sábado, 23 de maio de 2009

Ataúro, Timor, 1975

Morreu Lemos Pires, o último governador da província ultramarina de Timor.

Sei que esta opinião tem muito de controverso, mas é minha firme convicção que a imagem de Lemos Pires na história da descolonização portuguesa sofre de uma profunda distorção, fruto da necessidade de se encontrarem bodes expiatórios para um tempo de irresponsabilidade colectiva.

Como militar, recordo-me bem da "importância" que era dada ao dossiê Timor nas reuniões da Assembleia do MFA e, já funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, acompanhei de muito perto as peripécias que envolveram a atitude de Lisboa face à frágil administração portuguesa em Timor, apanhada entre dois fogos, com alguns a fazerem jogos que não ficarão nas páginas mais gloriosas da nossa História. Essa era uma época em que era muito fácil, e politicamente rentável, falar com ironia da saída para Ataúro e da "cobardia" das tropas portuguesas.

Um dia, na Noruega, há precisamente 30 anos, tive a oportunidade de falar longamente com Lemos Pires sobre esses acontecimentos, na base do que eu sabia e no que então dele pude colher. Confirmei, nesse dia, a impressão que já tinha e que conservei até hoje, até à sua morte: Lemos Pires era um homem de bem e, na tragédia de Timor, comportou-se de uma forma que não deslustra a sua imagem de militar português.

4 comentários:

saieong disse...

Senhor embaixador: permita-me que discorde.

Sei que é de bom tom elogiar os mortos, independentemente das ações que fizeram em vida. Mas Lemos Pires foi responsável pela tragédia de Timor, ainda que longe de ser o único. Se havia "guerra civil" foi porque ele permitiu que assim acontecesse, ignorando avisos diversos. Foi porque anuiu a que vários agitadores do MFA acirrassem uns timorenses contra os outros. Permitiu a entrega de armamento e instalações do Exército Português, de que era o comandante máximo em Timor, a um partido político. Recusou a intervenção dos páraquedistas, quando estes se ofereceram para acabar com os motins e libertar os presos, entre os quais Maggiolo Gouveia.

"o governador ordena aos oficiais metropolitanos que entregassem aos sargentos nativos o comando das unidades militares, com todas as suas armas e munições, e começa a organizar a retirada dos militares metropolitanos e suas famílias para a Austrália" (Luis Filipe Thomaz). Infelizmente, há ainda muitas mais testemunhas desses horríveis acontecimentos que desmentem a vitimização de Lemos Pires...

O seu pior pecado, contudo, foi ter abandonado 600.000 portugueses, entre os quais 23 camaradas de armas, ao fugir para Ataúro. Lamentavelmente, nunca teve pelo menos a decência de pedir desculpa aos timorenses.

Deveria ter sido julgado, juntamente com os outros responsáveis, diretos e indiretos, desta horrível tragédia. Mas este país de brandos costumes continua a branquear os crimes graves que foram cometidos durante o PREC e a fazer de conta que tudo foi um mar de rosas.

Um por um, esses responsáveis vão morrendo e as suas vítimas também, até que não reste mais ninguém para contar a história. E essa história não figurará na História, para alívio das consciências daqueles que são cúmplices deste pacto de silêncio e desta cortina de fumo que escondeu estes crimes durante tantos anos.

Paz à sua alma

Chrys CHRYSTELLO disse...

Conheci Mário Lemos Pires, o "meu último comandante" em Timor e dele falo no livro TIMOR LESTE O DOSSIER SECRETO 1973-1975. Era uma pessoa de bem abandonado e esquecido por Portugal no ano quente de 1975, à custa de todas as vidas timorenses e portuguesas do conflito que se seguiu Foi também ele vítima da intransigência "esquerdista" da época (infelizmente não era nem de direita nem de esquerda, era meramente um governador que sonhava permitir aos timorenses escolherem a independência. Já lhe perdoei os erros que cometeu mas não perdoei ainda ao país que o deixou abandonado à sua sorte contra as maquiavélicas maquinações de Kissinger, Gerald Ford e Suharto...www.portugalclub.org Chrys CHRYSTELLO,

Francisco Seixas da Costa disse...

Este post suscitou vários outros comentários que se opunham abertamente à visão que aqui sustentei sobre o general Lemos Pires.

Tenho o maior respeito pelos respectivos autores, mas recuso-me a transformar este blogue num espaço de polémica, tanto mais que tais textos alargavam as suas apreciações muito para além do que aqui foi dito, em alguns casos com referências - positivas ou negativas - a pessoas que não haviam sido chamadas para o caso.

Para essa dimensão polémica de intervenção existem já outras plataformas informáticas e áreas de comentários dos jornais.

Julgo, no entanto, que as opiniões que aqui ficaram expressas são bem representativas dessa escola de pensamento.

Anónimo disse...

Em Timor já livre e independente acabei por conhecer um Senhor já de certa idade (que talvez já tenha falecido): James Dunn, o último consul australiano à data da invasão e que escreveu um livro que li há 20 anos: "East-Timor, a People Betrayed". Falou muito bem de Lemos Pires, contando que tinha sido deixado sozinho com uma situação impossível e sem qualquer tipo de resposta às dezenas de pedidos de instruções que enviava para Lisboa. Até se compreende que nao houvesse tempo e tranquilidade em Lisboa para se pensar em Timor, mas parece-me evidente que ele fez o que pode e mais nao teria sido certamente possível.