sábado, 28 de março de 2009

Salazar em Austerlitz

Ao passar, há pouco, em frente à Gare de Austerlitz, ponto de chegada a Paris de muitos e muitos milhares de portugueses a quem a Pátria foi madrasta, veio-me à ideia um dos mistérios nunca resolvidos da política portuguesa do século XX: a famosa e nunca confirmada viagem de Oliveira Salazar à Bélgica, nos anos 20, para assistir a um congresso católico.

Salazar era parco em deslocações. Conhecidas são as suas duas viagens a Espanha, a Badajoz e a Sevilha, onde se foi encontrar com Franco. Fora disso, o homem que liderou o governo português, durante cerca de quatro décadas, nem aos Açores ou à Madeira alguma vez foi, muito menos ao Ultramar que tanto cantava nos seus discursos. Por isso, esta viagem à Bélgica, a ter tido lugar, representaria a mais ousada digressão de Salazar.

Deu-me hoje para imaginar a figura seráfica de Salazar em Paris, provavelmente de botas, a sair do "Sud Express" e a tentar ligação para a Gare du Nord, depois de muitas horas perdidas a olhar por aquelas janelas em cuja base figurava o prudente aviso: "Ne pas se pencher".

12 comentários:

Anónimo disse...

Decididamente, o homem foi um mistério! Essa nunca ouvi. Extraordinário episódio! A um congresso católico ainda por cima! Falaria francês? Teria ido "bem" acompanhado, ou com um séquito de pides disfarçados? E o amigo Cerejeira far-lhe-ia companhia na ocasião?
Não o imaginava rato de sacristia, ao ponto de embarcar numa viagem desse tipo. Recordo-me da figura quando falava à Nação pela TV. Aquela vozinha esganiçada, os óculos na ponta do nariz, a olhar-nos, quando interrompia o que lia, ligeiramente curvado sentado na cadeira, o cabelo branco, o ar austero, enfim um ditador sereno (mas implacável), que tinha o país na mão. Meu pai costumava dizer-nos, lá em casa, sempre que o Chefe se dirigia "ao povo": hoje fala o "gajo"; não dirá nada de novo, mas convém saber o que lhe vai na cabeça. O homem não é de falar por falar (hoje, provavelmente, já não diria isso de muitos dos nossos políticos actuais). E lá nos sentávamos todos, em silêncio profundo, a ouvir o "botas de Santa Comba". A preto e branco. O que mais retenho, além daquela cara austera, é o tal tom de voz ("Portugueses", assim costumava começar as suas intervenções televisivas (onde invariavelmente a guerra colonial era tema, o Mundo nosso inimigo, mas nada nos faria mudar de rumo, pois seguiamos o caminho certo).
Era um Portugal provinciano, atrasado, iletrado, patético. Mas, curiosamente, ainda há por aí hoje saudosos desse Portugal ridículo e pouco desenvolvido. Mesmo em política, há gostos para tudo.
P.R.

Anónimo disse...

"Provávelmente" de botas?!Ès capaz de imaginar outro calçado na "viagem" à Bélgica.E ceroulas...

José Martins disse...

Absolutamente António de Oliveira Salazar deve ter desembarcado em Austerlitz de botas de sola cardada; ceroulas de atilhos atados aos tornozelos, fato de fazenda de tecido produzido, a partir de lá de ovelha, nas fábricas de lanifícios da Vila de Gouveia (Serra da Estrela).

Num dos bolsos do colete (nessa altura um fato não dispensava esta peça) um relógio de bolso amarrado a uma corrente de prata, ou talvez um atacador de sapatos.

Salazar, que eu admirei na minha época e até agora, é meu comprovinciano e nunca se apartou de suas raíses.

Muito se tem falado no homem, mais mal do que bem.

Foi, porém, o homem que governou Portugal como deveria ser na sua época sob os desígnios: "Deus Pátria e Família".

O Deus (seja falso ou verdadeiros) era uma componente que orientava e levava o Povo Português a viver sob a tolerância; a Pátria era aquela que me habituei amar (o Senhor Embaixador Seixas da Costa, como eu), que hoje até às crianças da escola primária não lhes ensinam esse dom; a família era para esta viver, dentro do bafo do amor.

Salazar como outro humano teve seus dfeitos e mais virtudes.

Quando ao amor pela igreja católica duvido que o tenha tido...

Seu relacionamente, com o amigo Cardeal Cerejeira não era do melhor, assim o escreveu o ministro Franco Nogueira, num livro que não me lembro o nome.

Arranhavam-se.

Um e outro era homens fortes na política e mesmo sem se "gramarem", teriam que se apoiar um no outro.

O Salazar para mim e para muitas centenas de milhares de portugueses, nunca nos fez mal nenhum...

Crescemos com um espelho redondo, no bolso, com a sua imagem na rectaguarda chapada na mica, adquirido por cinco tostões a um mercador de bugigangas de feira.

Com a quarta classe da primária (a minha licenciatura) a canalha do meu tempo tinha assimilado no cérebro; a história de Portugal desde a fundação; a geografia de Portugal e do ultramar; os nossos herois da Índia, da Taprobana e mais além aos confins do Oriente.

A canalha do meu tempo, depois dos 11 anos e feita a 4ª classe, os que tinham sido alimentados a pão de centeio, caldo da horta e como conduto azeitonas, algumas já sapateiras, se tinham mostrado inteligência partiam para o seminário da Guarda, Coimbra ou da Figueira, para obterem o quinto ano liceal e mais dois no Magistério tinham emprego garantido, numa escola e seguirem seus mestres ensinando a canalha.

Para outras cidade e seguirem o ensino secundário partiam uns dois ou três para Viseu ou Coimbra. Partiam chorosos no comboio da linha da Beira, fumarent, acompanhados dos pá-pás com cestos de vime, onde dentro, a merenda e os chouriços do lavrado para a família que ía acolher os miúdos.

Eramos aquilo que eramos no tempo do Governo de Salazar.

Depois da implantação da República até Salazar tomar conta do Governo, os homens que poderiam governar Portugal continuavam às "turras" e ninguém se entendia e até nem se sabia o que pretendiam.

Um Portugal de "tanga", economicamente, e não fugiu à "tisíca" que grassavam na Europa e a duas guerras: a Civil de Espanha e a 2ª Mundial que livrou os portugueses delas, mas não os livrou da fome (nas cidades.

Nas aldeias houve sempre pão negro de centeio, carne na salgadeira do "bacorito" criado em casa, figos secos, aguardente,vinho nos pipos; batatas e grão de milho na arca.

Um Portugal organizado e "lambada" no costelado; meia sardinha em cima de uma fatia de pão negro. Uma inteira era para o patriarca.

O latino sempre foi criado à "pancada" e só se perderam aquelas que cairam no chão e não acertaram nas costas.

As árvores de quequeninas também têm que ser atadas a um pau para crescerem direitinhas.

Quanto às repressões, não conheço as viúvas ou as mães de Salazar ou as valas comuns, como as que foram cavadas em Espanha durante a guerra civil.

Mas sob a criação dessa repressão houve outros portugueses sedentos de poder,ditaram as sevícias a ser aplicadas aos que procuravam que a política comunista fosse implantada em Portugal.

O homem caiu ou da cadeira ou morreu de velho e não fugiu à lei da morte.

Já lá vão 39 anos depois de partir desta para melhor...

Os progressitas que surgiram, em Portugal, depois de Salazar, partir para a campa rasa no Vimieiro (Santa Comba Dão) o que fizeram de bom a Portugal?

Teriam sido os riscos pretos de alcatrão do Algarve ao Minho?

Espero que o P R comentador acima não tenho sido um Lusito da Mocidade Portuguesa de Salazar...

Bem e não me devo enganar tem andado muita gentinha nos "meandros" do Governo que vestiram essa farda e apertaram os calções e as calças com o cinto de fivela com um S.

Deu-me imensa pena de quando há três anos visitei, no Vimieiro, a casa onde o Salazar nasceu com o telhado já esburacado e a quinta que herdou de seus pais dividida em duas partes por um "risco preto de alcatrão".

Para terminar: "Marquês de Pombal foi um "sortudo" que nunca o apearam da estátua onde bem no alto o erigiram!
José Martins

P.S. Penso que o Senhor Embaixador Seixas da Costa, não chegou a ser Lusito da Mocidade. Se o foi por mim está perdoado!

Anónimo disse...

Mau, mestre! Com postes destes o blog arrisca-se a ficar igual ao Portugal Club. Embaixador, mais cuidado na selecção de comentários.

Anónimo disse...

Já só faltavam os fascistas no blog! Seixas da Costa deve ter cuidado com a poluição.

Jose Martins disse...

Bem se me toca a mim, o comentário do anónimo acima, o nome de fascista dele não tenho nada!

Deus me livre da tal coisa!

Comecei a agarrar o mundo pelos "cornos" aos 11 anos como marçano na "Casa Arcozelo" (a dos queijos) na Rua do Loureiro, trabalhei que nem um "mouro" em muitos países e estou vivo, graças a Deus, ao 74 anos.

Os facistas eram outros e conheci muitos que depois mudaram de cor da pele, como o camaleão a muda conforme o cenário do caminho que percorre.

Mas se me permite pergunto-lhe porque se apresenta a comentar como anónimo?

Nós estamos a viver numa democracia onde a liberdade de expressão está consagrada na Constituição Portuguesa.

Descubra-se homem/mulher que seja.

Os esbirros do Salazar já não lhe fazem mal nenhum...!!!

Anónimo disse...

Não creio que se trate de um fascista.
Parece-me só alguém de vistas curtas e cultura de "clichés" - aquela do "latino (que) sempre foi criado à "pancada" e só se perderam aquelas que cairam no chão e não acertaram nas costas" é impagável! "O latino"!...
O homem deve ter a idade que "Esteves" teria agora.

Francisco Seixas da Costa disse...

Meus Senhores: lamento muito mas este espaço não vai tornar-se num espaço de polémica anti ou pró-salazarista. Esta não é a vocação do blogue. E não vai ser... Assim, sobre os méritos ou deméritos da figura política do Dr. Salazar, o debate acabou aqui. Nenhum outro comentário deste "ping-pong" ideológico será publicado.

Jose Manuel correia Pinto disse...

Tanto barulho por nada. O que sentiu Salazar quando desceu em Austerlitz? Salazar desceu 2 vezes em Austerlitz. A outra foi para ir à Suiça. Ele tem um texto sobre isso. O que mais o emocionou foi imaginar, pela leitura do nome das estações do metro, como seria, à superfície, Paris nesses lugares.
JMCPinto

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Correia Pinto: venha então daí o texto "suíço". Nunca ouvi falar, mas se Vexa o diz...

JMCPinto disse...

Vou procurar e logo lho enviarei. Foi à Suiça por "causa dos pulmões".
É um texto muito interessante. Nunca me esqueci dele...porque a primeira vez que eu passei em Paris foi também por "baixo" a caminho da Gare do Norte vindo de Austerlitz.

jmcpinto disse...

Vamos então a factos. Diz Salazar: "Fui em tempos à Bélgica assistir a um congresso católico. Por várias ocasiões estive em Espanha: da primeira vez ainda vivia em Coimbra e acompanhei um professor de Medicina, o doutor Serras e Silva. Havíamos recebido autorização excepcional para penetrar nos conventos de Santa Teresa e ficámos em Ávila. A minha última estadia em Espanha é recente: no Verão passado visitei o generalíssimo Franco, na Galiza.
Como é bela a França. Estive em Lourdes. Também conheço Paris, mas muito pouco; apenas lá me demorei uns dias. Visitei todos os monumentos e museus. Meti-me no metro sem destino. Vi desfilar as estações . Barbés Rochechouart, Ars,e Méiers, Etoile e tive a ilusão de conhecer um pouco a capital do espírito"