died in all”. “LeMay said”, (quoting McNamara) “if we’d lost the War, we’d all have been prosecuted as war criminals. And I think he’s right. He - and I say I - were behaving as war criminals”.
È uma confissão, ou admissão, corajosa, daquilo que naquela ocasião (lamentavelmente) se passou. Nunca antes tinha visto um ex-Alto responsável norte-americano a dizer o mesmo sobre Nagazaki e Hiroshima. Foi um acto indesculpável que se espera nunca mais venha a suceder. McNamara, de acordo com o artigo em questão, acabaria, mais tarde, por reconhecer a inutilidade de uma guerra nuclear (além das suas consequências) e mesmo a posse dessas armas (a não ser como dissuasão).
A terminar, há que reconhecer que depois disto e das suas responsabilidades na guerra do Vietname, acabou, de algum modo, por se “redimir” (so to say) com o seu desempenho à frente do Banco Mundial.
Confesso que estava a estranhar uma ausência de referência a Robert McNamara, aqui no Blogue, tendo em conta a acutilante atenção do Embaixador no que respeita a estas matérias. De algum modo, digamos, esperava um Post sobre o assunto. Um Post que surgiu e que gostei bastante de ler. McNamara faz parte da História do Século XX, para o bem, ou para o mal. Ou para ambos. Quer se queira, quer não. Muito interessante, este Blogue.
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

Se fosse só na política que o "chavirer" acontecesse, seria mau mas quase universal.
O pior é que o chavirement começou a tomar forma de pandemia e hoje é difícil saber quem é o quê.
Uma outra forma do verbo é a da acumulação. É-se algo e o seu contrário e ninguém parece ficar surpreendido...
Talvez seja por isso que em política há "o centro", seja lá o que isso for! Pior ainda, só o "centro direita" ou o "centro esquerda".

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador, em Obama há algo que me deixa inquieta. É a sua política externa. Que seguramente por defeito meu, ainda não consegui perceber bem.
Julgo perceber melhor Hillary Clinton.Será normal?!

Anónimo disse...

Permitia-me discordar de HSC, no “que concerne” (uma palavra que de não gosto e que um destacado político cá do burgo, que um dia se decidir fugir para terras de Bruxelas - a contra gosto dos que nele votaram, costuma utilizar com frequência) a Obama. Julgo ver na sua política externa um misto de ousadia, prudência, bom senso, determinação e vontade de mudar alguns “satus quo” para melhor (como, por exemplo, a situação no Médio Oriente, mas não só). Quanto à sua Secretária de Estado, a Senhora Rodan, falta-lhe arrojo e iniciativa (que, por exemplo, quer se goste ou não, a sua antecessora possuía, Condoleza Rice. Eu não a apreciava lá muito, por fazer parte da defunta e pouco saudosa Administração Bush Filho, mas que a mulher tinha iniciativa, lá isso tinha!). Mas o tempo encarregar-se-á de nos dar razão, a um ou a outro, ou seja a HSC, ou a este escriba.
Albano

Anónimo disse...

Ó Albano. O homem só "fugiu" para quem acreditava nele. Para outros, como é o caso desta comentadora, foi um alívio. Até porque deixou cá o Lopes, com o "sucesso" que se viu. Aleluia!

Isabel Meireles

Anónimo disse...

Exactamente. Só para quem acreditou nele. Que não foi, igualmente, o caso deste “escriba”. E claro ficámos na mesma (ou pior?) com o dito Lopes, que veio e muito bem, pouco depois, a “ser despedido por indecente e má figura”. Sim. Concordo. Mas tenho sempre consideração por aqueles que “vêm partir um ente querido”, como foi o caso do dito Dr. para Bruxelas, a despeito de rogos vários (os eleitores que nele acreditaram e nele votaram), daí aquela minha fraseologia. Por mim, ainda me recordo, fui jantar algures comemorando a partida do “artista”. O que voltei a fazer com o “despedimento” do seguinte. Ainda me saíram caras as “brincadeiras” (jantares), mas foram por uma boa causa!
Albano