segunda-feira, 23 de março de 2009

Água


A Conferência Mundial da Água, que teve lugar em Istambul, acabou ontem - no Dia Internacional da Água - no que já é considerado um fracasso, à luz das respectivas conclusões.

As questões da água constituem uma das mais complexas temáticas do mundo contemporâneo, sendo ignorado por muitos que elas estão já na raiz de alguns dos actuais conflitos. Para além das óbvias dimensões ambientais, as questões da água prendem-se com os problemas da estratégia global em matéria de recursos vitais e, no imediato, estão no centro dos grandes debates em matéria das políticas de desenvolvimento.

Uma das grandes dificuldades em abordar este tema à escala global prende-se com a muito diferenciada dependência dos Estados em matéria de recursos hidrícos, o que conduz a atitudes de egoísmo nacional, que não facilitam soluções de consenso. Por outro lado, e não obstante os chocantes números sobre os efeitos na vida das populações da escassez de água, ainda se está longe de reconhecer o "direito à água" como um direito fundamental no plano multilateral, pelas consequências orçamentais que muitos não querem disso retirar.

Duas notas pessoais.

Não esquecerei nunca a imagem de uma criança, na berma de uma estrada quase deserta, no Uzebequistão, estendendo a quem passava uma garrafa de plástico vazia. Vim a saber ser uma prática regular na região "mendigar" água potável...

A segunda nota prende-se com Espanha. Os nossos principais rios nascem em território espanhol, onde várias regiões autónomas se debatem com sérios problemas em matéria de água e têm tentações de a utilizarem de forma mais intensiva, a montante da sua chegada a Portugal. Recordo a dificuldade com que, na virada do século, nos vimos confrontados numa dura negociação com Madrid sobre o regime dos caudais desses rios. Mas foram-me marcantes, em especial, as tensões que então pudemos observar entre o Governo central espanhol e as autonomias, para fixarem uma posição comum de acordo connosco. A Península Ibérica sofre um acelerado processo de desertificação e, por essa razão, o futuro das águas comuns vai continuar a ser uma tarefa a que a diplomacia portuguesa terá de permanecer atenta.

4 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Um dia não muito longínquo a água vai por-nos problemas de dependência semelhantes aos do petróleo. Mas parece que nem o Darfour assusta os governantes mundiais...

Anónimo disse...

Uma questão recorrente, de indiscutível pertinência.
O “direito à água” é hoje tão fundamental como o “direito à saúde, educação, habitação, alimentação (right to be fed)”.
Pena que muitos países ainda sejam incapazes de um compromisso nesta matéria, de tão grande relevância.
Chegará o dia. Só espero que não seja tarde e venha a suceder por força de circunstâncias “muito particulares” (um conflito).
Essa da criança na berma da estrada no Uzbequistão pode bem vir a ser uma imagem mais global, um dia. Poderemos evita-lo? Convinha.
Borda D’Água

Anónimo disse...

Por acaso a guerra Israel/Palestina também não passa pela falta de água de Israel? Os Golã reservatorio palestino só está por acaso ocupado e a regarem o milagre agro hebraico.
A Jordania consegue ter 'jogo de cintura' porque a Siria fornece a água que o Jordão praticamente não tem porque está desviado por israel... e tal e tal. Não é Senhor Embaixador?

Anónimo disse...

A garrafa de água

Água a fonte das necessidades
Humanas básicas
Fonte de concórdia

A afogar a sede

Desmesurada de um poder
Que seca

Do lado do meu alpendre vê-se um terreno lindo bem cultivado e cuidado, pelos descendentes do Sr. Romão.

Numa manhã de Verão com um calor abrasador, os Senhores encetavam a tarefa do cultivo das couves galegas e ocorreu-me levar-lhes uma garrafa de água fresca e uns copos, fui brindada com um sorriso de orelha a orelha.

Uns dias após o Sr. João um dos donos veio pedir-me uns sacos que eu dei em quantidade e que me fizeram ficar algo constrangida quando vi que eram para regressar cá a casa cheios de cebolas e tomates, ainda com a recomendação ó minha Senhora vá buscar mais quando quiser...

Acredito que vamos saber dividir a água.
Isabel Seixas