quinta-feira, 18 de junho de 2009

Obama

O presidente americano tem vindo a demonstrar, para surpresa de muitos, que a política de diálogo construtivo no quadro internacional, que havia anunciado durante a sua campanha, era... para levar a sério.

Na questão de Guantánamo, no Próximo Oriente, no Iraque, na atitude face ao mundo islâmico e quanto ao Irão, ninguém poderá dizer que o presidente Obama não está a cumprir o que prometeu. E sem arrogância, procurando perceber as razões dos outros, com uma contenção face a certas provocações que representa um registo quase inédito na política externa americana contemporânea.

Dentro dos Estados Unidos, há muitos sectores positivamente motivados com este comportamento, enquanto outros parecem, cada vez mais, aguardar por um desastre desta estratégia internacional, havendo já quem a apelide de uma "carterização" da acção externa - sabendo-se o que isso significa aos ouvidos de quem só sentiu o seu orgulho pós-Vietname resgatado pela agressividade reaganiana.

Porque o presidente Obama tem de manter internamente uma forte credibilidade para poder prosseguir com a sua ousada agenda reformista externa é que mais importante se torna que Estados com especiais responsabilidades à escala global - e, entre estes, em especial, a China e a Rússia - venham a perceber a importância de ajudarem a "nova América" a não se sentir tentada a subordinar-se à agenda da "velha América". É que esta última está já à espreita de algo que possa ser lido como uma humilhação de Washington ou uma qualquer crise grave que consiga imputar a uma suposta fragilização introduzida por Obama na defesa dos interesses americanos.

3 comentários:

Fernando Correia de Oliveira disse...

Senhor Embaixador
A "velha América" está bem viva, e representa quase 50 por cento do
eleitorado, apesar de o Partido Republicano estar em frangalhos. Uma
das coisas que me admirou foi, quando cheguei a Los Angeles, no dia a
seguir à eleição de Obama, só me ter cruzado com gente pró-Mcain. Que
se escandalizava por Obama ter alvitrado a necessidade de haver
"redistribuição de riqueza", o que fazia dele aos olhos dessa gente um
verdadeiro e empedernido comunista. Ora, essa é a agenda do "bloco
central" que tem governado a Europa no pós-guerra.
Outro exemplo: hoje tive ocasião de falar com um antigo astronauta,
Eugene Cernan, ex-astronauta e o último homem a pisar a Lua – em 1972.
Ora este ancião, de base educacional científica, muito acima da média
em relação ao resto da população norte-americana, quando lhe perguntei
o que pensava do futuro da Terra, face às ameaças de aquecimento
global, respondeu-me sem hesitar: "meu caro, isso é apenas assunto da
agenda política, toda a gente sabe que a Terra tem ciclos de
aquecimento e de arrefecimento, pelo que nada garante que seja a acção
humana a provocar o que quer que seja".
É com esta América que Obama tem que lidar. Apesarde todo o meu
"cinismo profissional", sou um adepto caloroso de Obama, talvez o
único factor global positivo ocorrido no mundo em muitos anos. Mas que
anda muita gente à espreita, à espera do primeiro deslize para lhe
fazer a folha, isso é verdade.

Alcipe disse...

Os russos e os chineses (sobretudo os primeiros) vão jogar o jogo do Obama: os russos porque a nova política americana lhes dá hipóteses de reassumirem o protagonismo global que se recusam a perder; os chineses, porque precisam tanto da recuperação económica americana como nós...

Só os indianos andam meio amuados, porque perderam o estatuto de favoritos que o Bush lhes tinha dado e que tanto lhes custou fazer engolir à esquerda comunista...

O Obama é, portanto, como diria Georges Marchais (que já ninguém sabe quem é), "globalmente positivo"...

Helena Sacadura Cabral disse...

Console-se Alcipe que ainda há muito boa gente que se lembra de Georges Marchais. Isto, claro, globalmente falando...
Basta continuar interessado em perceber o mundo em que vivemos e as voltas que ele vai dando.