sábado, 25 de julho de 2009

Ártico

Dormir num saco-cama, assente numa placa de esferovite directamente pousada sobre o gelo, numa tenda militar, bem a Norte do círculo polar ártico, com uma temperatura exterior de cerca de 25º negativos, é uma experiência para a qual se exige uma certa coragem. A verdade é que a tenda tinha no centro uma espécie de aquecedor, com uma chaminé que saía pelo tecto. E no seu interior, valha a verdade, a temperatura estava bem acima dos números de fora. Mesmo assim...

Estávamos num campo de treino da NATO, organizado pelas tropas norueguesas, em 1980. O dia fora longo e eu partilhava o espaço com dois colegas, um belga e um turco. Chegados à nossa tenda, enfiei-me logo no meu saco-cama, saquei de uma lanterna de bolso, que prudentemente levara comigo, e pus-me a ler o "Herald Tribune" do dia. Acompanhava-me uma pequena garrafa metálica com um belo whisky de malte, em cuja tampa, com esmero, coloquei algum gelo que raspei do chão. As recomendações NATO tinham sido estritas - nada de alcool! -, mas achei que uma pequena excepção podia ser admissível para o civil inverterado que eu era. E nem a proximidade do Pólo Norte tinha o condão de me afastar de alguns comezinhos prazeres mais cosmopolitas...

Notei que o meu amigo belga adormeceu logo e estranhei ver o turco a tentar fazê-lo fora do saco-cama. Disse-me que estava com calor e que ficaria bem assim...

Acabadas a minha dose de whisky e a leitura, adormeci também. Acordei, creio que cerca de uma hora depois, alertado pelo belga. O nosso colega turco, imprudente, ao ter-se deixado dormir fora do saco-cama, estava agora enregelado, sentia-se mal e não conseguia aquecer, nem sequer aproximando-se do aquecedor.

Que se podia fazer? Sair da tenda, à procura de ajuda, na gélida e ventosa noite ártica, era quase suicida. Adiantei uma ideia: porque não bebia o nosso amigo turco um bom trago do meu whisky? Seguramente que isso poderia ter um efeito-choque, ajudando à sua recuperação. O belga concordou que era uma boa sugestão. E é aí que o turco nos surpreende: "não posso beber álcool. Sou muçulmano". E continuava a tremer de frio.

Com diplomacia e poder argumentatório - estávamos entre diplomatas - tentámos convencê-lo de que os ditames religiosos, com toda a certeza, eram passíveis de pontual derrogação quando estava em causa a salvação da vida. O whisky podia assim ser considerado, no caso vertente, como um mero medicamento - "embora bem mais saboroso do que é habitual", lembro-me de ter pensado. O turco, já um pouco em pânico, acabou por concordar em seguir a opção que lhe era oferecida: bebeu uma boa dose do meu velho malte e até repetiu... E lá aqueceu, como previsto, conseguindo dormir.

Pergunto-me, até hoje, se a minha leitura das regras religiosas muçulmanas esteve ou não correcta. E será que me posso considerar culpado se acaso o meu amigo turco, por via da minha sugestão, mudou de hábitos de vida?

8 comentários:

Alcipe disse...

Esse turco devia era ser laico, seguir o pensamento de Kemal Ataturk e beber como bebem os bons repubicanos... Aposto que esse hoje está no partido islâmico do Edorgan, a mulher usa o véu e ele bebe whisky às escondidas....

Alcipe disse...

republicanos

Alcipe disse...

Erdogan

Helena Sacadura Cabral disse...

Trabalhei, há muito tempo, com um turco, o Ayan, que aqui nos veio ensinar algumas coisas de planos económicos. Era filho de um antigo Ministro dos Transportes, que havia sido assassinado na Turquia. No grupo, além do meu amigo João Cravinho, estavam umas cabeças que vieram a notabilizar-se aqui no burgo. Foi um período que recordo com saudade e no qual muito aprendi. Mas felizmente para ele e para nós, o Ayan seguia o princípio "em Roma sê romano" e, em certas ocasiões, mais parecia um de nós...
Apesar de ser católica sempre defendi e defendo um estado laico. O que entre nós, não é, aliás muito claro. Desde os feriados, até a outros compromissos!

Santiago Macias disse...

Deve ser isso que se chama realpolitik. O diplomata turco repetiu a dose? Claro que repetiu, como tantos muçulmanos que conheço e que bebem às escondidas. Já agora, nem sequer um termo com chá havia na tenda?

Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...

Ou então, Alcipe, o amigo do Emb. SC era um poeta, muçulmano mas poeta.
Talvez pensásse em Omar Khayam, que disse nos Rubaiyat

"Não vamos falar agora, dá-me vinho.
Nesta noite a tua boca é a mais linda rosa, e
me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus
lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos."

Tenho um grande amigo turco, muçulmano praticante e diplomata, louro e de olhos azuais , características que ele atribui a ascendentes janízaros vindos dos Balcãs, que citava sempre o persa para justificar libações menos moderadas.
Há poucos anos, Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, visitou Lisboa com o Presidente turco. Quando soube que eu tinha abandonado os prazeres do alcool, ficou visivelmente entristecido e voltou a declamar o poeta.