quinta-feira, 18 de junho de 2009

Carlos Candal (1938-2009)

Morreu Carlos Candal, advogado e democrata de Aveiro, figura histórica da oposição ao Estado Novo e político saliente em vários tempos da nossa vida pública.

Era uma figura que nunca recusava a polémica, nada "politicamente correcto", dotado de uma ironia sarcástica, que muitos confundiam com arrogância, que intervalava com as baforadas do seu emblemático charuto. Tinha uma voz grossa e uma gargalhada forte, de quem sempre esteve de bem consigo mesmo. A certo passo, deixou-se tentar pela aventura do Parlamento Europeu, onde nos cruzámos diversas vezes e comentámos uma Europa que sempre me pareceu ver de soslaio político. O que confirmei, num debate que tivemos em Aveiro, há mais de uma década.

No início dos anos 60, havia sido líder da luta académica, em Coimbra. Jorge Sampaio contou-me que, num dia desses tempos, foi de Lisboa a Coimbra para um diálogo entre lideranças universitárias, em período de tensão política forte. Com todos os cuidados que a segurança recomendava, dirigiu-se à "República" onde vivia Carlos Candal, que não conhecia pessoalmente. Bateu à porta e atendeu uma governanta, que disse que "já ia chamar o Dr. Candal" - em Coimbra, à época, "era-se" doutor antes do curso acabado. O ambiente era muito diferente do contexto homólogo lisboeta, com desenhos humorísticos pelas paredes, garrafões e outros artefactos pendurados do tecto, enfim, toda a parafernália simbólica da boémia coimbrã. Minutos depois, Jorge Sampaio ouviu, do alto da escada, um vozeirão: "Olá, menino! Já desço". Sampaio olhou e lá estava, ainda de roupão indiciador de grande noitada na véspera, a figura do seu interlocutor político, Carlos Candal. Nesse momento, o futuro Presidente da República terá percebido melhor a diferença eterna entre a maneira de ser das academias de Lisboa e de Coimbra. E dos políticos oriundos de ambas, claro.

7 comentários:

Anónimo disse...

Lembro-me muito bem de Carlos Candal, mas já depois do 25 de Abril. Apreciava-o. Tinha carácter e não se esquivava a uma boa polémica. E tinha humor. Para quem o “conheceu”, como figura pública como foi o meu caso, nunca se tendo cruzado pessoalmente com ele, fica-nos a imagem de alguém com personalidade forte e convicto nas ideias. Alguns dos seus comentários, com aquele charuto na boca, ficaram célebres. Desconhecia que tinha falecido. Tenho pena. Uma Figura, sem dúvida!
P.Rufino
PS: E por falar em Coimbra…bem me “esforcei” após o dito Liceu e admissão à Faculdade, por convencer o meu pai a ir para lá “estudar” (na mira disso, mas também daquela atmosfera das “repúblicas”), mas o “poder paterno” não se deixou convencer. Como já nos tínhamos mudado do Porto para Lisboa, achou por bem que “era melhor estudar por cá” – Lisboa – “ainda te perdes por lá, por Coimbra e arranjamos chatice da grossa, rapaz. É aqui que ficas, debaixo da vista deste teu pai”. E assim foi, para minha tristeza! E ficaram-me sempre saudades do que não vivi. Curioso!
Um dia, quando apresentei “resultados pouco satisfatórios”, disse-me: “rapaz, isto aqui não é Coimbra! Ou estudas, ou vais trabalhar e não pago nem mais ano nenhum da Faculdade!” E lá me conformei e toca de estudar! Mas que fiquei com “Coimbra” atravessada, lá isso fiquei!

Helena Sacadura Cabral disse...

Lamento que Carlos Candal tenha morrido. Mas não partilho da simpatia que o seu politicamente incorrecto sugere. No meu caso pessoal foi mesmo bem mais do que incorrecto com o seu Manifesto Anti Portas. Tenho memória de elefante e não esqueço quem utiliza a polítiquice para denegrir a vida pessoal de cada um. Trata-se de uma lamentável forma de fazer política.

Francisco Seixas da Costa disse...

De nada do que escrevi se pode deduzir qualquer simpatia pelo infeliz gesto que se traduziu na feitura do "Manifesto Anti-Portas". Mas Carlos Candal foi muito mais do que isso. E alguma da sua "incorrecção" política estefe mesmo na sua leitura da política europeia de Portugal, com a qual, à época, me recordo de ter alguma coisa a ver...

Helena Sacadura Cabral disse...

Nem alguma eu teria a ousadia de escrever o que escrevi, se admitisse que o Senhor Embaixador pudesse, alguma vez, ter qualquer simpatia pelo infeliz gesto.
Mas julgo que desta prosa bloguística já terá percebido que se há qualidade que tenho, é a frontalidade com que assumo o que penso. O que, como calcula, nem sempre é fácil, perante o enquadramento familiar em que vivo.

Anónimo disse...

Permita-me o Estimado Embaixador que faça aqui um pequeno “reparo” ao meu comentário anterior, tendo em conta a consideração que me merece HSC: quando escrevi aquelas palavras sobre Carlos Candal, confesso, muito honestamente, que já não me lembrava, de todo, do tal episódio do “Manifesto”, agora recordado por Helena Sacadura Cabral. Uma coisa é ter simpatizado com Candal, enquanto figura política, outra é com tudo o que disse e fez. Como sucede com todos os políticos, nem sempre temos de estar em sintonia, quer política, quer pessoal. Assim foi o caso com o dito Manifesto. Fica, deste modo, ressalvada a questão pelo meu lado. Um abraço a Helena e grato Embaixador por publicar este esclarecimento.
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

A ambos a minha homenagem.
Mãe que não se sente não é filha de boa gente. E os meus ascendentes eram-no!

Osvaldo Castro disse...

Fiz link para Praça Stephens.
Abraço.