sexta-feira, 22 de maio de 2009

Bénard da Costa (1935 -2009)

A partir da carta escrita pelo Bispo do Porto a Salazar, no final dos anos 50, a vida política política portuguesa passou a contar, de forma cada vez mais interveniente, com a presença de personalidades católicas no seio do campo democrático que se opunha ao salazarismo. Ficou então claro que o Estado Novo não tinha o monopólio do apoio dos católicos portugueses, que parecia incontestado desde o início da ditadura.

João Bénard da Costa, que acaba de falecer, foi uma das figuras que esteve no centro desse novo tipo de actividade cívica dos católicos, o qual acabou por ter significativa expressão política - desde diversos manifestos à organização da Revolta da Sé (1959), de uma participação activa nas listas da Oposição democrática, uma década depois, às movimentações em torno do caso do padre Felicidade Alves ou dos incidentes da Capela do Rato (1971). Pelo meio, chegaria mesmo a ser criado um efémero movimento radical, com forte presença de alguns desses católicos, o MAR (Movimento de Acção Revolucionária).

Mas seria no terreno intelectual, em torno da propagação em Portugal das ideias do Concílio Vaticano II e das reflexões de Emmanuel Mounier e de Teilhard de Chardin, que os então chamados "católicos progressistas", no seio dos quais Bénard da Costa viria a ter um papel decisivo, iriam representar um tempo novo na vida portuguesa. A Moraes Editora e a revista "O Tempo e o Modo" constituíram o eixo prático dessa movimentação, como o próprio Bénard da Costa bem relata, num pequeno mas importante livro chamado "Nós, os Vencidos do Catolicismo".

Este perfil cívico não deve fazer esquecer que Bénard da Costa foi, também, uma figura maior da memória do cinema em Portugal, como crítico de escrita inigualável e, mais tarde, como director da Cinemateca Nacional. Foi uma personalidade de grande valor, das mais importantes da sua geração, que muita falta fará à cultura portuguesa. Ver mais aqui.

4 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador a hora não será a mais conveniente. Mas é bom não esquecer que os "católicos progressistas", como então era chamado esse grupo iluminado, nem sempre terá tido para com aqueles que não pensavam como eles, uma atitude muito tolerante.
Conheci bem o grupo. Movimentei-me no seu seio. E sofri na pele essa falta de tolerância. Na época apelidavam-me de reaccionária, por não ter paciência para ouvir cassettes de horas com os discursos dum senhor chamado Fidel de Castro e de criticar a aventura financeira da Moraes Editora...
Os anos passaram, a Moraes faliu, Fidel foi um ditador pouco piedoso e de alguns desses católicos progressistas ficou um passado prometedor. Os outros fizeram belas carreiras no Portugal democrático.
E eu continuo a tentar entender os que não pensam como eu, não para merecer qualquer elogio, mas apenas porque não quero repetir o que comigo fizeram.
Relembro o Personalismo e com ele Emanuel Mounier, não na versão desse grupo, mas na da minha leitura das obras e na sua discussão com o Padre Abel Varzim, meu director espiritual, a quem devo muito do que sou.
Do João hei-de lembrar, sempre, o seu amor, autêntico, pelo cinema. Não o seu lado revolucionário, ou se preferir, de interventor político.
Perdõe-me a liberdade, mas à minha maneira, também eu não tenho medo das palavras, quando sinto que é importante que sejam ditas!

Coronel Manuel.A.Bernardo disse...

"obra" de Bénard da Costa

Comentando a actuação de J. Bénard da Costa
De Manuel.A.Bernardo
Depois de ter assistido hoje a um grande exagero no jornal "Público" em relação à "obra" de Bénard da Costa, com a 1ª página quase cheia, duas páginas no caderno principal, um editorial de José Manuel Fernandes e mais quatro páginas no 2.º caderno (julgo que nem um Presidente da República teria direito a tanto espaço no seu obituário), e dos elogios de Seixas da Costa, gostaria de ser politicamente incorrecto e falar no que habitualmente é omitido, isto é, nas suas diatribes revolucionárias...

Para tal e a propósito da defesa que ele fez de Otelo, em Janeiro de 1976 (em carta aberta a Ramalho Eanes), quando ele foi detido na sequência do 25 de Novembro, escrevi-lhe uma "também carta aberta", publicada no então "Jornal Novo", em 15-2-1976 (in "Os ?Comandos no Eixo da Revolução ..." / 1977, pp 270 e 271) :

(...) Nesta acção (25 de Novembro de 1975, na Calçada da Ajuda) morreram dois militares, não por acidente, mas alvejados por outros militares, que civis, "revolucionários de pacotilha" como o senhor, transformaram naqueles dias, em inimigos. Os seus familiares, camaradas e amigos, o Povo em geral, exigem Justiça. E ela será feita, em nome da Liberdade, da Democracia e da afirmação de continuarmos a ser um Estado de Direito, no mundo civilizado.

(...) Naquela sua incrível carta aberta, consegue elogiar e insultar simultaneamente o General Eanes.
(...) Assim considera que as afirmações do General Ramalho Eanes sobre o regresso à pureza inicial do 25 de Abril, face à prisão de Otelo, não são "mais que outra monstruosa mentira contra este Povo"?

E quando lhe chamo "revolucionário de pacotilha" tenho razões fortes para para o fazer. Além de o ter visto na TV a colaborar na campanha de manipulação e enfeudamento dos órgãos de Informação à "linha PCP-FUR" (partido comunista e extrema esquerda), tenho conhecimento de que, à frente de uma comissão de trabalhadores da Fundação Gulbenkian, seguidista daquela "linha", utilizou processos discriminatórios, insultuosos e demagógicos, com vista à manipulação dos trabalhadores, à semelhança do que foi praticado por Otelo e oficiais gonçalvistas, a nível nacional, e que provocou o caos económico-social que todos conhecemos. (...)

Mas, depois, Bénard da Costa, que foi um grande homem do Cinema Português (dirigente da Cinemateca, artista e comentador), evoluiu e, com a ajuda do Presidente Jorge Sampaio, até desempenhou as funções de Presidente da Comissão do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades entre 1997 e 2009 e ganhou o Prémio Pessoa 2001. Paz à sua alma. www.portugalclub.org
Manuel.A.Bernardo

José Pires - Lisboa disse...

Durante o tristemente célebre PREC assisti a muita coisa lamentável. De João Bernard da Costa e não só. Parece que as pessoas passaram por um espécie de histeria colectiva, onde cada um procurava mostrar-se o mais á Esquerda possível. Assisti a transformações repentinas que me faziam abrir os olhos de espanto. Colegas e conhecidos que eram apoiantes confessos do Estado Novo, apareciam-me agora, de repente, de foice e martelo ao peito, tomando atitudes que eu jamais pensei serem capazes. Toda a gente dizia então cobras e lagartos de Oliveira Salazar. Só faltou dizer que ele comia criancinhas ao pequeno almoço. Quando o antigo Presidente do Conselho aparece agora a conquistar o prémio da RTP como O Maior Português de Sempre, o facto deixa-me aturdido de surpresa. Em determinados períodos da História pessoas estão sujeitas a uma espécie de psicologia de massas que as leva a comportarem-se de forma diferente da sua natureza normal. João Bernard da Costa deve ter sido um desses. Paz à sua alma. www.aloportugal.org

José Pires

JVerdasca disse...

Transformar um pecador em "SANTO" depois de morto, quando normalmente se omitem os PECADILHOS do "DE CUJOS", para mais facilmente florear biografias que sempre têm algumas manchas, É UM TRISTE HÁBITO DITO "POLITICAMENTE CORRETO", MAS MORALMENTE CONDENÁVEL, POR "ENGANAR" AQUELES QUE - COMO NÓS - IGNORAVAM OS SEUS EXCESSOS "REVOLUCIONÁRIOS". FORAM ACTOS DESTE GÉNERO que distinguiram os militantes (E MILITARES) de firme CARÁCTER e perfeita formação, dos OPORTUNISTAS sem personalidade e sem PRINCÍPIOS, que - por inconfessáveis interesses, irracionais impulsos e animalescos instintos - MUDARAM DE CAMPO, INVERTERAM SUAS POSIÇÕES E DESCARADA E VERGONHOSAMENTE SE DECLARARAM O QUE NÃO ERAM. TAIS TRAIÇÕES SÃO INDIGNAS DE HOMENS COM MAIÚSCULA.
Parabens, Coronel MABernardo. JVerdasca